Em sua sala, Eric não conseguia se concentrar em nada. Andava de um lado à outro, sentava, ia a janela. Não parava de pensar no que acabara de ocorrer. O choque. A ligação que teria com Zoe. Queria entender o motivo de aquilo ter acontecido.

Quando duas pessoas se tocam e ocorre o que chamam de 'encontro' é porque suas almas estão ligadas, se algum modo. A partir de agora, Eric e Zoe teriam uma forte ligação entre eles. Eric teria de protege-la como pudesse, e Zoe não poderia se negar a isso ou tentar controlar isso. Seus destinos estavam traçados.

"Como? Por que ela? Eu nem deveria manter alguém como ela no reino, ou na dimensão." Pensava Eric. Conhecia as historias de outros 'encontros' que haviam ocorrido, e todos tinham trágicos finais.

Eric precisava falar com alguém, decidiu ir conversar com Larissa, que era a unica que sabia da situação. Sabia onde ela estava e foi a seu encontro.

Na biblioteca, Larissa procurava por algum livro na sessão proibida aos alunos.

–Aconteceu — a voz de Eric soava muito preocupada e transparecia essa preocupação em seu rosto.

–O que aconteceu? -Larissa não deu muita atenção, continuou procurando o livro.

–Um 'encontro'.

–Não há com o que se preocupar.

–Entre Zoe e eu.

–Isso sim é preocupante -pegou um livro e virou-se para Eric.

–O que iremos fazer?

–Tome, é um livro que fala sobre antigas lendas, deve haver algo sobre, bem, sobre seres como ela. Oh, por onde começar, é... enorme — Larissa folheava o livro.

–Pagina 566.

–Descobriu pela Visão?

–Na realidade, vi este mesmo livro ontem. Não diz nada mais do que já sabemos.

–Deveríamos falar com um ancião.

Zoe, havia acabado de entrar na biblioteca, ainda com os cabelos molhados, resolveu ouvir a conversa de Eric e Larissa.

–Quer mesmo alarmar alguém, Larissa? Não é prudente -a voz de Eric era uma mistura de medo e apreensão.

–Mas Zoe é apenas uma criança, não manifestou seus poderes, não é um perigo.

–Não ainda. Alguém como ela é sempre um perigo.

–Alguém como eu? -Zoe saiu de trás do pilar que estava escondida, não aguentou a curiosidade.

O rosto de Eric e Larissa eram de total espanto. Eric pigarreou e então com a voz tremula disse:

–Bem... não era para a senhorita estar aqui.

–Larissa disse que estaria aqui e era para vir aqui quando saísse do banho. Mas, como assim, alguém como eu?

–Não é um assunto para crianças, vamos, vou leva-la para o seu quarto — Larissa se aproximou mas Zoe recuou.

–Não, eu não saio daqui enquanto não me disserem o que há de errado comigo -sua voz era forte, sentiu por um momento imponente.

–Eric, é melhor que ela saiba. Vamos, querida, sente-se.

Zoe sentou-se em uma poltrona, Eric se apoiou em uma mesa e Larissa ficou parada a sua frente.

–Zoe, você chegou a conhecer seu pai? -perguntou Eric.

–O que tem meu pai haver com isso? Não, eu não o conheci, minha mãe disse apenas que ele saiu de casa quando eu tinha 3 anos.

–Seu pai era um anjo caído que assumiu forma humana após ser expulso do céu. Ele seduziu sua mãe logo após seu outro marido ter partido -humano- após a morte de sua irmã, que seria a bruxa da família.

–Um anjo caído? Como é? eu tive uma irmã? Mas, se eu não sou a primeira filha... como... como sou uma bruxa? Não, vocês estão mentindo.

–É um pouco difícil de acreditar, querida -a voz de Larissa era doce- mas é a verdade.

–O que eu sou?

–O termo é Neffilin, geralmente não são poderosos, mas você nasceu diferente. Você é filha de uma bruxa e um anjo caído. Não se perguntou ainda por que sua mãe é proibida de entrar em Godric? Esse tipo de relação é proibido em qualquer dimensão. Bruxos e Demônios travaram uma guerra a séculos.

Zoe começou a chorar, e se culpar por isso, era horrível chorar, principalmente depois de ter completado dezesseis anos. Sua face começou a se manchar de vermelho.

–Oh, querida, eu sei que é duro ficar sabendo de tudo isso assim — disse Larissa limpando as lagrimas de Zoe com um lenço.

–Eu... eu... me deem licença.

Zoe correu, correu como se quisesse sumir, não queria ver ninguém, não queria ser quem ela era, filha de... um anjo caído, sabia o que aquilo significava. Corria sem parar, chorando. Passou por diversos corredores, acho uma porta. Uma saída pelos fundos do castelo. Avistou o jardim, não estava longe, teria apenas que passar por algumas pessoas.

No meio da corrida até o jardim, se esbarrou com alguém. Parou.

–Ah, me desculpe.

Olhando para cima viu uma loira, alta, bonita, tinha os olhos azuis e um ar de superioridade. Zoe conhecia aquele tipo, era a tipica garota de que ela não gostava.

–Ah, uma novata. Hahaha, olha por onde anda, garota, não vai querer ficar se esbarrando com alguém mais poderosa, não é?

–Não acho que você coloque medo em alguém -Zoe foi tomada por uma onda de raiva.

–Cuidado com o que diz, garota. E a proposito, tem um banheiro ali, deveria ir lavar essa cara suja.

–Não é da sua conta.

Zoe virou-se e continuou a correr. Chegando ao jardim, procurou o lugar mais escondido possível. Precisava pensar. Sozinha.