Palhaço
1 Mas eu continuo vivo.
Notas iniciais
— E então...!
Sorria, Naruto... Sorria.
Fez um gesto de explosão com as mãos, recontando pela milésima vez uma história boba em que vivera com Sasuke e Hinata nos tempos de escola. Exagerado, aumentava um pouco aqui, um pouco ali, transformando um fato comum em uma história de ação, com direito a efeitos especiais. Todos à mesa sorriam, como sempre... Mas suas bochechas doíam, e sua garganta queimava. Faça-os sorrirem...
Sua quarta ou quinta garrafa já estava se esvaziando e, enquanto todos os seus amigos sorriam, se afogava no álcool. Olhou para cada um dos que estavam na mesa e, como sempre, ninguém estava percebendo nada. Era apenas o Naruto, sendo o Naruto. Normal.
Ninguém reparou que a máscara feliz do palhaço estava se despedaçando lentamente. Eu sei que dói, mas... Continue.
— Olha, Sasuke...
Sentiu a parte melancólica aflorar em si. A dor dos anos e anos preso entre dois amores, indeciso. A inveja em vê-los bem, felizes, se amando... Como se nada tivesse acontecido. Respire, Naruto... E sorria. O maldito amor que sentia por eles o sufocava, forçava sua garganta numa respiração forçosa e sua mente em todas as possibilidades, lembranças inúteis que enchiam seu coração de uma esperança vazia... Hoje é o dia deles... Não estrague tudo de novo. Não podia, não podia jamais ser o culpado por retirar aquele sorriso perfeito estampado no rosto dos noivos... Sinto muito por esse amor bobo... Não vou fazer isso de novo. Então abriu o seu melhor sorriso e, mesmo que fosse falso, continuou.
— É melhor você respeitar a Hina-chan, ou eu vou...! – fez menção em socar a cara de Sasuke, mas foi forte demais e, como já estava um tanto alterado, tropeçou e caiu sentado na própria cadeira. Risadas estouraram por toda a mesa, enquanto ele secava sua quinta garrafa. Precisava continuar aguentando firme...
— Você é tão idiota, Naruto! – Sakura sorriu alto, dando um tapa na própria testa enquanto fingia abaná-lo com um guardanapo. Sempre, Sakura-chan... Eu sou um idiota.
Então... Ria de mim. Ria da minha dor.
Virou-se por um instante, apreciando a paisagem do restaurante à beira do rio Hudson. Porque eu vou ficar bem... Enquanto vocês continuarem sorrindo. E, mais uma palhaçada começou, mais uma história antiga, em homenagem aos velhos tempos... Mais alguns xingamentos estranhos trocados com Sasuke, e logo estavam com as camisas agarradas, simulando loucamente uma briga ridícula entre bêbados.
Não me toque, Sasuke... Minha máscara vai cair. Porque aquele cheiro era tão convidativo... Estava tão perto; não podia deixar de apreciar aquela mistura perfeita entre o amadeirado dele e o doce de Hinata, impregnados na camisa escura do moreno. Foram separados por Shikamaru e Chouji, enquanto os outros continuavam rindo e gritando incentivos.
Não chegue tão perto... Eu estou chorando. E, mesmo que sentisse os olhos de Sasuke à procura dos seus, preferiu fingir uma conversa com Ino e Sakura, perguntando como andavam os preparativos para o casamento delas. Sasuke ainda insistiu por alguns momentos, mas acabou desistindo...
E isso atraiu a curiosidade dos olhos perolados.
Não me olhem, por favor... Eu estou podre. Sorriu para Hinata, tentando observar aqueles olhos profundos sem que ela percebesse o que estava acontecendo. Tão meiga, tão linda... Hinata lhe acenou de volta, estendendo a mão para que ele se aproximasse. Não... Eu vou te machucar com a minha dor. Jogou um beijinho para ela, arrumando uma briga qualquer com Kiba e Shino. Hinata e Sasuke não precisavam ver isso; o seu sorriso, sim, o seu maravilhoso e falso sorriso seria o suficiente. Suas lágrimas rolavam internamente, mas seu sorriso continuava lindo, brilhante... Ninguém pode saber.
Sentia-se desprezível. Invejoso, não conseguia controlar aquele maldito pensamento de que poderiam ficar melhor se ficassem os três juntos. Para que jamais tivesse que escolher novamente... Para que não acabasse perdendo os dois, como acontecera. Havia se tornado o amigo gay de ambos, e aquele pequeno romance a três fora enterrado como uma loucura de festas de faculdade.
— Então... Um brinde às pessoas que eu mais amo no mundo! – se intrometeu entre os dois, dando um beijo estalado na bochecha de cada um.
Sintam o meu amor, por favor... Eles não sentiriam, não daquela maneira. Mas retribuíram, juntos, o beijo nas suas bochechas, aquecendo por um instante seu coração vazio. Mais uma esperança que jamais seria concretizada... Controle sua inveja, Naruto. Eles estão felizes, não é o suficiente? Não era suficiente. Queria mordê-los, queria implorar para que os planos para dois pudessem caber mais um. Queria os dois, mas eles apenas queriam um ao outro. Não havia espaço, e não poderia nem reclamar aquilo para alguém... Seria chamado de louco. Mas eu não sou louco...
Só tenho uma sorte infernal para o amor. Seus melhores amigos eram também seus maiores amores... Não podia estragar a felicidade deles com os seus problemas. Seria o idiota Naruto, aquele que está sempre feliz, sempre otimista, sempre pronto para ajudar. Seria o palhaço que todos amam.
Sorria, Naruto... Sorria!
Engoliu com certa brutalidade a sexta ou sétima cerveja, enquanto se afogava na paisagem escura do rio Hudson. Estava com vontade de se jogar dali, e talvez nunca mais... Isso tira os sorrisos dos outros, isso estraga o seu propósito de fazer todos felizes. Empurrou sua tristeza um pouco mais para dentro, recolocando sua amargura atrás daquela máscara de sorriso brilhante. E então, percebendo as bochechas já avermelhadas de Hinata, cochichou – alto o suficiente para que todos ouvissem – a Sasuke.
— Espero que goste do presentinho que comprei especialmente pra você.
— Naruto! – Hinata o repreendeu, dando um tapa de leve em sua nuca – Seu idiota! Era uma surpresa...
E, por um minúsculo instante, sua máscara se desmanchou. Hina, não! Aqueles olhos perolados eram um perigo à sua farsa, mas ao mesmo tempo eram um tipo de porto seguro para a sua loucura. Respirou fundo, desviando dos olhos dela para depositar um pequeno beijo de desculpas na testa dela. Não me deixe louco... Não me deixe pior do que eu já estou.
— Ele tinha que saber! – brincou, tomando um gole enorme da sua cerveja antes de continuar – Você ficou muito linda...
Nem antes, nem agora, ela jamais veria seu desespero novamente. Foi como morrer te ver naquela camisola branca, Hina... Ela estava tão linda, tão feliz, tão sublime... Enquanto ele era assombrado com aquela imagem da perdição todas as noites, e procurava em outros braços uma libertação que jamais viria. Mas eu continuo vivo.
— Para de tentar comer a mulher, Naruto! – Temari, encostada no Nara, que apenas revirou os olhos, acertou uma bolinha de guardanapo na sua testa.
— Deixe a última virgem casar de uma vez! – Kiba sorriu, lembrando do apelido da Hyuuga na faculdade.
— Respeite minha prima, Inuzuka! – Neji logo deu uma de pai velho, sendo controlado por Tenten.
E, àquele instante, já não conseguia mais conter suas lembranças. Uma tarde, uma festa qualquer na casa de Shikamaru, um beijo a três, uma brincadeira, uma experiência que aos poucos ganhou nuances mais quentes... Por que vocês não se lembram? Juntos, amando-se, naquele pequeno banheiro. Suspirou pela milésima vez, enquanto fingia uma gargalhada meio louca e sussurrava o apelido a Hinata. Você jamais irá se lembrar de quando perdeu a virgindade em nossas mãos... Ninguém saberia – fez questão de confundir, montara tudo para que todos acreditassem que nada daquilo havia acontecido, escondera o vídeo junto com seus pornôs na sua casa no interior. Deixe isso como meu prêmio de consolação.
— Naruto? – Ino lhe deu leves tapas no rosto, achando que ele já estava dormindo – Meu Deus, você já está bêbado?
— Não... – sorriu novamente, levantando e fazendo questão de cambalear mais do que precisava. Não estou bêbado, estou morto. Continuou a encenação um tanto exagerada, enquanto forçava sua cara mais safada para negar – Nem um pouquinho.
E todos riram novamente. Riam... Continuem rindo, e eu ficarei bem.
Pediu licença enquanto eles conversavam, sufocado com aquelas lembranças. Queria vomitar e, talvez, achar o caminho mais rápido de cair no rio Hudson. Ficarei bem... Ou talvez não. E, assim que trancou a porta do minúsculo banheiro, sua máscara desmoronou.
Por que dois, e não três? Soluços desesperados travavam sua garganta, lágrimas molhavam seu rosto, sua boca com gosto de sangue e inveja. Eu quero vocês também... Não posso? Indefeso como uma criança, chorava abraçado às próprias pernas, encolhido no banheiro já não tão limpo. Queria conseguir se calar, mas o desespero em ser o padrinho, a tristeza por ter que aplaudir, sorrindo, a sua própria desgraça... Tudo lhe fazia querer morrer. Qual a necessidade em continuar ali? Aproveitou a minúscula janela e, por um pequeno momento, desejou cair naquela água. Estava perdido.
Volte a sorrir, Naruto. Volte a ser você. Nem tinha mais certeza de quem era. Era aquela pessoa feliz, aquele maravilhoso palhaço que todos amavam? Ou era essa criança amargurada e solitária? Não quero saber... Preciso ser quem eles acham que eu sou. Eu preciso!
Volte, Naruto! Desesperado, levantou a tampa fétida e, após enxergar o patético reflexo nas águas turvas, colocou pra fora as mágoas, as expectativas frustradas, a dor acumulada de anos e anos sozinho, observando seus amores sendo felizes sem ele. Volte. Era o padrinho, o melhor homem. Precisava ao menos estar com eles até o último momento daquela sua sina. Talvez, sóbrio, conseguisse segurar melhor, mas também não conseguiria aguentar aquela felicidade sem beber.
Volte a ser o palhaço que todos amam!...
Saiu cambaleando do banheiro, lavando a boca antes de dar um forte tapa no próprio rosto. Olhou os próprios olhos escurecidos pela inveja – aquele pecado infernal que lhe corroía aos poucos, e que silenciosamente guardaria para o resto da vida – e, como em todas as outras crises, sorriu. Apenas porque amo vocês... Por causa de vocês.
Saiu do banheiro e encontrou aquela cena romântica de sempre. Hinata e Sasuke sorriam um para o outro, com as testas coladas. Teve vontade de correr, de novamente vomitar ou de mandar todo mundo para o quinto dos infernos, mas... Como sempre... Como sempre... Sorriu. Levantou a mão o mais alto que pôde e gritou a plenos pulmões um beija, beija antes de, sem querer, acabar tropeçando em si mesmo e cambalear até a mesa. E risadas e um pedido barulhento pelo beijo do casal se seguiram. Parabéns para vocês dois...
Mordeu os lábios, tentando segurar a vontade de entrar naquela sincronia. Deixe de ser invejoso, Naruto. Voltaria a ser aquele idiota, aquele palhaço engraçado e bobo... Não importaria se acabasse se matando por isso. Se eles fossem felizes, ficaria bem. Sempre ficava.
Ou talvez não.
Preste atenção, o mundo é um moinho,
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos,
Vai reduzir suas ilusões a pó...
Preste atenção, querido,
De cada amor tu herdarás só o cinismo,
Quando notares, estás à beira do abismo,
Abismo que cavaste com teus pés...”
(Cartola)
Fale com o autor