Papel de Arroz
1 Único
Notas iniciais
Suas mãos tremulavam sobre o papel de arroz tão liso e branco quanto à pureza que um dia foi seu coração. Indescritivelmente, sua vontade de rasgá-lo em mil pedacinhos era demasiada inferior ao desejo de abraçar forte aquele papel – talvez, sem significado nenhum para outras pessoas – e ficar em silêncio por um instante, acreditando que o convite não era apenas uma festa... Era para vê-lo.
Suspirou. Um suspiro um tanto amargo que brotava de sua ânsia por vê-lo, por querer acreditar que ao menos um pouquinho daquele sentimento ainda restava dentro dele. Ao menos, um pouco do que um dia ele sentiu ainda estava lá, trancado em seu coração.
A verdade era que tudo que Matsumoto queria acreditar era que Ichimaru ainda gostava dela. E a melhor maneira de descobrir se isso era ou não verdade... Só indo naquela festa.
Festa? Ah, sim... É o convite de papel de arroz. Uma festa a fantasia elaborada numa estranha parceria da Soul Society e do Hueco Mundo. Isso só podia significar que taichous e traidores iriam ver-se uma vez mais... E ela ficaria apenas observando o modo com que ele agia.
Envolver-se já não era plausível.
- Matsumoto, está pronta?
A mulher abraçou junto ao peito o papel mais uma vez, pensativa. Quando se tratava de uma festa, ela era uma das primeiras pessoas a indagar se teria bebida, mas nesse caso, ela apenas indagava a si mesma num crudelíssimo silêncio se ele estaria lá.
Ao escutar o capitão bater na porta mais uma vez e chamá-la, ajeitou a roupa cuidadosamente e esboçou seu melhor sorriso falso, caminhando na direção do taichou e saindo de seu quarto. Histugaya olhou para ela com aquela fantasia de bruxo exageradamente decotado, corando leve logo em seguida e virando-se. O baixinho não era lá muito fã de festas, sobretudo uma que fosse relacionada ao Hueco Mundo e pessoas que fizeram mal a Hinamori, portanto estava o mais normal o possível, mesmo com a insistência de colocar ao menos umas orelhinhas de gatinho nele para ter uma fantasia legal.
O ambiente criado para a festa era relamente bonito, digno de quem construiu uma fortaleza como Las Noches ou como o Sereitei, pois o castelo construído em um lugar qualquer no mundo humano era perfeito e cabível a insinuação da noite estrelada com uma lua fina, num sorriso pequeno.
- Oe! Toushirou! Matsumoto! – acenou Ichigo na companhia de Rukia, Ishida e Orihime – Achei que não viessem!
- Viemos e estamos aqui. – disse a 10ª fukutaichou, sorrindo – Será que lá dentro tem sakê?
- Não sei, mas quero ver como está lá dentro... — Rukia sorriu leve, com sua amável roupa de diabinha, puxando Ichigo pela mão – Vem, vamos entrar!
A decoração do lado de dentro não deixava nada a desejar; muito pelo contrário, era exuberante e se encaixava muito bem na temática da noite. O Hall de Entrada tinha lustres grandes com lâmpadas que imitavam velas longas, iluminando muito bem o caminho que fazia o tapete vermelho levando para o Salão Principal do lugar. Nos cantos, ainda havia chapeleiros e cabideiros — feitos de mogno avermelhado e envernizado — aguardando os chapéus, casacos e bolsas, com belas curvas e atraentes desenhos.
- Matsumoto! – dizia Hisagi, aproximando-se dela na companhia de Kira – Que bom que veio!
- Eu não vou perder a chance de beber um pouco de sakê! – piscou a mulher, rindo leve – Kira, gostei mesmo dessa fantasia de vampiro, combinou com você.
- Ele disse que não ia vir, o forcei a estar aqui. – Shuuhei sorriu – E você, Matsumoto? Está bem?
- Claro, tem bebida aqui!
A mulher sorriu e roubou das mãos de Hisagi o copo de ponche de uva com maçã e champanhe, bebendo-o de uma vez só, se preocupando, por fim, em comer as frutinhas que estavam ao fundo do recipiente.
- Viram mais alguém conhecido?
- Sabemos que alguns estão por aqui... – Kira começou – Kurosaki com os amigos dele e a Kuchiki --
- Eles eu já vi! – interrompeu a mulher.
- ... Eu, Shuuhei... Parece que a Yachiru-fukutaichou já está dando trabalho na cozinha onde está sendo preparada a sobremesa. Kenpachi passou por nós ainda a pouco para resolver esse probleminha.
- Eu acho que só. Ah, tirando você, seu taichou... E Aizen, mas acho que você perguntava das pessoas da Soul Society, não?
Matsumoto deu de ombros, brincando com uma uva entre os dentes. Ela sorriu e pediu licença, devolvendo o copo vazio para Shuuhei, indo pegar uma taça de vinho ali perto, olhando as pessoas em volta.
Hesitou por um momento quando viu alguns Espadas ali perto, conversando despreocupadamente, mas não iria chegar muito perto. Se aquilo acabasse numa ordem de Aizen para se livrar mais rápido dos Shinigamis, ela e mais todo o resto estavam completamente desarmados – tirando Hitsugaya que insistiu em levar sua Zampakutou.
A festa começava a se tornar muito agitada, agora que outros taichous começavam a chegar acompanhados de alguns dos seus postos, como Kyouraku, que convenceu Nanao-chan a largar todo o trabalho e ir se divertir, Ukitake e Unohana, acompanhados de Isane, Kiyone e Sentarou, e Yumichika com Ikkaku – mesmo que Yumichika insistisse em não querer ir para ver pessoas feias naquelas roupas ainda piores.
Não que todos estivessem fantasiados, mas estavam gostando do ambiente, mesmo que a luz do Salão Principal da festa fosse escuro demais para alguém enxergar algo além de 3 ou 4 metros a frente do próprio rosto.
A mulher de cabelos levemente ruivos¹ suspirava, sentada num sofá espaçoso, conversando com alguns amigos sobre assuntos fúteis – era realmente agradável estar longe do trabalho num dia como aquele, pelo menos uma vez no ano. Ah, é claro, e não precisar beber sozinha.
Porém, levantou-se e deixou o copo vazio junto a outros 4 copos e taças, rumando para algum lugar em buscar de um banheiro, precisava lavar o rosto. É claro que o calor que sentia não era da bebida, mas do ambiente todo!
- Procurando algum lugar, Rangiku?
- O banheiro, Aizen. – disse, ríspida, mas sem faltar com o devido respeito.
- No andar de cima.
Ela o olhou por um instante, parecendo ainda querer acreditar que ele, com aquela cara tão suave e bondosa, fosse, na verdade, a maldade em pessoa, agora sem óculos e sem toda a formalidade do protótipo de pessoa boa, gentil. Ele não enganara somente à Hinamori, mas a todos, afinal. Sem distinção alguma.
Seus dedos finos alcançaram o corrimão da longa escadaria de mármore que levava ao segundo piso da construção. Seus pés, adornados por sapatos roxos numa tonalidade escura e bela, caminharam cuidadosamente, pisando de degrau em degrau com sua elegância costumeira. Levantada um pouco do vestido que, mesmo não muito longo, precisava ser erguido pela altura dos degraus construídos.
A vista da metade da escadaria em relação à festa que acontecia no andar de baixo era realmente muito bonita. Podia apreciar tranquilamente as cores se misturando com o tapete avermelhado e as luzes amareladas, ficavam bonito.
Além disso, olhando dali, podia ver muito bem e reconhecer cada uma das pessoas que estavam ali e que já convivera por alguns segundos, ao menos... Mas nenhuma delas era ele. Tinha uma imensa vontade de perguntar a Aizen onde ele estava, mas sabia que seria pior perguntar. Seu coração iria saltar pela boca só de ver a expressão de Aizen e aquele típico sorriso esnobe que surgia no canto dos lábios do homem, querendo quase cuspir um “você ainda ama ele, não é, Rangiku?”
Balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos dali e retomando sua caminhada para cima, pelos degraus refinados, que de fato lembravam o estilo de Sousuke. A parte de cima, o segundo andar em si, não era muito diferente do debaixo, tirando a imensidão de portas pelo corredor muito bem iluminado.
Ótimo, não havia uma pessoa ali para indicar qual daquelas portas era o banheiro. E Aizen nem para passar a informação completa...
- Perdida, Rangiku?
Por um momento, perdeu o pulso e a respiração, segurando-os forte. Aquelas voz que vinha de trás de si... Aquela voz tão doce e tão amarga ao mesmo tempo...
- Gi-Gin?
Virou-se e fitou-o, apoiando a mão levemente na parede ao lado, com os olhos arregalados e uma expressão duramente pesarosa pro tê-lo encontrado assim... Ou ter sido encontrada por ele, dessa forma.
- Rangiku... – murmurou enquanto caminhava até a mulher – Por que está com essa cara? – ele sorriu com um pouco de sadismo nos lábios – Estava me procurando até agora?
- Por que... Eu estaria?
- Quem deve me responder isso é você.
Ela virou mais o rosto, olhando fixamente naquele rosto, vendo-o aproximar-se mais e deixá-la entre seus braços, encostada na parede. Quando Gin levou uma das mãos a seu rosto, Matsumoto fechou os olhos, torcendo o rosto numa face de dor. O toque de Gin estava se tornando doloroso, quase como uma queimadura forte que não conseguia suportar.
- Pa... Pare...
Gin sorriu mais e passou o nariz pelo pescoço dela, aspirando seu cheiro como há muito tempo não fazia; era simplesmente embriagante aquele perfume forte e tão característico que ela usava há anos.
Matsumoto tentava não se dar por vencida, mas começava a se tornar difícil resistir. Apoiou as mãos, espalmando-as em seu tórax, no ímpeto de afastá-lo, mas teve a cintura imediatamente abraçado por ele, que não hesitou em aproximar os lábios dos seus, deixando-os fazerem uma caricia mútua e leve antes de beijá-la.
E então, a mulher que antes queria resistir a tudo desde que soubera da traição de seu amado... Já não conseguia pensar em mais nada a não ser em suportar a queimação que era ter Gin por perto apenas para sentir o sabor de seu beijo misturado ao álcool de sua própria boca.
Aquele podia ser um beijo de paixão, mas Matsumoto sabia que seria apenas o beijo de adeus que não dera antes. Seria, apenas, o beijo de despedida que não pudera partilhar com ele antes de tudo, antes de qualquer coisa e antes de seu mundo começar a cair em pedacinhos sem remendos.
- Rangiku...
- Por favor, não diga...
Seus olhos se fecharam, fazendo uma força muito grande para conter as lágrimas que beiravam a escorrer e machucar seu rosto, tão dolorosamente quanto o toque da mão de Gin. Ela desviou o rosto, mas teve seu queixo segurado por ele, que a forçou a olhá-lo diretamente.
- Isso não é um adeus... Não posso dizer adeus justamente à você.
- Então não diga... Simplesmente, não diga! Eu não sei porque você tinha que trair todos dessa forma! Por que, Ichimaru Gin?
Ele ficou em silêncio por um instante, observando aquela solitária lágrima escorrer por sua bochecha e cair por seus lábios. Afastou-se um pouco da mulher, que abaixou o rosto, desolada, e suspirou, segurando sua mão e acariciando-a.
- Matsumoto. Você acredita em mim ainda?
- Não sei. – respondeu de imediato.
- Lave o rosto e volte para a festa. Se for melhor para você, me esqueça. Mas acho que você sabe que vamos nos ver ainda.
Ela soltou um suspiro baixo, levantando o rosto e fitando-o uma última vez, antes de caminhar apressadamente para as escadarias. Porém, antes que conseguisse alcançar o segundo degrau, teve o braço segurado por ele, que apenas sorriu com aquela maneira costumeira e roubou-lhe um selo leve, virando-se e voltando a subir para o andar de cima.
Seu coração, mesmo que despedaçado com as palavras cruéis dele, gostava de vê-lo e não podia evitar sentir-se feliz por tê-lo beijado num beijo não de despedida, mas de até logo. Porque sabia que Ichimaru pode não cumprir promessas da maneira certa, mas as cumpria a qualquer custo.
Ao alcançar o primeiro andar, alguns lhe perguntaram o motivo de tanta demora, outros apenas sorriram e começaram um novo assunto. Mas, como sempre, não deixou que ninguém descobrisse o verdadeiro motivo da demora, aquele seu sorriso habitual e bom humor quase sempre embriagado eram o melhor que tinha a oferecer.
Depois, ao fim da festa, já de volta ao Sereitei, sentou-se sobre seu futon e olhou para fora da janela, olhando o céu estrelado mais uma ultima vez. Então, infantilmente, abraçou o convite de papel de arroz.
Quem sabe, não receberia um...
Mesmo que passassem cem anos até a chegada do próximo convite.
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