Paparazzi
2 Um Rascunho de Superstar
Notas iniciais
Os portões negros com miúdos detalhes nos intervalos das grades foram abertos. Os alunos se amontoaram a fim de chegarem o mais rápido possível na próxima entrada de acesso à instituição Randolph Hearst, que era precedida pela escadaria de mármore sem cobertura. O colégio fora fundado no final o século XIX, logo havia fortes características pertencentes àquela época.
Bonnibel segurava a sombrinha rosa e desviou das depressões no concreto acumuladas com água, saltitando suavemente, como uma bailarina. Não tinha pressa porque estava protegida, preparara-se para o tempo, embora tivesse acordado com o céu claro. Sobre isso, refletiu que as circunstâncias mudam de uma hora a outra. Esperava que a descoberta se aplicasse em sua rotina anódina.
A garota subiu a escadaria, na qual vários arbustos e orquídeas a emolduravam, e ficou sob o extenso alpendre retangular, suspenso por duas colunas gregas em cada extremidade, para fechar a sombrinha. Em seguida, continuou o percurso: passou pelo arco romano, adentrando no saguão decorado com obras visuais de estudantes, e acelerou a caminhada à classe. Ela foi até seu lugar, que era o quinto da fileira escorado na vidraça, sentou-se e permaneceu imóvel perante os indivíduos. O coque mantinha os fios de cabelo bem esticados, mas alguns não foram presos e, obviamente, bagunçaram o penteado.
O sinal tocou, mas deu de ombros, pois fitava Marceline Abadeer abraçando Finn Mertens. O loiro de olhos safira era seu antigo paquera. Bonnibel lia histórias colegiais como se fossem um conto de fadas, e Finn era o príncipe que nunca a amaria. Nunca esteve tão confusa em relação aos sentimentos. Odiava como a morena pálida tinha facilidade em conversar com quem mais queria e, então, não gostaria de ser Marceline por conta do que pessoas como si própria fariam com ela se pudessem. Porém, caso pudesse substituir alguém, ocuparia o lugar dessa estrela, todavia intencionada de usufruir da beleza e, em contrapartida àquela ideia, fazer contato com quem desejava.
O sujeito entrou na sala e ordenou aos estudantes para se assentarem. Ele era jovem, esguio, possuía cabelo castanho até os ombros, onde as pontas curvavam-se para fora, e usava óculos arredondados, como os de Harry Potter; era um amante da literatura mágica e fictícia.
– Bom dia a todos. É uma honra recebê-los após as férias. Sou Simon Petrikov, professor de História desta série. Antes de eu falar algo a mais, poderia o novo integrante vir até aqui se apresentar à turma?
Os alunos do fundo cochicharam e olharam ao redor, procurando a figura novata. Ninguém a encontrou. Simon franziu o cenho e a chamou pelo nome. Esta se levantou enrubescida da primeira carteira.
– Olá, eu sou James... – depois, aproximou-se de Petrikov – Já posso ir?
A turma ouviu a pergunta, inclusive Bonnibel, e riu. O professor, irritado, pediu silêncio.
– Não, James. Fale mais sobre tu, como de onde vieste, o que esperas aprender...
– Sr. Petrikov, lamento em interrompê-lo, mas isso não é relevante para nós e muito menos para esse garoto. Se quisermos saber de onde ele veio, basta ir a sua rede social. Agora, se ele está num colégio, pela lógica espera aprender as ciências. Enfim, poupe nosso tempo. – disse uma voz feminina.
O ano letivo começou a partir desse momento. Marceline sempre discutia com os professores no primeiro dia de aula, e, consequentemente, ninguém escapava das punições.
– Não irei perguntar seu nome porque perderei meu tempo, mas o que importa é que todos farão um trabalho sobre a Guerra Fria, desde os motivos, as armas usadas até as personalidades destaques. A entrega deve ser feita no nosso próximo encontro, e só aceito trabalhos manuscritos com no mínino sete folhas. – suspirou e acomodou-se na cadeira de couro – Abram o livro na página doze. Leiam os textos e façam os exercícios propostos a respeito deles na página trinta. Quero tudo pronto antes do sinal bater. Caso tiverem uma dúvida, venham até minha mesa.
Os alunos obedeceram, entretanto não estavam bravos com a atitude de Marceline, pelo contrário, acharam-na engraçada. Bonnibel era uma exceção. Sentiu-se injustiçada, pois se fosse ela agindo daquela forma, muitos iriam a repreender.
Minutos depois, a ruiva foi até Simon, que interpretou um enunciado e, sem querer, deu a resposta. Infelizmente, ela não prestou atenção, pois encarava seu maravilhoso rosto. Por mais que tentasse entender suas palavras, era inevitável não notar o movimento dos lábios e os gestos expressados pelo professor. Bonnibel, assim que reparou no que pensava, afastou-se da mesa cambaleando. Petrikov segurou sua mão e indagou se estava bem, sorrindo de maneira encantadora, e a garota assentiu.
xxx
A ruiva foi ao refeitório. Estava sozinha na minúscula mesa de madeira, onde ficava desde o início de seu currículo escolar na instituição, exercitando a mente, recordando das matérias dadas nos horários anteriores. Assim que avistou Marceline próxima a uma pilastra, não conseguiu se concentrar. Dois meninos e três garotas a rodeavam, esboçando sorrisos falsos. A morena encarou Bonnibel três vezes, mas esta desviou o olhar imediatamente. Insegura, tirou o celular do bolso e voltou a observar a imagem que fotografara no ônibus; O decote e as curvas distinguiam-se graças à camiseta preta, e as íris eram negras, quase se misturavam com a pupila. De repente, Beatrice assustou a jovem.
– Bonnie, por que tens uma foto da Marcy?! – questionou surpresa.
– Eu sei que você é minha melhor amiga, só que certas coisas são pessoais. – bufou, guardando o aparelho eletrônico.
Ambas eram de salas diferentes, mas se conheciam desde o primário. Algumas mechas do cabelo mel de Beatrice eram azuladas. A menina era baixinha e viciada em video games, entretanto tinha grande nível intelectual em física quântica.
– Como foi sua aula? – olhou ao redor, desanimada.
– Uma droga. A senhorita Abadeer fez questão de ferrar com o pessoal, que a ama demais para se irritar.
– Entendi o que está tramando. A Marcy aprontou muito contigo ano passado, porém é preciso parar de querer vingança... – disse sentando-se em frente à ruiva, mordiscando uma maçã – Em breve estaremos numa universidade. Aguente um pouco mais as brincadeiras.
Bonnibel retrucou. Ela não ligava para as implicâncias. Mas, gostaria de mudar sua vida. Ela queria ser como esses populares. Eles pisavam muito na bola, e continuavam sendo idolatrados. Infelizmente, não existia uma receita para ser como eles. A jovem abaixou a cabeça e a ergueu, encastelando as lágrimas. Estava cansada da família. Não podia ser ela mesma. Não era aquela garota certinha que Beatrice estava vendo. Era entediante viver assim: sendo obrigada a fazer os deveres dos outros, para não ser vítima de chacotas, e obedecendo perfeitamente aos pais. Talvez, se mudasse de forma drástica, todos teriam de aceitá-la.
– Sou contra tua decisão, que não posso interferir. A justificativa é bem redundante: não é minha. Avisarei para tomar cuidado. Não esqueças quem são teus verdadeiros amigos. Não vou oferecer meu ombro a ti, pois seria hipocrisia.
Beatrice semicerrou os cílios e estalou a língua no céu da boca, murmurando “boa sorte”, enquanto sumia em parte da multidão em pé. Bonnibel ignorou o que escutara e sentiu-se abandonada: sua melhor amiga não a apoiou. Ainda determinada, enxugou as lágrimas e, quando se levantou, viu a morena rindo para si de maneira debochada. A garota percebeu o sangue ferver dentro das artérias, por isso foi ao banheiro lavar o rosto, esfriar a cabeça.
O espelho mostrava o péssimo reflexo da ruiva. Listras pretas falhas escorriam pelas bochechas pálidas. Os olhos esverdeados perderam o brilho – e não tinham mais motivos para brilharem. A gritaria entalada na garganta consumia as energias que a prendiam a cada batimento acelerado do coração, que estava se despedaçando. “Não há como piorar...” foi o que sussurrou ao lançar a face contra a parede. Para sua decepção, ouviu ruídos da porta do banheiro. Após o barulho, um semblante vinha em sua direção.
– Olá, Jiloba. Soube que você anda praticando seu hobby por aí. – falou Marceline, em tom de desprezo.
– Abadeer, em primeiro lugar, meu nome é Bonnibel, e em segundo, o que queres dizer com hobby? – virou-se para a morena, limpando os vestígios de choro.
– Não se finja de sonsa. Você é tão boa no raciocínio quanto em interpretação. – sorriu sem exibir os dentes, abeirando-se da menor.
A ruiva engolia em seco, até ser prensada na fria parede azulejada pelos braços gélidos da morena. Ela nunca esteve a uma distância como a essa de Marceline. O perfume amadeirado não era agradável a Buckholz, e esta concluía que o doce devia dar a mesma sensação a Abadeer.
– E-eu... – balbuciou, mas a rebelde a cortou pressionando o dedo indicador contra a sua boca.
Marceline deslizou a mão esquerda sobre o abdômen de Bonnibel até atingir o bolso da calça jeans, onde tapeou e puxou o celular.
– Pelo que comentam, sua fotografia têm boa qualidade. É uma pena que esta belezinha, a partir de agora,... – apertou o objeto com força e o quebrou – Não terá essa característica.
A ruiva estava perplexa, arfando de raiva.
– Espero que tenha aprendido a lição. A propósito, belos óculos. – riu ironicamente e saiu do banheiro, deixando Bonnibel parada, todavia com mais certeza do que faria adiante.
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