Paladin

44 Capítulo 44: O Retorno


Com o passar dos dias, o garoto se acostumou com a rotina: orar, construir, aprender, ouvir e executar. As conversas que antes eram simples e diretas agora se aprofundavam em mistérios, carregadas de simbolismos e enigmas que ele tentava decifrar a cada palavra.

A cada nova revelação, sentia que compreendia um pouco mais, como se estivesse se conectando com verdades que sempre estiveram ali, escondidas dentro de si mesmo. No entanto, o homem nunca disse seu nome. E então, sem perceber, o jovem começou a chamá-lo de "Mestre". Não pela formalidade, mas pelo respeito e pela admiração que cresciam dia após dia.


E foi assim que, após semanas de trabalho dedicado, o templo ficou pronto. Não era uma construção grandiosa, mas era exatamente o que precisava ser: simples, acolhedora e perfeita em sua simplicidade. O Mestre havia guiado cada passo, cada martelada e corte de madeira. Quando finalmente se afastaram para observar a obra completa, o paladino sentiu uma satisfação profunda. A pequena construção que haviam erguido tinha a aura de um templo. Algo nele vibrava como se aquele lugar fosse sagrado.


— Vamos dar algum nome?


O Mestre sorriu, observando o trabalho com um olhar tranquilo.


— Este é o seu templo — respondeu, sua voz calma como sempre. — Representa o seu corpo, sua mente e espírito. Agora que o reconstruiu, está em harmonia. Mas, assim como a construção, sua jornada não termina aqui.


Raziel olhou para ele, absorvendo cada palavra. Sabia o que aquilo significava. Depois de semanas, era hora de se despedir. E, de repente, uma tristeza sutil começou a invadir seu peito. Durante todo esse tempo, a companhia do Mestre havia sido reconfortante, um pilar de sabedoria e segurança. A ideia de deixá-lo era quase dolorosa.


— Está na hora, não é? — perguntou, com a voz ligeiramente hesitante.


— Está. — respondeu o Mestre, com um sorriso compreensivo. — Você tem tudo o que precisa agora. Mas lembre-se, Raz... haverá tempos difíceis pela frente. Tempos em que sua fé será testada.


Colocou uma mão firme no ombro de Raziel, os olhos profundos, quase penetrantes.


— Jamais perca a fé. Não importa o quão escuro o caminho se torne, olhe para dentro de si mesmo, e eu estarei lá. — disse, apertando suavemente o ombro. — Confie, tenha fé. E, sempre que precisar, ajoelhe-se e ore. Eu estarei contigo, como sempre estive.


O paladino engoliu em seco, tentando processar as palavras. Algo dentro dele sabia que, mesmo que aquele homem não estivesse ali fisicamente, nunca estaria verdadeiramente sozinho. Antes que pudesse responder, o Mestre o abraçou, um abraço firme e cheio de calor, como o de um pai que se despede de um filho.


Raziel apertou de volta, sentindo a profundidade daquele momento. Seus olhos, sem querer, se voltaram para os pulsos do homem, onde as marcas nos dois braços chamavam a atenção. Seriam cicatrizes de batalhas, como as dele? Não sabia, mas sentiu que aquelas marcas contavam uma história que ele ainda não estava pronto para compreender.


— Vá ler a Bíblia, jovem. — disse, com um sorriso leve, soltando o abraço. — Já está na hora.


O garoto assentiu, embora ainda sentisse o peso da despedida. Piscou, sentindo uma onda de emoção passar por ele. Quando abriu os olhos novamente, tudo havia mudado. Acima de sua cabeça, um teto branco e familiar. O ar ao redor tinha o cheiro estéril de um hospital. Estava de volta. Segurando sua mão, descansando sobre a beira de sua cama, estava sua mãe. Seus olhos estavam inchados de preocupação, e seu rosto cansado mostrava o quanto ela havia sofrido. Sentiu um aperto no peito, uma mistura de gratidão e alívio.


— Mãe... — falou, sua voz fraca, mas cheia de emoção.


A mulher acordou de sobressalto ao ouvir a voz de seu filho. Seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente, e um soluço escapou de seus lábios enquanto o puxava para mais perto, chorando de alívio.


— Filho... — respondeu a voz entrecortada pelo choro.


Enquanto isso, a porta do quarto se abriu com um pequeno rangido, e Sophie, que carregava uma jarra de água, entrou no quarto. Ao ver seu irmão acordado, a jarra quase caiu de suas mãos. Seus olhos se arregalaram, as lágrimas escorrendo sem controle.


— Oi, mana. — mostrou um sorriso fraco.


Sophie soltou a jarra na mesa e correu até ele, abraçando-o com força enquanto as lágrimas caíam silenciosas. O momento, apesar da simplicidade, era carregado de emoção. Raziel, sentindo o calor do abraço de sua irmã, fechou os olhos por um breve instante, uma paz profunda tomando conta de seu ser.


Sabia que o Mestre estava ali, de alguma forma, como havia prometido.