Pandora
1 I
Pandora... Você deve abraçar a solidão mais uma vez.
O sussurro de meu subconsciente infantil preencheu o espaço vago de minha mente já desgastada. Eu estava com medo de abrir os olhos, eu não queria abrir os olhos. Eu tinha medo, eu tenho medo. Preferia a visão relaxante do negrume por baixo de minhas pálpebras do que a realidade cortante que me esperava.
Pandora... Abra os olhos.
Eu não queria obecer. Por favor, me levem para casa... Eu queria que as vozes se calassem, eu queria voltar a dormir. Por favor, eu quero ir para casa. Eu quero ir para longe daqui, eu quero ir para onde as vozes não vão me alcançar.
Pandora... O que está esperando não é o desespero.
Mordi o lábio inferior com uma força considerável, certificando-me de ainda ter controle de meus atos. Eu estava com medo, o incômodo em meu corpo tornava-se insuportável, o vazio em minha mente tornava-se tentador. Eu queria aquele vazio para sempre, e pela primeira vez eu desejei morrer. Eu não queria mais aquilo.
Pandora... Abra os olhos.
Meus ossos doíam, meu coração estava contraído em meu peito dolorido. Mas eu sabia que teria de encarar, e o medo em meu interior tornava-se cada vez mais constante. Eu só queria ir para casa... Minha mente pregava-me peças. Eu ansiava pelo descanso eterno que tanto fora tentado-me. Eu queria aquilo para mim.
Pandora... Você pode me ver?
Logo a escuridão reconfortadora de minhas pálpebras foi preenchida pelo brilho intenso do local onde estava. Eu abri os olhos. Eu traí minha própria consciência e tive minha insanidade corrompida. E de novo, e de novo, e de novo... Eu abri a caixa obscura no lugar mais sombrio em minha mente, a caixa que nunca deveria ter sido aberta. E de novo, e de novo, e de novo... Eu me traí.
Pandora...
O sussurro era cortante. A agonia das palavras murmuradas em um sopro gélido era mais insurdecedor do que o grito de alguém a beira de uma morte brutal. Minha mente havia me abandonado a partir do momento em que tive meus olhos abertos, e eu podia apaixonar-me pelo sentimento temeroso que inundava meu coração. Adrenalina, adrenalina em minhas veias. Eu queria morrer.
Pandora...
Eu o via. No final do corredor de iluminação escassa e higiene comprometida, eu o via em sua melhor forma. Encontrava-me no escuro, e ele era a única coisa que podia clarear meu caminho inalcansável, ele era minha luz ofuscante no final de um túnel sombrio que nunca deveria ter sido achado. E lá estava ele. Tentador, misterioso, insáciavel. Lá estava ele, pronto para me matar ao meu menor deslize.
Pandora...
Ele tinha uma luz própria, uma luz que me cegava cada vez que tentava focalizar minha visão já desgastada em seu corpo. Era um contraste branco e preto que preenchia o local e trazia-me um conforto que não deveria existir. Ele era a projeção da insanidade, a representação do perigo, tudo o que eu devia temer. Ele era minha vida, e ele era a minha morte. Ele era minha mente. Ele era pandora, a maldita caixa de pandora encontrada mergulhada em angústia.
Pandora... Você deve abraçar a solidão mais uma vez.
E ao invés de correr dele, eu corri para ele. Eu corri de encontro a insanidade que esperava para devorar-me, sentindo-me protegida pelas suas ondas de calor, enquanto ignorava o medo em meu interior que alertava-me a correr para longe dali. Mas mesmo se quisesse, eu não podia. Algo me atraía insanamente até ele, meu corpo já não era mais controlado por mim. Tentei morder meu lábio inferior, mas eu já tinha perdido o controle há muito tempo. Eu falhei.
Pandora... O que está esperando não é o desespero.
Sentia que o peso do meu corpo se tornava muito para minhas pernas aguentarem, mas eu não conseguia parar. Eu corria para o nada, eu corria para a única coisa que podia enxergar, eu corria como se a minha vida dependesse disso, eu corria como se fosse a única coisa que eu soubesse fazer. Ele estava controlando meu corpo e minha mente, eu era inteiramente sua, sem hesitar, sem questionar. Ele me tinha em suas mãos se um modo humilhantemente fácil.
Pandora... Você deve abraçar a solidão mais uma vez.
O chão sumia embaixo de meus pés. A morte alcançava-me. Ele alcançava-me. Cada vez mais perto, eu sentia seu sopro gélido em minha nuca.
Pandora... O que está esperando não é o desespero.
Eu caía. Ele havia me traído, minha mente havia me abandonado. Eu estava totalmente sozinha, em uma queda sem fim em minha própria insanidade. Afogava-me em meus próprios gritos, eu implorava pela morte. Mas eu sabia que não teria o luxo de morrer. Ele não me mataria. Ele deixaria-me viver na agonia de não poder ter um descanso eterno, destinada a cuidar dos meus monstros.
Pandora...
E novamente, nada de novo. Eu morri. Eu não alcancei meu objetivo, eu não consegui correr de encontro a minha morte tão desejada. Porém eu continuava respirando, mas não poderia considerar aquilo como uma vida. Eu estava consciente, mas não podia considerar aquilo como lucidez. Por que eu...?
Pandora... Você já sabia a esposta.
Minha alma morreu. Destinada a vagar em uma carcaça sem esperança, vivendo em um meio termo, cuidando dos monstros que minha própria mente libertou. Logo depois o negrume, e meu corpo já tinha atingido o chão. Tudo se apagou. E o ciclo recomeçara, de novo, e de novo, e de novo... Abria a caixinha maldita em um canto obscuro, ouvia sua voz, saboreava o medo, entregava-me de corpo e alma para ele, tinha minha sanidade roubada... Fingia morrer.
...
Pandora... Você deve abraçar a solidão mais uma vez.
O sussurro de meu subconsciente infantil preencheu o espaço vago de minha mente já desgastada. Eu estava com medo de abrir os olhos, eu não queria abrir os olhos. Eu tinha medo, eu tenho medo. Preferia a visão relaxante do negrume por baixo de minhas pálpebras do que a realidade cortante que me esperava.
Pandora... Abra os olhos.
Fale com o autor