Paraíso Proibido
9 Capítulo 9. "Anotações" - II
Notas iniciais
[...]
Todos aqueles pensamentos todos me deixaram bagunçada. Há alguns dias, eu jamais pensaria todas essas coisas. Ísis estava me dando motivos para desconfianças, para querer correr atrás dessas respostas. Talvez essa minha ideia fosse realmente boa, apesar de maluquice, talvez assim eu pudesse tirar alguma conclusão de toda aquela situação. Não? Era o que eu sinceramente esperava.
Estava tão absorta em meus pensamentos que não escutei quando a cafeteira terminou de passar o café, e nem escutei Ísis chegar. Ela se aproximou sorrateiramente e, antes que eu pudesse voltar à órbita, seu rosto apareceu em meu campo de visão e seus lábios tocaram os meus ligeiramente. Eu me assustei e me inclinei para trás.
– Roubei — ela disse com um sorriso lindo. Eu anotei aquilo no meu bloquinho de notas mental, que fazia parte da minha ideia.
– Você agora é ladra de beijos de donzelas distraídas, então? — fui sarcástica, cruzando os braços, mas sorrindo para não demonstrar minha surpresa por ela ter feito aquilo.
– Ah, não exatamente. É que você é irresistível — piscou para mim. Anotei isso também.
– Sou irresistível, sei!
– E você não tomou seu café ainda, não é? Sua teimosa.
– O café ficou pronto agorinha — disse, mas não tinha plena certeza; a cafeteira poderia ter parado há alguns minutos já e eu poderia nem ter notado.
– O cheiro está ótimo. Eu adoro cheiro de café fresquinho — ela comentava distraída, sentindo o aroma no ar.
– Gosta de geleia de morango?
– Com torradas ou bolachas? — ela me olhou com os olhos estreitos, um indício de sorriso brincava em seus lábios.
– Torradas... — respondi meio incerta.
– Adoro! Manda pra cá — ela falou animada e deu um tapinha na barriga.
Ri de leve e balancei a cabeça.
– A senhora que manda — peguei as torradas no armário e a geleia na geladeira, colocando em cima da mesa.
Peguei também um leite fechado no armário — ela gostava dele na temperatura ambiente, para ficar morno quando adicionasse o café. Coloquei duas xícaras sobre a mesa que ficava encostada na meia-parede que dividia a sala e a cozinha do meu apartamento, enquanto ela se sentava.
– Leite na temperatura ambiente? — ela me olhou em dúvida.
– Sim. Como você gosta — respondi. Mas então fiquei meio incerta... — Não é?
– As vezes acho que você me conhece bem demais — disse desconfiada.
Me permiti um sorriso. Ela devia me achar louca. Mas quem se importa? Eu amava aquela garota, sabia bastante coisa de seus gostos, tanto quanto para comida ou qualquer outra coisa, mas é claro que ela nunca soube disso. Não até agora, pelo menos. E eu sabia mais: ela só usava adoçante. Açúcar só aquele em cubos, raramente, mas eu não gostava muito e por isso não comprava, preferia o adoçante mais por costume. E naquele momento, me veio uma ideia bem louca à cabeça. Não sei de onde tirei aquilo, realmente não era do meu feitio, mas eu simplesmente fiz. Aquilo fazia parte do meu plano inicial, eu precisava extrair muitas informações ainda, mas para isso eu ia ter que apelar. O adoçante ficava no armarinho em baixo da bancada onde eu tinha a cafeteira, então eu me inclinei, quase que me insinuando, e talvez aquele shortinho minúsculo do meu conjunto estivesse ajudando bastante. Eu só não esperava realmente que fosse conseguir aquele resultado.
Quando me inclinei e abri a portinha, escutei algo cair atrás de mim e quando me virei, fingindo estar alheia, vi Ísis toda atrapalhada com a xícara que eu havia lhe dado, o que eu não sabia exatamente era que ela havia deixado-a cair de sua mão enquanto me encarava naquela posição nada insinuante. Mas logo suspeitei, pois os olhos dela me despiam até a alma, e ela engoliu em seco, parecia respirar com dificuldade. Por dentro eu tinha um sorriso vitorioso, já por fora eu a olhava fingindo não entender a cena que via, e estava um pouco quente — nunca imaginei que poderia fazer algo assim, na frente dela ainda! Mas, com o resultado, valeu a pena o risco.
– Está tudo bem, Izie? — uni as sobrancelhas fingindo desentendimento.
– Ótimo — ela disse numa voz meio baixa, mais rouca. Seus olhos não saíam de mim, me medindo de cima à baixo e de baixo à cima. Mas então ela limpou a garganta e desviou o olhar. — Eu... A xícara escorregou... da minha mão... Desculpa.
– Mas não te machucou, não é? — Ai, como eu era inocente! Ou não.
– Machucou não — respondeu negando com a cabeça.
– Ah, ta. Menos mal. Então, sem problemas, Is. Vou só pegar o adoçante aqui e... — eu já me virava enquanto falava, mas Izie pulou da cadeira:
– Não! Não... — deu um risinho sem graça e colocou as mãos nos meus ombros, me empurrando até a outra cadeira e me fazendo sentar. Eu a encarava com um sorriso divertido, mas por dentro eu dava risada daquela cena. — Er... Fica sentadinha aí Fê, está bem? Você... Você está fraca! É, muito fraca, então... Eu pego o adoçante, deixa comigo — ela abriu a portinha e pegou o frasco, fechando o armário. Colocando o adoçante sobre a mesa, ela finalizou com um sorrisinho: — Viu? Prontinho. Agora, vamos comer!
– Mas, Izie, tem o café e... — eu já ia me levantar para pegar o copo da cafeteira e colocar sobre a mesa, mas ela me impediu outra vez:
– Não e não, não mesmo. Eu pego. — E pegou realmente, colocando-o sobre a mesa. Tudo isso para não ter que me olhar de novo com aquele shorts?! Caramba... Eu tinha anotado tudo aquilo no meu bloquinho de notas mental. Obrigada.
– Ok então! — disse derrotada. Fingindo estar derrotada, na verdade. — Quanta gentileza da sua parte — brinquei.
– Eu tenho essa tendência a ser muito prestativa, sabe como é — deu de ombros fingindo indiferença, mas logo em seguida sorriu.
– Que bom, não é? Vou me lembrar disso quando eu estiver com muita preguiça, quero só ver se é tão prestativa assim quando eu pedir a sua ajuda — disse divertida.
– Eu te ajudo no que você quiser, bonitinha — ela piscou, dando um sorriso cheio de segundas intenções explícitas.
Alto lá! Esse não era um jogo para nós duas jogarmos ao mesmo tempo. Se ela ficasse dando aqueles sorrisos e me secando daquele jeito por muito mais tempo, eu ia mandar todo meu plano maluco pro espaço e ia agarrá-la e que se danasse as consequências, elas poderiam até ser boas, quem sabe? Eu devia estar ficando maluquinha da caixola pra dizer/pensar umas coisas dessas, francamente!
Decidi que não ia pensar mais nisso, por enquanto. Então, nós comemos. Ísis elogiou meu café e novamente fez notar o fato de eu saber que ela gostava do leite na temperatura ambiente quando o café estava fresco, mas eu só me gabei em um tom divertido, dizendo que eu a conhecia melhor que ela mesma. Entre bobeiras e brincadeiras bestas, nós tomamos nosso café da manhã. Não podia negar que me sentia muito bem por tê-la ali, poderia facilmente me acostumar à isso. Depois que terminamos, eu avisei que tinha marcado com a Claire na sorveteria e tinha que estar lá em uma hora e vinte minutos.
– Eu até te convidaria, Is, mas a Claire vai ficar falando e falando, nossa, você não ia querer isso — dei uma desculpa qualquer, bem esfarrapada. Óbvio que eu não podia levá-la porque ela seria o assunto daquela conversa, tinha certeza.
– Fica tranquila, amorzinho. Com certeza vocês têm muito o que conversar — ela fez uma cara que me levou à crer que ela sabia de algo. Aquela possibilidade fez as borboletas geladas em meu estomago se remexerem.
– Como assim? — estreitei os olhos em desconfiança.
– Er, bem... — fez uma carinha de culpa, encolhendo os ombros. — Digamos que... Que eu compliquei um pouco as coisas pra você...
– De novo: como assim? — tornei a perguntar. Não estava gostando nada disso!
– É que... Ontem, durante o dia antes do jantar, eu falei com a Claire. Eu não estava te encontrando em lugar nenhum da faculdade, estava com medo de que você fosse furar comigo, aí eu fui perguntar de você à ela e, er... Eu disse que você ia ser a minha namorada nesse jantar — encolheu os ombros novamente.
Fui ao céu e voltei. Ela tinha feito o que?! Estava mortificada, estacada no chão, o corpo gelado.
– Não... Não, não... Ísis, por que você vez isso?! Meu Deus, minhas orelhinhas vão cair hoje, certeza, tô ferrada! — já entrava em despero. Onde ela estava com a cabeça quando falou aquilo logo para a Claire?! Era meu fim.
Ísis riu.
– Ei, se acalme, Fê. Por que todo esse pânico? Eu tenho noção de que a Claire vai te zoar, já posso até ouvir a voz dela, mas também não é pra tanto, não é como se ela fosse te matar por isso.
Era quase isso. Ela não tinha noção nenhuma mesmo.
– Você não conhece a Claire como eu conheço, sério Izie, ela vai ficar o resto da vida falando no meu ouvido — me aborreci. Se eu tivesse descoberto isso antes, teria evitado aquela conversa com Claire até não poder mais!
– Ah, desculpa, Fêzinha, não quis te complicar. Só não ligue para o que ela disser, afinal, não aconteceu nada de mais nesse jantar, não é? Quer dizer... — No mesmo instante eu lembrei daquele quase beijo no jardim e meu corpo esquentou. Ela pareceu se lembrar também, pois mordeu o lábio inferior e desviou o olhar por um momento. — Enfim, não aconteceu, é. E não diga a Claire que te contei isso! Ela não queria que você soubesse que tivemos essa conversa.
– Aquela tratante. Enfim — repeti, sentindo meu rosto quente ao lembrar dos acontecimentos. Que constrangimento! — Agora já não tem mais jeito, ela vai vir e vai me torturar. Mas eu vou superar, não se preocupe.
Ísis sorriu. Ela era tão linda que eu nem conseguia ficar brava com ela, saco!
– Então eu vou trocar de roupa e vou indo nessa, Fê, vou deixar você tranquila aí para se preparar psicologicamente para encontrar a Claire — fez uma carinha travessa.
Rolei os olhos, mas sorri.
– Está bem. Vou precisar de muito preparo psicológico mesmo! Vai lá se arrumar, eu vou guardar as coisas aqui — me virei para a mesa, para começar a guardar as coisas que tinham ficado sobre ela.
Cedo demais. Senti Ísis colar seu corpo ao meu, por trás, enquanto seu braço direito segurava minha cintura, e sua mão esquerda ia para o meu cabelo, onde ela o afastou e senti seu nariz roçar minha pele, e em seguida ela deu uma mordida de leve no meu pescoço. Socorro! Mil vezes socorro! Meu corpo inteiro estremeceu e arrepiou, se o braço dela não estivesse me dando apoio eu facilmente teria desfalecido no chão, pois minhas pernas amoleceram. Mas que saco, Ísis! Por que agora ela ficava fazendo essas coisas comigo? Caramba.
– Por que você não vem me ajudar com as roupas, hein? — ela sussurrou em meu ouvido, com um sorriso na voz. Sua mão que estava em meu cabelo arranhava minha nuca, e eu comecei a ofegar porque não conseguia mais respirar direito.
– N-não, Ísis! — eu fiz uma força sobre-humana para consegui afastá-la de mim. Tive que me apoiar na mesa se não ia desabar. Meu Deus, corpo, se controle!
Ísis sorria travessa, mordendo o lábio inferior. Aquilo era tentação demais para mim!
– V-vai logo, vai se trocar, Izie — estalei a língua, aborrecida. Eu ficava aborrecida porque tinha medo de corresponder àquelas brincadeiras dela, a intensidade do que eu sentia era muito mais forte e eu faria alguma loucura fácil. Ou pelo menos me sentia capaz de fazer uma.
Ela deu os ombros.
– Ok. Se você não me ajuda, então eu faço sozinha, fazer o que? — E, descaradamente, ela tirou a blusa na minha frente.
Eu quase rosnei de aborrecimento. Deus, me segure! Trinquei os dentes com força, mas não desviei meu olhar de seu corpo. Se era para ser descarada, então vamos ser.
– Está apreciando a vista? — ela falou, me fazendo lembrar de quando eu havia perguntado isso à ela.
Não consegui evitar o sorriso, mas do jeito que eu a encarava ali, aquele sorriso deve ter saído pura safadeza. Nem me importei!
– Estou adorando — retruquei, a voz meio baixa. Ela soltou uma risada gostosa. Não era só a risada que estava gostosa ali, acreditem.– Mas ainda acho que tem muita roupa aí — não consegui segurar.
Ela arqueou uma sobrancelha, algo que deixava ela extremamente sexy e quase me matava.
– Isso só você pode resolver. Pode começar me ajudando a tirar esse shorts — ela rebateu com um sorriso no canto dos lábios. — Você tira o meu, eu tiro o seu... Vamos?
Funguei um sorriso e sacudi a cabeça. Dei um passo em sua direção, estreitando a distancia entre nós, e segurei seu queixo.
Aquilo não estava indo para um caminho muito puro, e eu nem sabia de onde estava tirando coragem para retrucar à altura, geralmente eu ficava corada e me esquivava. Mas algo estava acontecendo naquele momento.
– Aí a gente termina isso lá na minha cama? — perguntei, umedecendo os lábios. Num gesto automático, ela passou a língua nos lábios também. Na minha mente já se passavam mil loucuras, nossa... O que estava acontecendo comigo?!
– Nós podemos ir agora, já começamos por lá — ela retrucou, os olhos cravados em meus lábios.
– Melhor ainda — respondi com um sorriso.
– Fernanda, Fernanda... — ela disse meu nome em um tom de aviso, não pude deixar de notar sua voz ligeiramente mais rouca. Era como se ela dissesse: "Não comece..."
Era melhor eu nem começar mesmo! Eu me afastei, rindo de leve. O pensamento que me fez afastar, na verdade, foi de que eu ainda tinha que encontrar Claire. Ela esgotaria todas as minhas forças atirando milhares de pergunta contra mim, já estava até vendo! E eu estava com muito medo de acabar entregando alguma coisa que não devia, de deixar transparecer que tinha acontecido muito mais coisa naquele jantar do que deveria. Eu comecei a empurrar Ísis para o corredor.
– Vai se arrumar logo, vai!
– Você me paga por isso, ok? Com juros. Já estou avisando — disse enquanto ia para o quarto. Parou na porta e me olhou. Eu não entendi muito bem o que aquele olhar significou, talvez ela estivesse me analisando, ou tentando me dizer alguma coisa, mas minha cabeça estava um emaranhado de acontecimentos que não consegui captar o recado. Ela sorriu, um sorriso gentil, e sacudiu a cabeça. Então, entrou.
Alguns minutos depois ela foi embora. Depois de deixá-la na portaria, eu voltei para meu apartamento e me joguei no sofá, respirando fundo. Tinha muita coisa na minha cabeça, muita coisa mesmo. Eu nunca tinha imaginado ter esse tipo de contato com Izie, nunca imaginei que ela pudesse reagir dessa forma comigo, e menos ainda que eu pudesse revidar, e também nunca imaginei que ela poderia sentir algum tipo de atração por mim. Por que ela sentia, não sentia? Não era possível que não, eu podia ver em seus olhos no modo como me olhava, acho que isso era o que mais me "encorajava" em momentos como aquele na cozinha. E era também o que me encorajava a seguir com o meu "plano".
Aliás, por falar nisso... Eu tinha anotado tudo aquilo no meu bloquinho de notas mental, ah se tinha.
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