Paraíso imperfeito
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Quinta passou voando, na sexta sua mãe chegou em casa com uma feição desanimada.
– O que houve?
– Sua tia não está muito bem, ela me pediu para ficar lá no fim de semana, então eu e seus pais vamos ajudá-la com seus primos.
– O que ela tem?
– Ainda não sabemos, mas ela está um pouco caidinha. Aproveito para matar as saudades. Você quer ir?
– Ah mãe, faz tanto tempo que o pessoal não se junta.
– Tudo bem filha.
– Não fica chateada?
– Claro que não. Só se você não me ajudar a fazer o jantar hoje.
– Ok. – Marina sorriu e abraçou a mãe
As duas fizeram o jantar juntas enquanto conversavam, sua mãe era psicóloga, um amor de pessoa. Logo em seguida o pai de Marina chegou e a família jantou unida como de costume.
– Vamos assistir a um filme? – Fernando sugeriu.
–Eu vou subir pra escolher a roupa logo para amanhã, mas se eu acabar e ainda estiver passando o filme juro que desço pra ficar com vocês.
– Está bem – o pai disse – Quando foi que ela começou a trocar nossos programas de família para ter seus próprios programas? Acho que estou ficando velho.
Ela riu do comentário do pai, deu um beijo em sua bochecha, e subiu. Ligou o Skype e viu Diana online e começou uma chamada de vídeo.
– Me ajuda a escolher uma roupa pra amanhã? – Diana pediu.
– Eu ia te pedir a mesma coisa! Tem alguma coisa em mente?
– Pra mim ou pra você?
– Hum, pras duas na verdade. – admitiu rindo.
– Vamos escolher a minha primeiro porque quero tempo especial para você.
– Como assim?
– Você tem alguém pra dar mole, eu não.
– Que? – Marina berrou na frente do computador.
– Para de drama e vamos logo bobinha.
– Sem exageros, é só sentar em volta da fogueira, tocar violão, paquerar...
– Não acredito que usou a palavra paquerar, fala sério.
As duas riram e começaram a escolher as roupas, era um programa simples, mas ainda sim, para as duas amigas, escolher roupa sempre era uma tarefa especial. Diana optou por um short jeans com uma blusa azul soltinha, ressaltava a cor de seus olhos, já Marina ficou com um short jeans de cós alto e um cropped branco de babado.
– Tem certeza que não fica muito exagerado? – Marina perguntou.
– Claro que não, eu adoro quando você usa cores claras, fica tão bonito com a sua pele. – suspirou – Também, você é morena, pega sol e fica dourada, eu só pego uma corzinha, se demorar muito fico super vermelha.
– Mas fica fofinha. – Marina brincou rindo.
– Chata! Falando nisso, vamos à praia pela manhã?
– Vamos, mas não tão cedo.
– Nem tão tarde senhora “sábados são feitos para serem dormidos até tarde”.
– Ok, você me acorda?
– Com toda certeza.
– Agora vou sair pra terminar de assistir um filme com meus pais.
– Ok, até amanhã. Beijo. – ela mandou beijo pela câmera.
– Beijo.
Marina desceu e se juntou aos pais e assistiu o resto da metade do filme. No outro dia sentiu vontade de chorar quando a amiga foi acordá-la, parecia que seu corpo entendia perfeitamente que era sábado e que devia ficar mais um pouco na cama.
– Por favor, vamos logo.
– Cinco minutos, é só o que eu peço.
– Vamos fazer um acordo, vamos à praia, você leva seus óculos escuros, a gente deita na canga e você dorme lá, só não pode roncar porque aí todos vão saber.
– Eu não ronco!
– Ótimo, agora vamos.
Diana saia da casa com um lindo sorriso no rosto, combinando com o sol, enquanto Marina parecia estar indo para o seu pior pesadelo. Chegando lá, forram suas cangas e se deitaram, mas Marina já parecia estar mais animada.
Enzo deixou o dinheiro no balcão e terminou a latinha de refrigerante, bateu no ombro do amigo que estava sentado, largado olhando para o mar.
– Olha quem está ali?
– Quem? – perguntou.
– Sua melhor amiga.
– Muito engraçado Renan. – disse enquanto andavam na areia.
– Podíamos passar lá para da um oi.
– Ou podemos ficar aqui e evitar conflitos.
– Será que elas vão na fogueira a noite?
– Porque você não vai e pergunta? Afinal de contas, ela é sua parceira de trabalho.
– Você notou que eu disse “elas” e você está falando especificamente da Marina?
– Foi sem querer.
– Ah, sei.
– Porque você está tão cismado com ela ultimamente?
– Eu? Nada disso.
– Estou falando sério.
– Enzo, vocês brigam desde o primeiro ano e eu não faço a menor idéia do porque, mas eu me lembro bem que antes disso você a achava bem gata e até queria chegar nela, mas ficava meio sem graça. A gente se forma esse ano cara, agora é a hora, esse ódio todo – ele deu um soco de leve no ombro do amigo – É vontade de ficar com ela que está reprimido aí dentro.
– Suas teorias sem noção alegram meu dia, continue pensando nelas enquanto eu vou dar um mergulho.
Ele se levantou e foi mergulhar, lembrou que antes de tudo existia sim um clima entre eles, mas havia passado, o que ele odiava era aquela situação, se sentia exposto na presença dela, o que ela sabia podia mudar tudo na vida dele, sua família acabaria sua mãe ficaria infeliz e ele a atacava como defesa. Se não fosse isso, ele adoraria uma chance de conhecê-la melhor, afinal, ele olhou para ela deitada na canga, “ela é linda”, pensou. Enzo foi almoçar na casa do amigo, ele tinha um irmão mais velho, João Victor, que fazia parte da banda, não era o vocalista e nem o que ia tocar violão na fogueira, mas quando se apresentavam em festas, ele tocava bateria.
– Ei, vocês acham feio demais se eu pegar uma garota que tem a idade de vocês? – João Victor perguntou.
– Nossa você fala como se fosse muito mais velho. – Renan debochou.
– Ela deve fazer dezoito esse ano e eu tenho vinte e um. Já estou de olho nela faz um tempinho, vejo passando e tal.
– Quem é essa garota? – Enzo perguntou.
– Por quê? Corre o risco de eu me interessar pela sua garota? – João Victor provocou.
– Claro que não.
– Talvez. – Renan respondeu junto.
– Como assim, me conta. – João Victor sentou-se na mesa com eles.
– Sabe aquela menina que eu comentei que ele diz que odeia e vice e versa? Tenho certeza que até o fim do ano rola algo.
– Uau, ela tem nome?
– Marina! – Renan respondeu.
– Sinto muito amigão. – João Victor levantou pegou uma maçã, deu eu tapa de leve no ombro de Enzo – Mas é nela que eu estou de olho, enquanto você fica nesse estágio de negação, eu vou partir pra cima, como eu sempre faço – ele piscou, deu uma mordida e saiu andando.
– Eita! – Renan arregalou os olhos.
– Eita o que? Eu não tenho nada com ela. – Enzo bufou.
– Então vamos esquecer isso e jogar vídeo game.
Passaram-se alguns minutos desde que a partida havia começado, mas Enzo permanecia quieto, não havia tirado aquele diálogo da cabeça, não gostou do tom de João Victor.
– Como assim ele vai partir pra cima como sempre faz? – finalmente falou.
– Que? – Renan olhou sem entender nada.
– Seu irmão disse que vai partir pra cima como ele sempre faz.
– E aí?
– E aí que ela não é qualquer garota pra ele agir como age com as outras.
– Ah que lindo, você está com ciúmes eu sabia. – ele se levantou – Eu já sabia – andou até a varanda e gritou – Eu sabia!
– Se continuar com a palhaçada eu vou embora!
– Relaxa aí.
– Renan eu te conheço há anos e eu sei a quantidade de garotas que eu vi vindo atrás do seu irmão aqui, quantas ele já colocou no viva-voz na nossa presença e ficou segurando o riso enquanto ela chorava.
– Ué, ela não é diferente? De repente ela o muda sei lá.
Enzo voltou a ficar quieto, era melhor não insistir no assunto, caso contrário o amigo acharia que ele estava apaixonado pela Marina, coisa que não estava, a única coisa que o amigo não sabia era que pelo histórico de sua família, a última coisa que ele gostaria de ver era uma mulher magoada.
A barriga de Marina roncou tão alto que Diana não conseguiu conter a risada, acabou ficando com pena da amiga.
– Tudo bem, você venceu, vamos almoçar.
Elas foram até o Quiosque, que existia desde que elas eram crianças, conheciam o casal que era dono de lá e adoravam o tempero da comida. Depois de almoço, Diana recebeu uma mensagem de Roberta, ela queria ver as meninas.
– Como estão? – ela perguntou enquanto terminava a mamadeira da Helena.
– Eu estou ansiosa pra ir pro Luau – Diana disse empolgada – Faz tanto tempo que o pessoal não se junta, não estou nem pensando em garoto nem nada, juro, é mais pelo clima.
– Saudades desse tempo.
– Mas você ainda pode ir. – Marina falou.
– Até eu ter que voltar pra casa porque a Helena está com sono ou sujou a fralda. – entregou a fralda para Helena que estava sentada no tapete, agarrada com uma boneca.
– Roberta, o luau é a noite. Se você deixar ela alimentada, de banho tomado, e garanto que sua mãe não vai se incomodar de colocá-la pra dormir. Ela é tão boazinha.
– Eu sei Marina, só que eu já fui julgada demais por engravidar nova. Não preciso de ninguém falando que agora eu deixo minha filha com a avó pra me divertir.
– Roberta – Diana pegou suas mãos – Você nunca mais saiu sozinha desde que a Helena nasceu, uma vez que isso acontecer, ninguém vai te julgar. Você está segurando as pontas, quem disse que você não seria capaz de lidar com essa situação com certeza está mordendo a língua.
– Isso é. – ela finalmente sorriu.
– Aposto que sua mãe não ia se incomodar.
– Na verdade, até iria adorar. – Diana complementou.
– Ah e se você precisar de mais momentos com o seu maridinho – Marina deu uma piscadela – E sua mãe não puder, estaremos aqui. Madrinhas servem para isso!
– Obrigada meninas, eu vou mandar uma mensagem para a minha mãe porque agora ela está toda moderninha. – disse ela digitando – Acho que vou chamar o Marcelo, ele vai adorar a idéia e rever os amigos. – suspirou muito feliz – Mas e você Marina? Alguma expectativa para esse luau?
–Não.
– Até parece – Diana se meteu – Vai super gata e não está pensando em nada?
– Ela está escondendo o jogo – Roberta piscou para Diana.
– Gente não estou, eu realmente só quero curtir o clima, dançar um pouco, rir, cantar junto com o pessoal.
– Nenhum garoto em mente? – Roberta perguntou.
– Óbvio que não, porque vocês insistem que eu encontre alguém?
– Porque você mesmo andou reclamando esses dias. Quando foi a última vez que ficou com alguém? No meio do ano passado naquela festa! – Diana revirou os olhos.
– Prefiro nem contar aquela vez. – ela riu, tinha sido um desastre.
– Enfim – Roberta suspirou – Você ao menos está interessada em alguém?
– Hm – Marina pensou por alguns segundos – Não.
– Então porque essa demora toda?
–É difícil demais admitir que esta afim do Enzo? – Diana perguntou encarando a amiga.
– Eu nunca fui afim dele, porque isso agora? – Marina revirou os olhos.
– Às vezes quando as brigas já não fazem mais sentido, você começa a enxergar a pessoa com outros olhos. Ano que vem vocês não vão mais se ver, porque se formam esse ano.
– Isso não significa que eu tenha interesse. Ele é bonito? É, mas também é um estúpido, o que anula toda a... Beleza dele.
– Fora as brigas chatas de vocês, ele é bem legal. A estupidez é só com você. – Diana foi sincera – Penando bem, acho que fariam um belo casal.
– Não tem como eu me apaixonar por um cara assim.
– Credo. – Roberta arregalou os olhos.
– Meninas, eu vou pra casa, encontro vocês no luau. – ela se despediu e foi pra casa.
Marina enrolou um pouco antes de começar a se arrumar, Enzo foi um dos primeiros a chegar e aproveitou para ajudar a carregar algumas coisas. Fogueira armada, pessoas sentadas em volta, outras pessoas comendo e bebendo, o som do violão tocando, estava tudo incrível.
– Alguém viu a Marina por aí? – João Victor perguntou indo para perto de Enzo e Renan.
– Não, na verdade acho que ela nem chegou ainda.
– Vai partir pra cima? – Enzo perguntou sem conseguir disfarçar a ironia nem um pouco.
– Vou, quer partir pra cima também?
– Não obrigado.
– Vamos deixar ela escolher. – Renan colocou pilha.
– Vocês são tão idiotas – Enzo revirou os olhos – Vou buscar mais refrigerante.
Na casa de Marina estava demorando porque havia relutado em passar um batom, só tinha passado rímel e iluminador, o que pra ela era muito mais do que suficiente.
– Você está linda! – Diana foi sincera – Se anima! Roberta me enviou uma mensagem dizendo que está lá e... – deu uma gargalhada.
– Que foi?
– Ela mandou: “Venham logo, acabei de chegar. Está super animado. Ah, fala pra Mari vir bem linda que o Enzo já está aqui também.”
– Me recuso a comentar sobre isso.

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