Paraíso

5 Capítulo 4: Claudia precisa correr


Depois que as suas amigas do Sul fugiram, Cinnamon estava um pandemônio. As meninas estavam apavoradas com um possível sequestro e os Pais estavam sempre ocupados gritando com os guardas na cidade – sim, agora haviam guardas pela cidade! – E tentando achar as meninas, por algum meio estranho dentro do prédio futurista. Ela havia visto Jane momentos antes de ela sumir também, transtornada, procurando por Anne, dizendo que um homem a havia sequestrado. Claudia estava muito preocupada com as meninas, isso fazia com que sua atenção para com as tarefas fosse parcial; uma parte da sua mente focando naquilo que estava fazendo no momento e a outra parte pensando nas suas amigas.

Apesar disso, as atividades em Cinnamon continuavam bem ativas. Claudia estava indo agora mesmo para um teste diário. Era domingo de manhã. Claudia detestava particularmente aquele teste e sempre passava mal e tinha pesadelos. Os testes sempre são focados nos sentidos: visual, tato, audição, olfato e paladar. O daquele dia envolvia dois sentidos, o visual e o tato.

Ao chegar no prédio futurista, uma velha perguntou seu nome, pegou em sua mão e a guiou até o elevador. As velhas nunca deixavam que as meninas olhassem o botão que elas clicavam dentro do elevador, colocando o corpo a frente enquanto apertavam. Claudia nunca soube o porquê.

As portas se abriram. Elas estão andando por um corredor frio. Claudia sabia porque era tão frio, e lembrar a fez ficar apavorada. Era uma tortura ter que passar por aquilo toda santa semana.

Anne uma vez disse a ela que não sentia nada além de pena. Ela conseguia tocá-los, e a única coisa que lhe vinha à cabeça era “Quem eram? Como elas partiram? ”. Claudia, estranhamente, só conseguia ficar apavorada e atormentada pelos minutos que se seguiam. Era uma droga de teste, aquele.

Entrou na sala e viu os corpos das mulheres nas mesas. Estavam descobertas e nuas. Havia um boato de que eram mães que morreram jovens, ou futuras mães que morreram antes de dar à luz ou engravidar, que cederam seus corpos para os experimentos. Porém Claudia nunca viu nenhuma delas antes visitando alguma das meninas de Cinnamon. Nenhuma mesmo. Estariam mortas e sendo conservadas a tanto tempo? Mas haviam também adolescentes da sua idade lá. Algumas ela já conheceu, e isso sempre embrulha sua garganta. Como elas morreram? Ela sempre se perguntava.

A velha colocou alguns aparelhos de monitoração em seus pulsos e pescoço.

— Você sabe o que tem que fazer. – Disse a velha.

E ela sabia. Sabia muito bem. Se aproximou de um corpo e, cuidadosamente, acariciou seu rosto. Ela queria tanto chorar e correr, mas sabia que não podia. Acariciou mais um pouco o rosto de uma garota muito branca de cabelos negros. Respirou fundo e tentou continuar com aquilo. Estava indo bem. Só precisava continuar tocando ela por mais alguns minutos e já terá acabado. Acabará em um instante. Está acabando...

O cadáver abre os olhos.

— Mas que porra! – Grita. Ela tenta fugir, mas a velha não deixa.

— Arg! Aonde você pensa que vai, menina?

— Ela abriu os olhos! Ela abriu os olhos! Ela está viva e vai me pegar, eu tenho que sair daqui!

A velha, ainda segurando Claudia para que não fugisse, ergueu um aparelhozinho na sua mão direita.

— Você tem que se acalmar, senão você vai ter um ataque de pânico! Sua pressão está muito alta. E além do mais, cadáveres abrem os olhos as vezes. É bem comum.

— Ah, eu não quero saber! Me tire daqui, por favor, por favor!

A velha segurou Claudia nos ombros.

— Conte até três. Isso. Inspire e expire. Assim, muito bem. É o seguinte, Claudia, eu recebi ordens para agir quando algo desse tipo acontecesse com você. Parece que você já teve ataques de choro antes nesse teste, e isso é preocupante.

Claudia ficou branca. E agora, o que aquela velha faria com ela?

— Eu sou nova em Cinnamon. Bem, nova como uma Mestra, pois você sabe que todas viemos daqui e quase todas iremos retornar. Porém receio que você não retornará. Te encaminharei para as Mestras encarregadas do seu caso.

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Estava agora em uma sala azul com uma vidraça que ia do teto ao chão, e de parede a parede. Conseguia ver Cinnamon inteira através dela. Estava parada em frente a ela observando as meninas no parque quando chegaram duas velhas na sala.

— Sente-se, Claudia. – Disse a mais alta.

Havia uma mesa de madeira no centro da sala com quatro cadeiras. Havia também algumas plantas e uma cadeira reclinável esquisita no canto. Claudia se sentou em uma cadeira à mesa em frente às duas velhas.

E sem apresentações, ela continuou.

— Temos que ser honestas com você, minha querida. Você não vai bem nos testes. Tem inclinações para psicológico fraco, saúde do coração instável e sexualidade também em questionamento. Numa escala de 1 a 10 detectamos 4 pontos de ginefilia em seus interesses sexuais. Sua heterofilia está ameaçada. Você pode parecer geneticamente perfeita, com seu corpo esbelto, rosto corado e cabelo liso e preto, porém, por dentro, você é uma bagunça.

— E é por isso que estamos aqui. – Disse a mais baixa. – Você é um caso perdido, infelizmente. Um risco para Cinnamon.

— Hein? Eu não tô entendendo. Então eu sou uma bagunça, OK. Mas por isso vão me expulsar da cidade?

— Claudia, você é propriedade de Cinnamon, então cabe a nós decidirmos o que fazer com você. Não está nos planos você ir embora. Na verdade, você não pode ir a lugar nenhum, pois você ainda pode ser útil para as atividades da cidade.

Claudia teve um pressentimento horrível. Elas não seriam capazes... seriam? Então ela olhou novamente para aquela cadeira no canto da sala. Não havia percebido, mas a cadeira estava manchada com algo vermelho.

A verdade daquilo lhe caiu como um peso de mil quilos em sua cabeça. Levantou-se de supetão, pegou a cadeira de madeira que estava sentada e jogou nas velhas, que caíram. Ela escutou o grito das duas enquanto corria. Precisava sair dali antes que a notícia de sua fuga se espalhasse. Encontrou um elevador no corredor e entrou, só que no momento que estava se preparando para tentar algum dos botões, um alarme ensurdecedor soou por todo o andar. As luzes fluorescentes apagaram e foram substituídas por luzes vermelhas que ascendiam em intervalos, para chamar a atenção.

Tentou apertar os botões do elevador, mas nada aconteceu. Saiu de lá para procurar as escadas de incêndio. Enquanto corria, se deparou com dois homens à sua frente. Deu meia volta e entrou em um corredor à direita. Correu e se deparou com mais corredores e mais corredores. Foi entrando em cada um deles aleatoriamente até que escutou vozes que a fizeram parar.

Claudia não sabe porque fez aquilo, mas parou. Escorou-se na porta de onde vinham as vozes e tentou escutar. Nunca foi bisbilhoteira, mas estava muito interessada naquele momento, após perceber que estavam falando sobre ela.

— A operação corre grande risco se essa garota conseguir fugir! Que idiotas, essas velhas!

Ah, ela não deveria estar ali! O que estava fazendo? Havia enlouquecido? Precisava fugir! Aquele homem que havia falado aquilo era provavelmente um dos Pais.

Mas a conversa continuou, outro homem respondeu.

— Senhor, os guardas estão por todo lado. Não se preocupe, acharemos ela.

— Tem que achar! O que será da Paraíso se ela escapar? Ela sabe que matamos as garotas! Só trabalham incompetentes aqui, sinceramente.

Paraíso? O que aquilo significava? Adoraria poder escutar mais, mas precisava correr.

Se afastou da porta onde escutava a conversa entre um Pai e um guarda e disparou pelo corredor. O quão difícil era achar uma escada de incêndio? Será que havia uma? Como resposta ao seu pensamento, uma porta com um desenho de um homenzinho feito de traços descendo por uma escada feita também de traços, apareceu. Estava quase chegando na porta, quando dois homens altos apareceram à sua frente, vindo de um corredor. Ficou tão assustada que parou por um instante. Não estava acostumada com homens jovens e fortes, isso a desnorteou um pouco. Os dois homens também pararam, com a certeza de que era aquela garota que eles deveriam capturar. Claudia pensou mais rápido e entrou na saída de incêndio.

Escutava as passadas apressadas dos homens descendo pela escada enquanto a perseguiam. Chegou finalmente no andar de baixo e correu pelo corredor principal, assustando algumas velhotas que estavam por lá, que não sabiam o que se passava. Achou um elevador quase que imediatamente e apertou um botão aleatório. As portas se fecharam. Claudia ia se sentar no chão do elevador, quando as portas se abriram imediatamente. Entrou em pânico ao ver as velhas que queriam lhe matar bem na sua frente, quando não faziam nem cinco minutos que havia lhes jogado uma cadeira. As duas estavam passando pelo corredor, machucadas e chorosas. Claudia só teve tempo de apertar o último botão de baixo quando elas a viram. Estavam vindo em direção ao elevador quando as portas se fecharam. Rezou para que dessa vez tenha acertado o botão.

Depois de uns vinte segundos as portas se abriram e ela estava no hall de entrada. Quase chorou de alívio. Para sua sorte, havia um grupo de meninas que estavam saindo de lá, pois já haviam acabado seus testes. Tentou se misturar e evitar os olhares dos guardas em alerta, que provavelmente já haviam sido avisados.

Conseguiu sair do prédio futurista com sucesso. Nunca havia se sentido tão fodona como naquele momento. Pensou em ir para a mansão do Norte se esconder, mas acabou lembrando que não podia mais ser vista na cidade. Começou a correr em direção à floresta que rodeava a mansão do Norte enquanto chorava. Sua vida havia acabado e não sabia para onde ir. Não sabia como ir para Vila Orquídea, para a sua mãe. Não sabia para onde estava indo. Iria ser pega novamente. Mesmo tendo certeza disso, não parou de correr. Correu até ficar cansada demais para continuar.

Continuou andando e lamentando suas perdas. Suas irmãs na mansão do Norte, suas amigas na mansão do Sul, que estavam desaparecidas. Iria sentir falta principalmente de Rute. Rute era sua melhor amiga. Iria sentir falta da sua mãe também. Ao pensar que provavelmente nunca mais vai vê-la novamente, começou a chorar de novo.

O que, de fato, restou para ela?

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Claudia andou tanto que finalmente chegou a um mar de areia. Nunca havia estado ali antes. Estava bem quente. O sol escaldante sendo refletido na areia laranja intensificava o calor. Começou a se sentir pegajosa. Estava com sede, mas não havia água por ali.

Continuou a andar, até que sentiu que pisou em algo. Era um pequeno embrulho de papelão. Era colorido. Claudia o abriu e retirou um pequeno aparelhozinho que só tinha um botão, e um bilhete. Abriu o bilhete.

Está sozinha e desamparada?

Acabou de fugir dos caras?

Aperte o botão, minha cara.

Iremos aí resgatá-la!

— O Lado De Fora.

Aquilo parecia cilada. Mas que diferença fazia? Já estava ferrada mesmo. Essa era sua melhor chance de encontrar uma salvação na sua vida. Apertou o botão. Retrocedeu alguns passos para ficar amparada novamente pela floresta. Sentou-se lá debaixo de uma árvore e esperou. Estava tão exausta e entediada que não aguentou esperar acordada por muito tempo. Caiu no sono e mergulhou em um mundo de pesadelos que estavam pendentes para assombrá-la.

***

Se a tarde estava terrivelmente quente, a noite estava um gelo só. A fogueira acendida por Desi e Karina ajudava um pouco a afastar o frio, mas Anne ainda sentia calafrios. Estava sentindo saudades do aquecedor do seu quarto na mansão do Sul.

Caleb, Rute e Sofia haviam se juntado a eles após uma grande discussão de Caleb e Grilo, que insistia em dizer que ele não era de confiança.

Desi, Grilo e Karina o chamavam de “o Versace”. Anne pensava que o nome se escrevia “Versatche”, mas Caleb explicou que o “c” tem som de “tch” por causa de uma regra de uma antiga língua, chamada italiana. O próprio afirmou ser descendente do povo italiano.

— Meu avô, Valentino, honra o nome Versace sendo estilista. Um dia eu também serei um.

Quanto a Jane, ela explicou o que havia acontecido detalhadamente para Anne e as meninas. Ela é a tal garota da mansão do Sul que Karina havia mencionado.

— Anne, quando você foi para o prédio futurista e saiu correndo com esse Caleb eu fiquei em pânico. Vi quatro homens correndo atrás de vocês e deduzi que você estava sendo sequestrada. Corri atrás de vocês num momento em que vocês, meninas, não estava olhando, até a estrada da floresta que dava para a mansão Norte. Sem opções, continuei até a mansão norte. Perguntei por você a todas as meninas que estavam nos arredores da mansão, inclusive Claudia. Ah, pobre Claudia, deve estar tão preocupada... Enfim, continuei andando pela floresta ao redor da mansão Norte com esperanças de ver você, Anne. Até que em um momento eu escutei um barulho e corri em direção ao som, mas me deparei com Karina. Fiquei assustada de início, quando Desi e Grilo apareceram, mas eles me convenceram de que não queriam me fazer nenhum mal.

— E você acreditou neles assim tão depressa? – Disse Rute, provocando uma cara de desgosto de Karina e uma risadinha de Grilo.

— Não, na verdade. Eu estava me preparando para correr, quando Desi me perguntou “Por que você está aqui? ” Eu lhes disse a verdade, que estava procurando você. Desi me perguntou o que havia acontecido e eu lhes contei. Pediu para descrever o homem que tinha supostamente lhe sequestrado e eu descrevi. Ele, então, concluiu que era alguém do seu povo, e que se eu fosse com eles eu talvez encontrasse você, e foi o que de fato aconteceu. Eu estava muito nervosa e focada em encontrar você e foi o que eu fiz. No caminho até aqui eles me contaram umas histórias perturbadoras sobre Cinnamon. Vocês sabiam que moramos em um país? E ele se chama Akaland!

— Eu mencionei isso a elas. – Disse Caleb, orgulhoso.

Anne ficou interessada em uma passagem específica do que Jane disse.

— Histórias perturbadoras? De que tipo?

Foi Desi quem respondeu.

— Especulações conspiratórias, apenas, mas com grandes chances de ser verdade. Acredita-se que Akaland seja cenário de uma experiência doentia e desumana, o que todos nós sabemos ser verdade absoluta. Mas e o objetivo de tudo isso? A teoria mais forte é de que estejam fazendo uma espécie de “limpeza” genética, removendo tudo que é potencialmente perigoso e negativo para a saúde física e mental humana. Os testes são para monitorar o progresso. Mas ainda há muitos furos nessa teoria, exemplo: por que não ensinam aos meninos e meninas as histórias antigas, com exceção das religiosas? E mesmo assim não citam as cidades em que as histórias se passam. Por que os excluem de toda informação possível? E alguns dos testes são tão absurdos que não podemos imaginar qual a utilidade deles.

— Isso tudo é tão confuso – falou a pequena Sofia, que nunca havia sido testada, graças aos céus. Era muito nova e ainda não havia atingido a idade necessária para tal, ao contrário de Jane, Rute e Anne. Ela deu um grande bocejo que todos imitaram.

— Melhor dormirmos, pois amanhã temos mais dois ciclos do inferno para enfrentar. – Disse Caleb. Todos concordaram e entraram em suas barracas. Caleb, Desi, Grilo e Karina foram para a barraca maior e Anne, Jane, Rute e Sofia foram para a barraca menor.

As meninas ainda conversaram um pouco na barraca, comentando sobre a situação estranha na qual se encontravam e fazendo teorias de como seria o lado de fora. Anne se descobriu profundamente agradecida por estarem juntas naquilo, suas irmãs e melhores amigas. Era bem mais fácil engolir aquela realidade surreal com elas do seu lado.

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Anne acordou com o som agudo de algum aparelho eletrônico apitando.

Pip-pip! Pip-pip!

Depois de alguns segundos desorientada, se deu conta de que o som vinha da outra barraca, onde estavam os adultos. Suas irmãs também acordaram e ambas saíram da barraca. Já era manhã, mas que horas seriam? Anne não tinha relógio.

As meninas foram até a abertura da outra barraca.

— Desligue esse despertador, Desi! – Reclamou Karina do barulho.

— Não é um despertador, é o alarme! O alarme, Karina!

— Do que vocês estão falando? – Caleb sentou-se dentro da barraca, sonolento.

Grilo continuava dormindo, ignorando o barulho e apenas fazendo uns muxoxos aborrecidos.

Desi estava com um sorriso de orelha a orelha, sentado na barraca, segurando um aparelho quadrado e preto nas mãos. Karine olhava, curiosa.

— Alguém já usou esse alarme antes? Eu não lembro.

— Se sim, foi a um bom tempo atrás. Não fomos nós que plantamos o botão de socorro.

— O que está acontecendo? – Perguntou Anne.

Desi respondeu.

— Alguma menina em Cinnamon, no deserto além da cidade, apertou o botão de socorro. Temos que ir lá resgatá-la.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.