Palavras não Ditas
1 Capítulo único
Notas iniciais
— Hiban! — um dragão de fogo saiu do selo feito pelo meu martelo, mas foi o mesmo que nada para aquela criatura.
— Não adianta — o fogo atingiu em cheio o akuma level 4, mas ele nem ao menos estremeceu.
Droga!
Antes que eu pudesse vê-lo se mover, ele já estava na minha frente, e antes que eu pudesse reagir, ele me jogou longe.
Eu colidi com tudo no muro de pedra.
— Você é tão fraco — ele comentou com um tom de divertimento observando eu tentar me levantar e cair em seguida.
Meu corpo todo doía.
Eu mal tinha forças para me mover, quanto mais para levantar.
Eu sabia que eu não tinha nenhuma chance de derrotar aquele akuma. Eu sabia, mas não podia desistir.
Eu não queria morrer, eu não podia morrer.
Ele estava me esperando!
Allen...
- Uma missão?
— É, eu vou partir amanhã.
— E você vai sozinho? — Allen perguntou, tentando disfarçar a preocupação.
— Tudo bem, eu consigo dar conta — sorri para ele.
— Não é questão de dar conta ou não! — ele reclamou — O Conde está cada vez mais forte, e mandar você sozinho para uma missão é muito...
— Ah, eu já disse que vai ficar tudo bem — o interrompi rindo — Não é como se eu estivesse indo para enfrentar os Noah. Eu só vou recuperar uma Inocência.
E mesmo que eu não quisesse ir sozinho, todos os outros exorcistas estavam ocupados em suas próprias missões, inclusive o Panda.
E Allen também não podia ir. A última missão dele havia sido um tanto quanto... Difícil, e aquela enfermeira assustadora não o deixaria sair tão cedo.
Na verdade, eu também não.
Bom, eu não poderia usar a arca para ir. É isso aí, vamos voltar a usar o bom e velho trem.
— E onde é? — ele perguntou depois de um tempo, ainda sem me olhar diretamente. Envergonhado?
— Dinamarca — ele finalmente se virou para mim e eu ri com o olhar dele — É, acho que eu não posso prometer rapidez.
Ele suspirou — Só tome cuidado, está bem?
Sorri ainda mais. — Eu sempre tomo.
"Tome cuidado"...
Desculpe Allen, mas eu tentei.
Eu realmente tentei...
— Já vai desistir? — o akuma estava se aproximando de mim outra vez.
Eu não faço idéia de onde tirei forças, mas de alguma forma eu consegui me levantar e me afastar do muro antes que o akuma o destruísse.
Mas não consegui impedir que um pedaço do muro destroçado me atingisse, fazendo um corte relativamente fundo no meu rosto. Senti o sangue quente escorrendo pela minha bochecha direita.
Beleza, mas um machucado para a coleção.
— Hiban! Hiban! Hiban! — três dragões de uma vez.
Mas isso também foi inútil.
— Urgh!
Foi como um choque quando eu senti a mão do akuma transpassar meu corpo.
Era o fim.
...
O fim?...
Era horrível pensar assim, mas se quando eu estava apenas machucado, eu não consegui fazer muita coisa, com um buraco no estômago então, não tinha nenhuma esperança.
- Eu falei com Komui-san — Allen disse de manhã, um pouco antes de eu sair — Quando você recuperar a Inocência, é para entrar em contato, que eu irei ativar a arca para buscá-lo.
Não pude deixar de sorrir.
— Acho que agora "rapidez" está dentro de alcance — o abracei forte. Os braços dele retribuíram o abraço e pude sentir o cheiro suave que desprendia de seu cabelo recém-lavado.
Quando foi que eu acabei me apaixonando por ele?
Não sabia dizer.
Mas era um sentimento tão forte e necessário, que eu me pergunto como é que eu conseguia sorrir antes de conhecê-lo.
Na verdade eu nunca disse a ele que o amava. Ele também nunca disse que me amava.
Nós nunca colocamos em palavras o que sentíamos. Pode ser porque não víamos necessidade disso, porque nós dois sabíamos um sobre o outro.
Também nunca passamos do abraço.
Talvez por ser um sentimento tão novo e diferente, nós não tínhamos pressa alguma e aproveitávamos cada momento ao máximo.
E também, existe maior demontração de carinho do que um abraço? Mais do que um beijo, mais do que uma noite juntos. Um abraço era mais do que suficiente para passar conforto, afeto, segurança. Era um simples gesto. Mas também o maior de todos.
— Itterasshai — Allen falou sorrindo, assim que nos separamos.
— Allen... — comecei.
— Hum?
Desisti.
Balancei a cabeça e fui até a porta — Nada não. Eu falo na volta — sorri — Itekimasu — e saí.
"Eu falo na volta".
Eu esperava voltar...
Não consegui ligar para a Ordem. Assim que eu consegui recuperar a Inocência, aquele akuma apareceu destruindo tudo.
Ele me largou como se eu fosse apenas um objeto.
Não senti o impacto ao atingir o chão.
Para ser sincero, eu não sinto mais nada.
Nem dor. Nem frio. Nada.
Apenas sono.
Uma espécie de névoa me envolveu, e por mais que eu tentasse afastá-la, ela insistia em tentar me dominar. E odeio admitir que ela estava levando a melhor.
Eu tinha apenas uma vaga noção da enorme poça vermelha que se formava abaixo do meu corpo.
Eu tinha apenas uma vaga noção do akuma se afastando em direção à cidade-fantasma.
Ele nem se deu ao trabalho de tirar a Inocência de mim.
Ele não tinha vindo aqui por causa dela?
...
Talvez ele apenas estivesse entediado e veio procurar alguém para matar.
Ótimo, eu estava morrendo por causa de uma porcaria de tédio.
Pelo menos isso significava que eu não havia falhado na missão.
Minha respiração vinha difícil, e parecia que a cada vez que eu tentava, a quantidade de ar que eu conseguia inspirar era menor.
Eu já não enxergava mais nada.
Estava escurecendo.
Estava tudo sumindo.
Eu realmente estava morrendo.
Sozinho.
Apenas três palavras... Eu deveria as ter dito.
Pensando agora, era besteira pensar que tínhamos tempo para aproveitar em um guerra!
Eu não deveria ter parado...
Nunca imaginei que palavras não pronunciadas pudessem me fazer sentir tamanho arrependimento.
Eu te amo.
Eu nunca mais teria a chance de dizer isto à ele.
Mesmo em meio a todo o torpor que envolvia minha mente, eu ainda conseguia visualizar o sorriso dele.
Itterasshai.
E logo até isso sumiu.
-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-
— Allen-kun, eu já passei a notícia para todos os outros exorcistas. Bookman perguntou se você pode ativar a arca para ele voltar — Komui-san falava, mas ao ver que eu não respondia, ficou apenas parado me olhando, a expressão pesarosa.
Levou um momento para eu perceber que tinha de dizer alguma coisa.
O que ele tinha dito mesmo? Ah, é. Acionar a arca para o Bookman.
— Eu já vou — respondi com a voz baixa — Eu só... Quero ficar aqui mais um pouco — pedi olhando para o caixão negro à minha frente.
— Claro -Komui-san falou e se retirou, me deixando sozinho ali.
Com o corpo de Lavi.
Eu não conseguia acreditar.
O corpo dele, pálido, sem vida, estava bem na minha frente, mas eu ainda não conseguia assimilar o fato dele estar morto.
Eu não chorei.
Eu me impedi de chorar.
Lavi sempre disse que gostava do meu sorriso. Então eu sorriria para ele, mesmo que ele não pudesse mais ver.
Me inclinei um pouco por sobre o caixão, deixando minha voz sair trêmula ao pronunciar as palavras que há muito eu deveria ter dito.
— Eu te amo.
Levantei e caminhei para fora do salão, não conseguindo refrear as lágrimas por muito mais tempo.
Eu te amo...
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