As flores delicadas do campo se rendiam ao vento, balançavam graciosamente e mais uma vez eu estava lá, nada mudou. Minha avó mora no subúrbio, numa cidadela escondida e pouco conhecida. Bonita, silenciosa, todo dia passado aqui é como se estivesse no paraíso, não há nada de errado. Vinha todo verão para cá, mas parei a alguns anos, e novamente estou aqui, num final de inverno, os rastros de neve desaparecendo e a primavera levantando as flores, que revelavam sua beleza ao desabrochar.

Minha avó esperava no portão com um sorriso bobo, a abracei e fui ajudar meus pais com as malas. Fazia realmente muito tempo que não viajava para lá, por isso estava genuinamente animado, além de que havia um amigo de infância. Um amigo importante. Queria o ver logo.

“Vó! Vou ir ver o Hiroshi, ok?”

“Ah, o Hiroshi. . .” Não completou a frase.

“O que foi?”

“Nada querido, pode ir.”

Estranhei, mas continuei.

Corria na estrada que acabara de percorrer de carro, senti o vento em minha pele, desfazendo a saudade do ar fresco que não possuía na cidade, vi os rostos dos moradores sorrindo ao me notar, os velhos pareciam mais velhos, as crianças pareciam adolescentes e os adolescentes pareciam adultos, e alguns bem velhos não estavam mais lá. Após passar por todas as casas, parei e olhei para trás, virei novamente o pescoço e vi a estradinha de terra que levava a casa de Hiro. Enxerguei minhas lembranças, nos vi brincando e apostando corrida, nos divertíamos com qualquer coisa, independente do lugar. Passei a andar, pelo estreito corredor de árvores, agora um pouco abandonado, e menos podado que a ultima vez que estivera lá.

Ali estava ele, numa cadeira, na varanda de sua casa que, como a maior parte da vila, não havia mudado muito, só envelhecido. Ele estava de lado, olhando para o céu, o horizonte não podia ser visto, já que sua casa se localizava em uma clareira. Com uma expressão vazia, mal se movia.

“Hiroshi!!”

Rapidamente se virou surpreso, com olhos arregalados. Se iluminou. Se iluminou de uma forma tão bonita que quase se formaram lágrimas em meus olhos, abriu um sorriso emocionado e veio correndo em minha direção. Ele tinha mudado, tudo a sua volta havia permanecido, mas ele estava diferente. Mais alto, ombros mais largos, mais magro, mas seu sorriso, seus olhos negros como a noite e seus cabelos pretos de uma pantera eram inconfundíveis, confirmavam, é o Hiro de sempre. Ao chegar em mim me deu um abraço que nos fez rodar e se afastou, ambos animados poupávamos formalidades e não nos estressamos com qualquer vergonha, começamos a falar rápido e alto sem se preocupar se o outro entendia ou ouvia, até que paramos juntos em risadas. Até o final do dia, cuspimos até o ultimo pingo de assunto que lembrávamos na hora, nos despedimos em outro abraço quando percebi que estava mais alto que eu, que sou um ano mais velho. Já estava escuro, resolvi nem comentar, seria só mais um tópico para falar no dia seguinte.

Cheguei tarde em casa, mas a tempo do jantar. Contei para todos como foi meu dia, como encontrei o Hiro e como ele estava diferente. Meus pais me pareceram surpresos após ouvirem minhas novidades, até que minha avó quebrou o silencio me respondendo:

“Que bom querido, fico feliz que tenha visitado ele.” Falou calma e com um sorriso sereno no rosto.

Alguns dias passaram rápido, outros me lembraram uma aventura, eu ia todo dia em sua casa, e fazíamos o que quiséssemos, o que tínhamos vontade, um numero incontável de opções voavam por nossas cabeças e novamente nos sentíamos como crianças.

“Ei, Hiro, vamos para aquele riacho que tem perto da casa da minha avó. . .” Falei despreocupado já que não estávamos fazendo nada no momento.

“NÃO” Me assustou “Quer dizer. . . não é uma boa ideia, porque. . . ainda está meio frio por causa do inverno, né?”

“Ah, é, nem tinha pensado nisso” Falei, não me importando com o susto, ou com a desculpa esfarrapada.

Depois de um tempo percebi que ele sempre evitava sair de casa, ou da floresta que te rodeava, parecia nosso espaço limitado. Até comentei com ele um dia, mas novamente criou uma desculpa de ultima hora. Não me incomodei, quanto mais tempo passava com ele, mais me apegava, e menos conseguia negá-lo.

Um dia, em que passeávamos entre as árvores, sem corrida, sem apostas, sem nada, só palavras, paramos e sentamos um na frente do outro, apoiados em troncos, e voltamos a conversar, como no primeiro dia. Eu comecei falando como estava lá na cidade, falei sobre meus amigos, e como todos sabiam sobre ele, já que sempre comentava sobre nossas piadas internas e coisas que aconteceram conosco. Ele ficou feliz de saber isso, mas não falou nada depois disso. O que me obrigou a perguntar.

“E na sua escola, como vai?”

Ele olhou para baixo meio preocupado mas falou.

“Na verdade. . . não posso dizer que realmente gosto da minha escola . . Aqui é uma cidade bem pequena, o que nos faz encontrar com as mesmas pessoas o tempo todo, e . . . as vezes isso não é bom, sabe? Eu nunca fui um garoto popular, você pode lembrar na nossa infância que eu nunca chamava outras pessoas para brincar com a gente, e você. . . bem, você pode perceber como eu fiquei feliz quando te vi depois de tanto tempo, aliás, você é um dos poucos que eu realmente converso, e posso falar sobre segredos e coisas que não se diz para colegas de classe. Você é meu melhor amigo.” Nesse ponto ele se envergonhou e se encolheu um pouco, ouvi barulho das folhas em que sentava se quebrando. “Mas então, eu. . . eu não sabia o que havia feito, mas de uns tempos para cá, eu estava sendo completamente ignorado e esnobado pelo resto da turma, eu até percebi, mas não me importei muito, já que não tinha realmente nenhum amigo dentro de sala, e ainda tinha meu computador.” Sorriu de sua própria graça e desgraça “Pouco depois, recebi uma mensagem e descobri porque todos estavam agindo daquele jeito, de alguma forma, descobriram a garota que eu gostava, uma das garotas que basicamente todos gostavam, então eu era só mais um oponente.” Olhei para ele surpreso, sorriu e logo me respondeu “Eu não realmente gostava dela, era só uma garota realmente legal que aceitaria se me pedisse em namoro, sabe? Mas não acreditariam em mim nem se eu tentasse. A garota era a única que não sabia disso, eu descobri isso quando ela veio falar comigo perguntando porque eu estava tão para baixo. Dali em diante nós conversávamos todo dia, ela veio para minha casa várias vezes, e nós passeávamos pela floresta assim como estou fazendo com você. Ela fez eu me apaixonar de verdade. O problema é que, mesmo eu sendo um grande amigo para ela, ainda tinha outros. Pouco depois me veio com a notícia de que o garoto que ela gostava tinha pedido ela em namoro. Eu fui derrubado pela tristeza, obviamente, mas estava feliz, que ela estava feliz, e no mesmo dia que me deu essa notícia, me confessei, expliquei que não precisava mudar nada, só queria tirar esse peso de meus ombros e que estava contente por ela. Não sei se assustei ela um pouco, mas pude perceber que se afastou bastante de mim, e só vinha falar comigo de vez em quando. Seu namorado desenterrou a informação de que eu gostava dela, e veio brigar comigo, todo dia, mais conhecido como bullying, mas não gosto dessa palavra. Basicamente minha vida estava um inferno, principalmente depois de uma coisa que aconteceu aqui em casa, e não aguentei. Então você veio.” Novamente se avermelhou, mas olhou em meus olhos e continuou “Você me lembrou como era ser feliz. Obrigado.” Sorriu.

Olhei para ele surpreendido e junto dele, senti meu rosto esquenta o escondendo atrás de minhas mãos. Ele as tirou do caminho, bem perto de mim, e deitou em meu peito, me abraçando. Olhei para baixo e vi que estava com os olhos fechados, como um gato, só queria se acalmar por um tempo. Enquanto as batidas de meu peito não desaceleravam, acariciei sua cabeça, passei minhas mãos entre seus cabelos, tudo estava muito quieto, até que acordei.

Ainda não era noite, devia ter se passado no máximo quarenta minutos, ele ainda estava lá, mas não em meu colo, mas em meu lado. Ambos estávamos no chão, já que fui escorregando do tronco. Quando abri os olhos, dei de cara com ele.

“Hiro?” Abriu os olhos e sorriu meio sonolento.

Se espreguiçou e esfregou sua cabeça em meu peito e novamente me abraçou.

“Sabe, eu não gosto mais dela, na verdade, eu a odeio.”

“Eu percebi.”

Ele olhou para mim, e em sintonia fomos lentamente nos aproximando em um beijo. Um beijo que se prolongou em abraços e amassos e cabelos e roupas bagunçadas. Eu não estava pensando em nada na hora, nem queria. Porque, um sentimento indescritível passava por todo meu corpo e alma. O máximo que posso dizer é que me sentia completo. Terminamos nos olhando e dizendo “Eu te amo.” num sorriso.

Saímos da floresta já escuro, e quando cheguei na ponta da estradinha de terra, ele me parou.

“Eu só quero que você saiba que eu sempre estarei com você.” Me deu um beijo na testa e um selinho.

Olhei para ele meio confuso, mas só respondeu com outro sorriso. Me recusei a sair de lá antes de entender, ouvi suas risadas enquanto pensava. Foi então que me atingiu. Aquele era meu ultimo dia na cidade. Não era possível, depois de todos aqueles dias com o Hiro, de repente eu não vou mais poder correr até sua casa para encontrá-lo. Nem, agora, para chegar e receber um abraço. Nem reclamar que ele é alto demais para a idade. Ele não parecia realmente triste, então passei o caminho para casa tentando entender o significado da frase.

Cheguei para o jantar, como no primeiro dia e minha avó resolveu começar o assunto, como na maioria das vezes.

“Então, como foi seu último dia aqui? Com o Hiro?” Perguntou inocente. Respondi em poucas palavras para não entrar em detalhes. “Espero que tenha gostado de vê-lo. Eu estou com saudades dele. Eu e mais muita gente.” Deu uma pausa estranha “Lembro quando chegou a notícia aqui. Seus pais morreram em um incêndio na cidade vizinha. Me lembro de já ver seu rosto sem vida mesmo antes disso.” Notou minha expressão assustada. “Ele foi encontrado morto, dois dias depois do incêndio, provavelmente não aguentou a tristeza.”

“Eu não aguentei”

Eu lembro. Eu lembro quando ele falou isso.

Minha avó me consolou, mas fui para a cama ainda com o rosto molhado. E não posso dizer que fui dormir em paz, porque não consegui dormir. Fiquei pensando nele. Pensando naqueles olhos negros como a noite e cabelos pretos de pantera. Também macios como de um gato. Quanto mais me recordava de seu toque mais me doía, será que aquela foi a última vez? Será que nunca mais vou poder senti-lo, vê-lo, beijá-lo, nada? Aquele sentimento me corroía, e as lágrimas não acabavam. Até eu ver a manhã nascer. Olhei pela janela o sol nascendo com meus olhos inchados e meu coração fraco. Tomei café da manhã sem apetite e entrei no carro de volta para casa. Ainda não me acostumando com a ideia de perder aquele que amei por alguns dias para a morte. As lágrimas iam e voltavam durante a viajem. Hiro, Hiro, Hiroshi.

Cheguei em casa, ainda calado. Joguei minha mala em algum canto de meu quarto e desabei na cama. Não havia dormido aquela noite, mas estava sonhando com ele agora. Acordei com um sobressalto ao sentir mãos de toque familiar apertar ao redor de meu pescoço.

Sem ar, ouvi:

“Eu disse que estaria para sempre com você.”

Para sempre, devotado ao meu fantasma.

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