Pan, the Devil
17 Cap. 16 - Calmaria
Notas iniciais
POV – Lucy
Senti-me brutalmente idiota. Aquele cheiro era de morango, aquelas flores tinham cheiro de morango, como eu não lembrei daquela vez que cai com a borboleta. Mas espera ai! Arregalei os olhos dos quais ainda caiam algumas lágrimas.
– O que foi? – Aramis perguntou um tanto transtornado.
– Como você não.... – Hesitei, seria eu rude demais? – Envelheceu? – Acabei perguntando, secando as lágrimas em minhas bochechas.
Ele riu, acho que nunca havia o visto emitir tal tipo de som, era uma risada tímida e divertida, agradável, se é que posso chamar assim, aquela que dava vontade de rir junto. – Sério que é isso que quer saber? – Ele chacoalhou a cabeça algumas vezes em negação, estava decepcionado? – Eu vivi em Neverland. – Disse apenas.
Como eu podia estar tão tonta. – É... – Respondi. – Desculpe. – Assenti novamente, agora voltando a atenção para as flores.
– Fazia tempo que elas não desabrochavam... – Assentiu ele contra meu ouvido esquerdo.
– Sério? – Perguntei.
Ele concordou sem dizer mais nada, ficamos apreciando aquele jardim, que era, ao menos para mim, lembranças que a muito eu achava não ter.
POV – Pan
Lucy estava demorando para sair daquela sala maldita do trono... Suspirei jogando uma bolinha, ou algo do tipo para cima.
– Maldição... – Praguejei. Por que não conseguir reagir ao que ela me disse? Senti-me vermelho ao lembrar de sua fala: ‘Porra, eu te amo!’. Eu também amava ela... Bom, eu acho que sim... Eu sei lá! – ARGH! – Esbravejei uma segunda vez, sem conseguir pegar a bola que bateu exatamente na minha testa. – Droga... – Disse uma segunda vez. – Como eu faço para fazer algo direito? – Coloquei-me de pé, bagunçando meus cabelos com as mãos e andando de um lado para o outro sem conseguir pensar. Como se isso pudesse me ajudar a pensar melhor! Eu estou tão confuso que nem meus próprios pensamentos fazem mais sentido.
– Por que você foi nascer? – Perguntei olhando para cima, é claro que, pensando nela.
Ri sozinho, agora tentando evitar de lembrar tudo que acontecera nos últimos dias, era tanta coisa, aposto que ela nem tivera tempo para pensar, um dia ela não aguentaria mais, piraria... Para quem não acreditava em nada, ser uma princesa de contos de fadas é algo cruel demais... Suspirei mais uma vez.
– Se ao menos ela soubesse... O porquê da maldição... – Fechei os olhos, mais uma vez deitado no sofá.
‘– Acorde! – Alguém batia em minha perna de forma que eu me levantasse, estava dolorido, havia cortes por todo meu corpo, hematomas esverdeados, quase sem dor e outros arroxeados, totalmente novos, eu não conseguia pensar claramente, há quantos dias eu não via a luz do sol? Há quantos dias eu não comia? Há quantos dias eu não respirava com facilidade? A dor era tanta que eu preferia morrer.
– Posso parar? – Implorei para aquele que dizia ser ‘meu criador’. Estava mais para ‘meu torturador’. Ele era insano, e eu, eu não teria mais vida.
– Calado. Vá cumprir sua parte... – Riu-se Gold, eu havia treinado por muito tempo, tinha quase meus dezesseis anos naquela época, sendo que fugi de casa antes de completar sete.
– Se fizer isso... Eu estarei livre? – Perguntei, olhando para os cortes que já formavam cicatrizes tão profundas que eu apostava que jamais sumiriam.
O personagem a minha frente riu, a risada sínica e amedrontadora, com a qual eu já me acostumara. – Simmm.... – Ele se prolongou na palavra... – Mas... – Levantou o dedo indicador para cima. – Se falhar, eu farei questão de fazê-lo voltar, para o mundo onde não há mágica... – Assentiu ele.
Apertei minha mão contra o que restara de minha roupa, e meu corpo. Meus ossos eram contáveis, será que algum dia eu não sentiria dor?
Aquele lugar era quase tão horrível quanto este, mas aqui, eu pelo menos podia voar, nadar, comer o que quiser, me divertir... De certa forma, eu não queria voltar para aquele lugar, cinza, sem graça, sem mágica.
– Sim. – Respondi, prometendo a mim mesmo que não permitiria que qualquer coisa me atrapalharia.
Depois daquele dia, acredito que até em Neverland, um ano havia se passado, isso é muito tempo. Eu estava em meus dezessete anos e assobiava sozinho a olhar para o mar, azul, cristalino.
Meu corpo já havia se recuperado, e o treinamento havia sido deixado de lado. Eu teria que matar... E assim seria dono daquele lugar. As marcas por meu corpo eram quase invisíveis, mas eu sentia cada uma das marcas, como se ainda estivessem ardendo em meu corpo.
Estava sentado em um tronco de árvore, observando para ver quando Gancho retornaria da Floresta Encantada. Um barco surgiu em meu campo de visão.
– Sininho, o que é aquilo? – Perguntei pegando a luneta.
– Não é Gancho? – Ela perguntou apoiada em meu ombro, forçando os pequenos olhinhos.
Neguei com a cabeça. – É algo diferente. – Respondi, detinha a bandeira da coroa e era um barco muito mais bem tratado que o de Gancho.
– Será que chegou a hora? – Perguntou Sininho.
Neguei com a cabeça, em dúvida, sem querer acreditar, em alguns dias, acreditava eu, eu estaria livre.
– É isso. – Disse eu, estava totalmente determinado.
Daquele barco real que se aproximava, saiu de dentro Gold, segurando um homem pelo braço.
– Achava que eu tinha que matar uma criança... – Sussurrei para Sininho que concordou comigo. O que aquele homem de meia idade estava fazendo em Neverland?
– Será que aquele canalha te enganou de novo? – A fadinha ficara vermelha de raiva, pisando firme no ar.
– Não se preocupe, eu vou matar quem quer que chegue neste lugar, só esperar para a noite.
Sai daquele lugar para me esconder na casa da árvore, eu infelizmente, havia perdido um detalhe, a criança que se encontrava no colo do homem.
Risadas baixinhas e divertidas irrompiam de uma parte da campina, ao norte da casa na árvore... Mas o que é isso? Pensava, é uma risada, uma ninfa?
– Ninfas? – Eu perguntei caminhando sem muita pressa.
– Não... Parece uma anã. – Sininho suspirou, só havia nós dois ali.
– O que é aquilo? – Perguntei apontando para um corpo pequeno, que vestia algo comprido, cobri-a até o tornozelo, não que o ser fosse muito grande, a vestimenta parecia cheia de flores e babados.
– Acho que isso que é uma criança.
– Mas é tão... – Suspirei. Por que Gold teria me treinado para matar algo tão simples e frágil? Aquilo estava fácil demais. – Pequeno... – Olhei com desgosto.
– Acabe logo com isso.... – Assentiu Sininho.
– Tem razão... – Corri para o meio da campina, saltando em cima da garotinha como um lince. Ela gritou assustada, apertando os olhinhos fechados, infelizmente, duas lâminas pousaram bem na minha jugular.
Olhei para a face da criança, avançando mais, não me importando com os cortes, uma das lâminas porém, pressionou muito mais que antes, forçando-me a parar. A criança era pálida e loira. Seus olhinhos eram castanhos e pareciam jabuticabas. Os lábios eram rosados e as bochechas também. As mãos pequenininhas apertavam-se uma na outra, ela parecia uma boneca, tão delicadamente frágil que eu me sentia culpado por tê-la feito chorar lágrimas que mais pareciam pequenos cristais, de alguma forma, pela primeira vez na vida, eu me senti culpado?!
– Parado, Pan! – Gritaram dois jovens, seguidos por mais várias crianças, tão pequenas quanto a garota, que era a única ali, do sexo feminino.
– Que... Quem? – Perguntei apertando uma das minhas sobrancelhas contra meus olhos, de onde eles saíram? Pensei suspirando.
– Somos os Paladinos da Rainha. – Disse o que era mais alto e provavelmente o mais velho. – Sou Demócrates. E vamos te matar. – Ele disse sério, sem apresentar qualquer sentimento, ou vida, em seu olhar.
A lâmina dele passou rente ao meu pescoço, ao lado da garota estava um jovem loiro e outro mais ruivinho.
– Philos, D’Artagnan, tirem ela daqui.
– O.... O que vão fazer? – Perguntou a garotinha, com os olhos ainda estalados e trêmulos.
Aquele sentimento, ao fitar a garotinha, fez-me mais uma vez sentir... Remorso?
O outro jovem que também detinha a espada contra meu maxilar, fora ele que pressionou a lâmina cortando minha pele e fazendo o sangue em meu pescoço jorrar. Estranhamente, ele encarou a garotinha assustada e libertou-me completamente, voltando-se, de novo, à garota. – Lumi? – Ele chamou, a menininha direcionou seu olhar totalmente para ele, parecendo muito mais séria e adulta.
– Sim. – Ela respondeu sem dúvida alguma em seu olhar.
– Ele vai te fazer mal, sua mãe quer que a protejamos... – Ele assentiu abaixando na altura dela.
– Não! – Ela esbravejou com o rapaz, bateu o pé descalço firme no chão. Ele se pôs de pé.
– Por que não? – Quis saber, seu olhar sem abalo nenhum, mas sua boca se contorcendo, ele estava sorrindo para ela. Ele parecia muito diferente instantes antes ao falar comigo. Mas, de certa forma, ele parecia ter certeza de que a criança tinha total controle e responsabilidade por suas decisões.
– Ele ainda não me fez mal. – Assentiu em resposta ao jovem de cabelos negros. – Todos merecem quantas chances forem necessárias. – Ela disse mais uma vez, realmente, ela era mais adulta do que eu. – Lembre-se que compaixão, misericórdia e perdão são os maiores sentimentos que qualquer Rainha deveria ter. – Ela chamou a atenção de todos os Paladinos, que estremeceram ao som de suas palavras.
Um homem, mais velho, que todos os outros apareceu, e pegou a garota no colo.
– Papai... – Ela assentiu, afundando seu rosto no pescoço do homem, parecendo aconchegada.
– Vocês ouviram, ela tem razão. – O pai dela ordenou. Todos saíram da posição de ataque, apesar de não guardarem suas armas, eu ainda estava um tanto estático com toda a informação recebida em uma única paulada. – Pan! – O homem ordenou, de alguma forma, me senti obrigado a olhar para ele.
– Hum. – Respondi, a contra gosto.
– Por ascensão da Princesa Lucy Green, você pode ir. – Ele disse apenas, virando de costas, ainda segurando a garota no colo.
Sininho tentou me impedir perguntando coisas como ‘por que parou?’, ‘ataque-os’, ‘é a sua chance’. Ela estava certa, mas, de alguma forma, não sentia que aquilo era o que eu deveria fazer.'
Aquele foi o primeiro dia que a vi. Era tão estranho, apesar de ter pensado em matá-la, mais vezes, mesmo em meu estado demônio, bestava ver aqueles olhos inteligente e jabuticabados que eu não conseguia, eu sentia que não deveria... Coloquei o braço em cima de meus olhos para pensar melhor.
– No final das contas... – Apertei os olhos sentindo que, depois de tanto tempo, lágrimas despencavam de meus olhos. – Eu já devia minha vida a ela naquele tempo... – Assenti percebendo. – Está na hora de pagar esse débito... – Suspirei.
– Débito de quê? – Perguntou uma voz feminina, coloquei-me de pé, disfarçando as lágrimas o máximo que pude.
– Lucy? – Chamei.
– Não... A patinadora Maria Petrova. – Ironizou, ri de leve para parecer mais alegre, encobrindo as lágrimas um pouco mais.
Não conseguimos conversar muito além disso, só coisas banais... Parecia que tudo seria calmo, mas, eu não havia respondido se a amava também, eu não conseguia, parecia que não ia sair... Suspirei.
– O que foi? – Ela perguntou direcionando toda sua atenção para a minha pessoa.
– Na... Nada... – Disse vermelho, ela não poderia saber.
A Rainha entrou na sala, de alguma forma fiquei feliz, ao menos o silêncio não pareceria minha culpa, minutos depois todos estavam no salão principal, todos os meninos, estavam felizes por estar em casa, com suas armas.
O dia naquele cômodo parecia tranquilo, mas talvez, estivéssemos falando um pouco cedo demais, afinal, depois da calmaria, vem a tempestade. Uma risada agonizante e nada agradável irrompeu pelo silêncio agradável e a porta principal se abriu.
– Rumpel! – A Rainha gritou arrancando sua espada.
O pensamento era geral, havia chegado a hora.
Até Lucy já portava um sabre.
– Ora... Vocês são tão divertidos... – Rumpel indagou, atrás dele um exército de seres da sombra se aglomeravam.
POV – Lucy
Eu não sabia o que estava por vir, mas isso de alguma forma era culpa minha. Peguei meu sabre colocando-me a frente de todos.
– Que graça... A menina que deveria estar morta. – Disse o ser de rosto esfarelento e olhos alaranjados.
– Ninguém morre hoje, além de você.... – Sorri para ele... Os Meninos se divertiam com a minha coragem, enquanto as sombras zombavam de cada uma de nossas fraquezas.
– Você é fraca.
– Você é mais. – Respondi.
– Como ousa? – O sorriso do rosto do ser em minha frente sumira.
– É simples... – Olhei-o com descaso. – Nem me matar com suas próprias mãos você consegue... – Assenti. Pan riu ao meu lado, e Aramis também, ao meu outro lado. Ok, todos riram.
– Ela é minha. – Rumpel indagou para todos os monstros.
A tensão ficava cada vez pior.
– Lumi, cumprirei minha promessa. – Aramis segurava um sabre em cada mão.
– Lucy, eu vou pagar minha dívida. – De alguma forma, eu não conseguira entender o que Pan queria dizer com aquilo, mas agora, não havia tempo. Ele segurava um sabre, e seus olhos, estavam mais negros do que nunca. Havíamos conversado pouco, ele e eu, teríamos que sobreviver. Todas as dúvidas, só seriam respondidas depois daquele momento.
A noite era vista do vitral central, logo seria a noite minguante, meu aniversário, o dia em que Pan mostraria sua própria face, um frio percorreu todo meu corpo, fitei sua lateral por alguns segundos.
– Peter... — Sussurrei observando-o.
Ele piscou para mim surpreso, e com os olhos sustentando aos meus, sorriu em resposta. — Eu sou um demônio que obedece a um anjo... — Sussurrou em resposta.
Com isso, não havia mais dúvidas.
Corri para cima de Rumpelstiltskin Gold.
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