Paladin

43 CAPÍTULO 43: Primeiro Encontro


Raziel abriu os olhos lentamente, sentindo o peso da exaustão em cada parte do seu corpo. Mas o que viu à sua volta não era a escuridão do castelo, nem os rostos familiares dos amigos. E sim, algo completamente diferente.

O céu acima com um tom de azul cristalino, sem nuvens, refletido em um lago sereno que estava à sua frente. O lugar tinha uma beleza indescritível. Um jardim vasto, flores de todas as cores inimagináveis balançavam suavemente ao vento, liberando um perfume suave e tranquilizador. O som de água corrente era o único ruído, como se o mundo inteiro estivesse em paz. Respirou fundo, sentindo que o ar parecia mais puro, mais limpo. Cada detalhe daquele lugar era perfeito, como se tivesse sido desenhado por mãos divinas.

Confuso, levantou devagar, olhando ao redor. Nada fazia sentido. Como havia chegado ali? Estava em uma batalha contra o instrutor, no momento seguinte era como se nada tivesse acontecido, nem a dor excruciante que havia sentido enquanto lutava por sua vida.

— Bom dia. — A voz veio suave e serena, atrás dele.

Ao se virar viu um homem caminhando em sua direção. O desconhecido tinha uma beleza simples, quase mundana, com pele levemente morena, marcada pelo sol de muitos dias de trabalho. Sua barba era bem cuidada, e os cabelos levemente bagunçados caíam em torno dos ombros. Usava uma túnica simples, de tecido leve, e seus olhos... seus olhos brilhavam com uma tranquilidade que jamais havia experimentado antes.

— Bom dia — respondeu surpreso. — Onde estou?

O homem sorriu, um sorriso que irradiava calor e acolhimento, como o sol depois de uma tempestade. Ainda que desconfiado, sentiu-se, de alguma forma, seguro na presença daquela pessoa.

— Pode me acompanhar? — foi a primeira pergunta que escutou. Falava enquanto colocava a mão gentilmente no ombro de Raziel. — Podemos conversar enquanto tomamos um café. Pelo som da sua barriga, parece faminto.

Só então o jovem percebeu. O ronco de sua barriga ecoou no silêncio ao redor. Não havia percebido antes, mas a fome agora o atingia com força. O cheiro da terra e das flores, combinados com aquela nova percepção de necessidade física, tornavam tudo ainda mais vívido.

— Acho que sim — respondeu, um tanto envergonhado.

O senhor riu suavemente e conduziu Raziel por um caminho de pedras brancas que levava a uma pequena cabana de madeira à beira do lago. Havia uma mesa do lado de fora e, como num passe de mágica, sobre a mesa apareceram pães frescos, manteiga e uma jarra de café fumegante. Se sentaram, sem esperar mais, o paladino começou a comer. O pão tinha um sabor que jamais experimentara. Era como se cada mordida trouxesse uma sensação de conforto, de nutrição profunda. Após alguns minutos, olhou para o homem.

— Estou confuso, onde a gente está? — perguntou, sua voz cheia de incerteza. — A última coisa que me lembro é que estava lutando. Uma batalha, e depois... eu apaguei. Pera... eu estou morto?

— Não, garoto, você não está morto, ao menos não ainda — falou calmamente. — Você está em um lugar entre a vida e a morte. Um lugar onde o tempo não corre da mesma forma, um ano aqui pode ser um dia lá fora. O tempo, para nós, nesse momento, é irrelevante. E, como você é curioso sobre sua fé, pensei que poderíamos conversar e nos conhecer melhor.

— Entre a vida e a morte? — franziu a testa, ainda processando a ideia. — Eu... vou morrer?

Aquela pessoa se inclinou um pouco para a frente, seus olhos ainda brilhando com aquela tranquilidade quase sobrenatural.

— Apenas se você quiser — disse com suavidade. — A vontade de viver vem de você. E, para sair daqui, precisamos construir algo juntos.

— Construir o quê?

— Um simples templo — respondeu, erguendo-se da mesa. — Nada grandioso. Apenas algo que simbolize sua fé. Vou te ajudar nessa caminhada. Trabalhei muitos anos com madeira e pedra, sei como usar algumas das ferramentas. Posso te ensinar, que tal?

Havia algo na forma como ele falou que fez Raziel sentir uma sensação de propósito, de clareza. Por alguma razão, a ideia de construir algo junto daquele homem parecia... certa.

— Está bem. — Sentindo que aquela era a única resposta possível.

Após terminarem a refeição, começaram a caminhar, deixando a mesa para trás, e Raziel percebeu algo curioso. A cada passo que dava ao lado do homem, sentia-se mais leve, mais tranquilo. Como se a paz ao redor dele estivesse se espalhando, entrando em seu próprio corpo. A presença dele parecia como uma brisa suave em um dia quente, e não conseguia evitar pensar que, embora não soubesse quem ele era, havia algo de extraordinariamente familiar naquela sensação.

Olhou para o ser ao seu lado, observando os detalhes de seu rosto, seus gestos simples, mas cheios de propósito. E pensou, por um breve momento, que estar na presença dele era como olhar para a paz em sua forma mais pura. Como se, ao encarar aquela pessoa, Raziel estivesse olhando diretamente para a própria essência da paz, e a paz estivesse olhando de volta para ele.

O paladino e o homem caminharam juntos até uma pequena oficina nos arredores do jardim. Lá dentro, o aroma de madeira fresca e ferramentas empoeiradas preenchiam o ar. Bancos de trabalho estavam organizados com precisão, como se aguardassem a chegada dos dois para começar algo significativo. Ao ver as prateleiras de madeiras empilhadas e as ferramentas reluzentes, sentiu uma estranha familiaridade, como se já tivesse estado ali antes, embora soubesse que não.

— Então, Raz, posso te chamar assim? — indagou, caminhando lentamente até uma mesa onde uma série de ferramentas estavam dispostas — Antes de começarmos os trabalhos, quero te perguntar uma coisa. O que você acha que é a fé?

Surpreendido pela pergunta direta. Nunca havia realmente articulado o que pensava sobre fé, embora a ideia sempre estivesse ali, rondando sua mente, especialmente nos momentos mais difíceis. Cruzou os braços, pensativo.

— Eu acho que é acreditar em algo maior — respondeu Raziel, com alguma hesitação.

O homem ouviu com atenção, os olhos brilhando com um misto de aprovação e curiosidade. Acenou lentamente, parecendo absorver as palavras de Raziel.

— Interessante — disse, pegando uma das ferramentas e observando-a por um momento. — Você está no caminho certo, mas a fé é mais complexa do que isso.

Fez uma pausa e continuou:

— A fé, Raz, é difícil porque exige de nós uma confiança absoluta. É acreditar sem precisar ver. É ter certeza de que, mesmo no escuro, há uma luz que nos guiará. Isso — olhou diretamente nos olhos do garoto — é a verdadeira essência da fé.

O jovem franziu o cenho, refletindo sobre aquilo.

— Mas eu senti — recordando o momento da batalha, quando a oração ao Arcanjo Miguel lhe trouxe uma força inimaginável.

O senhor sorriu de leve, um sorriso que transmitia sabedoria profunda.

— Sim, sentiu — afirmou, colocando a ferramenta de volta na mesa. — No desespero, na angústia, se voltou à oração, e a fé que havia dentro de ti se manifestou. Quando chamou pelo Arcanjo Miguel, abriu seu coração para a verdadeira fé. — O homem se aproximou mais um pouco, sua voz calma, mas cheia de força. — Mas Raz, não é apenas nos momentos de desespero. Ela deve ser parte de você em todos os momentos. Estar em fé é estar em Deus. É viver, agir e acreditar todos os dias, sabendo que, mesmo sem vê-lo, Deus está ali, guiando cada um de seus passos.

Raziel ficou em silêncio por um momento, digerindo aquelas palavras. Ainda assim, a dúvida se formava em sua mente, e o homem pareceu perceber.

— Deixe-me te dar um exemplo mais simples. — Riu suavemente ao notar o olhar de incerteza de Raziel. — Quando entra em um carro, você confia no motorista, certo? Não questiona cada movimento dele, não verifica a rota a cada segundo. Simplesmente entra e confia que ele te levará ao destino. O mesmo acontece em um avião. Você não vê o piloto, mas confia que ele sabe o que está fazendo, que te levará aonde precisa ir. — Fez uma pausa e olhou profundamente nos olhos do garoto. — Assim é com Deus. Ele é o guia, e nós somos os passageiros. Nossa tarefa é simplesmente confiar.

As palavras faziam sentido, mas ainda havia algo maior, mais profundo, que não conseguia alcançar.

— A fé não é algo que você entende de uma só vez, Raziel. — pegou um pedaço de madeira e mostrando-o ao jovem. — Ela é algo que cresce dentro de você, à medida que vive. E agora, vou te dar a sua primeira ensinamento.

O homem colocou o pedaço de madeira de volta e cruzou os braços, sua expressão ficando mais séria.

— Quero que entenda algo fundamental. A fé em Deus não é apenas acreditar em uma força vaga no universo. A verdadeira fé está ancorada na Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. — fez uma pausa, deixando as palavras assentarem antes de continuar. — O Pai é o Criador, o princípio de tudo, aquele que deu forma ao universo. O Filho, Jesus Cristo, é a manifestação de Deus em carne, aquele que desceu para nos salvar e nos mostrar o caminho. E o Espírito Santo é a presença divina que habita em nós, nos guiando, nos confortando e nos fortalecendo. Juntos, eles formam a essência de tudo o que é divino, o núcleo da fé verdadeira.

O paladino sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao ouvir essas palavras. Havia algo de profundo, algo quase tangível, na forma como o homem falava da Santíssima Trindade. Nunca havia pensado na fé dessa forma, como algo tão concreto e, ao mesmo tempo, tão misterioso.

— Então, é isso? — perguntou o garoto, sua voz cheia de respeito. — A fé é acreditar que esses três são um só, e que estão sempre conosco?

— Sim. — disse o homem, sorrindo. — Mas mais do que isso, é viver de acordo com essa verdade. É permitir que ela guie suas ações, seus pensamentos, suas palavras. É se entregar, confiar, mesmo quando não há nenhuma razão aparente para fazê-lo. Porque, no fim, Deus sempre sabe o caminho. — O homem deu um passo para trás e indicou a pilha de madeiras empilhadas. — Agora, traga algumas dessas madeiras para fora. Vamos começar nosso trabalho.

O jovem assentiu e foi em direção à pilha de madeiras. Enquanto escolhia os pedaços, sentiu que algo dentro começava a se transformar. Havia uma paz ali, uma confiança que não sabia de onde vinha, mas que agora parecia ser parte de quem era.