Pangeia
1 Capítulo I
Notas iniciais
Os peixes estavam pesados na cesta. Foi arriscado ter ido até lá, mas ela precisava dar aquilo para quem amava. "Algumas vezes é preciso correr riscos. É melhor sofrer sabendo que você tentou fazer alguém sorrir." Era o que a mãe dela disse pouco antes de morrer. Nix ainda lembrava do sorriso gentil, até muito bem cuidado em relação aos outros companheiros que viviam no Subúrbio, dos olhos castanhos, do cabelo que era longo e muito bem cuidado, um privilégio que poucos tinham naquele lugar. Todos diziam que ela parecia ser da Colônia, a parte rica. Desde que Pangeia, o único país, foi criado, todos os outros países viraram os chamados "Postos", que eram organizados por seu próprio "Dominium". Ali viviam todo tipo de pessoa. Mas não viviam juntas. A Colônia era o lugar dos ricos, dos nobres, e de qualquer um que tivesse dinheiro, mesmo que não muito. O Subúrbio era onde ficavam os pobres, os miseráveis, e aqueles que roubavam para comer. Ali se propagava todos os tipos imagináveis de doenças. Mas não era só isso. Eles eram muitos, e o governo não gostava disso. Em "nome do progresso", pegavam as pessoas que viviam ali, e faziam coisas pior do que matar. Usavam seus corpos e suas vidas, como se fossem descartáveis. O que faziam com eles era pior que qualquer doença que existia na região. Alguns tinham a pele arrancada, e eram mantidos vivos, com o pretexto para testar um novo remédio que restauraria a pele, outros mutilados sem qualquer tipo de anestesia, apenas para testar um remédio que prometia acabar com a dor humana. Nenhuma das pessoas, jamais voltou dos experimentos. Haviam boatos de que eles os incineravam, ou que os jogavam em qualquer lugar. Nix conheceu poucos que tenham sido pegos, nenhum muito próximo. O clã que eles viviam era forte. Um dos mais fortes em raio de 30 km. Mas só diminuía. Na época dos seus avós, tinha em média 200 pessoas, agora só contavam com 50. Talvez o governo tenha conseguido. O Posto 56, como era chamado o lugar onde vivia, tinha cada vez menos pessoas. E o número caía ainda mais no Dominium 56. O Interior já não tinha mais pessoas, apenas pouquíssimos camponeses que plantavam para sobreviver, e vendiam uma pequena parte para o Dominium. Mesmo que muitos tentassem, os guardas do Dominium guardavam qualquer lugar com saída para lá.
Era dos riachos limpos do Interior que viam os maiores peixes, e também mais frescos. Todo o clã estava se alimentando dos restos podres já fazia mais de um mês.
Nix levantou cedo naquele dia. Estava frio, ela usou seu casaco preto, com um capuz. Era melhor usa-lo, assim ficaria mais difícil de reconhece-la. Usou botas de couro, forte, e uma calça também preta. A blusa que usava era da sua mãe. Era preta, tinha mangas compridas, mas era de tecido leve. Eram muito limpas e bem cuidadas. Era incrível o que Dona Guina conseguia fazer com as roupas sujas e rasgadas que eles a davam. Elas eram recuperadas onde os ricos despejavam suas roupas. Algumas em ótimo estado, mas descartadas, por não atender mais aos caprichos deles. Depois, Dona Guina os restaurava, de forma milagrosa.
Quando saiu de casa, silenciosa, não tinha ninguém na rua. O sol, que quase não era visto, estava apenas começando a nascer, mas já era possível ver que o céu estava nublado. Houve um comunicao no dia anterior, que dizia que a chuva ácida viria às 5:00 horas da tarde. Ela precisava ser rápida.
Andou toda a rua do clã, até chegar a rodovia.
Estava meio acabada, deserta. Era o momento perfeito. Atravessou-a. Mais para frente, depois de um pedaço de terra batida, encontrou uma grade. Um pouco à frente, podia ver o depósito. Era um galpão grande, mas não alto. Isso era muito bom. Ela estudou o lugar por mais de uma semana. Se arriscando, atravessando a estrada e observando a vai e vem dos guardas. Decorou seus horários. Recebiam carregamentos do Interior toda sexta-feira. Aquele dia seria peixe, e eles não perceberiam se alguns sumissem. Na verdade, nem sumiriam, seriam retirados da pilha de peixes estragados que iriam para o lixo. A maioria dos peixes era muito melhor do que aqueles que ela estava acostumada a comer.
A grade era elétrica. Um dia, espiando por ali, viu um passarinho bater nela e cair eletrocutado no chão. Ela teve muita pena, era difícil ver animais, pássaros eram raros.
Olhando um pouco, viu que o guarda estava dormindo. Os estúpidos não tinham o bom senso de ficar acordados, ou pelo menos colocar câmeras onde ficava a pilha de "lixo". Do lado de fora, as câmeras só existiam na entrada e na saída do depósito. Se ela entrasse pelo portão lateral, ao lado de onde os peixes ficavam, as outras câmeras não conseguiriam vê-la, e nem se virariam.
Nix andou até o portão lateral, ela não tinha o código de identificação que a maioria das pessoas do subúrbio tinham. A mãe dela conseguiu escondê-la quando o pessoal do governo veio fazer a identificação dos bebês. Ela não existia para o governo. E o portão não sentiria a presença de ninguém. A segurança não seria acionada. O problema, é que ela não podia escalar a grade, mas também não conseguia abrir o portão. Eles só eram abertos com as digitais, ou reconhecimento facial dos guardas. Mas diziam, que a maior qualidade de Nix era a inteligência. Algumas vezes, ela tentava acreditar nisso, para ver se não virava verdade.
O guarda que dormia ali era chamado Alib. Era o mais burro de todos eles. Ela percebeu, que como não tinham preocupação com o "lixo", o colocavam ali. Observando os guardas, conseguiu a senha sistema de registro deles. Existia um computador do lado de fora da grade, assim, alguém importante que ali chegasse, poderia acessar a ficha de qualquer guarda antes de falar com ele.
Nix caminhou e escreveu a senha. Era estúpido, mas a senha era "4151391492115". O que era muito óbvio. Quem trocaria as letras de "Dominium" por sua ordem no alfabeto, e colocaria isso como senha do sistema? Isso fazia Nix acreditar que as pessoas da Colônia não eram inteligentes.
Quando ela digitou a senha na tela do computador transparente e de teclas azuis, digitou o nome do guarda e viu sua ficha.
"Alib Tubskan: ID: 23489
Idade: 24
QI: 85
Transtorno de infantilidade."
Nela, até se dizia o tipo sanguíneo, família e toda a história de Alib. Mas aquilo era tudo que ela precisava saber.
Aproximando-se do portão, gritou:
"Alib Tubskan!"
O guarda acordou com um pulo. Foi até o portão vê-la. Antes que pudesse falar algo, Nix se adiantou.
"Eu sou da Ordem Primeira do Dominium e vim checar o que vocês fazem com o lixo aqui."
"Ordem Primeira..." disse Alib, com tom de dúvida.
"Sim, eu sou fiscal de lá. Se tem dúvidas, olhe meus braços. Não tenho marcas. Sou da Colônia."
"Você é fiscal?" ele parecia querer confirmar. Tinha um tom infantil em sua voz. "Por que você não abre o portão sozinha?"
"Porque sou fiscal nova, não tenha nome no sistema." ela tentou pensar em algo melhor para dizer. Ele parecia um pouco mais inteligente do que Nix havia previsto. Mas se fosse inteligente de verdade, teria perguntado-lhe porque ela não entrou pelo portão da frente. "Se não me deixa entrar como fiscal, me deixe entrar como cidadã. A lei disse que qualquer Colono tem o direito de saber de onde, e como vem a comida que consomem, o que e feita com ela."
Ele olhou pro céu, e pensou por um tempo.
"É, pode entrar" respondeu
Entrando ali, ela sentiu que a terra daquele chão era a mesma da do lado fora da grade. Ajeitou o capuz, para que cobrisse bem o rosto, e não deixasse nem mesmo o cabelo de fora. Caminhou até a pilha.
"Será que você pode sair?" disse para Alib quando percebeu que ele não sairia de perto dela.
Ele soltou um pequeno "Ah" de desculpa, e saiu. Nix viu ele entrando no depósito. Era questão de tempo até que aquilo chamasse atenção dos outros guardas.
Ela abriu a mochila. Iria servir de cesta. Jogou na pilha os peixes podres que coletou do lixão, e pegou os peixes bons e quase frescos dali. Depois de encher a cesta com os peixes novos e pesados, digitou o código de Alib no computador, e abriu o portão. O código pode substituir as digitais ou reconhecimento facial de vez em quando.
Quando já tinha atravessado a rodovia, viu alguns guardas um pouco confusos perto da pilha de peixes. Ela riu.
Para que não ser seguida, passou por dois prédios cinzas, corroídos e abandonados. Existia um muro entre o segundo e o terceiro, que ligava os dois. Com muito cuidado com a cesta, pulou-o.
Dali, caminhou por um pequeno labirinto, até chegar ao prédio que queria. Ele tinha vários panos até muito coloridos nas janelas. Estavam secando com o vento quase escasso.
Se aproximando mais, viu Dona Guina próxima a um fogão improvisado.
"Dona Guina? Trouxe um presente"
"Espero que seja comida. Não vamos durar muito com essa. O filho daquela do prédio grande vomitou muito hoje de manhã, até sangue. Por que você está rindo?"
Nix tinha um sorriso não apenas de felicidade. Mas te satisfação consigo mesma.
Apoiou a mochila em algumas madeiras que imitavam uma mesa. Quando viu os peixes, Dona Guina não conseguiu segurar a gargalhada. Ouvi-la fez Nix esquecer toda a angústia e medo. Ela até conseguia ignorar a pobreza do cômodo quase vazio, apenas com uma mesa e um fogão improvisado. Do cinza mórbido das paredes, do cheiro forte de peixe podre, do frio.
"Espera, onde você conseguiu isso?"
Nix soube nessa hora que não poderia mentir. Contou a história para Dona Guina. Ela ouviu atentamente.
"Menina, você sabe que você é muito inteligente?" Dona Guina deu um sorriso de lado. Ela era negra, e tinha por volta de 50 anos. "Mas não pode se arriscar tanto. Vou tentar achar um jeito de mentir para eles. E chame as garotas da vila, vou precisar de ajuda aqui, com tanto peixe."
"Eu posso ajudar"
"Você é um desastre para esse tipo de coisa. Deus te deu outros dons"
Nix riu.
"Tudo bem"
Andou até encontrar algumas meninas e meninos da idade dela, que ajudariam Dona Guina a preparar o peixe. Junto com elas, achou Olga e Guilherme. Os dois eram filhos de Dona Guina. Eram gêmeos, e albinos. Apesar disso, tinham um boa visão em comparação ao tio deles, que nascera também albino, e quase cego.
Nix contou para eles tudo o que aconteceu. Eles eram seus melhores amigos.
"Não, você deve ter sido a primeira pessoa do subúrbio a invadir um lugar assim!" disse Olga. Ela tinha prendido o cabelo cacheado em um rabo de cavalo, e usava roupas brancas.
"Você não vai mais fazer isso né?" perguntou Guilherme. Ele estava vestido com roupas parecidas com as da irmã. Eles amavam fazer isso.
"Não sei, também, foi só o lixo do depósito" a supervalorização dos atos de Nix a deixavam irritada. "Tenho que ir"
Menos de uma hora depois, Dona Guina tinha magicamente conseguido preparar os peixes. Todos do clã se juntaram no maior prédio, e começaram a comer.
Nix percebeu que era o primeiro peixe frasco que comia em toda sua vida. Provavelmente, era o primeiro de muitos ali.
"A chuva vai começar em 5 minutos" Nix virou-se e viu Olga e Gui na sua frente. "Você não ficou brava com a gente né?" perguntou Olga
"Não, claro que não. Só precisava de um tempinho sozinha"
"Ah" responderam os dois
Os três se sentaram e conversaram pelo que pareceram horas. As gargalhadas de todos, mas principalmente as de Olga e Gui, a deixaram muito mais feliz que todo aquele peixe. Ela observou seu pai chegando. Ele estava um poco sujo. Usava uma calça jeans e blusa azul, com botas de couro. Ele chegou perto dela e sussurrou:
"Estou muito orgulhoso do que você fez" ele abriu um sorriso sincero. Seus olhos azuis quase transbordavam as lágrimas. Nix passou a mão por seu cabelo muito curto. Abraçou-o e disse:
"Obrigada" ela disse isso com sinceridade, apesar de preferir que seu pai não soubesse de nada. Ela não sentia bem compartilhando seus segredos com todos. Dona Guina cuidou dela como se fosse uma mãe, lhe ensinou tudo, ou quase tudo o que ela sabia. Olga e Gui são seus companheiros desde bebê. Seu pai, sempre foi frio e distante. Ela nunca entendeu isso, até o dia em que percebeu ter puxado isso dele.
Toda a cena de paz foi interrompida em segundos. Não pelo barulho da chuva que acabara de chegar, mas pelo barulho de vários guardas armados, com roupas brancas e capacetes entrarem onde estava o clã. Muitos gritaram, muitos correram, tentavam sair por vários lugares, mas a saída estava cheia deles. Tentavam subir as escadas, chegar ao andar de cima, mas eles eram muitos guardas e nem todos do clã escapavam.
Nix se viu sozinha na correria. conseguiu correr até a porta e se esquivar dos guardas, mas quando chegou do lado de fora, quando seus pés tocaram a areia, viu um guarda na sua frente. Ela quase escapou, mas ele jogou uma espécie de fumaça no seu rosto, e o mundo começou a girar, girar tanto, que Nix caiu no chão. Depois de alguns segundo o mundo começou a diminuir seus giros, até que nada existisse mais.
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