Palavras Escurecidas

3 Acredito na morte como uma espécie de deus.


Notas iniciais
Se tiver algum erro de português, desculpe-me, cabeça muito cheia pra ficar reparando em detalhes. Tento cada vez mais acrescentar conteúdo nos capítulos, mas hoje travei. Desculpe-me, de novo, pela pequena quantidade de palavras. E ah, mudei a sinopse. :3

Acordei com uma puta dor de cabeça, mas era de se esperar. Talvez fosse cerca de 5h e eu estava em pé de frente à janela, olhando o nada, olhando o tudo. Era tão difícil assim decifrar o que há por trás disso? Mas, eu não tenho e nem nunca tive esperanças; nasci sem e do mesmo jeito morrerei. Eu tenho a dor de sonhos do futuro e a tristeza que carrega em meus olhos insiste em me perseguir, mas eu permito. Permito a entrada de todo esse pesar, sofrimento, suplício, mágoa, desgosto, ansiedade e aflição. A crucificação, a tortura de meu âmago piora a cada dia, mas tenho explicações. As memórias que servem de explicação são muitas, mas prefiro dizer que são poucas; talvez quanto menos eu finja lembrar, menos eu me doo com tudo que eu sinto. A vida não foi difícil para mim, não vou usar clichê para explicar tal fato, o difícil fui eu. Eu sempre fui muito difícil, apesar de toda a submissão. Na sede de simplificar, acabei me enrolando nos mil fios de uma vida só. Cresci. Os ossos por cima da pele, os órgãos por dentro do sangue, o coração por trás dos olhos, toda torta. Mas a explicação é que todo dia é uma cama nova, um amante novo, uma droga nova, uma dor nova. Construí-me na dor, nos becos escuros. Ninguém pode entrar, e eu não posso sair.

Talvez na rua haja algo mais interessante.

Saí em busca de algo misterioso, curioso. Mas alguém impede minha linda tentativa.

 Qual é o teu nome garota?

 O que você preferir, pra mim tá bom. – respondeu, sem o menor ânimo.

O olhar que o estranho lançou foi realmente desinteressante.

Não tenho nome, nenhum nome de guerra. Meu nome não é de uma personagem de novela que eu via com meus irmãos quando era criança; Também não era um desses tipos de vilã que todo mundo só via que era mesmo vilã no final quando já estava tudo meio perdido; Não tão perdido assim que algum mocinho não pudesse salvar mentindo pra mocinha com toda aquela história de “meu-amor-eu-te-amo-ela-só-foi-um-erro-meu”. Luísa. Lembro-me até hoje, Luísa era o nome da mocinha.

 Mas então, como você veio parar aqui Clara?

 Aqui com você?

 Claro que não. Aqui, sendo uma puta.

 Longa história e já está na minha hora. – saí andando pra ver se adiantava de algo.

 Longa história, a velha desculpa de quem não quer falar sobre algo. Vamos lá – O sujeito tirou 300R$ da carteira. — me fala de você Clara.

 Certo. – Estendi a mão pegando os 300 reais pela sessão de “terapia” – O que você quer saber?

 Há quanto tempo você é puta?

Pensei rápido antes de responder: Bem essa é uma pergunta difícil. Talvez eu sempre tenha sido uma puta, não uma praticante sabe? Mas lá no fundo talvez eu já nasci puta. Não pelo sexo por dinheiro, isso é só mais um detalhe. Mas por essa minha vocação de não pertencer a ninguém, esse olhar de quem realmente não se importa mais com pessoas do que com dinheiro…

 11 meses esse mês.

 Por quê? – retrucou.

 Já pensou na opção dinheiro?

 Na realidade pensei, mas alguém tão bonita e inteligente como você parece ser poderia ser muitas outras coisas ao invés de… disso.

 É. Não é a primeira vez que me dizem isso, mas quer saber? Prazer e dinheiro rápido, o que poderia competir com isso?

 Honra?

 Eu tenho honra.

 Você é uma prostituta.

 E em que parte isso me deixa sem honra?

 Você trepa com estranhos por dinheiro.

 E sou mais honrada do que a maioria desse empresários-com-familias-perfeitas.

Eu não traio ninguém. Não deixo ninguém em casa com ilusões de uma perfeição que não existe. Meu compromisso é com o meu dinheiro e com ele me viro bem. Consigo até ser honesta.

 Você gosta mesmo disso não é?

 Esse é o ponto, eu gosto. Gosto do dinheiro rápido, da dezena de homens de homens, de centenas de camas novas, gosto de pessoas me desejando e me fazendo única por uma hora, das roupas, das festas e de tudo mais. Eu gosto e não gosto.

Mentira. Além do dinheiro e da sensação de me sentir mais desejada que as próprias mulheres daqueles pervertidos, não era uma vida muito boa.

 Pretende sair daqui? – ele perguntou de uma hora pra outra.

Mas porque a pergunta? Quer dizer, do que importa eu parar ou não de trepar por dinheiro? As pessoas tinham uma espécie de mania de perguntam coisas que na realidade não tinham interesse de saber, ou pior, coisas que nem se importariam se soubessem. Então do que importava manter o teatro de preocupação com mais uma vadia que abria as pernas por algum dinheiro?

 Não sei, só se me der vontade. Mas acho difícil sabe... Cara? É uma boa vida, de verdade.

 Ok. Acho que eu vou indo.

 Ué, achei que você tivesse umas 30 perguntas pra mim.

 Preciso ir, de verdade. Toma aqui o meu cartão; Qualquer coisa me liga, sei lá.

Voltei pro apartamento e continuei olhando a janela. A mesma janela de sempre, a minha janela, a minha alma. Continuei lamentando. Lamentando e deplorando pela mesma coisa, pelo mesmo fato, que às vezes se perdia em meu raciocínio. Era mais um dia perdido, mais uma hora inutilizada, desperdiçada por besteira.

O tempo passa, se embaraça, e a gente nem percebe.