Notas iniciais
Oiiiiiii, tudo bem?! Postando correndo para não perder o horário do desafio (muito obrigada por me aceitarem), pois eu tenho um compromisso urgente para ir hoje! Beijos, beijos e desculpa a pressa!!!

18:00h.

Chuva.

Aquele não era um dia qualquer para os estudantes da sala 801, turma de Letras – Tradução e Intérprete (Português – Inglês), de uma renomada faculdade, localizada no agitado bairro Vila Mariana, São Paulo, SP, ou na famosa “Paulicéia Desvairada”, “Sampa bella Sampa”. Era dia de prova regimental, Estudos Linguísticos.

O barulho da porta aberta, um estudante chegou. Negro, 1,75m, cabelos aparados na máquina um, usando um elegante terno preto e sapatos recém-engraxados. Sentou-se em uma cadeira nos fundos, abriu a mochila, pegou seu ultrabook de última geração e começou a estudar. Quem chegou primeiro foi o vice representante da sala, Bruno Soares Carvalho.

Aluno exemplar, popular entre as pessoas da sala e fora dela, gentil, prestativo, calmo e um pouco tímido (tanto que tinha o apelido de “Santo Bruno”), Bruno, de 25 anos, era herdeiro de uma editora de sucesso e totalmente consciente da realidade em que vivia. Sabia que era privilegiado por ser rico, sabia que incomodava uma parcela bem grande da sociedade por ser negro e rico, sabia que seu dinheiro foi um fator importante para nunca ter sofrido racismo na vida, que desconhecia o que é andar de transporte público ou ser parado em uma blitz policial. Reconhecia também que, mesmo sendo homossexual, tinha o privilégio de sua família ser bem compreensiva, que nunca sofreu homofobia por ser rico, que nunca conheceu a solidão do preto gay por causa do dinheiro. Sabia também de tudo isso, pois teve uma educação rica suficiente para desde cedo enxergar essas questões. Lembrou de uma frase ouvida em uma conversa com os colegas de faculdade:

“Preto bom no Brasil é preto morto, ou na cadeia, ou servindo à “Nova Casa Grande” ocupando cargos baixos”.

Lembrou que essa frase foi dita pelo homem que fazia seu coração disparar e confundir todos seus pensamentos, o colega de faculdade Álvaro da Silva Neto.

Álvaro era um dos seus, irmão de negritude, que fazia Bruno lembrar diariamente dos seus privilégios na sociedade, mesmo sendo minoria por ser preto e gay.

Recordava com lágrimas no rosto o dia em que flagrou Álvaro chorando, no banheiro da faculdade, o aniversário de morte dos pais, vítimas de bala perdida quando o homem ainda era recém-nascido. Daquele desabafo, surgiu uma intensa admiração pelo outro além de Bruno criar mais consciência dos seus privilégios: após a tragédia, Álvaro foi adotado pela melhor amiga da mãe, cujo amor era incondicional, e viveu com ela, até alguns anos atrás, em uma das comunidades mais barra-pesada do bairro do Jardim Brasil, periferia de São Paulo, localizada na Zona Norte da cidade. Depois de muita luta e trabalho, Álvaro e a mãe adotiva conseguiram comprar uma casa própria no mesmo bairro, através de um extinto programa de moradia popular do Governo. Lembrava também da luta diária que Álvaro passava: acordar cedo, pegar transporte público lotado para estar às 09:00h na Galeria do Rock, onde trabalhava como vendedor em uma das várias lojas do local, para depois ir direto para a faculdade e ainda encarar mais um tempão em transporte público para voltar para casa.

Vinha também as lembranças dos sorrisos fáceis, mesmo com as dificuldades, da voz mansa, dos dreadlocks, das roupas estilosas, inspiradas nos rappers brasileiros e norte-americanos, e como o apreciar dele por rap, R&B, Hip Hop no geral era deliciosamente contrastante ao gosto peculiar de música pop sul-coreana, o famoso KPop, da beleza que atraiu Bruno à primeira vista. Somava-se até lembranças bobas, como era fofo Álvaro tentando cantar em coreano, mesmo não sabendo quase nada do idioma. Tudo fazia Bruno lembrar Álvaro e não fazia nenhuma questão de negar: estava perdidamente apaixonado pelo colega.

Ser rejeitado pela possibilidade de Álvaro ser heterossexual era impossível, pois a faculdade inteira sabia que o rapaz também era homossexual e até o velho empecilho do “será que ele gosta de mim” não havia para Bruno, porque uma colega da faculdade mostrou uma conversa, feita através de um popular aplicativo de comunicador instantâneo pelo celular, onde Álvaro confessava para ela que também era apaixonado por Bruno. O real empecilho entre eles era o fato deles serem íntimos suficiente para conversarem sobre tudo, menos sobre sentimentos amorosos e aquilo nitidamente sufocava os dois.

Bruno, naquele momento, estava concentrado nos seus estudos.

18:10h.

A porta do elevador abriu e um rapaz, negro, 1,79m, cabelos dreadlock, usando um blusão preto de moletom escrito BTS (sigla de Bangtan Boys, um popular grupo masculino de KPop, música pop sul-coreana), calça largas, tênis, boné e mochila da mesma cor do moletom, andou até a sala 801, abriu a porta e entrou no local. Naquele instante, através dos fones de ouvido plugados no celular, Álvaro ouvia os versos finais de uma música chamada “I NEED YOU”, do BTS. Quando olhou para a sala e viu Bruno, totalmente compenetrado nos estudos, os primeiros acordes da música seguinte, Kiss Me Slowly da banda Parachute, começaram a tocar. Música que lembrava de toda a paixão reprimida sentida por Bruno, afinal foi o rapaz que passou essa música para ele por bluetooth no celular e além disso, essa era a música favorita do vice representante de sala.

Álvaro amava muito Bruno, paixão louca à primeira vista mesmo. No início, pensou que não ia conseguir dar-se bem com o rapaz, devido ao contraste de mundo tão grande entre eles, mas a consciência de mundo de Bruno, sua simpatia, humildade, discrição, até uma certa inocência — mesmo Bruno sendo um cara bem viajado por ter feito o Ensino Fundamental II mais o Ensino Médio em intercâmbios no exterior, fora as viagens anuais para a Disney ou para a Europa com os pais —, fizeram ele apaixonar-se cada vez mais pelo outro e quando já viu, estava totalmente domado pela paixão.

Oportunidade perfeita para finalmente confessar os sentimentos. Álvaro não sabia se Bruno gostava dele como namorado ou não. Iria arriscar, pois estava cansado daquela situação desgastante, fora o fato de que seria um desperdício perder essa oportunidade dos dois sozinhos na sala. Sem fazer barulho, o estudante com dreadlocks andou até onde Bruno estava, sentou-se na cadeira ao lado, arrastou um pouco, para ficar bem próximo a ele, e cumprimentou-o:

— E aí, Bruno, beleza?!

De imediato, o vice representante da sala tomou um susto, mas não conseguiu ficar irritado com Álvaro. Só a presença dele já desarmava todas suas defesas. Rindo, respondeu:

— Que susto você me deu! Estava tão concentrado estudando que nem vi você chegar. E aí, tudo bem?!

Álvaro deu um sorriso, de nem deixar Bruno fazer qualquer defesa, respondeu positivamente o outro e complementou:

— Bruno, fecha seus olhos agora. Tenho uma surpresa para você.

— Mas meu aniversário está longe... enfim... — fechou os olhos e repentinamente começou a ouvir a respiração de Álvaro cada vez mais próxima de si, estava nervoso, pois não sabia como reagir, ou o que estava acontecendo. Sentiu os lábios de Álvaro encostados nos teus e ouviu atentamente as palavras do colega:

— Eu amo você, Bruno. Desde praticamente o início de nós dois juntos, como colegas de faculdade. E então, aceita namorar comigo.

A música favorita de Bruno começou a tocar, uma lágrima de genuína felicidade escorreu do seu rosto. Só havia uma maneira de expressar o belo sentimento do amor correspondido – um lento e demorado beijo de amor, onde Bruno e Álvaro, a partir dali, aprenderiam que o amor também é feito de palavras, beijos e escuros.

“ [...] Prendo a respiração enquanto você está se movendo

Eu saboreio seus lábios e sinto sua pele

Quando chegar o momento, não tenha pressa amor, apenas me beije lentamente”

(Kiss Me Slowly — Parachute)

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!