Palavras de Heagle II
6 Decepção, parte 1
[Os erros e falta de coerência de algumas partes é proposital. Marietta está escrevendo em seu antigo quarto em Barra Bonita, em uma máquina de escrever. Hugo ainda está no hospital]
Anathema — Untouchable, Part 2
– Hugo? – foi o que Matthew disse antes de me pegar no colo e sair do camarim. O que aconteceu até a manhã seguinte foi algo bem confuso, e eu, em pleno estado de choque, não me lembro ao certo. Ouvi gritos, as exclamações de Mel, as gírias e ironias de Syn e aquela voz irritantemente gay do Arin. E de Matt... nada, além de uma respiração irregular. Eu sentia que por mais que suas mãos me tocassem, elas estavam dormentes. Como se o corpo de Matthew estivesse bem longe dali, talvez em Barra Bonita, no hospital, no quarto do meu ex-marido.
Na realidade, essa era a minha situação. Uma torrente de lembranças e dívidas, de situações que eu poderia ter evitado tantas ofensas, que poderia ter notado, ao menos, que Hugo sofria de algum problema...
Não, pera, estou confusa. Não estou escrevendo nada com nada, e isso não é algo bom.
Ok... vou me situar.
Oh shit! Está tocando Anathema — Untouchable, Part 2. Essa música, caralho, era uma das favoritas de Hugo. Ele sempre ficava cantarolando quando íamos dormir... e antes de me abraçar, dava uma sorriso irônico e brincava:
– Por que eu deveria seguir os meus sonhos? Por que eu deveria estar em paz?
É estranho... fiz uma imagem tão rude de Hugo que me esqueci que, muitas vezes, ele foi bom comigo. E que esse bom nunca foi o suficiente para uma menina que queria viver, queria... viajar, conhecer o mundo, conhecer a vida.
E eu parti. Ele partiu. Encontramo-nos em circunstâncias difíceis... e iriamos nos reencontrar em outra bem pior. Não... francamente não estou preparada, não quero que ele parta. Não quero que me deixe tão já. Oras... ele é novo, é possível que viva.
– Marie, quer alguma coisa? – perguntou Mel abrindo de mansinho a porta do meu quarto. Eu estava deitada de bruços na cama, olhando para um ponto fixo na janela. E a música tocava... e tocava... eu não entendia porque, mas estava no repeat desde o dia anterior. E ainda mantenho no repeat, para ser sincero – Um chá... ou um saco de batatas, talvez?
Não dei resposta. Fechei os olhos, evitando pensar em coisas ruins. Procurava lembrar toda vez que a dor apertada na imagem daquele Hugo de chinelos que reencontrei na casa de minha madrinha há algum tempo. Ele era tão lindo... e como aqueles olhos brilhavam.
– Estive vendo a questão do passaporte. – continuou minha amiga, que já esperava o silêncio ao seu encontro. – Está tudo em ordem. Sorte que atualizamos nosso visto há pouco tempo porque...
– Quando partiremos? – acabei murmurando, abrindo os olhos no susto. Um estranho nó tapou minha garganta, impedindo a passagem do ar. Não era nada mais que uma crise de choro que viria logo que Mel fechasse a porta.
– Se quiser... compro as passagens e vejo se tem como ser para amanhã. Os meninos irão conosco.
Um temor subiu pelas minhas costas quando ouvi “os meninos”. Eu sabia que o Avenged em peso surgiria em Barra Bonita para me acompanhar. E nessa trupe desmiolada, estaria Matthew, que eu ainda sequer havia apresentado aos meus pais. Que sequer havia conversado depois da notícia de que iriamos viajar. Que sequer... ah, deixa.
Lembro-me de não ter respondido Mel. Ela ficou por um tempo no quarto, mas percebendo que não teria muito de mim, abandonou-o. Ouvi alguém perguntando sobre mim no corredor, e ela, em um singelo “Marie precisa descansar”, não quis oferecer mais detalhes.
Eu amo essa menina, fala sério.
E acabei dormindo. E sonhei algumas coisas tão boas que, no dia seguinte, eu estava melhor. Os olhos continuavam no fundo e minha pele fria e pálida como mármore... mas eu estava melhor. Morrendo, mas estava. Okay, chega de redundância nessa porra.
Levantei, agarrei qualquer mochila ou mala, sei lá o que era, do armário e pus algumas roupas dentro. Curiosamente, sem eu notar, elas eram pretas... de luto. Mas que droga, eu estava reagindo, realmente, como a viúva! Mas não, terminei com Hugo há muito tempo... não havia mais sentimento e sequer...
– Quer ajuda? – perguntou Matthew surgindo na minha porta. Me irritei com sua presença, afinal, havia interrompido o meu momento de contemplação. O único momento que eu podia reavaliar tudo que acontecera na minha vida em tão pouco tempo. Mas não, lá surge ele com aquela cara de idiota perguntando se quer ajuda. NÃO QUERO PORRA NENHUMA SUA, MATTHEW.
– Não. – limitei-me a responder, embora eu estivesse realmente pensando tudo que descrevi logo ali em cima. Bipolaridade na veia, eu sei, mas estava baqueada, sensível, na TPM (talvez nesse mês venha, espero), e com tremenda raiva de mim, da vida, do mundo. Não me julguem, qualquer um se sentiria assim.
– Entendo... – ele murmurou, fechando a porta lentamente. E foi nesse momento que meu coração deu uma pontada tão forte, mas tão forte, que me senti extremamente mal. Era o remorso me consumindo.
– Não, espera Matthew. – gritei, surgindo no corredor só de camisola. Ele já não estava lá para ouvir as minhas “desculpas”. Devia estar na sala, sentado, comentando com Syn o quanto eu estava mal, e o quanto isso o chateava.
Não procurei saber se isso era verdade. Voltei a arrumar minhas coisas, demorei mais de uma hora no banho, e desci aproximadamente três horas depois de ter acordado.
E ali, as coisas se tornaram piores. Os olhares condenavam a minha postura de viúva, até mesmo Mel, minha melhor amiga, julgava-me por sentir, tão intensamente, a partida de Hugo.
Ignorei-os. Coloquei um óculos escuros e esperei que alguém tomasse uma decisão. Para minha surpresa, foi Henrique. Seus serviços, que eram limitados a me aguentar, agora abrangiam os de motorista e ainda suporte psicológico de malucos.
Ainda bem desnorteada, vi que havíamos chegado no aeroporto. Em questão de um tempo, estávamos no avião. Do meu lado, o sempre quieto Matthew, que olhava-me, vez ou outra, para realizar um julgamento com seu olhar. E isso me irritava. Em questão de tempo, desembarcamos em São Paulo, e depois disso, alugamos um jatinho para Barra Bonita. Teríamos que pousar na Usina ou no Hotel, afinal, minha cidadezinha não era grande o suficiente para possuir uma pista de pouso.
A rapidez de todos esses acontecimentos fez com que eu entendesse que precisava de ajuda. Precisava conversar com alguém que não fosse simplesmente achar que eu era uma vadia por estar sentindo a perda do puto do meu ex-marido.
Mas, onde estaria essa pessoa?
Diante das circunstâncias, nem pude aproveitar o retorno à minha cidade. Um carro alugado viera buscar nosso grupo no Hotel, para que minutos dali, surgisse em minha velha casa azul de esquina.
Encontrei minha mãe e meu pai no portão, acenando para mim. Automaticamente, olhei para Matthew, pensando, em uma fração de segundos, o que meus pais diriam ao saber que estava noiva daquela criatura a quem nomeava carinhosamente de Ogro Engibizado. O mesmo cara que foi responsável pelo meu sequestro e meu acidente?
– Talvez estejamos passando pelo momento mais difícil de nossas vidas, Marietta. – murmurou Matthew, agarrando minha mão, pela primeira vez desde que saímos de Londres, com força. Olhou-me com ternura, embora suas feições demonstrassem alguém preocupado e decepcionado. Ele ainda não conseguia aceitar minhas atitudes. – O momento que o fantasma de Hugo voltou às nossas vidas... e o de que seus pais terão que me aceitar como genro. Está preparada para isso?
Não. Não estou, Matthew. Por que... eu não sei se é isso que quero. Não sei se... eu realmente amo você.
– Não. – limitei-me a dizer, abaixando a cabeça para evitar um contato visual. Eu senti sua tristeza quando disse aquilo, mas não queria mentir.
Minha cabeça estava cheia demais. Retornando ao meu convívio... sinto-me com 17 anos. Talvez eu nunca tenha saído dessa idade...
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