Ela não parece notar. Horrorizado por essa noção, ele acorda no meio da noite, anda até o banheiro e permanece estático, encarando seu reflexo. Ela não consegue ver, mas ele sim.

Ele pode sentir em seu toque o contraste entre a pele macia e lisa dela contra sua própria, seca e enrugada. O modo como as costas dele doem mais e mais. A papelada, os óculos (como Ishida tinha rido dele!), a necessidade de vestir um casaco para escapar do frio. Aquelas eram as constantes lembranças da passagem do tempo.

Ela não parece notar. E isso é o que mais o irrita, porque é impossível ignorar os sinais tão horríveis. Como ela pode somente fitá-lo, curiosa e confusa, quando ele proclama que está simplesmente velho demais para aquele tipo de coisa?

Todos esses anos, esses muitos e muitos anos se passaram e ela continua a mesma. Talvez um pouco mais sábia, um pouco mais confiante. Mas ele, que era mais novo que ela quando tudo aquilo começou, agora era um homem velho, cansado e amargo.

Ele está com inveja? Talvez.

Uma vez ele brinca (talvez um pouco sério demais) que quer morrer logo. E então ela fica furiosa, o chamando de tolo. Ele franze as sobrancelhas e tentar lembrá-la que tem sessenta e quatro agora, e aquela é uma idade perfeitamente razoável para morrer, antes que ela seja forçada a ajudá-lo a urinar. Ela só bate nele. Forte.

Todos esses anos e eles ainda são os mesmos (exceto que ele está velho... Merda, ele está muito velho).