Pandora
1 Capítulo 1
A sala vazia, poeira no chão, um raio de luz ilumina a sala através de uma janela suja. O chão de mármore já encardido com o tempo. No centro uma pequena mesa sozinha no vazio da sala. Um tabuleiro de madeira antiga faz companhia à pequena mesa, a fileira dos peões esta na sua posição, gastos, mas firmes em suas posições.
— Para os que vão à frente... Seu sacrifício não será esquecido.
Assim como as palavras vieram do vento de uma memoria antiga, os peões somem e dão lugar as duas torres.
— Os olhos que protegem o céu.
As torres seguem o caminho dos peões e os bispos aparecem no tabuleiro.
— A religião que atravessa as mais hostis paisagens.
Os bispos somem e os cavaleiros tomam suas posições.
— Os cavaleiros passam por cima dos obstáculos para atingir seu objetivo.
Os cavaleiros dão lugar à rainha.
— A rainha que toca todos com seu amor.
Todas as peças aparecem com exceção a do rei.
— Todos protegem o rei. Mate o rei e todos cairão.
Todos somem e o rei aparece sozinho na sua posição. Uma brisa levanta o pó da sala, a correnteza encontra com o rei que cai.
— Coração
— Agora que me deito para dormir, rezo para Deus proteger minha alma. Se eu morrer antes de acordar, rezo para Deus minha alma levar.
Um menino reza no seu quarto escuro antes de dormir.
— É hoje! Finalmente!
— Ele já esta de pé, o pai fala para a esposa.
— Ele não dorme direito desde que começou a copa. Completa a mãe sem se mexer e com os olhos ainda fechados tentando voltar a dormir.
— É HOJE! É HOJE!
A porta do quarto abre e com um sorriso gigantesco Sandro entra no quarto dos pais pulando na cama deles.
— O que tem hoje, filho? Pergunta o pai, tentado ser o mais cínico possível.
— Você sabe!
— Sei o quê?
— O que tem hoje!
— Será que vocês poderiam levar essa discussão para fora do quarto eu quero dormir. Interrompeu a mãe sem se mover.
O pai olha para Sandro e faz um gesto com a cabeça apontando para a mãe. Sandro sorri. Ele pula na mãe e começar a fazer cosquinhas nela.
— Não! Para! Deixa eu dormir...hahahhehihihi. Tá bom desisto. Mas agora é em você.
Ela e o marido fazem cosquinhas em Sandro.
A sala de imprensa esta lotada de jornalistas de quase todos os países, chamar de “sala” é um pequeno erro. A organização do evento construiu um prédio de três andares com as melhores linhas de internet, telefone e tem um boato que no segundo andar tem uma sala com equipamento de telegrafo caso precise. E claro que a dois dias da semifinal nada estava funcionando.
— Eu me sinto nostálgico, parece com o meu primeiro ano no jornal. Renato Pasqual estava sentado numa das muitas mesas com mais de um exemplar de todos os jornais do qual sabia a língua, a pilha era grande e quase todos estavam cortados, grifados e arrumados em uma ordem que só Renato entendia. Eu sei que sou velho, mas eu não achava que eu teria que começar o dia sem essa toda tecnologia. Ei Rafael! Acorda! Renato chacoalha seu estagiário que estava dormindo na mesa.
— Ainda está feliz por ter ganhado essa vaga? Rafael olha para Renato com profundas olheiras, barba para fazer e com uma cara de quem não dorme direito há alguns dias.
— Desculpa, Renato é que tá meio foda. Falou com muito sono.
— Você terminou as analises dos times?
— Eu te mandei por e-mail, mas, como eu sei que você não lê eu imprimi e esta aqui em algum lugar... Rafael afasta um pouco a cadeira da mesa e começa a procurar e após bagunçar ainda mais acha sua analise entre um jornal de Moçambique e da Estônia. Uma coisa que ele aprendeu nesse ultimo mês é que Renato consegue uma quantidade incrível de jornais. Aqui está. Entregou para Renato que dá uma lida por cima.
— E foi por isso que eu te contratei ninguém consegue decifrar tão bem futebol como você.
— É um jogo simples, falou bocejando. Você vai precisar de mim?
— Agora não.
— Que bom eu vou dormir encima dos jornais caso você precise... Rafael mal termina de falar e já esta dormindo em cima de um jornal italiano de papel rosa.
Os jogadores entram na sala de reuniões do hotel, cada um senta numa das cadeiras na frente deles tem um telão e uma lousa branca, o treinador esta sentado em cima da mesa. Ele já esta velho, sua memoria não é mais a mesma, as palavras às vezes somem e sua mão treme de tempos em tempos. Seu conhecimento sobre futebol não diminuiu, ele começou jovem viu todas as vezes que o Brasil foi campeão do mundo e essa era a sua ultima copa, seus últimos jogos. A aposentadoria esta próxima.
Todos os jogadores estão sentados, as luzes apagam e no telão a escalação da Itália aparece.
Nibali
Luigi Mario
Gallo Giuseppe
Donatello Rafael
Leonardo Michelangelo
Ferri
Andrea Panadova
O silêncio reinou na sala por segundos, a respiração de cada jogador era escutada, o zumbir do ar condicionado quebrava um pouco o silencio, eram nomes que colocaram respeito. Eles são chamados de Squadra degli dei (Time dos deuses). Nunca uma seleção foi tão dominante quanto essa seleção italiana, todos os jogadores estão entre os melhores do mundo de suas posições.
— Esse é o provável time que vamos enfrentar. Começou o treinador com sua voz baixa e calma. – Para muitos essa é a melhor seleção da historia.
— Eles jogam no tradicional 4-2-3-1, Michelangelo, Leonardo revezando nos lados do campo com Ferri sempre no meio distribuindo o jogo, Gallo e Giuseppe apoião bastante e Donatello e Rafael formando uma solida dupla de volantes, Donatello é que busca mais o jogo. Muitas vezes Rafael vira um terceiro zagueiro junto com Luigi e Mario. Explicou o treinador. – O modo que eles jogam é simples, o problema é que todos são super técnicos, eles não dão chutão e sabem driblar muito bem e não erram os passes e eles ainda têm Panadova. O melhor jogador do mundo. Não será um jogo fácil e eu tenho muito que lhes contar, serão longos dias.
— Treinador? Um dos jogadores quebra o silencio.
— Sim, Félix. Responde o treinador.
— Quando foi que nos tivemos um jogo fácil nessa copa.
— Não tivemos jogos fáceis.
— Mas estamos na semifinal, não estamos treinador? Acabamos de vencer contra a Espanha e ainda temos alguns dias para nos preparar. Vamos vencer.
A campainha toca e Sandro sai correndo do seu quarto, quase mata o cachorro de susto, o pobre animal estava dormindo no corredor e acorda desesperado com o garoto correndo e gritando. Sandro abre a porta.
— Oi Vô! É hoje!
— É hoje o que? Responde o avô com um sorriso no rosto.
— Hoje tem jogo do Brasil! Sandro cumprimenta seus avós com beijos no rosto.
Ele ajudou a sua mãe a montar as coisas para o jogo dessa tarde, uma grande bandeira do Brasil foi montada em cima do sofá, assim como outra esta presa do lado de fora da janela.
— Falta quanto tempo para o jogo? Pergunta o avô enquanto senta no sofá confortavelmente e tira os sapatos. Sandro senta ao seu lado e olha para as suas meias, uma delas tem um buraco revelando a ponta do dedão. O Avô pisca para Sandro.
— Menos de uma hora. O pai fala entrando na sala, assim como Sandro ele cumprimenta seus pais com beijos na bochecha.
Jornalistas de todo o mundo se reuniram na sala de imprensa para a coletiva da seleção brasileira, as cadeiras perfeitamente alinhadas, inúmeras câmeras escondiam a parede e quando o treinador entrou junto com dois jogadores e um auxiliar, os fotógrafos começaram a tirar suas fotos a luz dos flashes e o som das câmeras cumprimentaram os entrevistados. Que sentaram nas cadeiras com seus respectivos nomes em placas na frente, nesse momento do campeonato todos ali já sabiam que eram os jogadores e a comissão técnica.
— Bom dia. Falou calmamente o treinador para os jornalistas que responderam com a mesma educação.
— Eu tenho uma pergunta para o Félix. Falou um dos jornalistas brasileiro, ele sempre tinha a primeira pergunta. Como esta a preparação para este jogo, para muitos a Itália é a favorita para ganhar da copa e venceu todos os seus jogos com certa tranquilidade.
Félix, o capitão do time, jogou nas principais ligas e conhece todos os jogadores italianos, ele já perdeu para vários assim como já os derrotou nas competições entre clubes.
— Eu jogo com metade do time deles na Itália e os conheço bem. Nossa preparação esta sendo ótima e estamos confiantes, sabemos que não será um jogo fácil, mas, acreditamos que vamos sair vitoriosos.
— Veja. Começou o treinador. Faz tempo que estou no futebol, e não segredo que esse é minha última competição. Chegamos na semifinal e com isso vou ter o número máximo de partidas. Sobre a Itália, provavelmente o melhor time da história, todos os jogadores tem imãs que atraem a bola e uma precisam incrível nos passes, sabem o que fazer em praticamente todas as situações do jogo, mérito do treinador deles que praticamente só manda eles jogarem e eles fazem o resto.
Conforme falava o treinador coloca sua mão debaixo da mesa, ela começara a tremer mais uma vez.
— Estou velho mas, ainda tenho alguns truques. Sobre quem vai jogar e marcar Panadova, eu tenho vinte jogadores de linha e três goleiros. Mais que o suficiente para o jogo.
A família esta toda devidamente uniformizada, até o cachorro esta usando uma camiseta da seleção. Sandro esta inquieto, já roeu todas as suas unhas e olha para o relógio a cada minuto.
“Estamos a minutos de mais uma semifinal” começa o narrador do jogo. “O que podemos esperar desse jogão, Paulo?” “Nada menos que um jogão, as duas seleções são muito bem treinadas e tem excelentes jogadores. Infelizmente ou felizmente para nos, todo o favoritismo é da Itália afinal eles tem o Le Perfezione, Andrea Panadova o melhor jogador a atualidade e possivelmente da década. E olha que ele ainda tem 23 anos” “ A seleção brasileira acaba de entrar em campo para terminar o seu aquecimento e dar aquela ultima reconhecida no gramado”.
O estádio vai à loucura quando a seleção entra em campo, metade do estádio esta torcendo pelo Brasil, fleches iluminam ainda mais o campo, nomes dos jogadores são cantados pela torcida e seus respectivos donos acenam quando escutam a torcida. A seleção faz um trabalho simples de ficar tocando a bola, alguns dribles.
A outra metade o estádio vai à loucura quando a esquadra azzura entra em campo para fazer o seu aquecimento. Cada time esta em uma metade a tensão cresce e o estádio ferve com o confronto de logo mais.
— Como que você consegue credencial para um lugar desses? Rafael pergunta com brilho nos olhos ao ver que esta num dos melhores lugares do estádio, na faixa central e numa altura onde da para ver todo o gramado.
— Bom, eu já estou nessa vida a um bom tempo e conheço gente que me deve alguns favores. Respondeu Renato. Além disso, meu especialista precisa estar no melhor lugar para poder analisar a partida.
— Tem certeza que isso não é um pedido de desculpas por não me deixar dormir.
— Não. E nos dois sabemos que você faz isso com um sorriso no rosto.
— Claro você paga bem, me deixa assistir o jogo no melhor lugar do estádio e o trabalho é fácil.
Os dois estavam na parte dedicada para a imprensa, todos os países que transmitiam o jogo tinham gente ali, as bancadas estavam abarrotadas de papeis, tevês para acompanhar a partida. Rafael estava sentado com a cabeça apoiada na mão vendo os dois times aquecerem e analisando cada movimento deles, essa era um dos motivos que o fez ser contratado, ele conseguia ver a nuanças de cada jogador, as formas de como eles estão andando, falando, ele lia o atleta como ninguém e somado ao seu conhecimento tático do jogo chegava a conclusões que ninguém chegava e estava sempre certo.
— Tem algo estranho. Falou.
— O quê? Renato já sabia a forma do Rafael de trabalhar e ele estava fazendo o seu trabalho.
— Receio, não. Medo.
— Eles ou nós.
— Nós.
— Faz sentido, vamos enfrentar a Itália.
— Você esta pensando em receio. Eu estou falando de medo. Você já olhou nos olhos de um predador? Falou sem mudar de posição. Ele pisca, continua te olhando calmamente é um olhar agradável. E por ser agradável que é mortal, quando você menos espera ele te ataca. Essa é a Itália, é a primeira vez que os vejo assim e os nossos jogadores perceberam.
— Quer dizer que não temos chance.
Rafael senta direito na cadeira com os braços cruzados e olha Renato. E quando foi que tivemos alguma chance.
— Tem um jeito de vencer? Pergunta Renato temendo pela resposta.
Renato olha nos olhos de Rafael que aponta para o próprio coração.
O vestiário esta fedendo a suor dos jogadores que voltaram do aquecimento. Seus uniformes de jogo estão pendurados nos armários. O massagista da equipe montou um pequeno altar onde alguns jogadores estão rezando para o jogo. Outros estão terminando seu alongamentos, o clima do vestiário é tenso, falta alguns minutos para o começo da partida.
O treinador abre a porta e entra com seus passos calmos, ele já estava habituado com esse tipo de situação. Já treinou grandes times e tem o maior numero de títulos o que o levou a ser considerado por muitos anos como o melhor treinador. Porem a idade já era um problema e seus dias como treinador estavam acabando.
— Bom. Agora não tem mais volta. Treinamos e estudamos muito nesses últimos dias, porra, nos sabemos como cada um deles fode de tanto que estudamos. Começou o treinador com sua fala mais nervosa que o de costume ao sentar-se à mesa, um antigo costume.
— Não será fácil, nunca é num jogo como esses, mas lembre-se do treinamento, confie nos seus companheiros e vamos ganhar esse jogo. Então vamos lá acabar com a raça desses italianos!
Gritos foram proferidos pelos jogadores, as breves e honestas palavras do treinador eram tudo o que eles precisavam para quebrar o clima tenso. Os titulares foram à fila ao lado da seleção italiana. Os jogadores mal se falam, alguns comprimentos são trocados, mas quase nenhuma palavra foi trocada. A tensão voltou a aumentar conforme o tempo para começar a partida vai diminuindo.
O silencio sepulcral no estádio após o apito do juiz marcando o fim do primeiro tempo era assustador. Os dois times saíram do campo, os italianos com sorrisos largos no rosto e os brasileiros com a cabeça baixa, alguns esboçavam lagrimas. A torcida esta estupefata com o jogo, a velocidade, técnica apresentada, o respeito entre os dois times se sobressaiam porem o resultado parcial e a forma de como foi construída era o que assustava todos que viram o primeiro tempo. Os quatro gols marcados pela Itália não mostravam como o jogo realmente foi.
— Surpreso? Perguntou Renato, com um pesar na voz, o jogo confirmou o que ele suspeitava.
— Sim e não. A diferença era clara antes de começar, mas não jogamos tão mal assim. Veja. Todos os gols deles não foram erros nossos, bem, quando você leva um gol à culpa é sua, mas não foi bem o caso. Nossa marcação estava certa. Em todos os quadros gols eles simplesmente foram melhores. Não importava o que fazíamos nós simplesmente levamos os gols. Só levar quarto foi um belo feito. Essa é a Itália quando resolve jogar futebol.
A área dos jornalistas na arquibancada estava fervendo, todos os comentaristas dissecando o jogo em todas as línguas possíveis. Os brasileiros seguravam as lagrimas e mesmo o mais fanático deles já tinha “entregado a toalha” com esse resultado parcial.
O apito do juiz quebrou o silencio da sala. Sandro saiu correndo para o seu quarto com lagrimas nos olhos. Era sua primeira copa do mundo e ele estava muito esperançoso com a seleção. Ele fez questão de ajudar seus pais a comprar tudo o era possível para torcer pala seleção. A sala estava toda verde e amarela, assim como o seu quarto. Só faltou pintar o carro (Sandro ficou muito bravo quando o pai falou que não ira mandar pintar o carro de verde e amarelo).
— A primeira copa ninguém esquece. Comentou o avô.
— Mal ele sabe como é fica varias copas sem ir tão longe como essa. Falou o pai. Deixa-o sozinho por enquanto. Ele vai voltar para o segundo tempo. Completou.
A mãe olha meio torto para o marido, levanta e segue o mesmo caminho de Sandro que esta chorando de bruços na cama.
— Calma, é só um jogo, teremos outras chances.
— É fácil você falar. Ele responde entre soluços.
A caminhada da vergonha feita pelos jogares sob o olhar de incontáveis pessoas que estavam vendo o jogo pela televisão. Não é fácil levar quatro gols no primeiro tempo de uma copa do mundo. Então a caminhada do campo para o vestiário foi dolorida, metade do estádio festejava o resultado e a outra segurava o choro.
O corredor parecia mais sombrio do que realmente era, o vestiário tinha estava mórbido. Parecia que alguém tinha morrido ali dentro. Conforme cada um entra no vestiário o clima apodrecia. Eles sentam no banco e colocam uma toalha em cima da cabeça. A vergonha era forte.
O treinador é o ultimo a entrar. Todos estão inconsoláveis. Ele anda devagar ate a mesa e senta nela. O tempo não foi amigável. A memoria já o trai, lhe causa peças, sua mão treme sem estar frio. Seus joelhos não aguentam seu peso durante o jogo. Essa é sua ultima competição, ele entrou sabendo que teria três jogos com possibilidade de mais um e depois mais um e mais um. Os deuses do futebol lhe deram a honra de jogar o numero máximo de partidas, vencendo ou perdendo ele ira treinar a seleção nos sete jogos possíveis. Parte da seleção esta assim como ele, se despedindo dos gramados e essa não é uma forma muito boa de dizer adeus.
— Um a zero você vira, dois a zero dá para virar, três a zero você empata. Quatro a zero... É o limite. Por quê? Nós rezamos menos? Porque deus quis? Destino? Desculpas, perdedores se apegam as desculpas, nunca admitem a derrota. Por quê? Porque a verdade dói.
Todos os olhares estavam para o treinador, cabeças abaixadas, olhos frios e sem vida.
— Eu estou velho. Meu corpo me trai. Levanta a mão que esta tremendo. Vocês sabem o que é isso. As palavras me somem, esqueço das coisas, me esqueço das pessoas, se não fosse por vocês eu não teria condições de estar aqui. Para dizer a verdade eu não deveria. E sei o que meu futuro me guarda. Não tenho problema em admitir que eu tenha medo desse futuro onde talvez eu olhe para a minha esposa e não a reconheça mais.
O silêncio persiste, todos escutam com atenção.
— Eu olho para vocês e sei o que estão passando eu já passei por isso muitas vezes. Vocês estão pesando o que eu poderia fazer diferente, se eu tivesse corrido um pouco mais rápido, se tivesse acertado o passe, se tivesse tirado a bola dele. São muitos ses.
— Olhem para os meus olhos quando eu digo isso. Vocês não fizeram nada errado. Eles simplesmente foram e são melhores. Nada pode mudar isso. Isso é o que muita gente vai falar. Eles são melhores e ponto. Por isso perdemos. Eu não aceito isso. De novo é isso que perdedores fazem. Dão desculpas! Não chegamos aqui para perder assim, não assim!
Ele levantou e com certa dificuldade tirou a camiseta que usava, no seu peito uma cicatriz grande mostrava as consequências de ser um treinador, um infarto quase o matou. Marcas de vida sua vida estavam lá, outras cicatrizes menores, queimaduras.
— Não merecemos usar esse uniforme. Tirem. Ordenou.
Os jogadores se olharam sem saber o que fazer.
— Tirem. Repetiu com mais firmeza. Não merecemos. Não hoje. Tirem.
Micael de Jesus foi o primeiro a levantar. Lateral direito da seleção, negro, o mais alto da seleção e o mais forte. O Corcel Negro. Apelido dado desde as categorias de base, sua capacidade de correr é absurda, ele não cansa. E sua velocidade, bem não é atoa que ele é chamado de corcel.
Micael nunca gostou do treinador, nunca se deram bem, mas o respeito entre os dois existe e se respeitam. Micael nunca teve um jogo ruim pela seleção apesar de dois dos quatro gols terem sido pela direita. E esse jogo só estava na metade.
Ele ficou na frente do treinador, a diferença de altura é grande o que faz com que o treinador tenha que arcar bem a cabeça para olhar nos olhos de Micael que em um único movimento tira a camisa. E a deixa cair no chão. E volta a sentar. Gesto que foi aos poucos repetido por todos. Logo o time todo estava sem camisa que estavam formando uma pilha no centro do vestiário.
Virou-se para a bandeira do Brasil que estava presa na parede.
— Agora me digam o que vocês vêm?
— Nossa bandeira. Um jogador falou as suas costas.
— O nosso tesouro mais preciso. Nossas cores. Quando tudo se vai, quando você olha para traz e vê o abismo que te espera, você só tem uma coisa. Ela. Nossa bandeira.
— O nosso primeiro uniforme foi branco, pouco tempo depois virou amarelo. Apontou para a pilha. O azul veio para tampar a falta de um uniforme reserva. Mas esta faltando algo não esta?
O treinador voltou a sentar-se à mesa, seus joelhos já estavam doloridos. Ele os massageou.
— Não temos um uniforme verde. Um dos jogadores fala, com receio.
— Não, nunca usamos o verde.
Ele respira fundo, anda calmamente até um dos armários. Eles esta trancado com um cadeado. O treinador calmamente pega um molho de chaves do bolso, escolhe uma chave e abre o cadeado. No armário só tem uma caixa velha de papelão com três fitas prendendo e a mantendo unida. Ele a coloca na mesa.
— Tem uma história que apenas um punhado de pessoas conhece, de um uniforme que foi concebido para um único proposito e que só pode ser usado uma vez e sob certas leis. O Verde Sagrado nunca foi vestido. Para usar o Verde não podemos ter o amanhã e homens, não temos o amanhã.
O treinador arranca uma das fitas da caixa.
— Para usar o Verde nós temos que honrar as cores da bandeira. Temos que sangrar e sangraremos.
Ele arranca mais uma fita.
— Para usar o Verde temos que ter apenas uma coisa, uma coisa em mente: atacar, atacar e atacar.
A última fita é arrancada. Dentro da caixa há as camisas verdes. As camisas são velhas, de algodão, pesadas comparadas com as atuais. Seu verde ainda brilha. Os números brancos e a bandeira do Brasil no peito completam o uniforme. O treinador distribui cada uma delas para os seus novos donos, que as vestem.
— Hoje, não somos jogadores, motoristas, zeladores, o que for. Somos algo a mais. Desafiaremos os deuses e eles vão tremer. Vestiremos o verde e nada ficará no nosso caminho. Jogaremos como nunca o futebol foi jogado. Honraremos os deuses, os nossos deuses, aqueles que regaram os campos com suor, sangue, raça e (aponta para os jogadores) seu futebol. Então eu digo: foda-se, foda-se todos, hoje, o hoje é o nosso dia. Vamos lá fora mostrar o nosso futebol. Vamos jogar futebol!
O cansaço continua as dores ainda estão lá, a responsabilidade não mudou. Eles lembraram a coisa mais importante. Quem somos. A honra de defender as cores do Brasil.
Os jogadores saem do vestiário com a cabeça levantada e prontos para o segundo tempo.
— Treinador. Fala calmamente Micael. Tinha mais uma camiseta na caixa. Ele entrega uma camisa verde com a palavra “treinador” nas costas.
— Micael, seu pai teria orgulho de ver você agora.
— Não treinador. Ele teria orgulho de nós.
O treinador concorda com a cabeça, veste seu novo uniforme.
— Micael.
— Sim, treinador.
— Faça-os sofrer.
— Será um prazer.
A seleção italiana foi a primeira a retornar para o segundo tempo. Os jogadores já estavam fazendo pequenos alongamentos e alguns estavam conversando quando os jogadores brasileiros saíram do corredor de acesso. Com suas camisetas verdes, sua alta estima revigorada. Naquele momento os italianos sabiam o que irai acontecer. Seria um segundo tempo diferente. Os brasileiros ficaram perfilados na linha da lateral e entram juntos no gramado com sorrisos nos rostos.
— Agora isso é interessante. Falou Rafael quando os jogadores entram de verde em campo.
— Então elas estavam com ele. Renato começou a falar com os olhos marejados. — Nos seus muitos anos como jornalista esportivo eu já tinha escutado a lenda do terceiro uniforme. Mas para mim sempre foi uma lenda, uma historia para as crianças nada mais do que isso.
Os jornalistas estavam sem palavras, os mais novos tentavam descobrir o porquê da mudança de uniforme e os mais velhos lembravam as historias contadas há muito tempo.
— Qual era frase daquele comentarista?
— Temos um jogo? Respondeu Renato.
— Isso, Renato, agora temos um jogo.
— Sandro. Seu pai gritou na sala. Venha ver isso.
Ele entra na sala com os olhos ainda vermelhos. Seu andar é devagar e sua cabeça esta abaixada. Quando entra na sala vê seu avô em lagrimas assim como seu pai. No primeiro momento ele não entende ate que olha a televisão.
— Então era verdade? A história que você contou vô. Ele realmente existe. O lendário terceiro uniforme.
— Sandro você sabe o que isso que dizer? Pergunta o avô enxugando as lagrimas do rosto.
— Sim! Esse será o melhor jogo de todos. Responde com entusiasmo e senta no sofá com um sorriso no rosto e as lagrimas que eram de tristeza passaram a ser de alegria.
Brasil venceu nos pênaltis por 5 x 4.
Após empate por 5 x 5.
Perdemos a final
Jogando de amarelo.
No fim o rei e o peão voltam para a caixa.
FIM
THE END
FIN
FINAL
DEIREADH
SLUTT
...
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