Pandora
1 Prólogo - Redemoinhos São Nossos Amigos
Richard discutia incansavelmente com Matt enquanto caminhávamos até a escola. Aquele assunto já havia se tornado algo comum entre os dois. Richard dizia que as motocicletas eram melhores que os carros porque são mais ágeis e potentes. Já Matt, teimoso como sempre fora, insistia em dizer que os carros são melhores porque suportam mais peso e durante uma perseguição conseguiriam esmagar o oponente facilmente. Besteira é claro.
– Ei! – Exclamava Richard. Ele era um daqueles caras que nunca ia pra casa sem conseguir o que queria. Com cabelos dourados brilhantes como o sol espalhados pela testa e seus olhos de um tom azul profundo, Richard conseguiu se tornar um dos caras mais populares do colégio, e como ele era meu amigo, isso me fazia popular também, o que, obviamente, é bom. – Como você não pode perceber isso cara? Se você estiver sendo perseguido por uma motocicleta, pode desistir, ela te pega. Agora como um carro conseguiria subir a rampa na nona curva perto da Estufa Primavera?
– Você não consegue olhar do ângulo certo mesmo não é Rich? – Matt respondia com sua calma e seriedade de sempre. Matt, ao contrário de Rich, sempre perdia em uma discussão e não tinha paciência para lidar com pessoas que não entendiam o seu ponto de vista. Seu cabelo castanho turvo caindo na ponta da testa o deixava com a mesma aparência dos nerds da escola. Os olhos cor de mel implantavam um tom de mistério que transbordava por sua pele branca, criando uma ilusão de poder e ordem, mas que na verdade era uma mistura de fraqueza e confusão. – Se você contasse o tempo que passa consertando aquela coisa e convertesse em trabalhos extras, seria mais que o suficiente para comprar um carro, que além de mais espaçoso e confortável é seguro.
Eu, é claro, sempre me desviava da conversa por alguma forma. Fingia que não estava ouvindo, olhava a paisagem, rangia os dentes ou simplesmente caçava alguma coisa na minha mente. Tudo menos a baboseira daqueles dois. Finalmente havíamos chegado ao ponto de ônibus, uma grande cápsula cinzenta composta internamente por oito fileiras de bancos azul bebe. A cápsula era incrivelmente confortável, não me incomodaria de passar um bom tempo ali dentro, apenas pensando e refletindo sobre o nosso mundo, que sempre fora misterioso e estranhamente bonito demais. Nos sentamos no banco de frente para a porta de saída, ao lado de uma mulher esguia de cabelos loiros e trajes azul marinho, certamente era uma Afomóloga, especializada em reproduzir fluidos artificiais em laboratórios e os mandarem para o Centro de Afloração. A parte interna da cápsula era divida em dois setores, o setor norte abrigava informações de onde se encontram os principais pontos da cidade, assim como também trabalhava o Centro de Controle local, responsável pela manutenção e segurança da cápsula. No setor sul era o local onde se encontravam as cadeiras e bancos para a espera dos ônibus. No centro da sala uma grande tela LCD pendurava presa á uma parede, mostrando horários e locais por onde os ônibus se deslocavam. As paredes extremamente azuis davam a sensação de estar no fundo do oceano, exceto pela parte dos peixes e da falta de oxigênio. Nos cantos próximos a saída haviam dois elevadores verdes conectados á superfície por tubos de extensão, responsáveis por nos levarem até o ônibus. De uma forma abrupta, uma leve cutucada me despertava de uma reflexão sobre a cidade.
– Ei, vamos.
– O quê? – Suspirava, cansado. Era Matt, seus olhos castanhos me olhavam com tanta intensidade que eu poderia desintegrar ali mesmo de tanto pavor.
– O nosso ônibus chegou, vamos! – Seu jeito apressado de vez em quando incomodava, mas apesar de tudo, aquilo era uma verdadeira preocupação.
Levantamos dos assentos após dois sinais ruidosos e ao mesmo tempo silenciosos que ecoavam pela sala de espera. Ao olhar para cima era possível ver o ônibus, duas enormes esferas conectadas por um tubo coberto que pairavam acima da cápsula como águas-vivas flutuantes. O ônibus tinha uma textura metálica e era pintado com um preciso tom de verde esmeralda, criando traços arredondados de círculos azuis nos espaços entre as janelas das laterais. Na parte superior uma grande antena pendurava-se sinuosa, balançando e emitindo ondas tão fortes que eram possíveis de ser enxergadas á olho nu. A parte inferior da esfera continha dois microlasers responsáveis por detectar outros veículos na cidade e um grande buraco em forma de centrífuga, que tem a função de abrir a porta para descarregar o elevador de passageiros.
Os elevadores brilhavam em um tom agradável na medida em que os passageiros se aproximavam do tubo azul cristal. Aquele era o primeiro dia de aula para os alunos do décimo ano, onde é claro, eu me encaixava. A maioria das cápsulas deveria estar lotada, tivemos sorte de conseguir uma que não estava tão cheia assim. Só havia um colégio na nossa cidade, e apesar de grande, ele não tinha espaço o suficiente para todos os adolescentes da região. O elevador tinha espaço o suficiente para no mínimo quinze pessoas, dando no máximo três voltas cada um. Conseguimos pegar o primeiro lance e entramos no elevador. Após um breve chiado de portas se fechando uma suave e robótica voz ecoava pelo tubo cristalino, perguntando-nos se desejávamos adentrar ao ônibus que segue para o Colégio Central de Katrina.
– Sim. – A voz de Rich saiu rouca, quase que de uma maneira como se estivesse envergonhado. Mas ele não podia estar, afinal, era o Rich.
– Você nunca me deixa falar – Sussurrava Matt, baixo o suficiente para impedir que os outros passageiros ouçam.
– Fique quieto.
Matt se contentava com um suspiro enquanto o elevador se movia para cima. Um buraco foi aberto na superfície, deixando a luz do sol penetrar entre os vidros cristalinos do tubo móvel. A vista dali de cima era linda, os Engenheiros haviam feito um ótimo trabalho ao redor dos anos para deixar a cidade daquele jeito, algo que pelo visto não deve ter sido nada fácil. A nossa cidade era magnífica, composta por prédios alinhados perfeitamente em áreas específicas e redomas na maior parte da região. As cores destacadas eram o azul e o verde, que segundo os Inquisidores, são símbolos da Prosperidade e Esperança. No horizonte da cidade, bem distante do restante das construções, era localizada a mais importante redoma do nosso planeta, o Centro de Inquisição, onde trabalhavam os assessores do governo e os responsáveis por manter a ordem do nosso planeta, os Inquisidores. Eles se autodenominavam reis e qualquer um que ousasse tomar posse do seu Império seria condenado ao exílio, portanto, toda a sociedade os respeitavam.
A porta em forma de centrífuga se abria debaixo do ônibus, permitindo a passagem do elevador para dentro da grande esfera flutuante. Após outro toque ecoado pelo elevador saímos do tubo e adentramos ao veículo. O ônibus era extremamente aconchegante. Apesar da ilusão de seu tamanho pequeno por fora, ele era absolutamente lindo e grande por dentro, não deixando a desejar em nenhum ponto. O ônibus era composto por dez fileiras com três cadeiras em cada lado, seu interior brilhava como esmeralda e era pintado por um azul guache seco. Nos sentamos na primeira fileira, consegui sem muito esforço pegar o lugar a janela pois Rich e Matt estavam ocupados discutindo quem conseguiria pegar primeiro uma garota no colégio. Enquanto apreciava a vista um aviso foi dado pelos alto-falantes e o ônibus partiu com um ruído reconfortante.
– Então... – Após ter terminado sua breve discussão com Matt, Rich inclinava-se para frente e pregava seus olhos na direção da janela. – Quem vocês acham que será novo Expurgador?
– Eu, é claro. – Matt não era nem um pouco humilde quando o assunto era ser um Expurgador. Era o seu sonho desde criança. O Expurgador é a pessoa que tem o potencial para se tornar o próximo Inquisidor Chefe do Centro de Inquisição, as cerimônias de escolha são feitas todos os anos no segundo ano, mas o cargo de Expurgador só é dado quando um dos Inquisidores se revolta contra o Conselho e é decidido por uma nova liderança, nada demais, é claro.
– Você? Não brinca. – Rich ria enquanto cruzava sua perna esquerda sobre a direita.
– Quem você acha que será? Você? – Matt retribuiu a risada.
Ao invés de prestar atenção na futura discussão dos dois, resolvi tirar um descanso e relaxar na janela do ônibus. Enquanto observava a cidade a uma altura considerável do chão, o ônibus começou a tremer. Uma leve nuvem de fumaça começou a se concentrar a alguns metros á frente do ônibus, um espiral de névoa espessa cobriu as janelas e deixou o ar mais leve e frio, estava começando. A esfera girou externamente em uma grande velocidade enquanto adentrava ao redemoinho criado no meio do nada, enquanto que internamente estava tudo calmo, fluindo, tenso e agora escuro.
Notas finais
Os personagens foram criados por mim, quem sabe no futuro eu possa utilizar como base alguns amigos ou etc.
Espero que gostem deste pequeno prólogo. É muito difícil escrever uma história original sem tentar se basear em outras existentes, portanto peço a ajuda de vocês, se gostarem recomendem ou comentem se acharem que eu mereço, por favor.
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