Notas iniciais
OH MEU DEUUUUUUUUUUUUUUUS! Sim, estamos postando um dia depois do anterior ser postado... sabe por quê? PORQUE NOS PODEMOS! MUAHAHAHAHA Brincadeira Boa leitura, meus amores. Vejo vocês nas notas finais.


“Eu sei que nunca serei seu amor, eu sei que você só quer que eu te traga calor”

Os meus cabelos estavam embaraçados. O meu rosto estava sujo. Eu me sentia horrorosa. Mas, pela feição que apareceu em seu rosto quando eu apareci naquelas grades, Rick discordava.

Ele havia mudado, talvez para melhor. A barba rala cobria o rosto claro, os cachos castanhos caíam sobre os olhos azuis. Estes foram os que mais mudaram.

Na época da faculdade, os olhos de Rick brilhavam de alegria. Ele sempre mantinha um sorriso tímido no rosto. Agora, eles eram frios. Transmitiam a sensação de que ele faria qualquer coisa para manter sua família a salvo.

Família que já havia sido desfeita. Não era como se eu estivesse feliz pela morte de Lori, afinal, havíamos sido amigas na faculdade. Mas não era como se eu me sentisse triste.

Observei, de longe, Rick e um dos integrantes conversando. Ele tinha cabelos parcialmente longos, olhos escuros e um ar de cara durão. Atrás deles, vi a mulher de olhos um pouco menos verdes que os meus, cabelos castanhos e pele clara conversando com o homem coreano, Glenn.

Ao longe, perto de Beth e de Judith, estava o filho de Rick, Carl Grimes. Ao olhar para ele, com um rosto duro e frio, eu só pude sentir pena. Pena por ele crescer em um lugar assim, sem a mãe, com um pai louco pela sobrevivência.

Me aproximei de Carl, e vi que os participantes do grupo viravam a cabeça para acompanhar meus passos. O garoto, porém, só levantou a cabeça quando eu parei na sua frente.

— Podemos conversar? — perguntei, esperando transmitir segurança pelos meus olhos. Carl deu de ombros e se levantou.

Entramos em minha cela, e eu me aproximei pouco a pouco dele. Carl se sentou na cama e eu me sentei ao seu lado. Os olhos azuis dele me encararam, talvez com curiosidade, talvez com ciúmes, talvez com raiva. O mais provável era um misto de todos esses sentimentos.

— O que você queria me falar? — a voz dele ainda tinha traços infantis, mas o modo com que ele falava deixava claro que ele não era mais uma criança.

— Eu... Eu só quero que sejamos amigos, Carl. Eu sei que é difícil entender o fato que eu e seu pai já namoramos, que sua mãe está morta e que, do nada, eu apareço, mas...

— Eu matei a minha mãe. — Carl me cortou. Eu o encarei com uma total descrença. Um garoto, de apenas doze anos, havia matado a própria mãe? — Nada é difícil pra mim. Mas você estar aqui é errado. — ele continuou, fazendo com que eu o olhasse perplexa.

— Carl. Olha, você matou a sua mãe. Deve ter sido difícil, e agora as coisas parecem não importar mais, porém elas importam. Você não pode fingir que está tudo bem. Eu posso conversar com você a qualquer hora, mas você tem que querer conversar comigo — respirei fundo, pegando fôlego para continuar. — Eu entendo, de verdade.

— Você não entende nada. — Carl se levantou e parou na frente das grades da cela. — Você não tem uma irmã que nem é do seu pai! Você não matou a sua mãe! Você não teve que abandonar tudo!

— Todos nós tivemos que abandonar tudo, Carl.

— Mas... — os olhos deles se encheram de lágrimas e eu quis o abraçar. — Eu era só uma criança. Eu sou só uma criança. Eu cansei de viver com medo.

Meu coração se apertou com aquilo, mas eu aproveitei da única brecha que ele me deu.

— Carl, eu posso assumir o lugar de sua mãe, sabe? Eu posso ser essa figura materna para você.

Carl me lançou um sorriso irônico e e encarou com os olhos azuis que eram incrivelmente parecidos com os de Rick. Aparentemente, o momento de fraqueza do garotinho havia passado.

— Minha mãe está morta. Meu pai está louco. O que você está fazendo aqui, de qualquer forma?

— Não estou aqui por Rick. Estou aqui por um acaso. — suspirei.

— Você vai estragar tudo. Nós já somos uma família, e você não está inclusa nisso.

Respirei fundo. A teimosia e ignorância eram, com toda certeza, de Lori.

— Eu poderia ter sido parte da sua família. Eu poderia ter sido a sua família. Poderia ter sido sua mãe.

Os olhos do garoto tremeram, e eu vi as lágrimas descendo. Não era algo que eu queria fazer, mas foi algo necessário para que Carl entendesse.
Me virei e sai da cela, e vi que Rick me esperava do lado de fora.

— Aconteceu alguma coisa? Foi tudo bem com o Carl? — ele me perguntou, visivelmente esperançoso de que sua ex-namorada, a única pessoa que ele conhecia antes desse desastre, além de seu filho, pudesse se dar bem com uma das únicas lembranças de Lori.

Vi o menino de cabelos escuros e olhos muito claros sair da cela com a cabeça baixa. Os olhos ainda estavam cheios de lágrimas.

— Sim. Foi tudo bem com o Carl. Eu estava andando e observando as celas, tanto as vazias quanto as ocupadas, quando a mulher de olhos verdes me chamou.

— Oi! — ela falou, animada, me fazendo sorrir. — Eu sou a Maggie.

— Valerie. — estendi a mão e ela a apertou. O silêncio reinou por alguns segundos.

— Meu Deus, eu estou tão feliz por ter uma mulher aproximadamente da minha idade para conversar! — desabafou e eu ri, concordando.

— É bom ter pessoas por perto, no geral. Mas ter alguém com quem conversar vai ser ótimo. — concordei e ela afirmou com a cabeça.

— Eu posso te mostrar o refeitório, se Rick ainda não tiver feito isso.

— Ele ainda não fez. Pode me mostrar o refeitório.

Ela foi na minha frente, sorrindo. Eu estava incrivelmente feliz por conhecer Maggie. Pelo visto, ela também.

As coisas não seriam tão intoleráveis na prisão como eu havia pensado, afinal.

**

— Eu precisava sair um pouco da prisão, o clima não era o melhor e eu não queria piorar, de algum jeito.

— Me aproximei de Daryl, esperando-o notar minha presença.

— Eu vou sair com você. — cochichei.

— Antes as pessoas eram mais românticas. — caçoou Daryl, virando e olhando para mim.

— Sério, eu vou sair com você.

— Não.

— Não adianta negar, eu vou com você e ponto final. E de preferência agora.

— Pff... — ele sibilou, colocando sua besta na costas. — tudo bem, eu ia sair mesmo. — suas expressões faciais não eram as mais felizes.

Eu estava em sua moto, um pouco maravilhada com tudo que via. Eu não conhecia o besteiro direito, acabara de saber o seu nome, mas sabia que tinha ciúmes de sua moto e que não gostava de sair com outras pessoas.

Eu via algumas casas e lojas, vazias e um tanto destruídas, rapidamente. Daryl estava com pressa.

O besteiro desacelerou ao nos aproximarmos de uma rua cheia de lojas, estacionou a moto e pulou para fora.

Observei as lojas da rua, procurando alguma que chamasse minha atenção; uma loja de artigos infantis.

— Oh meu Deus, Daryl! — ele parecia confuso — Uma loja para bebês! — agora parecia indiferente. — Vamos!

Eu sorri para ele, ele não se mexeu.

— Vamos! Judith vai gostar se levarmos algo para ela.

Eu o puxei pelo cotovelo, mas ele me deixou puxa-lo.

Paramos em frente a loja em forma de castelo, totalmente chamativa, mas as cores já desbotavam. A tinta azul que usaram para escrever "30% off" estava escorrendo, e a porta parecia destrancada.

— Vamos, está em promoção. — puxei minha faca do coldre, abrindo a porta silenciosamente.

O sino tocou, mas não houve nenhum sinal de vida, então adentramos. A loja era bem grande, as paredes eram brancas com tijolos coloridos que iam até a metade, milhares de roupas e coisas para crianças. Era o paraíso.

Eu saí de perto do besteiro, passeando pelos corredores, que iam de coisas para recém nascidos à crianças.

Andei pelo corredor dos recém nascidos, olhando as coisas de cores neutras, totalmente inocentes, até chegar na dos meninos.

Meu coração bateu mais rápido, minhas mãos estavam geladas e eu comecei a suar frio. Eu não podia chorar ali, não naquele momento.

Eu observei a pequena tela no consultório. Eu escutava seu coração. Eu via sua cabeça, seus braços, suas pernas.

— Parabéns! É um menininho que vai trazer muita felicidade para sua família. — a médica anunciou. Me senti tentada a dizer que ele seria a minha única família. — Você já sabe o nome da criança?

Em um ato quase involuntário, desci minhas mãos para a barriga, apenas para que elas esbarrassem com o gel da ultra-som. Eu havia pensado muito sobre isso.

— Joshua. Joshua Perrine. — meus olhos se encheram de lágrimas e eu as deixei cair, pensando na criança que viria ao mundo. A única coisa que eu precisava era o apoio do pai da criança. Sem dinheiro e sem condições razoáveis, eu não teria um filho. Olhando para a minha barriga que começava a se elevar, meu coração chegou a doer. “Eu não te conheço, mas eu já te amo mais que tudo.”

Passei os dedos pelas letras saltadas do macacão azul, sussurrei "Mommy loves me" enquanto sentia pontadas em todo o meu corpo. Aquilo doía, doía muito.

Observei as camisas com vários nomes, as sussurrei enquanto colocava a mão em minha barriga; "meu nome é Marcos", "Meu nome é Peter", "Meu nome é Joshua".

Respirei profundamente, fechando os olhos e jogando a cabeça para trás, a dor era pior do que ter todos os membros arrancados de uma vez.

Caminhei demasiadamente rápido até a parte das garotas, agora maravilhada com todas coisas fofas penduradas. Peguei um pequeno macacão branco, imaginando-o na bebê; a imagem me fez sorrir. Coloquei na minha bolsa, assim como alguns acessórios. Daryl apareceu do meu lado, com um ursinho cor-de-rosa nas mãos, mas não falou nada.

Coloquei mais algumas coisas, como uma chupeta, algumas fórmulas e brinquedos, eu estava muito feliz por poder cuidar de Judy.

Sai do consultório com uma alegria imensa. Me sentia a mulher mais sortuda do mundo, mesmo sabendo que tantas outras estavam passando pela mesma coisa. Uma vida estava crescendo dentro de mim. Mas eu precisava fazer uma coisa.
Peguei o meu celular e disquei o número tão conhecido. Depois de três toques, escutei a voz masculina.

— Alô?

— Oi. É a Valerie. — eu pude escutar o arquejo do homem. — Preciso falar com você o mais rápido possível.

— Eu... Eu te encontro daqui alguns minutos. Onde você está?

— Na frente do hospital do centro da cidade. Por favor, venha rápido. — desliguei o celular e me sentei no mármore que cercava o hospital. As flores coloridas pareciam sorrir para mim, os tons pastel que cobriam o hospital eram leves, o que me tranquilizava. Claro que ele iria aceitar o fato de que eu estava grávida.

Vi o homem de cabelos negros e porte atlético se aproximando. Ele estava fardado, e a viatura estava atrás dele.

— Shane, obrigada por ter vindo. Muito obrigada. — eu o abracei, e ele retribuiu meio sem graça.

— Qual é o problema? — Eu apertei minha blusa ao redor da minha barriga que começava a crescer, e seus olhos se arregalaram. — Você está grávida?

Eu concordei com felicidade. Meu coração tinha esperanças de que ele iria aceitar me dar um suporte. Eu conseguiria dar a luz a esta criança.

— É seu. É um menininho saudável, de quatro meses. Ele já está enorme.

Os grandes olhos castanhos de Shane se abriram mais ainda. Com frieza, ele soltou apenas uma pergunta.

— Com quantos meses ainda é possível abortar? — O meu coração parou. Eu o encarei com descrença. Me senti tonta, era como se tudo havia parado. Ele havia realmente perguntado isso? Ele havia falado isso sobre o meu filho? — Me responde, porra! Você precisa de quantos meses para abortar, Valerie?

— Eu... Eu não sei, eu não quero abortar, Shane! Ele já tem nome, ele... — respirei fundo, tentando impedir minha voz de tremer. — Eu já o amo, Shane. — ele abriu a carteira com raiva, com movimentos brutos.

— De quanto você precisa para ficar calada e para abortar? — disse, tirando mil dólares da carteira. Eu estava tremendo, e as lágrimas começaram a descer.

— Eu só preciso de suporte, Shane. Só isso! Por favor!

— Foi um erro, Valerie, um erro! — ele gritou, segurando meu braço com violência. Eu estava tremendo. — Pegue a porra do dinheiro. E suma da minha vida, por favor. — ele se virou, entrando na viatura, que saiu em uma velocidade impressionante.

Eu estava soluçando quando entrei no hospital novamente. As lágrimas corriam livremente pelo meu rosto. Com um fio de voz, me dirigi a atendente.

— Eu desejo abortar a minha criança.

Ela me direcionou a sala, enquanto eu tremia. Com os olhos fechados, eu coloquei a mão sobre a minha barriga uma última vez.

Notas finais
Obrigada por lerem! Espero que tenham entendido tudo. Quero ver suas reações nos comentários... Até lá!