Para Além da Beleza
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Emma e Joanne estavam no grande salão de festas da mansão Beauchamp, apreciavam os últimos retoques para a festa de noivado no sábado seguinte. A decoração luxuosa mais parecia um casamento, pelas incontáveis flores, carpete vermelho e uma pista de dança personalizada. Os empregados andavam de um lado para o outro sem parar, e as Charlton tomavam nota do que estava certo ou errado.
— Foi uma má altura para teres perdido a assistente pessoal, aquela negrinha era bem eficiente — comentou a mais velha, atenta nos vasos de porcelana que eram colocados estrategicamente nas mesas. — Cuidado para não partir!
— A Darcelle se prontificou a terminar os afazeres até amanhã. Não ia-me deixar na mão — respondeu Emma, um quanto impaciente. Tinha passado duas noites seguidas na mansão, e sem ver William. Seu coração apertava.
— E por que ela faria isso? — Joanne uniu o sobrolho muito bem feito, os olhos castanhos pareciam cansados.
— Porque eu sou boa pessoa, irmãzinha. Se tivesse o teu feitio, nem imagino! — Provocou enquanto observava a montagem da mesa principal dos noivos, e as câmaras de filmar montadas por um grupo da maior estação televisiva do país. — Eu disse que ela poderia vir com uma companhia.
Joanne revirou os olhos negando com a cabeça severamente, ainda assim não protestou, eram apenas duas pessoas, em cem convidados. Era suposto ser um número maior mas Damien teria proibido estritamente.
— Veja se não metes os pés pelas mãos, Emma. Eu fiz um sacrifício por você certa vez, e isso me pesa até hoje. — Cobrou diretamente, e viu quando a belíssima irmã mais nova parou de andar para a encarar.
— Estamos juntas nisso, eu já disse, Jo! Eu sei muito bem o que fez por mim, serei grata para sempre. Eu e o Will.
— É bom, mesmo! — rosnou Joanne e caminhou a passos largos até tirar uma caixa de brindes da mão de um carregador que a levava sem cuidado. Só depois de gritar com o homem é que voltou para perto da irmã. — E a menstruação, já veio?
Emma esbugalhou os olhos azuis e sua face ficou igual um tomate.
— Que absurdo, tens controlado meu ciclo? Você não é minha mãe, Joanne.
— Você já me falou que Damien Beauchamp usa proteção, agora quanto ao William eu duvido muito. Não deites tudo a perder, Emma.
— Para por favor! Não nenhuma criança — resmungou e saiu a caminhar para longe da outra, sentia o coração a bater dentro do próprio peito.
***
Os primeiros dois dias na Beauchamp tinham sido um pouco complicados para Darcelle. Todo mundo parecia ter seu próprio ritmo e já saber o que fazer, então a deixavam meio de lado, lhe pedindo para tirar cópias e ir buscar cafés e rosquinhas de vez em quando. Christian Dash tinha sido simpático e lhe instruíra o quanto podia, mas a sua carga de trabalho era superior a qualquer uma, sendo o administrador da empresa e responsável pelos recursos humanos.
Também não conseguira falar com Jamie, esta vivia escondida entre o hospital e o próprio quarto, continuando a subir o transporte público e deixando o belíssimo carro lá em baixo parado. Só não o roubavam pelo sistema avançado do alarme bem visível a qualquer um. Dash realmente era um homem prevenido.
Darcelle assinara o contrato de trabalho com regalias inimagináveis, quem poderia dizer que o Monstro du Camp dava condições tão favoráveis a seus empregadores, era de se esperar a quantidade de sorrisos dos trabalhadores daquela empresa. Jamie de certeza saberia se impor naquele sítio, com toda a inteligência e eficiência, de certeza já estaria a debater algum assunto com um dos colegas.
— Ei, você. — A mulher da receção surgiu na porta da sala destinada à Darcelle. — Me falaram que é a senhora das cópias.
Johnson uniu o sobrolho, ainda não tinham-lhe designado nenhuma função concreta, pelo que se limitara a organizar sua sala, conhecer os departamentos e responsáveis e requisitar material necessário, entre outras coisas básicas.
— O que me espanta é teres subido até aqui para pedir cópias — redarguiu de forma pouco simpática, e encarou a rececionista com a igual cara de poucos amigos. — É o seguinte, eu ajudo o pessoal quando estou lá em baixo ou nos seus departamentos. Nunca ninguém subiu até aqui para pedir cópias e muito menos essa função me foi atribuída.
— Ficar sentada para receber um salário gordo no fim do mês não faz sentido. Eu tenho impressos de visitantes para tirar cópias e mandar para o departamento de segurança, mas também tenho que receber as pessoas na entrada. Não é justo sofrer enquanto tem você aqui apenas sentada.
— Então pode tirar as cópias que eu fico na receção até você acabar. — Johnson tinha pensado numa resposta menos simpática, mas não lhe parecia correto comprar briga tão cedo com os novos colegas. Queria parecer o mais neutra possível.
— Ora, que engraçado. Você tem mais cara de se dar bem com as cópias e...
— Acha que eu ia dar uma sala inteira para alguém cuja função é tirar cópias, senhora Rupert?
As duas mulheres se assustaram com a súbita voz, e encontraram Damien Beauchamp parado no corredor, com um terno de três peças e um ar de poucos amigos. O cabelo loiro parecia estar molhado e bem penteado para trás, e os olhos azuis eram como o fundo de uma praia paradisíaca. Não usava máscara.
— Senhor Beauchamp! — A rececionista estremeceu dos pés a cabeça, tentando segurar o espanto por ver as cicatrizes daquele rosto tão expostas. Baixou os olhos.
— A senhora Johnson é minha Assessora e responsável por toda a parte do trabalho que me compete. É você, quem deve tirar cópias para ela. — Deu meia volta e adentrou na porta mesmo em frente da sala de Darcelle.
O coração da negra falhou uma batida e não esperou Rupert sair da sua frente para seguir o patrão sala a dentro. Bateu a porta e ouviu um surdo "entre". O encontrou sentado na grande e confortável cadeira com o olhar um pouco perdido, as cortinas do escritório ainda estavam corridas mas dava para identificar a grande mesa, um mini balcão com copos e bebidas diferentes. Um enorme quadro que revelava o mundo marinho, dois computadores portáteis de ultima geração, Um grande ecrã curvo pendurado no alto, uma estante com algumas edições raras de livros. O chão era acarpetado e mesmo estando tudo limpo, dava para ver que não era ocupado já há algum tempo.
— Assessora? Eu não tenho formação para isso — declarou Darcelle sem se dar ao trabalho de esconder tal facto.
— Mas és esperta, irás aprender tudo o que tivermos para ensinar. A Beauchamp sempre investe na formação de seus trabalhadores. — Levantou o rosto e coçou as têmporas. Fazia dois dias que não se viam, e Johnson sentia uma alegria para lá do normal agora. — Sempre pregas o dom da tua palavra comigo, agora é a tua vez de arriscar. E eu vou exigir isso de ti.
Ela engoliu em seco, ainda estava de pé com as mãos juntas no colo e um bombardeamento interno pior que Hiroxima. Sentiu as mãos começarem a transpirar.
— Farei o possível para estar a altura. — Afirmou a acenar com a cabeça em concordância. Damien pela primeira vez sorriu para Darcelle, um sorriso sincero e bonito. Se fosse branca, ela teria corado. — Como... foi?
— Três caras assustadas no elevador, uma onda de espanto na administração, sorrisos desconfortáveis e olhares para o chão. — Damien deu de ombros num falso gesto de pouca importância. — Não deve ser fácil olhar para mim.
— É um processo — admitiu com precisão e caminhou até as janelas para abrir as cortinas automáticas, estas deslizaram de par-em-par com lentidão.
— Meu passatempo favorito era a fotografia. — A súbita confissão chamou a atenção da nova assessora de Beauchamp. — Eu adorava a beleza, as coisas bonitas. O meu rosto era... — Não conseguiu completar. — Ganhei concursos de fotografias, viajei para os lugares mais belos, com modelos maravilhosas. — Engoliu em seco. — Agora nem consigo me olhar no espelho.
Darcelle voltou até Damien e se permitiu sentar diante dele. Pousou os braços em cima da secretária e prendeu a respiração antes de a soltar.
— Eu seria mentirosa se dissesse que suas cicatrizes não são horríveis, senhor Beauchamp. Elas realmente são. Mas você... Você é belo quando é frágil, belo quando sorri para mim, belo quando tira a capa dura e deixa o coração falar. Passei dois dias aqui e só vi trabalhadores felizes. — Um momento de compaixão se apoderou do momento, e o Monstro du Camp pareceu segurar um sorriso que insistia em escapar.
— Onde estavas todo este tempo, Johnson?
— Provavelmente amadurecendo o suficiente para poder lhe dizer isso hoje. E sabe de uma coisa? Tem toda razão, eu vou ser uma boa Assessora. — Levantou-se da cadeira cheia de força para iniciar com suas funções. — Vamos a isso, senhor Beauchamp!
— Damien. Eu quero que me chame Damien. Tudo bem, Darcelle?
Era a primeira vez que pronunciava o seu nome e a voz rouca parecia ter sido feita apenas aquilo. Ela cobriu a boca com a mão num gesto lento e impaciente.
— Tudo bem, Damien. Tudo bem.
***
Jamie acabava de participar de uma pequena cirurgia de remoção de uma apendicite quando, Lorenzo apareceu no Hospital Central. Parecia cansado pelas altas horas da noite, e um pouco bêbado também. Ela ia dar meia volta quando o jornalista correu para lhe segurar pelo braço. Parecia nervoso.
— Por favor, só quero conversar. — Pediu, ainda a segurar o braço da namorada. Para ela, nunca aquelas mãos que tanto gostava lhe pareceram tão frias.
— Está certo. Vou só me trocar — concordou e saiu para a área privada.
Alguns minutos depois foram a um café logo em frente ao hospital, havia muitos colegas da Johnson e procuraram encontrar um canto mais discreto.
— Podes não querer me ver nunca mais, eu aceito. Tenho sido injusto com você, Jamie. Mas meu sentimento é verdadeiro. Eu juro. — Procurou as mãos da namorada para as segurar.
— Quem gosta não sente vergonha. E nem digas que não tens, eu sei que sim. Não conheço teus amigos, tua família pensa que és solteiro, bem agora és. Isso de namoro a dois pode ser correto até certo ponto, mas passam dois anos Chris.
— Chris?
O rosto dela se contorceu num espanto, e o coração falhou uma batida no processo. Bebeu um gole da cerveja e tirou a mão da dele.
— Lorenzo, eu não vou voltar se for para ser nas mesmas condições. Não vou mesmo!
— Pera, você me chamou Chris? Na verdade ainda não me disse o que fazias na Beauchamp naquela tarde.
— O Christian me deu boleia na noite em que me deixaste na chuva no meio do restaurante. Para mim foi o cúmulo. — Jamie tentou contornar a situação. — Só fui lá agradecer.
— Ah, se está falando do Christian Dash eu acredito. Era impossível ter-me traído com ele.
— Mas eu traí.
A revelação chocou Lorenzo por alguns instantes antes de se recompor e rir da piada.
— Com o Dash? Não.
— Por quê?
— Sem querer ofender, já viu o tipo de mulheres que andam com o Christian? Você não o conhece direito, só está inventado. Modelos perfeitas, atrizes, socialites. — O jornalista riu com gosto e bebeu a sua cerveja. — Boa tentativa para me fazer ciúmes.
A médica sentiu sua garganta a arder e segurou os nervos que cresciam por dentro.
— Se eu sou tão sem graça assim, o que estás aqui a fazer? — Arqueou o sobrolho.
— És linda, inteligente... com um pouco menos de gordurinha aqui e ali, serias perfeita. Eu quero ficar do seu lado, Jamie. Sempre tive um sentimento muito grande mas não sou capaz de assumir algo, pelo menos não agora. — Os caracóis caiam para a testa de Lorenzo, os olhos beiravam a sinceridade. — Estava tudo bem como era antes.
— Eu... sou perfeita. E se isso é o que tens para me oferecer, dispenso.
Johnson se levantou do café e saiu sem olhar para trás, decidida a nunca mais querer ouvir falar de Lorenzo Wright.
Quando chegou a casa viu o carro parado ali em baixo, nunca tinha tocado nele. Procurou as chaves dentro da bolsa e sorriu ao se aconchegar no veículo importado. Era como se um poder começasse a crescer dentro de si.
O primeiro lugar para onde dirigiu foi até ao apartamento de Christian Dash. Tocou a campainha ainda envergonhada, sem saber o que estava a fazer.
— Oi? — Uma jovem pelo menos sete centímetros mais alta, com longos cabelos escuros e sedosos, abriu a porta. Usava um vestido curto de marca que lhe marcava o corpo magro e esbelto. — Quer falar com o Chris?
— Não, eu... eu acho que me enganei.
— Chris! Está aqui uma pessoa deve ser do condomínio... — A jovem virou para o chamar lá dentro, sua voz era estridente. — Não demora senão atrasamos para o jantar. Vai lá atender.
Jamie correu para o elevador, a vergonha cobria todo o corpo e pisou no botão de elevador com tanta força como se ele fosse subir mais rápido.
— Jamie? — Christian a chamou assim que saiu do apartamento.
Os dois se olharam.
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