Paper Heart - Temporada Caça as Bruxas
1 Introdução
“A dor daquela noite é sempre ofuscada pelo brilho da Lua em seus olhos de fogo.”
- Deixem-me sair! – dizia já aos soluços pela pequena janela da porta do sótão, onde ficava meu pequeno quarto. Mamãe também chorava, sempre, desde que me entendo por gente. Sempre dizia que me amava que eu deveria me acalmar e ir dormir.
Era sempre assim, uma vez ao mês: eu chorando trancada no quarto, mamãe chorando no lado de fora e minhas irmãs chorando ao lado dela, tentando acalmar uma a outra, mamãe e eu e o estranho homem ruivo vindo aqui em casa. Tudo em uma mesma noite.
O homem ruivo sempre traz presentes, até pra mim. Nunca pergunta o “por que” a mamãe. Na verdade, aquele homem não me é estranho. Nunca falei com ele, nem nunca pude ver seu rosto, mas sei que ele é meu pai.
Um pai distante, mas meu pai.
Minha mãe sempre diz que é para me proteger, e que ele nunca viu meu rosto nem uma única vez desde que nasci. E eu acho que, na verdade, ele tem vergonha de mim. Não sei a causa, mas tenho certeza disso.
De toda forma, pouco depois dele entrar, eu vou até a janela, apenas para ficar olhando seu cavalo branco e os olhos alaranjados do homem que sempre vem com ele.
Esse home é alto, tem a pele branca e um cavalo tão escuro como o céu à noite. É tudo o que sei dele. Nunca vi o resto de seu rosto. Minha mãe diz que ele é importante, por isso não pode mostrar o rosto.
Toda noite ficamos assim: Eu na minha cama, que fica em frente à janela, com minha manta a volta do corpo e o diário no colo. Sempre desenhando... Os cavalos. E, bem, Ele: apenas me olhando. Algumas vezes (Ele) até desce do cavalo e fica sentado, apoiando as costas no muro em frente a nossa casa ou no banco “embaixo” da minha janela, me olhando. Ficamos assim até que meu sono vença a sangrenta batalha contra meu ser, e eu tenha que apagar as velas para ir dormir.
Também sempre durmo imaginando como é o rosto Dele e de meu pai. Todo sonho que tenho Ele está com um rosto diferente...
Mas só Ele.
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