Pandemônio
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Se encontrar algum erro por favor avise.
O dia amanhecia e o calor subia pouco a pouco, ainda me lembro do singelo barulho do ar-condicionado que tinha em meu quarto, especialmente para as horas mais quentes do dia. Não podemos ter mais esse luxo, qualquer ar condicionado gastaria energia desnecessária e chamaria atenção indesejada.
Em meu abrigo improvisado, uma antiga caixa d’água do condomínio onde um dia morei, não faltava água por hora, o nível estando consideravelmente bom para um mês com quatro pessoas usufruindo, mas comida ainda era um problema a se resolver todos os dias, sem refrigeração quase tudo estragava em poucos dias.
— Cris?- uma mão pousa em meu ombro- pensei que era o turno da Del
Levantei-me, saindo pela primeira vez em longas horas da posição de vigia.
— Essa câimbra ainda me quebra um dia- reclamei – e era sim turno da Del, mas ela não aguentou, cê sabe ver a irmã ser devorada a fez ficar de pé por quase uma semana, hoje a convenci a deitar e ela não se mexeu desde então.
— Ela vai ficar bem?- Raul olha preocupado – eu só vi minha mãe já transformada e fiquei em choque por três dias
— Bem? Não, mas ela vai viver, eu acho. Pelo menos pela Ket.
Ket era a irmã mais nova de Del, a ultima coisa que havia sobrado de sua família e também estava adormecida a beira da porta. Ket tem 13 anos e Mel, a irmã que morreu, tinha 17, Del a mais velha tem a mesma idade que eu 25 anos, Raul também, mesmo sendo quatro meses mais novo que eu e três meses mais velho que Del.
— É melhor começar o dia, nascer do sol é a melhor hora para vasculhar os esconderijos de comida ou ir um pouco mais longe- comento. Ser a mais velha no grupo me deixou o fardo de uma liderança e o vazio de ter que ser forte por todos- acorde Ket, alguém tem que ficar vigiando para descer a corda e a cesta de comida.
Um murmúrio me confirmou que Raul seguira a instrução, me aproximo do que restou da escada de ferro que subia ate aqui, pouco mais de um metro, nos separando do chão por outros três metros. Era a melhor escolha para impedir zumbis de alcançarem nosso abrigo.
Ah, os zumbis. Quem dera esse fosse um filme ou uma propaganda maluca de Halloween, a praga se espalhou por três meses inteiros sem ser notada, ou talvez cuidadosamente acobertada, tempo suficientes para se espalhar pelo mundo. No começo foi como reviver a pandemia do Corona Vírus.
Pessoas que divulgaram o vazamento de um novo vírus perigoso foram silenciadas, cerca de dez simplesmente desapareceram! Então qualquer um que falasse em rede social sobre isso era taxado como propagador de Fake News, graças à maravilha da pluralidade que era a regulação dos meios de comunicação. Logo, quando se tornou impossível negar a doença que crescia médicos famosos e jornalistas com sorrisos falsos anunciavam que não era razão de se preocupar e então davam os números atualizados do covid.
Então o caos de milhões precisando de atendimento médico que eram enviados a hospitais de campanha que não tinham nem curativos suficientes, desvio de verba que ninguém comentou. Mais de mil mortes diárias, um vírus com alta taxa de mutação e contaminação e logo as tão famigeradas covas coletivas, cavadas para o COVID, se tornaram necessárias. Não demorou até termos mais mortos do que pessoas para enterrá-los.
Foi quando os mortos que se acumulavam nos hospitais e cemitérios começaram a ‘despertar’ no mundo todo.
E aqui estamos nós, dois meses depois da explosão de casos, escondidos como ratos em uma caixa d’água quente torcendo para não encontrar um grupo de mortos vivos na busca de comida.
— Ela esta acordada e alerta Cris. É hora de sair.
Assinto com a cabeça e pego minha mochila, um modelo pirata que já tinha visto dias melhores, mas que tinha tudo o que precisávamos: garrafas d’água, remédios para coisas básicas, ataduras, potes de comida quase vazios e facas de todo tipo e tamanho.
Eu vou primeiro e você vigia, quando eu der o sinal desça- sem deixar espaço para protesto desci a escada de corda que tínhamos. Nesses momentos, eu agradecia a mim mesma por ter gasto um ano e meio frequentando uma academia, não podia dizer que estava magra e fitness, mas em forma o suficiente para não morrer não era ruim.
A rua estava meio escura, o sol não estando em posição de iluminar tudo ainda, mas não tinha movimento de zumbis ou pessoas. Acenei para Raul e logo ele estava ao meu lado, juntos atravessamos a grade que cercava a estrutura da caixa d’água, felizmente o condomínio resolveu que uma grade e uma cobertura vegetal era perfeitamente ecológico e seguro, nos dava uma ótima cobertura ate o portão de entrada.
O condomínio já foi um lugar bom pra se morar, população de classe media baixa que comprou um apartamento não tão pequeno por um preço alto em financiamento, a maioria morava aqui há 10 anos, quando foi inaugurado. O lugar agora era deserto, com marcas, e cheiro, dos acontecimentos recentes: chão manchado de vermelho, pedaços de carne e tripas espalhados, lixo por todo lado e panfletos do governo com instruções do que fazer quando se contaminasse.
— Bloco oito hoje? – Pergunto quebrando o silencio- Ainda não chegamos ao quarto andar dele. Ou bloco dez? Acho que ainda podemos encontrar algum leite e biscoitos por lá, no 102.
— Primeiro buscamos comida onde é certo, depois exploramos o oito – ele responde em tom baixo- cara, como sinto falta do cozido que minha mãe fazia. Um mês sobrevivendo de pães, biscoitos e salgadinhos não alimentam nada.
— Digo o mesmo, mas não temos como cozinhar aqui. A não ser que você ache um fogão e botija para levar a cinco metros de altura.
Descer a rua não é difícil, o bairro todo ficava em uma depressão e havia uma pequena vala entre o muro das casas e as mesmas, no condomínio ainda tinham os carros estacionados como cobertura adicional à vala. Não era hora de conversar, pequenos grunhidos nos diziam que havia coisas cambaleando na Rua 4, mas depois de um mês trabalhando nisso não era preciso conversa.
Raul acenou para a rua e para si, ele iria verificar se havia abertura para passar. Acenei e estiquei a mão para a mochila, uma faca pequena de caça, presente do morador do 201 do bloco seis, era uma boa arma para lutar com os zumbis, principalmente porque entrava fácil no crânio apodrecido e não ficava presa.
Havia uma abertura, com um sinal rastejei ate estar escondida por um doblô verde- escuro, Raul fez uma contagem com os dedos, 4....3.....2.......1 e eu disparei na penumbra ate um vazo gigante de planta ao lado da varanda do 101. Olhei adiante, a porta do hall estava fechada e não havia ninguém dentro ou fora em nenhum lugar visível.
Levantei a mão mandando um “livre” por um sinal positivo. Três minutos depois, com o folego faltando, ele se espremeu ao meu lado.
— Está calmo demais hoje, você viu algo de diferente durante a noite?- questionou ele arfando um pouco
— Barulho de tiro no bairro de baixo, foi longe, mas chamou atenção de muitos dos mortos-vivos. Provavelmente de algum grupo restante das bocas de fumo, são basicamente os únicos armados na região.
O homem sussurrou um ‘melhor pra nos’ antes de enfiar a mão na própria bolsa, era a velha bolsa de mochileiro que ele usou na escola nos últimos anos, grande demais para simples livros escolares, mas perfeita para a atual situação. O molho de chaves do porteiro emergiu de um dos bolsos e logo a chave do bloco dez estava em minhas mãos.
—Você quer ir pro 102 e eu explorar o 301 ou fazemos isso juntos?
Raul ponderou por um minuto.
— sozinhos estamos sem apoio, mas exploramos mais lugares- ele hesitou e mordeu o lábio – junto é melhor.
Não discuti, eu concordava com ele. Por mais forte eu que me achasse era difícil lutar com zumbis do sexo masculino, mesmos mortos eles ainda tinham parte da força e massa corporal superior a minha.
A janela do 104 estava com uma mancha inconfundivelmente vermelha, mas não havia barulho no apartamento. Nosso destino, o 102, estava vazio de qualquer coisa viva ou morta, a porta fora quebrada, como muitas outras, mas a grade ainda estava de pé e firme na parede; o cadeado nela era novo e a chave em minha mão. Escondido no ultimo quarto estava nosso suprimento de biscoito, roubados do comercio na rua e de vários apartamentos com crianças em idade escolar, sobraram 10 pacotes que venceriam em duas semanas.
Sem conversar sobre a eminencia da escassez de comida que vinha em nossa direção, juntamos os pacotes na mochila de Raul e fomos ate a cozinha. A geladeira estava em modo viagem, à energia vinha de uma placa solar no terraço desse bloco, não sabíamos quanto ele podia suportar então apenas essa geladeira estava ligada entre todos os apartamentos que entramos. Dentro havia dois litros de leite, quatro copos de iogurte, que venciam hoje, três barras de cereal, vários saches de maionese estragada e uma ultima palma de banana.
— Levamos a banana agora, o iogurte e um litro de leite; o ultimo que tomamos foi há uma semana e esses dois não vão durar muito mais- comento – leva as barras de cereal também, não sou muito fã, mas entre a fome e isso eu fico com elas.
— melhor apressar o passo já não está mais escuro lá fora e não podemos subir no abrigo sem chamar atenção
— essa é sempre a pior parte
Não éramos as ultimas pessoas vivas no bairro, em algum lugar ao sul, nas ruas estreitas e cheias de buracos, os remanescentes de uma facção criminosa dominam. Não são as melhores pessoas para se encontrar se você quer ficar vivo e livre. Por um tempo muitas pessoas tentaram se juntar ao grupo, eram os únicos armados na região e combatiam melhor os pequenos grupos de zumbis, mas os tiros excessivos atraíram uma enorme horda de bairros vizinhos, o que forçou a todos mudar de lugar, não sem reduzir nossos números e os deles. Mel foi uma dessas mortes.
Desde então não entramos ou saímos de nosso esconderijo enquanto é dia e também não entramos ate a luz do sol se apagar, evitar ser visto é o melhor, ate eles mudarem de base novamente. Eu não queria arriscar a vida de mais ninguém.
Depois de trancar a grade do 102, subimos silenciosamente as escadas. No segundo andar tem um corpo em decomposição perto da janela, um dos zumbis que matei anteontem, costumava ser uma moça recém-casada alegre, mas agora era o corpo podre de uma coisa que devorou o bebe que era seu. O andar está silencioso e com o pior dos odores, mas apenas torço o nariz e continuo.
Um grunhido baixo na porta do 304 me deixa alerta, fica pior quando outros grunhidos respondem no 303 e 302. Minha mão aperta a faca de caça, a tensão pressiona cada musculo do meu corpo e eu começo a repetir a frase criada semanas atrás “eles não são humanos, você não esta matando pessoas”.
Abrimos a porta do 301 com um truque útil que Raul aprendeu anos antes, tem um zumbi na sala, olhando para a varanda, devia ser uma mulher muito baixa ou uma criança, mas agora era uma carcaça com nacos de carne faltando nos braços, pescoço e pernas. Eu sabia que tinha que fazer o primeiro movimento rápido ou seria vista e todo zumbi há trezentos metros ouviria o grito desse a minha frente.
Senti Raul atrás de mim, na mão um facão, tenso e nervoso. Firmei o primeiro passo, então o segundo e terceiro, quarto e quinto, agora um movimento rápido e limpo com a faca e tudo acabaria.
“Ela não é humana”.
Golpeie-a!
“Você não esta matando uma criança”.
Agora, aja agora!
“ela não é humana!”.
Ergui a mão e atingi com força o crânio podre, força demais, pedaços podres de carne saíram da cabeça e se espalharam ao redor, sangue fétido pintou em meu rosto e pescoço descoberto.
— ARRG! Eu vou vomitar – avisei sentindo a bile na garganta.
— Você pode querer esperar antes de vomitar, ouvi barulho em um dos quartos- Raul disse, o rosto retorcido de nojo e ele me ofereceu um pano de prato da mesa ao lado da porta para me limpar.
— Verifica logo a cozinha, comida é prioridade agora.
Encosto a porta e tento tirar o pior do sangue de mim e da faca. A sala devia ser um lugar agradável, sofá grande, tevê e som e fotos de família, mas não dou atenção a isso agora, minha preocupação esta em olhar através das cortinas, lá fora onde à luz do sol esta forte, zumbis caminham nas salas, varandas e ruas próximas do apartamento. Não é uma visão animadora.
— Cris, vem olhar essa geladeira – tom de voz dele era aliviado e alegre – Esses daqui estocaram comida antes de tudo ir pro ar.
Corri ate a geladeira e bingo! No frízer tinha comida congelada, comida de verdade! Porções de feijão, arroz, cozido de frango e carne, também vários pães congelados. Na outra porta haviam verduras meio estragadas, duas garrafas de suco concentrado de caju, três cartelas de iogurtes intocados, queijo e presunto, ovos, maças, bananas quase maduras, achocolatados e sucos de caixinha.
Sustentaria todos nos por quatro, cinco, ate seis semanas se fossemos cuidadosos!
Mas estava tudo calmo demais, algo tinha que dar errado. Inadvertidamente a voz de Raul atraiu os zumbis que estavam nos outros cômodos do apartamento, em nossa alegria por encontrar tanta comida, nenhum de nos viu os mortos vivos chegando ate ouvir os gritos. E então, claro, os mesmos gritos foram respondidos por batidas nas portas dos outros três apartamentos no andar e no superior.
— Droga – xinguei – agora nos morremos.
Notas finais
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