Par Perfeito
7 Trégua prolongada
"Era provável que não durasse tanto quanto eu esperava, ainda assim a companhia dele diminuía minha dor. Aliás, um tipo novo de dor ameaçava crescer, dessa vez uma dor necessária para que o restante do meu peito se enchesse do que quer que fosse. Talvez se encha dessas flores que adornam as ruas dessa cidade na primavera e pintam tudo de rosa e felicidade."
É muito bom dormir. Faz muito tempo que não apago assim, tanto tempo que tinha esquecido qual era essa sensação de desligamento do mundo. Sinto-me boiando na superfície de uma piscina, com os raios solares batendo nas minhas pálpebras. Depois os malditos raios abriram meus olhos à força e jogaram a luz deles ali pra atingir as trevas do meu coração. Puta que pa-
— Sakura — a voz máscula do sol chegou até mim, quase respondo "sim, mestre" — você acordou?
Tudo ficou meio bagunçado, desde o meu sonho perfeito de relaxamento profundo até a dor insistente no meu braço. Minha visão demorou um tanto para se acostumar às paredes brancas da enfermaria e à lanterninha na minha cara.
— Sim — antes que meu cérebro processasse a informação eu já estava me virando de lado e pedindo mais cinco minutinhos até a hora de ir para a escola — Ai! — só não contava com essa dor de novo.
— Não se mexa — o homem que não conheço, e que presumo ser o "enfermeiro" da "enfermaria", põe a mão delicadamente sobre meu cotovelo inchado e roxo, após isso, pega no meu antebraço, perto da minha mão, e tenta mexer um pouco.
— Merda! — Ele me olhou assustado, provavelmente pensando que uma jovem estudante do ensino médio não deveria falar palavrões. Dei uma risada nervosa analisando sua reação, que continuava impassível e séria. Meu sorriso se fechou. Levantei a cabeça um pouco, algo que deveria parecer uma pessoa arrependida se curvando, e sussurrei: — Desculpa.
Algo inusitado aconteceu, ele colocou as costas da mão na frente da boca e riu, foi rápido, só que eu garanto que se ele não tivesse se contido seria uma crise de riso daquelas. Talvez eu deva investir na minha carreira como humorista.
— Então... — comecei a falar com cuidado apontando para o monstrengo-braço — Ele vai ficar legal?
— Ah — ele exclamou como se finalmente lembrasse o motivo de estar ali — os ossos estão bem, mas o osso da parte acima do cotovelo — ele colocou uma de suas mãos em cima da outra — está desse jeito com o osso do antebraço.
— Só desloquei? — facilitei para ele.
— Sim, mas o impacto foi muito forte — ele fechou uma das mãos em punho, imitando a bola, e com o outro braço representou o meu próprio, depois fez o movimento da bola indo em direção ao...
— O impacto foi forte e...? — Interrompi impaciente.
— E machucou seu músculo. Dei uma injeção para desinchar um pouco, mas daqui a pouco — postou uma mão sobre a outra de novo e as colocou lado a lado em um movimento rápido — vamos colocar tudo no lugar.
Confesso que gelei um pouco, quase desmaio de novo. Tentando me distrair, analiso o enfermeiro do meu lado. Alto, ombros largos, olhos escuros profundos, rosto com expressões fortes e marcas parecidas com as de quem usa óculos por muito tempo.
— Itachi – leio em seu crachá e ele olha para mim sorrindo, seduzindo, querendo meu corpo nu.
Quase fico corada, felizmente as batidas na porta me salvaram de uma nova paixonite hospitalar. Itachi vai lá fora, deve dizer aos meus colegas que estou bem, presumo isso por que ouço um berro de “AAAH, SAKURA-CHAAAN” que atribuí ao Naruto. O som diminui na frente da enfermaria e é possível que eu consiga voltar a dormir.
Eis que Sai entra na sala junto com Itachi.
Imediatamente trinco meus dentes, como se pudesse colocar uma grade entre nós.
— Seu amigo veio pedir desculpas.
— Ele não é meu-
— Sakura, — Sai interrompeu. Seu semblante parecia realmente transtornado. Não que eu fosse confiar nele depois de tudo que esse hijo de puta fez, ainda assim baixei a guarda para ouvir o que ele ia dizer. – Eu não queria fazer isso, é sério. Me desculpa, por favor.
— Tá. – Cuspi a resposta – Já pode ir embora.
O enfermeiro mímico olhou para nós dois repetidas vezes e, enfim, deu sua sentença: – Eu o chamei pra te distrair enquanto eu... – repetiu aquele último gesto, meu lindo ossinho voltando para o lugar.
Demorei a processar a informação. Claro que Sai iria me distrair da dor. Segurar minha mão em um momento de fraqueza já é, de uma forma meio bizarra e não convencional, uma vingança. E não, não vou deixar ninguém mais ver esse meu lado fraco.
— Eu aguento sozinha.
— Você acha que aguenta, mas seu corpo vai reagir à dor. Você vai se afastar de mim sem perceber, ficar tensa, e desse jeito vai demorar mais. Eu podia ficar sobre você, – Nossa, parece que ele tá falando sobre sexo, né? – só que você podia entender errado.
— De jeito nenhum, pode vir. – Ele riu de novo, daquele jeito de antes, quase gargalhando.
Sai interrompeu as risadas dele: — Vamos dar uma trégua. Finjo que não vi nada aqui dentro.
Era um cenário familiar: bater no menino, a vingança, a trégua. Era familiar, embora eu não quisesse confundir o Sasuke e o Sai, afinal eles são diferentes, não é? Sasuke nunca chegou a me machucar, nem mesmo com suas ameaças de vingança frequentes, tanto que às vezes penso que somos amigos, mas o Sai... O que ele fez com a Ino, ou quando levantou o punho pra me bater de volta na festa, ou as palavras fortes que usa pra falar comigo, isso tudo sem contar o braço deslocado por ele de propósito (SIM, EU LEMBRO DA SUA CARINHA NA HORA QUE ACONTECEU!). Sasuke e Sai não são a mesma coisa, o nível do jogo aqui é outro. E já dizia meu avô Buda: “novos jogos, novas regras”.
— Não quero você. Traga o Naruto, o Sasuke, a Ino, todos menos você.
— Mas – Itachi interveio – ele se desculpou, você aceitou.
Pensei de novo nas falas de meu ancestral Buda e falei: — O buraco é mais embaixo. A cocada é mais preta que aparenta. Há mais mistérios do que conhecem sua vã medicina. – Depois de ver a cara de bunda dele, apressei: — E vamos logo com isso, tenho que fazer várias coisas que pessoas da minha idade fazem e preciso de um braço pra isso. Sai daqui, Sai. – Aquele enfermeiro imprestável nem se mexeu, então desisti. – Tá. Vem, Sai.
Itachi me ajudou a sentar, apoiando meu braço em uma mesa do lado da cama. Sai, sentou do meu outro lado e colocou minha cabeça de lado em seu peito, segurando minha nuca, pôs a outra mão espalmada nas minhas costas. O contato fez meu rosto esquentar, inconscientemente cheirei sua blusa e senti o frescor do sabonete lá. Era aconchegante, detesto admitir. Então, talvez por que meu cérebro quisesse me distrair, lembrei de Sasuke. Será que ele cheirava a sabonete também?
Quando me dei conta do caminho em que minha cabeça estava indo, comecei a pensar na fome, no mendigo, no livro do Kakashi – que deve ser o que está corrompendo meu coraçãozinho inocente. Comecei a tremer um pouco pela expectativa e não importava o quanto procurasse, meu senso de humor sakuresko se escondia no medo de sentir dor.
Há quanto tempo a gente tá aqui? Cinco minutos?
— Vou começar. – Ele avisou. – Tudo bem?
Minha mão boa se moveu até a barra da blusa de Sai e, sem confiar na minha voz, confirmei com a cabeça.
— Vai ser rápido – dessa vez era Sai falando – você vai ver.
Quando senti o primeiro puxão, larguei a blusa e agarrei seu tronco com toda a força. Dane-se porcaria de orgulho e vingança, isso dói MUITO. Eu gritei – um grito meio contido — no seu peito, ele me segurava firme. Cada vez que quis correr ele me segurava ainda mais forte, me lembrando dos avisos de Itachi: “Se fizer isso vai doer mais”.
— Tá quase acabando. Só mais uma vez. – Sai dizia – Muito bem, você tá aguentando bem. – depois dizia um pouco mais baixo – Desculpa.
Passou tudo muito rápido, provável que tenha sido apenas dois minutos ou menos, pareceu durar horas. Quando acabou, não consegui me soltar dele de imediato por causa do medo de continuar doendo. Depois que nos separamos percebi que estava chorando e que talvez eu já estivesse chorando desde o começo. Enxuguei as lágrimas rápido, respirei fundo, voltei a mim mesma. Sou Sakura Haruno e a fome reina em mim. Ouvi um “amém”, igreja?
Itachi começou a trabalhar no gesso que Naruto ia adotar como caderno de desenhos.
Sai foi embora sem dizer nada.
*****
— SAKURAAAAAA! – Naruto gritava me abraçando pela centésima vez enquanto saiamos da escola. – Você tá legal mesmo? Posso levar suas coisas?
— Não precisa e, além disso, a gente não mora perto, gênio.
Deixei-o chorar mais um tempinho a infelicidade que tinha me acontecido. É claro que pra todo mundo tinha sido só um acidente, mas eu sei, eu vi o Sai mirando em mim, e mesmo que ele tenha me dado apoio pra consertar a merda que ele mesmo fez, prefiro gravar como informação indelével e imutável que “Sai é muito perigoso”.
Tentei me distrair examinando meus amigos, pensando em todos os problemas que tinham e que se esforçavam para manter em segredo. Seria um problema se o Shikamaru tivesse problemas de insônia, não é? Ou se a Karin descobrisse que seus peitos nunca vão crescer, ou se o Rock Lee colocasse o colan verde pra lavar e ele desbotasse, ou se todas as formigas de estimação do Shino morressem por que ele comprou a areia errada para elas. De qualquer modo, tá todo mundo sofrendo, né?
Mais tranquila com relação a isso, passei a ouvir o que eles estavam conversando.
— Mas serve sim. – Neji argumentava com Chouji com seu tom de voz inalterado.
— Mas não faz sentido, sabe? Quer dizer, a gente compra por que acha que tem mais, só que não tem quase nada.
— Gente, — interrompi – parem de começar as frases de vocês com “mas” e me contem o que serve ou não. – É isso aí, um ótimo momento para pensar nos problemas dos outros, esquecer dos meus e virar uma heroína. Pá!
— O ar dos saquinhos de batata serve pra alguma coisa?
Ia falar um palavrão, desisti. Essa é uma questão muito importante, pouca gente sabe, então é hora de disseminar a verdade pelo Japão.
— Serve. Impede que as batatas quebrem no transporte, mas-
— Eu te disse. – Neji se meteu convencido.
— Eu não acabei – revirei meus olhos – mas algumas empresas se aproveitam disso para colocar menos batatas.
— Eu te disse! – Chouji revidou.
Resolvido esse problema de vida ou morte, decidi ir para casa dormir. No caminho até a parada de ônibus ouvi uma buzina e obviamente ignorei. Vôzin Buda disse que eu não falasse com estranhos, então eu continuaria em frente.
— Haruno!
— Ah, meu sobrenome é Haruno. – constatei em voz alta. De algum jeito o braço afetou o funcionamento do meu cérebro. Olhei para o lado e Sasuke estava me chamando. – Yo. – cumprimentei meu inimigo mortal.
— Entra.
— Tá. – Entrei no carro, coloquei o cinto de segurança, sorri. – E aí?
— Hoje eu te levo, mas não acostuma.
— Nossa, — falei enquanto o carro já estava em movimento de novo – todo mundo tá tão legal comigo. Eu devia me machucar mais vezes. Aliás, a gente ainda tá de trégua? Ou você vai me sequestrar, estuprar e assassinar?
— A nossa trégua dura até quando tiver que durar. – Nossa, bem específico, meus parabéns. Ele acenou com a cabeça na minha direção. – Dói muito?
— Só quando desloca e quando coloca de volta no lugar. Por falar nisso, as pessoas dessa escola deviam ter alguma consideração pela pessoa que teve o braço deslocado. Eu falei que não queria o Sai perto de mim-
— Ele é perigoso – Sasuke interrompeu.
— Sim, e logo ele ficou comigo quando o enfermeiro colocou tudo de volta no lugar.
— Espera, — Ele parou em um sinal vermelho – quer dizer que você se negou a ficar no mesmo lugar e o caralho desse enfermeiro te obrigou?
— O caralho dele não, foi o enfermeiro mesmo. – parece que meu senso de humor continua ótimo, não é mesmo? – Por falar nisso ele era muito bonito, será que eu tenho chance?
— Provável que não – Sasuke me olhou de cima a baixo – Você não faz o tipo dele. Nem de longe, no escuro e drogado.
— Nhem nhem nhem – imitei a voz dele – Eu não vou fazer um inferno na sua vida nhem nhem nhem
— Voltando pro Sai, é melhor você ficar longe dele.
— Não precisava nem dizer. – olhei pela janela e reconheci o caminho pra minha casa. – Engraçado que ele parecia realmente arrependido, mesmo fazendo tudo que fez.
— O engraçado é que você tá perdoando ele, mesmo que ele seja um escroto que te machucou fisicamente.
— Eu também te machuquei, lembra? – Apontei pra minha bochecha lembrando-me do soco que atingiu o Sasuke quando a gente se conheceu. – E olha a gente conversando agora. Eu até esqueci que você queria meu couro como decoração de natal.
— Isso e aquilo são coisas diferentes.
— Eu concordo. Você é um arrogante escroto viciado em sapatos esporte-
— Não entendo como a pessoa que dá a carona é xingada na cara dura.
— Calma, por que todo mundo tá me interrompendo hoje? – ai, que fome – você é tudo isso, mesmo assim é uma pessoa boa. A gente até podia ser amigo se você esquecesse essa vingança ridícula e sem graça.
O carro parou e eu percebi que a gente já estava na frente da minha casa. Era mais um problema pra enfrentar se o namorado da minha mãe estivesse lá.
— Deixa eu me vingar primeiro, aí a gente faz amizade.
— Pfff, que lógica é essa, mermão? Tá me tirando?
Acho que foi a primeira vez que eu vi Sasuke sorrir daquele jeito e a pergunta mental sobre o cheiro dele voltou com força total. Antes que eu perguntasse ou constatasse por mim mesma, decidi sair do carro e acenar um tchauzinho.
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