Palimpsesto - Dramione
40 Paraíso
Notas iniciais
Hermione viu tudo acontecendo ao mesmo tempo.
Viu o semblante desconcertado de Belatriz enquanto a encarava, cada passo mais próxima, trazendo em sua voz a ameaça que poderia tirar sua vida.
Viu Gina se debatendo contra um comensal que a segurava pelos pulsos com força.
Viu o rosto de cada Weasley naquela sala, olhando-a como se fosse louca, ou, no mínimo, corajosa.
Viu quando Draco a fitava sem nada dizer, seus lábios tremiam enquanto seus olhos cinzentos, que ainda carregavam uma cicatriz em um dos lados, eram inundados por lágrimas silenciosas.
E viu quando a figura escura e esbranquiçada de Voldemort apareceu logo a sua frente, lançando um feitiço de uma cor que bem conhecia por ser a maldição que tiraria sua vida.
Foram poucos os segundos que teve até que a faísca esverdeada chegasse bem a sua frente, a centímetros de distância.
E, ao olhar uma última vez para Draco, constatou que mesmo que o homem se lançasse a sua frente, assim como estava tentando fazer, não a alcançaria a tempo.
Era sua hora, e não a de Draco.
E aceitaria a morte como uma velha amiga.
—X—
Hermione abriu os olhos.
Estava em um lugar claro, quase translúcido.
Podia ver cada detalhe da biblioteca de Hogwarts, exatamente do jeito que se lembrava, nada havia mudado.
Os livros flutuavam em sua grandeza para as prateleiras, angelicais, ao seu ver.
Apesar de não ver mais ninguém naquela biblioteca, Hermione sabia, de alguma forma, que não estava só.
Ouvia um som característico. Passos lentos e calmos que já não ouvia a muitos anos, chegando até ela, se aproximando cada vez mais.
E desta vez, Hermione sabia que não precisava sentir medo, tampouco fugir ou correr. Não sentiu sequer nervosismo, pois, de alguma forma, sabia o que iria ver, sabia quem estava ali.
Hermione se sentou em uma das escrivaninhas da biblioteca, apenas admirando a paisagem daquele lugar que já havia sido seu lar.
E então ele chegou.
Era Harry.
Era o mesmo Harry que havia visto poucos minutos antes de sua morte. Um Harry jovem.
Seu óculos ainda se fazia necessário, ainda que com os mesmos remendos em um lado das astes, e o cabelo, ainda naturalmente bagunçado, parecia mais esvoaçante, quase angelical.
Mas, ainda assim, era o Harry.
Carregava em seus lábios um sorriso vitorioso, ao longe poderia notar o orgulho que o fazia estufar o peito.
E então seu amigo abriu os braços, sabia que ela correria até ele como a mesma criança que o reencontrava após sair da ala hospitalar no segundo ano.
—Harry! —Suspirou, aliviada, aninhando-se ao abraço do amigo. Sentiu seus cabelos serem afagados de forma carinhosa, quase paternal, enquanto chorava lágrimas não existentes contra o ombro do garoto. —Você está ótimo. —Anúncio enquanto se afastava, aproveitando para ajeitar os óculos do amigo, que ficaram um pouco tortos.
—Você continua a mesma Hermione. —Harry falou, sorrindo como uma criança.
Foram poucos os segundos que permaneceram daquela forma, se olhando e aproveitando aquele momento que esperavam por anos.
—Mas me conta, onde estamos? —Perguntou Harry, sentando em uma cadeira, e, conjurando uma para que Hermione sentasse a sua frente.
—Estamos na biblioteca de Hogwarts. —Respondeu sem pestanejar. Conhecia aquele lugar como a palma de sua mão, não teria como errar.
Harry riu com a rapidez de sua resposta.
—Legal, imaginei que estaríamos aqui.
Hermione soltou um riso fraco. Começou a questionar-se o motivo de estar ali.
—Harry, aqui é o paraíso?
O amigo a olhou. Seus olhos claros pareciam compreender sua alma.
—Não sei… É?
Hermione o encarou. Estava irritada. Como ousava a levar para aquele lugar sem ao menos a explicar o que estava acontecendo? Tinha o direito de saber.
—Eu não estou entendendo. —Confessou a contragosto.
—Eu estava louco para ouvir isso. —Harry riu alto, desta vez. Parecia se divertir com a situação, ignorando toda a seriedade que ela trazia. —Você tem alguma suposição? —Perguntou, voltando ao semblante sério enquanto escorava seus cotovelos sobre os joelhos, esperando, com franqueza, uma resposta de Hermione.
—Eu acho que eu morri, não tenho certeza. —Respondeu, sentindo que sua mente girava. —Ou talvez eu não tenha morrido, eu não sei Harry. —Balançou a cabeça, ignorando novas ideias que surgiam como turbilhões.
Harry riu.
—Você está morta, Mione. Mas pode voltar, se quiser. —Decretou, jogando a cabeça para trás e escorando-a sobre os braços, olhando diretamente para o teto da escola e sorrindo, como se algo do que falasse fosse bonito, ou, ao menos, compreensível.
—Como assim?
O amigo suspirou, fitando novamente Hermione como se ela estivesse estragando um momento muito especial para ele.
Mas se realmente estivesse morta, pensou Hermione, poderia se redimir depois. Teriam todo o tempo do mundo.
—Você deve voltar, Mione. Eles precisam de você. —Hermione ousou se intrometer, mas o amigo levantou a mão, pedindo que lhe deixasse falar. —Mas preciso te avisar que, caso você queira ficar por aqui, seria legal ter a companhia da minha melhor amiga.
—Ah Harry. —Suspirou Hermione, afagando o ombro do amigo. —Você está sozinho aqui?
Harry sorriu novamente, o que tranquilizou sua amiga.
—Não, claro que não. Estão todos aqui. —Exclamou, levantando os braços como se o que falasse fosse muito óbvio.
Hermione sentiu seu coração palpitar em felicidade.
Seus amigos estavam ali, estavam bem, unidos, salvos.
—Eu queria tanto ver eles. —Pediu, observando cada reação do amigo.
—Então você vai ficar? —Harry a questionou, um sorriso tímido parecia aparecer em seus lábios, por mais que tentasse controlar.
—Só assim eu posso ver eles? —Perguntou, sentindo-se traída pelo destino. Queria ver todos eles novamente. Queria ver Luna, Neville, Fred e até mesmo Lilá. Queria ver qualquer um que já tivesse conhecido em vida.
Mas, ao encarar os olhos do amigo, percebeu que aquilo era um não silencioso.
E então respirou fundo.
—Eles precisam de mim sabe, lá.
—Eu sei. —Afirmou Harry, a abraçando.
Hermione chorava.
No entanto, seu rosto não se lambuzava ou sequer sujava com lágrimas. Elas escorriam transparentes, nem sólidas nem líquidas, descendo apenas em forma de imagem pela pele macia, que não se avermelhava.
Achava injusto.
Como poderia a vida lhe oferecer a oportunidade de ver seus melhores amigos, porém, em troca, deixar todos aqueles que amava para trás?
Era maldade.
—Por que eu estou aqui, Harry? —Perguntou, soluçando.
Desta vez Harry sorriu, mas era um sorriso diferente. Era um sorriso triste, quase resignado. Resiliente.
—Você lembra daquela proteção de sangue que minha mãe tinha contra mim, Mione? —Perguntou, a encarando e desejando não ter que explicar cada detalhe.
E então Hermione pensou. Sentiu seus músculos retesarem enquanto percebia a proteção que havia tido todos esses anos, sem ao menos saber. Sabia que Harry não era de se gabar, e, por isso, não havia tom vitorioso em sua voz, e sim uma explicação simplificada do que havia feito.
—Você morreu por todos eles. —Afirmou Hermione, em um sussurro que só poderia ser ouvido ali, em meio ao silencioso nada. Não era uma pergunta e tampouco havia segurança em sua voz. —Harry, você está protegendo todo mundo que estava lá! —Exclamou, um sorriso sóbrio aparecendo em seus lábios. —Isso é magia antiga.
Hermione sentia-se orgulhosa, porém, confusa. Jamais imaginara que seu amigo seria capaz de realizar tamanho feito, onde tamanho amor e magia estivessem envolvidos.
Harry concordou, sem nada a acrescentar.
—Harry, mas então isso quer dizer que todos os que morreram depois de você puderam escolher ficar? Eles escolheram ficar mortos?
O garoto, cujos cabelos bagunçados caiam frequentemente sobre os olhos, balançou os ombros, desconfortável.
—Eles sofriam, Mione. E eu também sofri. Sei que fomos fracos, escolhendo ficar ao invés de voltar...Eu sinto muito. —Harry desabou por um momento, tirando os óculos e esfregando as mãos contra o rosto. Chorando, pensou Hermione, se lágrimas de verdade existissem naquele lugar.
—Harry, para. —Alertou, abraçando o amigo. —Agora falta só ele, a gente acabou com a última Horcrux que faltava.
Harry ergueu os olhos, não parecia surpreso.
—Eu sei. Eu vi. —Hermione sorriu para o amigo. Sabia, tinha certeza, em seu âmago, que aquele gato preto e tão parecido com seu amigo não era apenas um felino normal. —Eu soube que vocês estavam juntos, sabe, você e o Malfoy, e procurando uma arma contra a última Horcrux...Então eu dei um jeito de ficar de olho, nem que fosse só na torcida, já que eu não posso interferir em nada. —Deu de ombros, confessando um crime que não sentia culpa em ter cometido. —Mas ele não sou eu, sabe? Eu só posso ver através dele. Coisa de gente morta, sabe? —Brincou.
Hermione riu.
—Foi uma ideia incrível, eu adoro gatos.
—Eu conheço a amiga que tenho. —Harry afirmou, carregando, desta vez, uma falsa presunção em sua voz.
Hermione o fitou.
—Sinto a sua falta, Harry. Não em forma de gato, mas sabe, você.
Harry sorriu.
—A gente faz o que pode.
—Pelo menos agora eu sei que você está de olho na gente. —Afirmou, ajeitando os próprios cabelos. —O que você acha do Malfoy comigo, Harry? —Aproveitou o momento para pedir a benção do amigo.
—Acho que se ele for babaca com você, eu mesmo desço naquele lugar e arranho a cara dele. —Afirmou Harry, brincando. Hermione riu.
Sabiam o que precisava ser feito.
A biblioteca começou a tremer, despejando livros contra o chão e ao longe das prateleiras. Hermione se segurou contra a mesa.
—Acho que preciso ir. —Avisou para o amigo.
Harry a abraçou mais uma vez.
—Sabe o que precisa fazer, Mione. Precisa ser você. Avise a todos que eu estou bem. Espero não te ver por aqui tão cedo, tá legal?
Hermione balançou a cabeça em concordância, apertando seu abraço contra o amigo. O chão tremia como nunca, a convidando a voltar.
—Eu estou sonhando, Harry?
—Eu não sei, você está? —Perguntou em resposta, afagando suas costas enquanto, lentamente, sua textura desaparecia.
E então Hermione abriu os olhos.
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