Notas iniciais
Bem vindos a minha história, esse capítulo é a explicação do porque da relação do Enzo com Marina ser desse jeito, espero alguns comentários para poder continuar. xoxo

Eram onze horas, ela devia estar na cama dormindo, no outro dia teria aula, mas não, lá estava ela no meio da rua, porque cismou de comprar algo pra comer, mesmo que seu armário estivesse cheio. Avistou um garoto pouco mais alto que ela deitado na areia da praia, pensou por um segundo se devia ir lá vê-lo, mas e se estivesse morto? Forçou um pouco a vista e o reconheceu, era Enzo, da sua sala. Nunca foram amigos, mas já havia trocado algumas palavras e pelo menos ela acreditava, que alguns olhares a mais também. Correu em direção a ele e notou que ele roncava, respirou aliviada.

– Enzo. – ela o sacudiu com o pé.
– Hã? O que? – ele acordou olhando de um lado pro outro – Marina o que você faz aqui?
– O que você faz aqui essa hora da noite, dormindo na praia? Vai pra casa.
– Não vou pra casa, não posso. – sua fala era embolada, ela não teve dúvidas de que ele estava bêbado.
– E vai ficar aqui? Amanhã temos aula.
– Eu não quero olhar na cara do meu pai, ele não presta Marina. – por incrível que pareça ele tirou uma lata de cerveja de dentro do bolso.
– Onde você conseguiu isso? Você é menor de idade, não pode ficar bebendo.
– Se meu pai pode trair a minha mãe eu posso beber, ele não pode brigar comigo.
– Que? – ela perguntou e ele tentou se levantar, enquanto dava um gole na cerveja que ele havia conseguido abrir.
– Meu pai tem outro filho. – ele colocou o pulso em um dos olhos, baixou a cabeça e começou a chorar. – Que só é mais novo do que eu três anos. Tem noção de quanto tempo ele esconde isso da minha mãe e de mim?
– E como você descobriu isso?
– A mãe do outro filho dele, ligou lá pra casa, porque meu pai ainda não tinha dado a pensão, não quero nem pensar se minha mãe tivesse atendido.
– Enzo, você precisa ir pra casa.
– Eu não quero vê-lo.
– Não precisa, a gente divide esse lanche, pra ver se ajuda passar um pouco do efeito, aí você vai pra casa, fala que está muito cansado e vai direto pro quarto. Se bem que pela hora eles devem estar dormindo... Ou não, devem estar preocupados com você.

Na verdade Marina não sabia muito que fazer, era a primeira vez que ela precisava lidar com um adolescente de quinze anos bêbado. E toda aquela história havia mexido com sua cabeça, pois sabia que ele só havia contado porque estava bêbado. Ela o pegou pela mão e o guiou até o banco na calçada. Pegou o celular e enviou uma mensagem para a mãe: “Já vou pra casa, prometo. Estou resolvendo um probleminha aqui, em casa te conto.”, mas é claro que ela não contaria tudo. Ela abriu a embalagem do hambúrguer e o cortou no meio com uma faca, ela era a única pessoa dali que comia hambúrguer com garfo e faca porque se não fosse assim se sujaria toda.

– Garfo e faca? – ele perguntou.
– Sim, porque se não eu me sujo toda.
– Você é doida. – ele riu fazendo-a rir de volta – Hum, isso aqui está bom. – falou assim que deu uma mordida.
– É mesmo. – concordou em sua primeira garfada.
– Não sei se quero contar a minha mãe, ela não merece isso.
– Você precisa ouvir a versão do seu pai também Enzo.
– Não sei se quero, mas de qualquer maneira ele vai tentar se explicar quando eu passar o recado pra ele. – seus olhos se encheram d’água – Pelo menos ele paga pensão, mesmo que a dessa vez esteja atrasada. – ele parou e ficou olhando um pouco para o nada – Sabe que eu fiquei com vontade de conhecer o meu meio-irmão.
– Isso é ótimo.
– É, mas isso também significaria que minha mãe sabe de toda a verdade.

Quando terminaram o hambúrguer Enzo já conseguia andar sem se apoiar, mas não estava completamente sóbrio. Ela chegou em casa primeiro e ele seguiu o caminho sozinho. Marina ficou torcendo para que não acontecesse nada, era próximo, umas duas quadras dali, mas ela se preocupou.

– Onde estava? – Carmem, sua mãe estava sentada na sala.
– Na praia. – suspirou – Resolvi ir pela praia, porque eu acho mais rápido, me distraio com a paisagem, eu não sabia que lá ia demorar tanto, mas estava bem cheio.
– E qual era o probleminha que você estava resolvendo?
– Encontrei um amigo, meio bêbado. Dividi meu lanche com ele, ai ele foi melhorando e agora está a caminho de casa.
– Que perigo gente.
– Pois é, agora eu vou dormir que amanhã eu tenho aula. Boa noite, amo você.
– Também amo você.

Ela foi para o quarto, trocou de roupa e se jogou na cama, ficou pensando se Enzo lembraria no dia seguinte que havia dividido um segredo com ela. Quando ele chorou, ela sentiu uma vontade de abraçá-lo. Respirou fundo e pegou no sono. No outro dia acordou meio sonolenta, tomou o café da manhã e foi para a escola, assim que chegou ao portão viu Enzo entrando pelo colégio, com olheiras gigantes, mas ainda sim, muito bonito.

– Enzo! – ela chamou e ele continuou andando – Enzo! – ela foi atrás dele e tocou suas costas, ele virou para ela com uma cara muito séria – Como você está? Eu fiquei preocupada deixando você indo pra casa ontem naquele estado e...
– Marina olha só, nós não somos amigos, não aja como se você se preocupasse de verdade comigo. Eu não quero que você abra a boca sobre esse assunto com ninguém ok? Não é porque agora você sabe algo sobre mim que seremos amigos ou qualquer coisa do tipo, então me deixa em paz.

Enzo então saiu andando como se nada tivesse acontecido, só podia esperar que ela realmente não contasse para ninguém. Depois desse dia os dois nem se falavam mais, na verdade ganharam uma raiva um do outro, não suportavam ficar perto, a ponto de bufar ao notar que estavam próximos, os amigos não entendiam, mas debochavam da situação, o que aumentava a raiva mais ainda.