Palavras que machucam
1 ♥O retorno da peste bubônica♥
Notas iniciais
Eu paraliso com a colher a meio caminho da boca.
—…Connor vai chegar a cidade daqui a algumas horas, vou aproveitar e dar uma passadinha no supermercado para comprar o peito de peru antes dele chegar...-mamãe continua falando ao telefone com o meu pai, como se não tivesse acabado de destruir o meu mundo -…sim…o quarto de hóspede já está arrumado não se preocupe…não esquece de comprar os enfeites da árvore…
Mamãe continuar fazendo um monólogo sobre todos os enfeites que precisa para ganhar o maldito concurso de árvore mais bonita da rua. No entanto, a minha cabeça já estava a quilômetros luz daquela discussão, porque na minha cabeça o nome Connor piscava em vermelho em letras garrafais, com uma enorme sirene de alerta tocando estridente.
—Cuidado com a mosca, Hailey. -A voz do meu irmão gêmeo me puxa de volta para a realidade. Ele sorri torto e eu vejo a diversão em seu olhar.
Ele sabia!
—Você sabia!-Rosno com a colher apontada em sua direção como se fosse um facão e eu pudesse ameaçá-lo sem parecer patética.
—Do que está falando?-Riley pisca os olhos azuis bebês para mim inocentemente.
Aquele imprestável!
—Estou falando da peste bubônica que está vindo passar o natal na nossa casa!-Bato com a colher na mesa, debruçando-me sobre o tampo.
—Pare de falar tantas palavras difíceis. Ainda está muito cedo para você usar esse vocabulário do século passado. -Riley resmunga voltando a atenção para os seus waffles caramelizados.
Quase posso sentir a saliva se acumulando nos cantos da minha boca, porém desvio o olhar rapidamente.
Respira, Hailey. Você tem lindos e maravilhosos cereais integrais a sua frente, muito mais saborosos do que waffles.
Rolo os olhos para mim mesma.
—Desde quando você sabia?-Não desisto, esquecendo o meu café da manhã e fuzilando a praga do meu irmão com o olhar.
Riley me ignora, rolando a tela do seu celular sem me dar a mínima atenção. Sem hesitar, roubo o maldito celular e o escondo em baixo da mesa.
—Ei!
—Me fala!
—Duas semanas atrás. Satisfeita?!
Fico tão chocada que nem protesto quando Riley da a volta na mesa e puxa o celular das minhas mãos.
Mamãe termina a ligação com o meu pai e gira sobre os calcanhares notando o meu olhar perdido. Sua testa rapidamente se franze em pura preocupação.
—Você está bem, querida?
—Por que não me contou sobre o Connor?
Pergunto com a voz quebrada, os olhos arregalados como de uma criança assustada. Bem, eu não estava muito longe de cair no choro e implorar para minha mãe proibir que aquela criatura do mal pisasse em nossa casa.
Pior, pisasse no meu santuário chamado quarto!
—Oh, meu bem. -Mamãe me abraça de lado, acariciando os meus cabelos ainda bagunçados por eu ainda não ter tido tempo de penteá-los. -Por que eu sei o quanto você ainda é ressentida com ele.
Me afasto bruscamente, o peito inflado de raiva.
—Claro que sou! Ele sempre me infernizou, sempre me chamando de bolota e de almôndega! E ainda sempre contava mentiras sobre mim e espalhava pelo colégio! Aquilo não é um ser humano, é a personificação do demônio. -Declaro com as feições retorcidas e o olhar irado.
Mamãe inala uma respiração profunda, como se buscasse por paciência, arrastando a cadeira ao meu lado para me encarar.
—Sim, nós sabemos disso tudo. -Abro a boca para retrucar, mas ela me para antes que eu possa derramar mais palavras chorosas. -Mas, ele é o afilhado do seu pai. Além disso, os pais dele pediram para que nós o acolhessemos nesse natal, pois eles estão viajando e não vão poder chegar antes para passar essa data especial com o filho.
—Então porque não levaram ele junto?-Falo emburrada com os braços cruzados na frente do peito. -Tinham que jogar o filho chato deles para cima de nós?
—Isso não é coisa que se fale, Hailey. -Mamãe fala com a voz repreensiva, mas rapidamente me dedica um olhar materno cheio de amor. E eu me deixo derreter, porque é impossível brigar com a mamãe. -Lembre-se que o natal é uma data muito especial para nós. É uma data…
—…de paz e união. -Termino com a voz monótona.
—Exatamente. Então, nós vamos acolher o Connor…-Ela estreita os olhos para mim quando abro a boca para contestar, mas volto atrás e me deixo cair contra o respaldo da cadeira. -…e lhe oferecer nossa melhor hospitalidade durante esses dias que ele ficar aqui. Está bem?
Reviro os olhos, mas me deixo vencer.
Mamãe sempre conseguia o que queria. Não era à toa que era advogada.
—Tá. -Falo com a voz arrastada e a cara fechada como se eu estivesse indo para forca a qualquer momento.
☆☆☆
Eu encaro o relógio como se fosse o meu maior inimigo.
Sentada na escada, com os joelhos pressionados contra o peito e pumped up kicks soando nas alturas nos meus ouvidos, eu tento não me desesperar. Só tento, porque na prática eu estava mais surtada do que o meu irmão no dia da final de basquete.
O meu coração salta uma batida a mais, desenfreado e tão assustado quanto a própria dona. A minha respiração sai superficial e as minhas mãos suam mais do que eu imaginei ser possível.
O pêndulo do relógio antigo da sala de jantar bate onze horas da noite, com se fosse o toque que antecede a minha própria morte. Eu sugo uma respiração, encosto a minha testa contra a escada e tento controlar a bile que sobe até minha garganta quando a campainha sooa estridente.
Mamãe anda calmamente até a porta, enquanto papai fecha o jornal e coloca na mesa de centro, posicionando-se atrás dela. Riley guarda o celular no bolso de trás, o que é um milagre, e caminha até a porta no mesmo momento em que mamãe abre a porta.
E, então, é quando o vejo.
Ele havia crescido. Muito. Estava muito mais alto do que o meu pai.
Um homem, não mais um menino que puxava as minhas tranças. E aquela revelação enfraquece os meus joelhos e me impede de levantar. Não que Connor fosse muito mais velho, na verdade ele era apenas dois anos mais velho do que eu e Riley. Porém, a sombra de barba rala e o corpo que se mostrava grande por baixo das roupas de frio fazia o parecer mais velho. E, por isso, talvez eu tenha me permitido relaxar minimamente.
Connor já tinha dezenove anos! Qual é, já tinha idade o suficiente para saber que me chamar de bolota, o que eu não era depois de anos na academia, não era uma atitude muito madura.
Porém, todos os meus pensamentos otimistas são pisoteados quando olhos castanhos se fixam nos meus.
Não era um olhar simples de quem passa a vista e por algum acaso se fixa em você.
Não. Era um olhar predador, que parecia me asfixiar a medida que eu permanecia presa naquela onda castanha que eram seus olhos.
Eu estava ferrada.
—Hailey?-A voz mansa de mamãe consegue me tirar do meu torpor.
Pisco e desvio o olhar, quebrando o encanto que me mantinha presa a Connor. Todos também parecem surpresos com aquela pequena guerra silenciosa entre nós, mas não emitem uma só palavra.
—Venha cumprimentar Connor. -Para qualquer um que não conhecesse mamãe, aquilo pareceria um pedido simples. Porém o olhar em seus olhos me diziam que eu estaria encrencada se não movimentasse as minhas pernas.
Me apoio no corrimão a medida que desço lentamente cada degrau.
Eu sinto o seu olhar fixo em mim. Mas, não desvio o olhar da camiseta amassada de um verde escuro.
Paro ao lado dos meus pais sem me atrever a dar um passo a mais.
Connor permanece no lugar, com as mãos enfiadas nos bolsos, sem fazer nenhum movimento para me cumprimentar.
Respiro fundo e ergo o olhar. De perto, eu consigo enxergar uma pequena falha em sua sobrancelha, manchas escuras embaixo dos seus olhos de uma noite mal dormida e fios curtos dourados que recobrem o seu maxilar. Eu estava esperando um rosto magricelo e cheio de espinhas. Mas, pelo visto, o velho Connor havia ficado para trás.
De repente, mamãe pigarreia, dando um leve empurrão nas minhas costas.
—Seja bem-vindo. -Me obrigo a falar depois de longos e massacrantes segundos de silêncio.
Quase posso escutar um suspiro de alívio vindo da mamãe.
E, então, eu vi. Bem escondido no canto da boca perversa de Connor. Um sorriso malandro que fez toda a minha pele arrepiar de medo.
E, por um instante, eu me imaginei sendo abocanhado por aquela boca de tubarão.
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