Pan, the Devil

5 Cap.4 - Sereias


Notas iniciais
Making Off - Pan, the Devil Lucy Green: Sentimentos: Uma sensação causada pelo cérebro, que as pessoas associam a partes do corpo, podendo dessa forma achar que o sentimento vem de tal órgão. - Meu coração estava apertado. Era tristeza, era amor. *Origem: Lucy Green* Lucyanni: Sentimentos: Ter consciência de um fenômeno ou de algo que se passa no interior de si mesmo – Reconhecer-se. *Origem: Priberan* Lucy Green: Como podem ver, o que senti naquele dia (cap.3) não passava de algo que meu cérebro pensou ter sentido. O que quer dizer que estou louca. Vejo Peter Pan; sinto uma coisa estranha no peito e consigo ver crocodilos que engoliram relógios... – Suspira. Lucyanni: Não está negando demais não? Simplesmente aceite seus sentimentos. Lucy Green: Não Não e não! – Bete o pé várias vezes. – Não sinto nada. Peter Pan: Sente sim... – Sorriu maliciosamente, tocando de leve nas madeixas da garota. Lucy Green: Vocês dois estão contra mim... – Morde o lábio vermelha de irritação. Peter Pan e Lucyanni se encaram por alguns instantes, concordam em silêncio e quando ela sai do camarim concordam em uníssono – Vai dar um trabalho para que ela admita... – Como é teimosa. Os dois pensam. Terminam de se arrumar e entram no palco da história. Lucyanni: Ok. Obrigada por ler. Boa leitura.

O que mais eu podia fazer? Agora teria que atura-lo se vangloriando por me ajudar... Deus... Implorei, agora fora da caverna olhando para o céu, que já mudava para um tom alaranjado. Dai-me paciência... e deixe Pan rouco, se não for pedir demais... Pedi caminhando atrás do que seria o “Peter Pan”. Tudo aquilo era real. Eu tenho de admitir. Mas, se admitisse, o que aconteceria comigo? Provavelmente voltaria a ser aquela criança chata que chora por tudo...

Olhava para o chão, ainda caminhando. Distraía-me com o som das folhas batendo no meu pé descalço que já estava encardido. – Ei... – Perguntei, ainda olhando para o chão sem parar de andar. Senti um dedo sobre a minha testa.

– Olha por onde anda. Quase bateu em mim. – Disse, ele estava sério. Achei que comemoraria por eu estar o seguindo mas não o fez. O que aconteceu?

– Tá. – Falei. Eu levantei o rosto, e sua boca não sorria. – Por que agora está tão bravo? – Perguntei mais para quebrar o silêncio que para conversar.

– Não estou bravo. Nunca fico bravo. – Ele sorriu para mim, parecia um anjo. Como alguém com aquele sorriso poderia ser... Ele? Mordi o lábio negando várias vezes em minha mente.

“Ele não é bonito. Ele não é bom. Ele está te mantendo em cativeiro. Entenda. Ele é horrível. Você quer ir embora...” Repetia e tentava respirar sem parecer ofegante.

– Bom saber... – Suspirei, e o silêncio novamente caiu sobre nós.

Ele assobiou baixinho, junto aos passarinhos, uma canção que eu também conhecia. Mas de onde... Fiquei a fitar suas costas, tentando recordar.

– Não se lembra, não é mesmo? – Perguntou, sem virar para mim.

– Lembro do quê? – Perguntei.

– Nada. Não é importante. – Retrucou, voltando a ficar em silêncio.

A caminhada começava a me cansar. Eu não sabia aonde íamos e o silêncio me irritava. Apertei as mãos contra a calça do pijama, tomei coragem e pedi:

– Sabe. Não sei aonde vamos. – Mordi o lábio, correndo para ficar a sua frente, agora eu caminhava de costas. – Mas eu preciso limpar minhas roupas. Tem algum lugar com água aqui? – Perguntei.

– Quer conhecer o lago? – Perguntou. Consenti com a cabeça. Eu não tinha certeza se queria mesmo, mas queria ao menos encontrar água e sair daquele matagal espesso. — Não devia. — Respondeu por fim.

– Por quê? — Retruquei. — Para de querer me assustar, Pan. — Felei irritada.

Ele deu de ombros, ainda me observando soturnamente. – Está bem. Mas não diga que não avisei.

Avisou o quê? Ele não me avisou nada... Franzi a testa, agora um tanto em dúvida. Parei de andar e ele me ultrapassou. Caminhou até ficar uns dez metros distante de mim.

– Ué. Não vem? – Perguntou. Concordei, caminhando um pouco mais rápido para alcança-lo.

Chegamos em alguns minutos, pelo que percebi, em um lago, tão cristalino quanto o mar que antes, mais cedo, eu havia tido o privilégio de ver. Coloquei o pé na água. Um calafrio percorreu meus nervos. A água estava estranhamente gelada para um dia tão quente.

– Ok. Vira pra lá. – Pedi, fazendo o gesto de giro com o dedo. Ele negou. – Como quer que eu tome banho com você me olhando? – Perguntei, ficando irritada.

O garoto voltou a voar. – Para começo de conversa quem quer tomar banho é você. – Começou. – Segundo, se alguma coisa acontecer a você, eu tenho que estar vendo para poder ser seu príncipe encantado. Não é mesmo? Princesa? – Perguntou, voltando a sorrir. Aquele garoto é bipolar. Só pode ser bipolar. Qual é?

– Ok. Mas não pense nada estranho.

Ainda apenas com o pé na água tirei minha blusa e o shorts, ficando de calcinha e sutiã. Coloquei as roupas na água, ficando de joelhos na beira do lago e esfregando toda areia e lodo que havia grudado na roupa.

Pan estava me observando com olhos entediados, não sabia se ficava contente ou irritada. Eu era tão não atraente assim? Mas... Acho que é melhor assim. Não é mesmo?

Esfreguei as manchas mais algumas vezes, tentando retirar toda sujeira. Com um sorriso percebi que já estava bom, voltei a observar Pan, uma de suas sobrancelhas se ergueu ao me ver observando-o. Chamei-o com a mão.

– Faz um favor para mim? – Pedi. Ele concordou, parecendo um pouco em dúvida.

– Não vou virar de costas. – Ele falou.

– Eu sei. Já entendi isso... – Coloquei uma das mãos na cintura, segurando as roupas com a outra. Você pode segurar as minhas roupas estendidas nas suas costas para secarem enquanto tomo um banho? – Pedi. Acho que aquilo era estranho, mas era o único jeito de secar sem voltar a sujá-las. Não as colocaria no chão.

Ele concordou. – Mas aí minhas roupas ficaram molhadas.

– Então ao menos segure-as esticada nas mãos. – Pedi, agora sentindo frio. Queria que secassem logo.

Ele arqueou uma das sobrancelhas. Pegando apressadamente as roupas. — Está bem. Agora vá tomar um banho. Deve estar frio.

Como ele percebeu? Com as roupas em suas mãos ficou segurando as duas contra o sol. Enquanto eu, finalmente entrava na água.

– Ah. Mais uma coisa... – Ele comentou. Olhei para cima, ele se aproximou, deixando sua cabeça a centímetros da minha, só que seus pés estavam voltados para o sol, ele estava completamente de ponta cabeça.

– Sim. – Perguntei.

– Não quer tirar isso aqui também? – Ele colocou um dos dedos, que por sinal eram compridos e esbeltos, contra a alça do meu sutiã. Ao soltá-la um estalo irrompeu graças ao choque na minha pele.

– NÃO! – Gritei. – Vai estourar! Não faça isso! – Mandei, colocando a minha mão contra a dele que já estava em minha alça novamente.

– É isso que quero... – Riu. Mas não o fez novamente, se distanciou e voltou a segurar as roupas.

Não sei se devo bater nele ou agradecer. Sempre que começo a pensar bem sobre ele, percebo que estou errada. Mordi o lábio, tentando ignorar seus olhos, novamente entediados contra o meu corpo.

Coloquei o pé contra a água, que ainda estava fria. O arrepio novamente correu. Olhei para a água, apesar de clara, era meio densa, não dava para enxergar o que acontecia debaixo d’água. Pisei mais fundo, e aos poucos, enchi-me de água até a base do sutiã. Não queria molha-lo. Sutiãs são ruins para secar... Molhei o rosto, e um pouco o cabelo, jogando água nos mesmos. Fiquei uns cinco minutinhos naquele lugar. Não estava mais com frio, meu corpo se acostumara com a temperatura da água e tudo parecia muito calmo, quando ouvi um risinho. Um riso fino e esganiçado.

– O que é isso? – Perguntei. Olhei para a água, comecei a retornar devagar para a margem, mas antes que pudesse chegar, algo afiado, extremamente cortante arranhou meu tornozelo. Movi o pé com força, em seguida sentindo que pisei em algo. Uma mão? Pensei. – Pan! – Chamei. Ele correu, voou, até mim.

– O que foi? – Perguntou se divertindo.

– Me tira daqui. – Pedi. Eu começava a ficar assustada. Mais uma vez, um risinho divertido ocupou todo o lago.

– Por quê? – Perguntou. Seu olhar sério e sínico me assustaram também. – Você disse que queria vir aqui. Não quer fazer novos amigos? – Ele se distanciou um pouco, não tanto, mas mesmo assim não conseguia alcança-lo.

Tentei correr para a margem, a água agora na minha cintura. – Já vai? Tão cedo? – Perguntou a mesma voz da risada. Agora o objeto cortante passou pela minha cintura, prendendo-se. Uma dor agonizante passou pelo meu corpo. Via a água ficando vermelha com o meu sangue. O que era aquilo? Pensei. Meus olhos estalados de medo. Eu não sabia o que fazer.

– Pan. Pan! Me ajuda. Por favor. – Pedi.

Ele me olhou. Um riso brotou em seu rosto, seu olhar ainda frio. Não me respondeu. Mas se aproximou de mim, deixando que meus dedos encostassem nas mãos dele. Minha mão estava fria. Eu estava assustada. Não chorava, mas queria. Ele me puxou aos poucos, sentia um rasgo se formando em minha cintura.

– Solta. – Pan falou, não para mim, olhava para baixo. Olhei junto dele.

Em minha cintura, havia garras presas de uma mão, logo abaixo, uma criatura menor que eu, como uma criança, azulada e que possuía dentes grandes demais para a boca.

– Não. – A vozinha irritante correu de novo, sentia o sangue correndo para fora de meu corpo. Além de minha cintura, meu tornozelo também ardia.

– Sua piranha, ela é minha. – Pan chutou a cabeça do bicho fazendo com que soltasse. O mesmo caiu de volta no lago.

Quando suas garras se soltaram eu gritei baixinho. – Ah... – Uma feição de dor deve ter surgido em mim. Nada poderia fazer aquela dor estancar. O sangue corria rapidamente por meu corpo molhado, escorrendo até além de minhas coxas. Eu achava que ia morrer.

Pan agora me segurava como uma princesa. O meu lado machucado roçava contra a sua camiseta, que era muito áspera. Ele parou distante do lago, em uma espécie de campina.

Tentei me levantar, mas não aguentei. Tanto meu tornozelo quanto minha cintura estavam totalmente encharcados de sangue. Eu não aguentaria por muito mais tempo, minha visão ficava turva. Eu logo iria desmaiar.

– Não se mecha! – Ordenou irritado. Concordei. Ele correu pela campina, pegando algumas coisas, não sabia o quê. – Vai arder. – Alertou.

Seus dedos estavam gosmentos, e passaram de leve por meu tornozelo, que apesar da dor ficou logo dormente.

Agora eu de olhos fechados. Finalmente, comecei a chorar. Mesmo querendo, não conseguia estancar as lágrimas, sentia-as rolando por minha bochecha, caindo em seguida ao chão.

– Está chorando? – Pan tirou os dedos de meu pé. – Dói tanto assim? – Perguntou.

Neguei com a cabeça. – Des... Desculpe... – Repeti algumas vezes. Era tudo culpa minha.

– Por enquanto só fique quieta. – Ele pediu. Podia sentir que por mais alguns instantes seus olhos ficaram sobre mim, eu não enxergava nada com as lágrimas, mas sentia que seu olhar era de alguma forma terno. Agora, com um pedaço de alguma coisa laçou meu tornozelo, que não mais ardia tanto.

Novamente passou a mão sobre mim, agora em minha bacia e cintura. Um grunhido irrompeu involuntariamente de minha garganta e eu virei, ficando de lado para ele. – Dói. Dói. – Foi tudo que disse.

– O arranhão está profundo. Mas me deixe terminar. – Ordenou. Neguei com a cabeça. – Tá. Você quem pediu. — Disse irritado. Com uma das mãos segurou meus pulsos juntos, deixando-me novamente deitada para cima, se sentou sobre a minha bacia me deixando imóvel, suas pernas laçaram-se nas minhas que lutavam um pouco contra ele. Agora não conseguia mais me mexer. – Entende que quanto mais se mexe, mais sangue sai e mais difícil é de interrompê-lo? – Perguntou. Eu sabia. Mas não ia admitir. Seu olhar ilegível contra o meu. Ele estava preocupado. As lágrimas ainda rolavam então fiquei, finalmente, quieta. Ainda em cima de mim tocou no ferimento, com o dedo gosmento. Pegou uma folha grande que eu desconhecia e raspou no mesmo.

– Argh! – Eu grunhi. Ele era louco. Estava deixando tudo pior.

– Fica quieta! – Mandou de novo. Tentei obedecer mordendo o lábio. Agora as lágrimas eram de dor.

Depois de repetir esse processo ardente algumas vezes, pegou um pedaço do mesmo tecido de meu tornozelo e mandou que eu sentasse, o fiz. Ele ainda ficou em meu colo, enfaixando minha cintura. A dor cessava aos poucos, mas, não sabia se realmente aquilo me ajudaria.

– Precisa fazer isso. Vou ter que trocar sua faixa mais três vezes antes que fique bom. – Concordei em silêncio. Eu ainda chorava. – Por que está chorando?

Neguei várias vezes, nem eu sabia. Era tanta coisa. Simplesmente não conseguia parar. Ele me pegou novamente em seu colo, dessa vez me dando um abraço.

– Me solta. – Pedi balbuciante.

– Não.

– Me solta.

– Não.

– Me solta.

– Não.

Tentei lutar um pouco. Mas no final, a dor ainda era muita para que eu conseguisse ter uma chance contra ele.

Ainda me abraçando ouvi sua voz baixinha contra meu ouvido. – Desculpe... – Pediu. – Sei que deveria ter ajudado antes. – Repetiu no mesmo tom. – Mas, eu queria que percebesse, aqui não há príncipes nem cavaleiros. – Ele respirou. – Aqui. Só tem eu. Deve me escutar.

Aquela última frase fez meu coração palpitar algumas vezes. Não entedia ainda, mas de alguma forma, estava feliz por ser ele. E não um príncipe qualquer.

Ficamos quietos daquele jeito por mais alguns instantes. Eu havia chorado tudo que queria.

– Agora pode me soltar? – Pedi.

– Não. – Falou.

– Posso saber por quê? – Eu voltava a ficar irritada.

– Você é meio bipolar, não é? – Assentiu. Talvez ele tivesse razão. Tanto eu quanto ele éramos meio assim. – Não posso, não vai conseguir andar.

– Consigo sim. – Falei.

– Ainda não confia em mim. – Me soltou, meu tornozelo machucado bateu no chão, e logo me vi caída de joelhos.

– Eu disse. – Pegou-me novamente no colo.

– Tá. – Respondi. – O que eram aquelas coisas? – Ele havia começado a andar, mas parou e sentou contra uma árvore colocando-me ao lado dele. Aquela conversa duraria muito tempo.

– Aquela coisa. Era uma Sereia Piranha. Ela é ruim. Mas conheço piores... – Riu de leve.

– Por que não me ajudou desde o começo? – Perguntei.

– Já disse. Queria que entendesse. Aqui não tem... – O interrompi

– Aqui não tem cavaleiros nem príncipes, só você. – Ele concordou.

– Inverteu a ordem mas, ok.

Ri de leve. Como era bobo. Minha cintura ardeu com tal ato, fazendo com que eu colocasse a mão sobre o machucado. Senti o tecido. – O que é isso? – Olhei para o pano que antes parecia um tom de bege, agora já ficava avermelhado pelo sangue que ainda corria aos poucos.

Ele mordeu o lábio. – É... Sua blusa.

Olhei para mim. Eu ainda estava de sutiã e calcinha. – O QUÊ?!? – Gritei assustando todos os seres vivos próximos. O QUE EU VESTIRIA AGORA?!? Ergui a mão para bater nele, me impediu.

– Não se esforce, vai demorar mais para melhorar. – Forcei meus sentimentos a apenas uma cara feia, abaixando a mão.

– O que vou vestir agora? – Perguntei.

– Vem comigo. – Ele me pegou no colo. – Não é como se tivesse muita escolha... Mas... – Riu-se algumas vezes, antes de começar a voar.

Segurei em sua roupa. Agora a florestas estava a baixo de nós. O céu alaranjado já se punha. Senti minha barriga roncar. Além de tudo, isso. QUE VERGONHA!!!

– Além das roupas temos que comer. – O garoto brincou.

– Que vergonha. – Falei baixinho.

– Não o tenha. Isso é fofo. – Respondeu. Me senti vermelha.

Peter Pan. Não me faça ficar vermelha. Lembre-se que se meu coração bate mais depressa, meu sangue corre mais rápido e meu machucado não sara. Mordi o lábio. Não é como se ele fizesse aquilo de propósito. Mas eu queria dizer-lhe isso. No final, não o fiz.

Acho que só estou negando isso de mim mesma. Mas por enquanto, isso é o suficiente.

O que estou falando?!? Sou louca?!? SÓ PODE SER O MACHUCADO. Tem que ser. Perdi sangue demais. Agarrei a roupa de Pan tentando esconder meu rosto avermelhado.

– O que foi? – Perguntou.

– Nada... – Neguei sem olhar para ele. – Só não quero cair.

Ele riu. Não sei se acreditou, mas pelo menos, tentei disfarçar.

Notas finais
Obrigada pelos Reviews~~ *___* Espero que tenham gostado~~