Papai faça-me sonhar
1 Não deixe a magia do natal se acabar.
Notas iniciais
Na minha época de menino... humilde, pequeno, ou mesmo mais grandinho, embora jamais tivesse ganho quaisquer brinquedos de meus pais, tios ou avós, sentia a magia do natal nos almoços diferentes, refrigerantes ou até mesmo no pouquinho de vinho que meu pai deixava a gente degustar, por ocasião de tal festa especial.
A magia se registrava também nos mais belos reclames comerciais que apareciam constantemente nas emissoras de rádio ou tevê (pra quem tinha esse privilégio de época). Incluindo o que mais marcava, de uma famosa rede de tecidos, que dizia:
Dezembro vem o Natal…
Os presentes mais bonitos…
As lembranças mais humanas…
Pra seus entes queridos todos vão comprar…
Nas Casas... Pernambucanas…
Que em todos os lares, a paz seja total…
E mais os nossos votos de um feliz Natal.
Aos poucos (hoje eu diria: rapidamente), o tempo foi passando e a cada ano eu me tornava menos criança e a magia do natal foi a cada ano, mais, se apagando em meu ser, que se fazia homem responsável e demasiado ocupado para tais comodidade insignificante. E com isto, toda a tal magia natalina se tornava mais, apenas um feriado qualquer, onde servia apenas para ter um dia de folga do trabalho e um tempinho a mais ao lado de nossos entes queridos.
Porém, por tradição ou mesmo por distração, decidi que deveria enfeitar a pequena árvore pinheiro de frente à minha casa, incluindo suas paredes que se fazia frente àquela rua de quase nenhum movimento.
Depois de tudo preparado e já confirmado seu funcionamento, bastava esperar a noite que só chegaria por volta das nove horas, devido o horário de verão do sudeste brasileiro.
Parece que demorou mais do que o costume, mas, enfim, o Sol se foi, a noite chegou e por alguma sorte, até mesmo a lâmpada da iluminação pública que iluminaria tal local, não se ascendeu naquela data.
Apenas eu e meu pequeno filho primogênito, aos seus singelos seis anos de idade, estávamos à frente de nossa modesta casa naquele horário.
Acionei o interruptor e imediatamente toda a pequena árvore e as paredes da casa se iluminaram, com a tonalidade das diferentes cores das pequenas lampadinhas que, em poucos segundos começavam a piscar, mostrando toda sua beleza.
E como em gesto mágico, meu pequeno filho, saltando mais do que o serelepe que sempre fora, começou a gritar ao máximo que seus pequenos pulmões permitiam:
— Feliz natal. Feliz... Feliz... Feliz natal a todos.
Seus fortes gritos atraíram a atenção, primeiramente de minha esposa, que, com meu outro filho, caçulinha em seus braços, correu até a rua. O pequenino, com pouco mais de um ano de idade, forçou para que descesse ao chão e com suas perninhas frágeis, começou a correr atrás do irmão e a imitá-lo gritando na mesma melodia:
— Feliz natal. Feliz... Feliz... Feliz natal a todos.
Tais gritos chamaram a atenção de alguns de meus vizinhos, que se aproximaram para ver o simples gesto, em que algo tão insignificante para nós, adultos ocupado demais, pode representar na vida de nossas crianças.
E assim, pude perceber que os gritos ininterruptos de meus dois pequenos filhos queriam me dizer que:
“papai, se a magia do natal que existia em sua infância se esgotou em ti, não deixe que ela se extinga também em nós e em nossos futuros filhos”.
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