Pandora's Box
7 Trem
Notas iniciais
Desci da parte de cima do beliche, peguei minha mochila e fui até o banheiro.
Primeiramente me olhei no espelho, e vi que meus olhos estavam com uma expressão mais cansada do que nunca, lavei meu rosto com a água gelada que saía da torneira em jatos fortes e me senti um pouco mais desperta.
Tirei o pijama que estava usando e coloquei um vestido com tonalidades brancas, vermelhas e azuis. Lembrava o design de roupas de marinheiro, mas com um avental e babados na barra. Também prendi as mechas que ficavam do lado direito da minha franja para não ficarem caíndo nos olhos e me atrapalhando. Fiz o resto das coisas que precisava, e saí do banheiro.
Pandora já havia ajeitado a cama que eu tinha dormido naquela noite e estava me esperando na porta do quarto.
"Você demora demais Yoshino." — falou ela meio emburrada.
"Não demoro não, você que é rápida demais." — falei rindo enquanto bagunçava o cabelo dela.
"De qualquer forma, precisamos ir logo, o Haru está preparando algo para comermos antes de partirmos." — falou ela enquanto saía do quarto dando pequenos saltos.
Ela devia estar achando a situação um tanto quanto divertida, mesmo sendo realmente grave e perigosa...
Sentei na mesa junto dela. Aquela sala parecia ainda mais bonita durante o dia, tudo mais limpo e claro, a casa tinha uma decoração de muito bom gosto.
Não demorou muito para as portas giratórias que ligavam a cozinha à sala de jantar se moverem e a figura de Haru sair de lá com duas bandejas nas mãos, trazendo mais uma quantidade absurda de fatias de bolo.
Ele estava com a mesma roupa que tinha usado ontem, com exessão de sua blusa, que antes azul clara, agora era laranja. Sua máscara estava pendurada no pescoço, o que permitia ver um sorriso estampado no rosto dele.
"Yaay, bolo!" — falou Pandora alegre.
"Tão animada já de manhã?" — falou ele dando pequenos risos — "Oh, bom dia, Yoshino!"
"Bom dia." — falei abrindo um sorriso.
"Vamos, sirvam-se." — falou ele — "Desculpem por ser algo doce de novo, mas não sei cozinhar, e só tenho isso que comprei ontem de manhã."
"Não precisa se desculpar, isso é perfeito." — falou Pandora já avançando em uma das fatias.
Haru sentou na cadeira do meu lado e abriu o mapa, e assim, com uma caneta vermelha, verificou e traçou a nossa rota de hoje.
"O trem irá partir às nove horas em ponto. Faltam doze minutos para às oito já, precisamos nos apressar, a caminhada até a estação de trem na cidade ao lado não vai ser tão curta." — falou ele enquanto me indicava o ponto que a estação estava no mapa com seu dedo indicador.
"Certo. Vamos nos apressar." — disse enquanto dobrava o mapa e entregava para ele.
Comemos nosso "café da manhã" rapidamente, pegamos nossas mochilas e partimos.
A caminhada não durou tanto tempo pela velocidade em que caminhamos, e acabamos por chegar tranquilamente na estação, com ainda dez minutos para a chegada do trem que iríamos pegar.
Haru providenciou as passagens e ficamos esperando o trem, enquanto conversávamos um pouco sobre assuntos diferentes do que tínhamos conversado até agora.
Aqueles dez minutos passaram de forma rápida por estarmos distraídos, e assim, o trem parou e pudemos embarcar.
Uma atmosfera pesada cobria todo o vagão de passageiros, que por sinal, eram poucos.
Sentei ao lado de Pandora em um banco, e Haru logo na nossa frente, em um banco virado para nós. A viagem não seria longa, porém seria mais um período de tempo que pudéssemos relaxar. Passamos o caminho conversando normalmente, deixando a situação terrível que estávamos de lado, precisávamos fazer isso um pouco, se não, continuaríamos tensos, até em horas que não fazia sentido estar. Logo Pandora caiu no sono, provavelmente por causa do balanço agradável que o trem fazia.
"Nossa, ela pegou no sono muito rápido. Será que não conseguiu dormir bem durante a noite?" — perguntou Haru um pouco preocupado.
"Tenho certeza que ela dormiu bem sim, caiu no sono rapidinho aliás. Deve ter dormido por se sentir calma e segura." — falei sorrindo enquanto olhava para ela.
"Então por que não tenta dormir um pouco também?" — perguntou ele.
"Mas por que?" — perguntei.
"Você não se sente segura comigo?" — falou ele fazendo uma expressão triste — "E, pela sua cara, você não parece ter dormido bem durante a noite."
"Aaaah, realmente não é isso, eu me sinto segura com você sim. E eu não dormi muito essa noite mesmo, mas eu consigo aguentar." — falei.
"Você é quem sabe." — falou ele ainda meio triste.
"Não se preocupe, irei ficar bem. E irei dormir um pouquinho se sentir sono." — falei meio sem jeito.
"Certo." — ele disse com uma expressão mais calma.
Apenas ficamos encostados nos acentos apreciando a paisagem da janela, ou de vez em quando, Haru contando alguma piada. Não haviam muitas pessoas no trem, e nem muito barulho, mas ainda podia-se escutar o agradável som de crianças e seus pais conversando.
Quando eu já estava quase pegando no sono, ouvi alguém me chamando.
"Yoshino... parece que encontramos ele mais rápido do que esperávamos." — sussurrou Haru.
"Hum? Quem?" — falei ainda sonolenta.
"Abra os olhos." — falou ele cutucando meu ombro.
Abri meus olhos lentamente, e pude ver que havia sentado um homem no banco logo ao lado do nosso, ele era alto e magro, com cabelos de um tom ruivo claro. Mas o que mais chamou nossa atenção foi seu pescoço, onde se localizava uma marca em formato de coelho.
"Será que não é... apenas uma coincidência?" — sussurrei.
"Não. É ele mesmo. Ele é o responsável pelas mentiras... gosta de ser chamado de The Liar, ou, simplificando, O Mentiroso." — falou ele um pouco tenso enquanto olhava disfarçadamente para o homem.
"Nós vamos ter que atacá-lo agora...? Dentro do trem?" — perguntei assustada.
"Vamos esperar chegarmos no destino." — ele falou se sentando novamente no banco logo a minha frente — "Acorde Pandora, daqui a cinco minutos teremos que descer."
"Certo." — falei enquanto me aproximava dela e balançava seus ombros — "Ei, Pandora! Acorde!"
"Já chegamos?" — falou ela enquanto bocejava.
"Estamos quase." — falei.
E aproximadamente dois minutos depois, o trem parou na estação e descemos logo após "O Mentiroso".
"Ele não faz tanto mal como a Desespero, mas precisa ser levado de volta para a caixa. Portanto, vamos seguí-lo." — disse Haru.
E assim, ele colocou sua máscara e tomou a frente.
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