Palavras Escurecidas

5 Os confins de mim também podem ceder.


Notas iniciais
Demorou quase uma semana, mas aqui estou eu. O capítulo decorreu como eu queria, só não gostei muito do final, mas confesso que não dei meu máximo... Estou com uma p#ta cólica, mas mesmo assim ainda escrevi. Boa leitura. (;
E ah, mudei a capa. Achei essa bem melhor...

Eu poderia muito bem ir visitá-lo. Mas não seria uma visita casual, seria uma visita para alimentar minha carência de palavras de outrem. Eu havia mantido minha esperança de amar. Esperanças que no desenrolar do dia, iam desfazendo-se. E no dia seguinte, refaziam-se novamente. Mas agora há de permanecer por semanas, desde o dia que em chovera. Porém agora o sol brilha depois da chuva, mas a claridade lá fora não engana. Encontrei-me hipnotizada pelo sol, pela luz solar que invadia meus olhos, os olhos que estavam atraídos pela imensidão do mundo. Atraídos pela vastidão de sentimentos que permaneço encontrando em mim.

Ontem às três da tarde descobri que o amava. Eu sei, parece estranho, é estranho. Não é uma hora boa para que tais sentimentos viessem à tona, nenhuma hora é boa, mas eles sempre estiveram prontos pra saltar sobre mim no meu primeiro momento de fraqueza, águas tranquilas escondem oceanos turbulentos. Lembro-me bem do rosto daquele estranho que despertou tais emoções. Aquela feição sorridente ao imaginar ter nas mãos meus segredos. Segredos? Apenas informações. Subsídios que me formam.

Tenho aquelas compensações insanas, tenho um amor terno e calmo que não chegou a encher meus olhos. Seguir algum roteiro nunca rendeu-me um bom romance, nem me fez chorar. O meu brilho é medido pelo tempo que me dedico a polir-me. Ultimamente ando sem brilho, na verdade estou cansada de tentar lapidar pedras que só insistem em me causar cortes. Ultimamente, podia ser uma rima, contente e medíocre. Ridiculamente medíocre.

Essas últimas horas do dia afogada em tédio me deixaram com cheiro de éter, e em todo caso ainda ecoava aquela voz. Aos diabos aquela voz que meus ouvidos não aguentavam mais ouvir. Aos diabos aquela voz que deixou-me presa, imóvel, com ideias loucas, como um presa dentro da armadilha, me debatia sem sair do lugar. Não, demônio meu, não pense que irei dar-te o prazer de ostentar aquele riso de escárnio, teu desgraçado riso zombeteiro.

Despertei em meio à madrugada, com a lua a olhar-me com desprezo. Decidi ir atrás dele. Estou pisando em meu orgulho para dar prioridade a meus sentimentos.

...

Toquei a campainha. Mas, o que eu falaria? “Olá, pensei em você.” “Ah, estou te amando.” Claro que não, eu não poderia ser tão óbvia assim. A porta abriu, e uma vastidão de sentimentos veio à tona, era evidente que eu não conseguiria esconder algo.



— Bem, estive pensando em você desde nossa sessão terapia. — Falei sem esperar atitudes. — Minhas palavras estão gastas, e não quero dizer tanta coisa pra não dizer nada, não quero que teu amor seja um amor de desprezo. De repulsa por eu ser uma prostituta, por eu ter um trabalho barato, fácil e rápido. Por achares que sou incapacitada. Não te dei o prazer de tu ouvires teu telefone tocar e escutar ecoar minha voz do outro lado, pois de uma forma desconhecida ainda me importo com os cortes que teu silêncio fizera em mim, em minha superfície aparentemente calma. Mas, meu bem, tu despertaste em mim algo lamentável... Eu quero beijar-te a boca, mas tu gostarias de beijar uma puta? — Falei sem nenhum pudor, sem nenhuma vergonha, acho que para ele, ser uma puta já é algo para se sentir envergonhada.


Clara, minha querida, passe a noite comigo, tenho apenas isso a dizer... Nós temos muito a conversar, muito a esclarecer. — Indagou, sem nenhuma emoção no rosto.



Era uma casa à altura de seu dono, parede branca, sofá branco, mesa branca. Tudo tão branco, tão estável, emitia tranquilidade, e é disso que preciso. Senti minha pele sendo tocada, arrepiei-me com tal ato. Era um ato sem cobiça, um ato sincero. Então ela me arrasta para o sofá e me deita em seu peito, alisando meus cabelos rubros e balbuciando palavras que eu não conseguia escutar.

Clara, fique aqui comigo. Abandone essa tua vida. Eu andei te observando há tanto tempo... Oh, Clara, é impossível não pensar em ti. Eu sempre pense em escrever-te, deixar a carta em frente à tua porta e sair ruma a lugar nenhum. Eu mascarei tua face com a lembrança de outro alguém antes de falar contigo pela primeira vez. — Sussurrava em meu ouvido — Não dilui a tua falta com pegadas em minha casa vazia, não rangi os dentes nem pressionei os cotovelos, me entrego nesse sussurro, serei seu e de mais ninguém. Eu não sinto vergonha por seres uma prostituta, não sinto desprezo ou repulsa. Por mais clichê que seja, minha menina, amo-te.



Fechei meus olhos e senti meus sentidos se deslocando do meu corpo, seria isso que eu tanto almejava? Irei entregar-me, pois nunca sentira esse afeto antes. Nem mamãe me deu isso, e talvez nenhuma pessoa pensará em dar.

— Tyler, eu me entrego a ti. Dos pés à cabeça. Mudar sempre faz parte do roteiro... Mesmo que eu não goste de segui-lo. Mesmo que eu não goste de pisar em meu orgulho, mas eu não seria capaz de sorver essa brisa sem teu calor quebrando o vento. Eu que não pensava em amar alguém antes de te conhecer, não conheço nenhuma partícula tua que não ame.



Então, ele me segura pela cintura e me beija, era um fundir de nós. Ele ia dando beijos gélidos em meu peito do pé, subindo para minhas coxas e depois barriga, com o intuito de agarrar-me pela cintura e cobrir meu colo com beijos contínuos, beijos crescentes que vão subindo pelo pescoço, passando pelo maxilar, até encontrar meus lábios quentes, sedentos por prazer... Eu não pedi mais nada, a madrugada estava aperfeiçoada.



Ao fim da noite deleite, juntei-me o seu peito, quis me fundir no seu braço, querendo me fundir no seu corpo, querendo não descolar dele, era calor emanando dos nossos corpos, era anseio escondido embaixo da minha pele, mas na dele ficara mais fácil de esconder.



Notas finais
Desta vez deixarei uma "mensagem". Eu a escrevi para colocar no capítulo, mas não encaixava então a deixarei aqui... É uma parte de mim, e eu gostaria de expor ela. É uma mensagem para vocês e mais ninguém, espero que gostem. (:
"Cada pessoa traz um abismo dentro do peito, escrever sempre foi um mergulho de peito aberto naquela superfície íngreme e inóspita, revolver seu corpo dentro daquelas águas revoltas até se afogar. Talvez tenha bastante tempo desde que deixei marcas dessa imersão desconecta, talvez lá no fundo tenha coisas que não queira encarar, talvez a vontade de aterrar tudo com camadas consecutivas de sedimento, de negligência, de resignação. Escutei meu nome sem me dar conta de que ele me pertencia, aquela imagem não se ajustava à minha retina, tanta alegria era obrigação. Não sabia se gostava do Fernando Pessoa, ou da pessoa do Fernando. Não lembro se era o Caio Fernando, ou se era só uma pessoa, se só eu. Tantas vozes me definindo, me descrevendo, procurando sulcos e cicatrizes em minhas existências, procurando páginas sob meus atos, aspas nas minhas palavras."