Palavras

3 Livro I — A Profecia da Vida


Notas iniciais
- Olá pessoal! Não sei se está muito bom - tenho para mim que caguei nesse capítulo -, mas esta aí! O primeiro capítulo de Palavras! Espero que gostem :3

Era segunda feira, um silêncio atordoador afetava toda a grande cidade do Rio de Janeiro, mesmo sendo conhecida por sua eximia alegria e diversão, a mesma se encontrava entristecida, sem cor. Ainda eram nove horas e nenhuma viva alma caminhava pelas ruas, todos se trancavam em casa, por culpa do toque de recolher estabelecido pelo governo a muitos anos atrás.

O mundo já não era como antes, alegria, diversão, felicidade, eram sentimento supérfluos, a única coisa necessária na terra era sobreviver, trabalhando muito, ganhando dinheiro e se multiplicando cada vez mais. A magia havia desaparecido — mesmo que para muitos nunca tivesse existido -, crianças já não sonhavam mais em serem super heróis com capa ou bailarinas profissionais, pareciam máquinas. Aos três anos já falavam e escreviam cordialmente e aos dez faziam equações matemáticas muito avançadas para sua idade.

Pode parecer bom — seria um avanço da humanidade, de fato -, mas a verdade é que não existe nada pior do que viver em um mundo cético, onde você não pode enxergar a fé das pessoas, pelo fato de que ela não existe. O único Deus que reina soberano no mundo é o dinheiro. Movidos pela ganancia, as pessoas foram capazes dos atos mais abomináveis que se pode imaginar, como tirar da própria família para ter para si próprio. Você não podia confiar mais em ninguém.

E a culpa de todo esse pandêmonio era óbvio: Não se liam mais livros, não se via mais filmes, nem séries ou novelas. Ninguém conhecia um universo além do que eles viviam, os personagens que as pessoas conheciam eram os que eles conviviam, não tinha mais isso de folclore ou cultura popular, o mundo virou uma grande massa cinza e ambiciosa, onde o mais bem preparado ‘pisa’ sobre os demais’.

Klaus. Esse é o nome da criatura responsável por todo esse mal, era como um homem, mas tinha um ar mais maléfico, de um dia para outro simplesmente ele tomou conta do mundo, acabando com repúblicas, monarquias e toda forma de governos conhecidos e, com todo seu poder, destruiu tudo aquilo que estimulava a criatividade dos humanos. Por que ele fez isso? Simplesmente porque ele foi criado para esse meio.

A muitos e muitos anos atrás, Victor, um jovem rapaz inglês, se tornou Selador ao completar vinte anos. Sua criatividade era fora do comum para as pessoas de sua idade, tinha idéias magnificas — e esplêndidas -, mas o que tinha de criativo tinha de invejoso. Ele queria se tornar o Selador mais poderoso na terra e, por essa razão criou Klaus, um homem misterioso com o dever de destruir toda magia no mundo, deixando apenas o seu criador vivo, porém, ele foi tão bem criado e constituído que criou consciência própria, em um descuido do escritor, fugiu de seu livro e trancou Victor lá dentro, o deixando nas mãos de suas tenebrosas criações — ele escrevia terror -. Klaus, com os poderes de persuasão e hipnotismo que tinha, conseguiu se apoderar dos mais altos cargos na terra, podendo assim poder seu plano em prática.



Um suspiro, um bocejo e um único desejo: Sair logo daqui. Era o que pensava a jovem Cristina, presa desde criança em um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro. A garota era diferente das demais — de sua época — por ser a ultima pessoa VIVA na terra capaz de sonhar e por esse motivo, esta nesse lugar deplorável, sendo medicada todo dia por todo tipo de especialista, que quer provar para a jovem que nada do que ela acredita existe e, de certa forma, estão conseguindo.

Cristina já não aguentava mais a rotina tenebrosa do Hospital DK, era acordar, se arrastar da cama para o banheiro, se banhar e ir direto para a sala principal, onde a mesma convivia com todo tipo de louco e tinha que ouvir a voz da diretora, Luiza, a cada cinco minutos no alto falante — nunca vão conhecer uma mulher tão metida a radialista como ela — e por isso, tentava se fazer acreditar que tudo que acreditara em toda vida era bobagem, não existia esperança para uma vida melhor, não existem deuses, não existe magia — era o que a mesma repetia a todo e qualquer minuto que estivesse com a boca livre -.

O que Cristina não sabe é que tudo que a mesma acredita esta bem perto de acontecer e, para melhor, ela seria causa de tudo isso. Além da única pessoa viva que consegue acreditar na magia, Cris também é a ultima da raça dos seladores e, próxima de completar vinte anos, precisa a todo custo voltar a acreditar com todas as suas forças, mas não ser nada fácil, por culpa da pressão que vem sentindo a anos, pela família, ‘amigos’ e pessoas a seu redor. Todos a tachando de louca, alucinada.

Seus fantasmas do passado vão ser um grande problema na reconstrução da imaginação, perdida depois de anos em uma terapia extensiva de ‘realidade’.

A vida da garota estava prestes a mudar, ao começar por uma carta — manuscrita, coisa raríssima na época — que chegara no hospital, seria uma surpresa para Cristina, já que nunca havia recebido uma carta, nem da família.

Segunda Feira — 23/12/2056

Em uma das praias mais conhecidas do mundo, em uma cidade antes muito amada pela alegria e carisma dos moradores, reside um mundo totalmente diferente do normal. Para começar, o clima seco, com uma brisa congelante vindo e indo por todos os cantos e as nuvens cobrindo o sol, mas sem nenhuma gota de chuva cair na terra. A praia de Ipanema, antes tão aclamada e adorada, hoje se tornou um cemitério de embarcações abandonadas, com carcaças de animais marinhos espalhados por todos os lados — sem falar no mal cheiro — e para piorar a situação, um manicômio construído beira mar, com muros gigantes e arames farpados por cima, parecendo mesmo uma grande cadeia.

Ao se aproximar mais da construção o clima fica mais tenso, gritos, gemidos e murmurias são ouvidos vindo da parte de dentro. Nenhuma criatura que queira manter um pouco de sanidade deveria entrar aqui, mas ninguém se atreve a isso mesmo… A única pessoa que vem e vai é o carteiro, trazendo boas e más noticias.

Na parte de fora do hospital se encontrava uma mulher com roupas brancas — nesses últimos anos, a moda se renovou apenas para cores básicas, como preto, branco e cinza — aguarda impaciente um rapaz com uma caixa — aparentemente pesada — em mãos. O mesmo caminha até a mulher e deixa o caixote no chão, retira seu boné em sinal de respeito e olha frio para a moça, que retira alguns trocados do bolso e entrega para este.

— Não sei porque insistem em trazer a correspondência tão cedo… — a mulher se abaixa, pega a caixa e vira -se, indo na direção do hospital -. — Espero você daqui a uma semana e, por favor, venha mais tarde.

— Como a senhor quiser… — diz o rapaz, se virando e voltando para o caminhão.

A mulher começa a caminhar por dentro do hospital, observando com nojo todos os seus internos e usando toda sua força para carregar a pesada caixa, se questionando do que poderia ter ali dentro. Depois de alguns instantes caminhando, a mulher entra no primeiro dos três prédios e joga a caixa sobre uma bancada — provavelmente a portaria — várias pessoas que caminhavam por perto se aproximam, curiosos.

Uma garota — loira, pele absurdamente pálida, olhar triste e sorriso contentado — se aproxima e fica observando de longe do se tratava, os olhos e a expressão da mesma diziam que ela não estava esperando nada de diferente para alegrar seu dia, mas queria mudar um pouco a rotina vendo seus colegas contentes ao receberem presentes de seus parentes — o curioso é que, mesmo com a existência de muitos céticos, o natal ainda era comemorado -.

A mulher de branco abre a caixa e começa a vasculhar os embrulhos, distribuindo -os para as pessoas que a rodeava, que ficavam com sorrisos maléficos no rosto e corriam para abrir -os. Quase no fim das entregas, a garota pálida perde todas as suas esperanças de que alguém havia lembrado de si, da meia volta e caminha para frente.

— Cristina? — exclamou a mulher de branco. A garota pálida ficou surpresa e parou alguns segundos tentando entender o que se passava, logo, virou -se para a moça e caminhou calmamente em passos rasos, pegou o embrulho mal feito e voltou a caminhar para a sala.

Lá, Cristina abriu o pacote com cautela e se deparou com uma coisa ‘estranha’, que nunca havia visto antes. Muito dos internos que passavam perto se aproximaram e ficaram encarando o presente que a jovem havia recebido. Era um antigo livro, com folhas manchadas pelo tempo e costurado a mão, com o título de ‘A profecia da vida’, para você pode parecer normal encontrar um livro, mas nessa época era muito rara — quase nulas — as chances de achar um em bom estado.

Cris — que sabia ler — abriu o livro e viu as belas palavras manuscritas, no mesmo momento sentiu uma coisa diferente, como se um furacão girasse em seu estomago, um friozinho delicioso e misterioso. Quando leu o primeiro parágrafo sentiu como se já fizesse isso a muitos e muitos anos e pela primeira vez em muitos anos, ficou contente:

— Há muitos e muitos anos… — exclamou Cristina, lendo o livro em voz alta. — Um mal atingiu a todos, um homem tão maléfico, mais até que o próprio Diabo — todos ao redor se perguntaram ‘quem é esse diabo’? — decidiu que queria ter tudo para si. O mesmo tinha raiva de tudo, principalmente de quem o criou. Klaus, a primeira vista pode parecer charmoso e bonito, um homem como qualquer outro, mas carrega consigo um grande e devastador poder, que pode destruir quem quer entre em seu caminho. Apenas aquele que carrega sua… — antes de Cristina terminar a história, uma das supervisoras apareceu e se aproximou curiosa, querendo saber porque todos estavam reunidos. Como sentindo de proteção, a garota se levantou e jogou o livro no sofá, sentando em cima do mesmo sem seguida.

— Esta tudo bem aqui? — perguntou a mulher, encarando os internos, que, com medo, se afastaram.

— Sim — respondeu Cristina, em um tom de normalidade. — Eu só estava vendo o que tinham me enviado… — a garota aponta para o embrulho, la dentro uma carta e uma caneta, escondida por baixo do envelope.

— Meu deus… — a mulher riu. — Tem gente que ainda manda cartas? Acho que louco mesmo é quem enviou e não você que esta aqui! — e em seguida voltou a rodear pelo espaço.

Cristina pegou a carta e deixou de lado, se concentrando apenas na caneta. Um objeto que a mesma só tinha visto em fotos muito antigas. Intrigada, ela pega a carta e abre -a com cuidado, se surpreendendo com a beleza do manuscrito no papel. Com certa dificuldade — por ser a primeira vez que vê coisas manuscritas — ela lê as palavras mentalmente, tentando entender o que acontecia.

Querida Cristina,

Você não me conhece, mas meu nome não interessa agora. A única coisa que peço é leia esse livro com todas as suas forças, mas tome cuidado com as pessoas, pode ser perigoso ser vista com ele em público! Quando terminar de ler, você sozinha vai descobrir o que fazer com a caneta que acompanhou essa carta.

Beijos querida. Boa leitura.

Assinado: C

— Quem é C? — se perguntou a garota, que em seguida guardou o livro de volta no embrulho e começou a caminhar em frente, desconfiando de todos que passavam por perto. Ela fazia de tudo para aparentar normalidade e não chamar a atenção das inspetoras.

Já em seu quarto, a garota retirou o livro do embrulho e o jogou por cima da cama, se deitando de barriga para baixo e voltando a ler -o. A história era interessante, contava com detalhes e um pouco de magia, o mal que havia atingido o mundo. Desda história de Klaus e seu criador, Victor, ao desaparecimento dos Seladores. Também tinha contos únicos, que serão postados depois.

Quase no fim do livro, Cristina se questionou se aquilo era realmente real, como forma de proteção, a mesma automaticamente julgou as histórias como falsas e que não passavam de algum tipo de brincadeira de mal gosto. Levemente estressada, ela pegou o livro e colocou debaixo do colchão, olhou para o teto e pois -e a chorar, pondo todos os seus males e dores para fora.

— Aquilo que aquela coisa diz não pode ser verdade… — ela passou a mão nos olhos e enxugou as lágrimas na colcha da cama. — Mas se for eu não posso acreditar… Dez anos aqui e finalmente esta chegando o dia em que finalmente poderei sair. O dia do exame final é na próxima segunda, Cristina — ela passa a mão no rosto, querendo acordar — VOCÊ não recebeu nada, tudo esta na normalidade — ela sorri — ESTA tudo normal… E você é normal! Essa bobagem é apenas… — antes da garota terminar de falar, uma cena a assusta: Era um pássaro de três cores — que havia em um dos contos do livro, que irei contar mais a frente — que entrava no quarto cinzento de Cristina e o coloria com sua linda e mágica música. A garota ficava pasma e tentava se convencer a todo minuto que era apenas uma ilusão da mente. Ela fecha os olhos e alguns segundos depois os abre, o pássaro já havia sumido para a alegria da mesma, que salta da cama e corre para o banheiro.

Lá ela se olha no espelho e tenta enxergar sua beleza — uma coisa que esta passou a repugnar, pensando que era muito feia — ela passa a mão em sua imagem refletida no objeto e em seguia joga um pouco de água no rosto, pensando que estava dormindo acordada. Depois, a garota simplesmente volta para o quarto, deita na cama, se cobre e tenta dormir.

✴✴✴

Muito longe de onde se encontrava Cristina, em outro continente até, se encontrava uma bela mulher — loira, olhos azuis, corpo esbelto — que observava a jovem magicamente por ajuda de um espelho gigante que tinha em sua parede. Por trás da mesma, uma grande biblioteca e uma espécie de altar. A moça não parecia contente com as atitudes de Cris, já que sua expressão não era das melhores. Em pouco tempo um rapaz entra na sala onde se encontrava a mulher e fica surpreso, ao ver a imagem da garota no espelho.

— Como é linda… — ele se aproxima da mulher e entrega o livro. — Aqui esta, como você pediu: Romeu e Julieta.

— Obrigada Alex… — a mulher pega o livro e o embrulha. — Espero que com esse livro ela se abra mais… Temos apenas uma semana para fazer ela acreditar… — o rapaz se aproxima da mulher, confuso.

— Então essa é a garota da profecia, Claire? — pergunta ele.

— Sim meu rapaz… — ela termina de embrulhar o livro, pega o pacote e se aproxima de um buraco na parede (Uma espécie de janela) e assovia em seguida. — E parece que alguém se interessou por ela, não é? — um passarinho de três cores (Igual ao que estava no quarto de Cristina) aparece na janela, ele se transforma magicamente e toma a forma de uma águia tricolor, Claire amarra o pacote na pata do animal, que em seguida sobrevoa.

— Mas e se ela não acreditar, Claire? — pergunta ele.

— Estaremos perdidos… O mundo vai continuar no que é hoje e vai ser questão de tempo até o Klaus nos encontrar aqui… — ela limpa as lágrimas e se senta em uma cadeira. — Mas é claro que ela vai acreditar… Quer dizer… Assim espero!

— Mas por que tem isso de acreditar, Claire? — pergunta o rapaz.

Claire se aproxima dele e coça sua cabeça.

— A primeira regra dos seladores é ACREDITAR naquilo que escreve… Afinal, se você não acreditar em si mesmo, quem acreditaria? — e em seguida caminha para um outro comodo e tranca a porta, o rapaz fica na sala, ainda admirando a beleza de Cristina.

Notas finais
- O que acharam? D: