Pandora Através das Meias
1 Capítulo 1. x
Notas iniciais
x
André era um garoto comum assim como qualquer outro de sua idade. Tinha notas boas (nenhuma vermelha, mas também nenhuma tão alta), jogava vídeo game e se considerava um tremendo sedentário por isso, passava horas na internet ― sedentário! ― e era um bom filho para sua mãe e seu pai. Só que existia uma coisa que ele não entendia nessa simplicidade toda que o rodeava. E o pior de tudo era que essa coisa que ele não entendia não tinha nada a ver com ele, mas o incomodava, e muito.
Pandora. Pandora era o nome da coisa que o incomodava, e também era nome de uma de suas colegas de turma. Haviam estudado juntos durante todo o maternal, fundamental e agora no ensino médio também. Mas nunca ― nunca mesmo ― havia trocado mais que algumas palavras com ela durante breves encontros quando ambos colocavam seus lixos (que, por coincidência, eram postos na mesma hora, mesmo não sendo um horário programado para nenhum dos dois) na frente de suas casas aos sábado. Entretanto, ela ainda o incomodava do mesmo jeito.
Dizia algo na cabeça de André que ela não era uma pessoa em sua sã consciência. Depois de ver todas as suas fotos no Instagram, no que se resumia em várias fotos de seus pés cobertos de meias diferentes, fotos de pelúcia e alguma coisa que ele achava ser um livro que ele não tinha conhecimento sobre, o rapaz achou que ela não era uma adolescente normal. E isso o incomodava, além de incomodar a todo mundo também ― imaginava ele.
Pandora costumava ir à escola a pé, mesmo que morasse tão longe dela. Era quase uma hora de distância e ela ia sempre a pé. Não que isso fosse da conta dele, mas ele também morava àquela distância, exatamente por serem vizinhos. Via que ela ficava acordada até tarde, e não entendia como ela conseguia acordar cedo na manhã seguinte para ir à escola e permanecer com uma face sorridente para qualquer um, enquanto ele perdia a hora até quando adormecia cedo no sofá ou na cama ― e no outro dia era visível que um André completamente mal-humorado não queria papo com ninguém. E isso o incomodava muito.
Uma vez alguém que o desafiou num jogo virtual havia ultrapassado seu Record; naquele jogo que ele jogava desde que se conhecia por gente. Isso não era nada demais, exceto pelo fato de que a pessoa que o ultrapassou era Pandora, para ser mais exato, Pandora2424. O seu nick name o incomodava tanto quanto o fato dele ter jogado a melhor partida de todos os tempos do jogo que ele mais amava com ela. Ok, ele respirou fundo e tirou os fones de ouvido, praguejando por não ter reparado antes naquele nick name e naquele ícone de pés vestidos com meias do usuário que havia o desafiado. E já relaxado com tamanha novidade, ele a elogiou; não havia nada demais em elogiar e dizer que ela era realmente boa naquilo (e ela era, pois havia vencido o maior recordista daquela região), contanto que ninguém soubesse disso e que ela não desconfiasse que André era o zinthos*.
Houve um baile em sua escola para arrumar fundos para pagar uma parte da formatura do terceiro ano. Era um baile comum, apesar de o tema ser muito clichê: baile de máscara (ou, para André e alguns garotos: festa à fantasia). Foi vestido formalmente, ele não era obrigado a se fantasiar como todo mundo dizia que iria se fantasiar, e no rosto tinha apenas uma máscara de Batman. Achava que por mais que fosse um baile de máscaras, as pessoas aniquilariam a maldita música e a dança romântica. Mas não. Olhou para os lados e todos os seus amigos estavam dançando agarradinhos com uma garota qualquer.
― Qualé, André. Chama uma garota pra dançar. Aqui tanto faz se alguém pegar uma feia; todo mundo tá de máscara mesmo. ― Gritou um de seus amigos, o Tiago, dançando com o que se parecia ser a professora de Biologia.
Riu de seu amigo que tirava uma casca enorme da professora de Biologia, que mais parecia uma modelo princesa, com aquele vestido longo e brilhoso que estava vestida. Pensou no que seu amigo disse e passou a procurar pelas mesas alguma garota que o “encantasse”. Não era pegador nem nada, mas se conseguisse uma garota para dançar sairia no lucro. Só que a maioria das meninas estavam com vestidos grandes e volumosos do tipo “sou rainha do baile”, e isso o intrigou; era tosco. Riu desse pensamento e buscou a sua escolhida desfocando sua visão de todas, já que era fácil, pois ela era um tanto diferente das demais. Vestia um vestido de camada, poucas camadas que batiam até o joelho, roxo com rendas em preto ― as outras garotas variavam do rosa para amarelo ―, e tinha uma máscara de mulher gato na face. Perfeita.
Bom, seria a perfeita de todas, se ela não fosse a Pandora. Mas André descobrira somente depois. Depois de ter pedido desculpas pela última vez por ter pisado em seu pé, quando ela retirara sua máscara e a dele para ele poder visualizar melhor seus pés e da próxima vez errar seu pé e pisar o chão. Foi um choque, porque ela o incomodava e ele não tinha sido capaz de ter diferenciado justo ela das demais garotas ― além dele ter pisado no pé dela diversas vezes por pura miopia de sua parte, e somente disso ele estava arrependido.
Quando chegou em casa naquele mesmo dia, ele pôde refletir sobre Pandora e sobre os motivos que ele tinha sobre ela o incomodar tanto. E chegou a uma conclusão que ele mesmo havia pensado há algum tempo atrás.
― Tiago! ― Seu amigo, que desfrutava uma perna de frango em sua cama, o olhou. ― Eu acho que tem algum encosto em mim ou nela. Você acha que ela é macumbeira ou algo do tipo?
― Claro que não, seu idiota. Só é se esforçar mais em Biologia no próximo bimestre que tudo se resolve. Se tivesse me dito antes, eu teria te dado ela um pouco e teria dançado com a Pandora enquanto você pedia uma média bacana e...
― Estou falando da Pandora.
― Ah... A Pandora? De novo? ― Tiago deu uma risada divertida ainda mastigando um pedaço de carne. E não era para tanto, afinal! Vieram o caminho todo falando da garota (na verdade foi somente André, reclamando por ter tirado justamente ela pra dançar). ― Então, cara, se eu te falar o que eu acho, você promete que não vai mais falar da Meiona? Juro que essa sua possessão por ela está me irritando, e eu não sou um cara de se irritar com facilidade. ― André ignorou seu comentário, mas afirmou com a cabeça para o colega, que estava em cima de sua cama deixando o frango de lado. ― Então, se há ou não há encosto em vocês, isso eu não posso saber; não sou médium e nem nada relacionado, meu caro. Mas de uma coisa eu sei, e é braba a coisa. ― Ele olhou sério e fixamente para o amigo e continuou: ― Saca só, brother, e presta atenção. É muito simples: ou você é gay ou gosta dela. ― André iria protestar e arrancar fora aquele frango das mãos de Tiago que insistia em beliscar e enfiar num lugar que Tiago detestaria, porém Tiago continuou rapidamente ― Reflita comigo: só as garotas implicam com ela pelo jeito que ela é, e isso todo mundo sabe. As garotas são doidas, elas não suportam que alguém seja diferente delas. E acredite, André, elas também não suportam garotas idênticas a elas. ― Deu uma pausa para o amigo refletir. ― Entende? Mas o fato aqui é você e a Pandora. Então, se você não suporta ela é porque você gay, já que nós, garotos, não nos importamos muito com uma garota a esse ponto, só se ela fosse um encosto de verdade, o que eu acredito que não seja, pelo simples fato de que Pandora não é como as demais garotas. Essas outras sim teriam coragem de fazer esse tipo de coisa com garotos inocentes como você.
André quis rir de toa aquela baboseira que seu amigo falou. Sem sombra de dúvidas Tiago havia bebido algo na festa e estava delirando, mas o único que havia e estava perdendo as estribeiras era André. Primeiro: dançou com Pandora. Segundo: falar de Pandora para seu amigo.
― Acho que perdi meu tempo falando disso com você... ― Estava prestes a perder a paciência.
― Não terminei. ― Interrompeu quaisquer desculpas que André daria dali por diante. ― Acho que tenho que desenhar pra você, não é mesmo? Sabe quando o cara é cabra macho... um macho alfa de verdade, eu digo, e acha que garota x é estranha e o incomoda sem ela ter feito absolutamente nada com ele, 99% das pesquisas nos dizem que essa garota x é o seu tipo, e que, eventualmente, você estaria afim dessa garota x.
André estava boquiaberto e nem reparou nisso. Não era pelos argumentos de Tiago em si que o deixou chocado, mas sim por alguém suspeitar tão descaradamente de algo que fosse uma tremenda mentira. Pensou em como seria o relacionamento dele com Pandora: repleto de meias, vídeo game (ela ganhando sempre, no caso), ele pisando no pé dela sempre que estivesse com uma máscara de Batman na face... não seria nada tão ruim, exceto pelo fato de ser Ele + Pandora.
― A garota x é a Pandora, caso ainda esteja se sentindo confuso. ― Tiago completou, vendo que o amigo estava muito no mundo da lua por um tempo, o que queria dizer que sua segunda hipótese estaria certa.
Em resposta, Tiago recebeu um combo de almofadadas na cabeça que André lhe deu, que no fundo era somente para descontrair aquele momento e tirar Pandora daquele local. Também, André não queria ter que admitir ou negar algo que ainda nem tinha pensado sobre, ainda mais para o cara mais inteligente ― e seu amigo ― que ele conhecia, já que na maioria das vezes seu amigo Tiago estava certo, e André tinha medo dele estar certo naquela questão também.
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