Paperman
1 ღ Capítulo Único - Paperman
Notas iniciais
Paperman
Arendelle 07hr45min
Olhava para o relógio de pulso pela décima vez em um intervalo de cinco minutos; os ponteiros marcavam o seu atraso. Praguejava baixo olhando de relance para os lados, na esperança de ouvir o barulho irritante do metro que salvaria seu emprego.
Nada.
Já estava pra lá de irritado. Os cabelos esbranquiçados pareciam travar uma luta com o vento gelado daquela manhã de inverno. Nas mãos a papelada ameaçava voar de dentro das inúmeras pastas negras que já o incomodava com seu peso.
Eram assim todos os dias durante os dois anos precedentes; e seria o mesmo durante o resto de sua vida. Toda manhã levanta cedo – ainda sim, atrasado- esquece-se do café da manhã, corre para a estação em busca de um metro que ainda não tenha seguido seu caminho.
Entretanto aquele era sem dúvidas seu dia de azar. Geralmente consegue uma brecha e pega a ultima volta, conseguindo chegar em cima da hora. Desta vez nem sequer conseguiu ouvir o barulho do trem das sete e meia.
Jack Frost se considerava o homem mais azarado do mundo. Conseguira o emprego dos seus sonhos ainda sim era infeliz. Trabalhar na Companhia Merciless Dark* era o sonho de qualquer trabalhador de administração. Inclusive o dele.
Entretanto encarar todos os dias as sobrancelhas juntas e os olhos escuros de Pitch –seu estressado e amedrontador chefe- parecia não valer a pena, mesmo que fizesse o que mais amava.
Olhou novamente para o relógio. Sete e cinquenta e cindo. Dali a cinco minutos outra volta do metro chegaria. Suspirou. O vento novamente se fez presente mais intenso que o anterior trazendo consigo uma folha de papel que grudou em seu braço esquerdo.
Olhou confuso para o papel, mas logo esse seguiu voando para longe. Num piscar de olhos uma pessoa passou à sua frente de braços esticados, cambaleante, tentando pegar a folha que outrora empacara em seu antebraço.
A pessoa finalmente conseguiu pegar a folha desobediente a alguns metros de Jack. O homem olhava confuso até que viu quem era. Uma mulher. A mais bela que já vira. Com cabelos loiros presos em uma trança lateral, ela apertava os olhos azul cristais enquanto lutava para colocar a folha em sua pasta.
Ela se encaminhou para o lado dele e Jack sentiu sua boca secar. Quando estava do seu lado sorriu levemente os lábios vermelhos contrastando com a pele alva. Acomodou-se ao lado dele segurando firme a pasta em seus braços.
Jack voltou à posição inicial, encarando-a de relance, admirado. Ela estava envergonhada, vez ou outra soltava um dos braços para arrumar os cabelos platinados enquanto olhava para o chão sorrindo timidamente.
Permitiu-se sorrir também. O barulho do metro chegando preencheu o silencio entre os dois trazendo consigo outra ventania. Esta por sua vez, levou um dos papeis de Jack que tentou inutilmente pegá-lo antes que desse de cara com o rosto da bela jovem.
Assustado e constrangido, ele puxou o papel vendo-a com os olhos fechados e a boca comprimida. Lentamente ela abriu os orbes azuis e sorriu para ele. Tão logo desviou para o papel cobrindo as mãos tentando conter uma gargalhada.
Ele olhou-a confuso e levantou o papel rente aos seus olhos e viu do que se tratava. Uma mancha de batom vermelho marcada no campo esquerdo da folha. Gargalhou e se virou para ela, entretanto não a viu. Passou os olhos a tempo de acha-la entrando no metro e se sentando na janela.
Não conseguiu conter a tristeza que bateu em seu corpo. Suspirou ainda segurando a folha de papel com a marca dos lábios da mulher mais bela que já vira. Quase chorou ao lembrar que além de não ter tido tempo de perguntar-lhe o nome, também perdera o ultimo trem.
~~*~~
Merciless Dark 09h25min
Jack encarava o papel “beijado” sobre sua mesa, com tristeza. Pitch apareceu na sua frente com as sobrancelhas juntas, típico da sua expressão de raiva. Ha pouco levara um sermão do homem que agora deixava uma pilha de contratos na sua mesa e saía.
Olhou entediado para as costas do chefe e voltou-se para o que não fazia parte do seu trabalho. Assustou-se ao vê-lo voar em direção à janela seguindo o vento. Correu até ele conseguindo pegá-lo antes que saísse do prédio.
Maldito vento.
Seus olhos moveram-se do papel fugitivo para o prédio à sua frente. Mais precisamente em uma das janelas. Lá estava ela! Tão linda quanto antes. Sentada em uma cadeira olhava para frente.
Jack sentiu uma alegria pulsar em seu peito. Não importa tinha que chamar a atenção dela. Levantou os braços para fora da janela movimentando-os de um lado para o outro; nada. Colocou a mão sobre o queixo, pensando.
Olhou para a pilha de papel em sua mesa e foi como se uma lâmpada se ascendesse em sua cabeça. Rapidamente puxou um papel e moldou-o com precisão fazendo um típico aviãozinho de papel.
Voltou-se para a janela e mirou. Com impulso lançou o avião no vento que infelizmente não se fez presente quando ele mais precisou. A dobradura caiu prédio abaixo. Jack não perdeu tempo; pôs-se a fazer outro avião.
Depois de pronto, lançou-o como da outra vez, impondo mais força. Ele voou, mas não alcançou o objetivo batendo na parede ão lado da janela. Ele trincou os dentes e decidiu que não desistiria ate que chamasse a atenção da mulher.
Pôs-se a fazer outro aviãozinho... E outro... E outro... E outro... Mas todos falharam. Passou as mãos sobre os cabelos esbranquiçados em um gesto claro de nervosismo. Mas não iria desistir. Puxou outra folha da pilha que já estava pela metade, mas antes que chegasse a lançar o avião pela janela Pitch apareceu e arrancou-o de suas mãos.
Fechando a janela com força estreitou os olhos para Jack que apenas se manteve indiferente sentando-se em sua cadeira. O albino esperou seu chefe sair para continuar a sua desesperada tentativa de chamar a atenção da moça do prédio á frente.
Entretanto para sua infelicidade nenhum deles alcançou o su objetivo. Ele esticou a mão, pronto para fazer outro avião quando não encontrou nenhum. Os contratos haviam acabado. Bateu a mão no rosto como se fosse um completo imbecil.
Novamente olhou para a mesa vendo apenas um papel ali: a marca de batom vermelho reluzia sobre a folha branca. Suspirou. Era sua última chance. Não esperou, logo fez o aviãozinho mas antes que chegasse a lança-lo o vento outra vez atrapalhou seus planos levando o papel para longe.
Praguejou alto tampando o rosto com as mãos. Sua última chance...
Sua atenção foi direcionada para Pitch que outra vez estava na sua frente. Nas mãos do carrancudo homem uma arremessa ainda maior de contratos. Jack sentiu um fio de esperança em seu peito, mas que logo foi arrancada ao vê-lo jogar a pilha sobre a mesa e fechar a janela com mais força ainda.
Pitch fuzilou Jack com os olhos e fez um gesto de forca com as mãos claramente demonstrando o que aconteceria com ele caso voltasse a “brincar” em serviço.
Ele passou as mãos sobre os olhos. Sabia que teria que fazer de tudo para não perdê-la. Sentia que de algum modo deveria correr atrás dela, fazer o máximo que podia para conhecê-la. Mesmo que isso lhe custasse o emprego.
Jack uniu as sobrancelhas. Sem pensar duas vezes saiu correndo espalhando a papelada de sua mesa pelo chão do escritório. Sabia que ela já tinha saído do prédio, pois a viu saindo pela porta da sala onde estava.
Quando chegou à rua atravessou o trânsito correndo quase sendo atropelado, mesmo assim não se importando. Mas não a encontrou. Não conseguiu impedir a enorme tristeza que assolou seu coração.
Estava tudo perdido. Com as mãos no bolso, saiu andando sem rumo.
~~*~~
Ao longe em um beco na cidade, o chão estava coberto por papeis dobrados em aviões. Um deles com uma marca de batom se destacava. De repente um vento forte passou ali, levando todos de uma vez.
Todos pareciam dançar no ar e juntos foram sobrevoando assustando a todos por quem passavam. Exceto um que seguiu na direção contrária, parando apenas em um vaso de flor de uma bela floricultura onde uma moça de cabelos platinados estava.
Ao ver o avião foi impossível para ela não reconhecer a própria marca de seu batom ali gravado. Quando estava prestes a pegar o aviãozinho voou e ela sorriu decidindo a todo custo tentar pegá-lo.
Pôs-se a correr atrás do aviãozinho, se divertindo ao fazê-lo. Não sabia para onde ia, só sentia que tinha que segui-lo.
Não muito longe dali, Jack corria desesperado enquanto um “cardume de aviõezinhos de papel” parecia o perseguir. Ele não entendia. Claramente o vento estava contra ele. Outra vez!
Corria sem rumo, mas sabia que conhecia aquele lugar. Estava perto da estação de metro.
A loira ainda corria, se divertindo ao pensar que talvez o papel tivesse vida. Quando deu por si estava entrandoem um metrô e o papel continuava voando.
A altura Jack já estava dentro da estação, quando viu que um dos metrôs chegava. Parou de repente. As portas se abriram e de lá, saíra a moça que ele tanto lutara para chamar a atenção.
Os aviõezinhos de papel passaram voando por eles balançando os cabelos dela deixando-a ainda mais linda em sua visão.
Aos poucos eles caíram no chão e ela se aproximou dele com o aviãozinho — que outrora corria atrás — em suas mãos. Jack sorriu enquanto ela lhe entregava.
― Acho que... Isto é seu. ― A voz doce preenchera os ouvidos de Jack enquanto a olhava.
― Sim... Muito obrigado. ― Sorriu pegando o aviãozinho com uma mão e estendendo a outra para ela. ― Sou Jack.
Ela sorriu e apertou sua mão.
― Elsa. – Ela abriu os dentes brancos em um sorriso lindo.
Jack sentiu seu coração palpitar. Não sabia o que estava acontecendo, nem como ela chegara ali. Mas de uma coisa ele tinha certeza.
Teria que agradecer ao vento depois.
Fale com o autor