Paladin

30 CAPÍTULO 30: O Chamado do Arcanjo


Raziel saía satisfeito com a escolha de sua habilidade. “Fé Inabalável” pulsava dentro dele como uma chama que ele ainda estava aprendendo a controlar. A sensação de poder era inebriante, mas não era apenas isso que dominava seus pensamentos. A cada passo, sua mente retornava àquela visão perturbadora e enigmática: o Arcanjo Miguel.


Sabendo que precisava de respostas, se dirigiu à biblioteca, o grande edifício que era um santuário de conhecimento. Ao entrar, foi recebido pelo silêncio reverente do lugar. No entanto, percebeu que, conforme as aulas avançavam, a biblioteca ficava cada vez mais lotada. Estudantes ocupavam as mesas, imersos em livros espessos e escrituras antigas, pesquisando habilidades de classe, estratégias de combate e outros tópicos cruciais para seus futuros como despertados.


Caminhou com determinação pelos corredores, seus olhos vasculhando as estantes. Ele sabia o que estava procurando, ou melhor, quem estava procurando. A cada passo, a visão das estantes repletas de conhecimento o deixava mais ansioso. Ao dobrar uma das colunas de livros, encontrou quem procurava: Vanessa, a jovem Priest, estava sentada sozinha em uma mesa, cercada por volumes antigos e notas esparsas.


— Vanessa — chamou suavemente, para não perturbar o silêncio absoluto da biblioteca.


A priest levantou os olhos, e um sorriso sereno cruzou seu rosto.


— Raziel, o que te traz aqui hoje? — Sua voz era calma, quase melodiosa, como se estivesse sempre pronta para um conselho.


Ele se aproximou e puxou uma cadeira.


— Eu preciso de sua ajuda. Tenho algumas dúvidas. Já ouviu falar do Miguel?


A expressão de Vanessa mudou para uma de concentração profunda. Ela ajeitou o cabelo para trás da orelha e inclinou-se levemente para frente.


— Miguel, o Arcanjo? — Ela fez uma pausa, meditando sobre as palavras. — Sim, Miguel é conhecido como o Arcanjo da Justiça, o comandante das legiões celestiais. Ele é o guerreiro divino, aquele que defende a humanidade contra o mal e o caos. É o líder das forças celestes na eterna batalha contra as forças das trevas. Muitos acreditam que sua presença é um sinal de grande conflito... ou grande redenção.


Raziel sentiu um arrepio percorrer sua espinha enquanto escutava aquelas palavras.


— Há uma oração antiga — continuou Vanessa — que muitos paladins fazem antes de entrar em combate. É uma oração de proteção, pedindo a Miguel que lhes conceda força e coragem. Não é apenas uma súplica, mas um reconhecimento de que sua fé está nas mãos do divino.


Ela fechou os olhos por um momento, como se invocasse a própria oração em sua mente. Raziel escutou em silêncio, absorvendo cada palavra.


— "Arcanjo Miguel, defensor nas batalhas, protege-nos contra as armadilhas e maldades do inimigo. Que tua espada nos guie e tua luz afaste as trevas. Conceda-nos força em nossos momentos de fraqueza e coragem diante do medo. Amém."


Houve um silêncio após a oração, como se a própria biblioteca reverenciasse aquelas palavras sagradas.


— Oração que paladins fazem antes de entrar em combate... — Raziel murmurou, sentindo o peso da oração em sua alma. — Existe algum livro aqui que fale mais sobre ele?


Vanessa assentiu.


— Temos um livro que aborda todos os Arcanjos, não apenas Miguel, mas também Gabriel, Rafael e os outros. Ele é mais amplo, mas pode te dar uma base sólida sobre quem são esses seres divinos e o que representam. Acho que será útil para sua busca.


Raziel agradeceu, e com a ajuda de Vanessa, encontrou o volume empoeirado que continha as histórias e lendas dos Arcanjos. As capas de couro antigo estavam desgastadas, mas o conteúdo prometia respostas. Decidiu levá-lo para casa, onde poderia estudá-lo em mais detalhes. Assim que chegou em casa, foi logo em direção ao seu quarto, se livrou da roupa da academia, trocando-a por roupas mais confortáveis. Sentou-se em sua escrivaninha e abriu o livro, suas mãos deslizando pelas páginas. A primeira seção sobre o Arcanjo Miguel o capturou imediatamente.


"Miguel, cujo nome significa 'Quem é como Deus?', é o comandante supremo do exército celestial, o defensor da humanidade e da justiça divina. Sua espada é um símbolo da justiça divina, e sua presença é frequentemente associada à proteção contra o mal absoluto. Miguel é a luz que brilha nas trevas, o guerreiro incansável que nunca recua diante do caos." A descrição do Arcanjo era muito semelhante à sensação de poder e propósito que ele sentiu na sua visão.


Quando viu que já era hora de comer, desceu para jantar com Sophie e sua mãe, o livro ainda ocupando seus pensamentos. Durante a refeição, Sophie fez uma piada leve sobre ele parecer tão pensativo, mas apenas sorriu antes de finalmente compartilhar suas descobertas.


— Hoje, descobri que minha primeira habilidade de Paladin é algo único — disse, cortando um pedaço de carne. — O nome é "Fé Inabalável". Aumenta todos os meus status em cinco pontos e pode crescer ainda mais. É algo que o instrutor disse que não é comum.


Sophie arregalou os olhos, surpresa.


— Sério? Isso é impressionante, mano! — ela disse, visivelmente admirada.


Sua mãe, sempre calma e ponderada, olhou para ele com um brilho de orgulho nos olhos.


— Fé Inabalável — ela repetiu, pensativa. — Parece que sua conexão com a fé está ficando mais forte ou sua curiosidade na religião está te levando a novos horizontes.


Naquela noite, ao se deitar, sentiu o peso do destino sobre seus ombros. A cada dia que passava, parecia que o círculo de eventos ao seu redor se fechava cada vez mais. Não podia negar que o destino o estava levando em direção a algo maior — algo além de sua compreensão imediata. Com sua nova habilidade e a compreensão crescente sobre o Arcanjo Miguel, ele sabia que estava sendo preparado para algo monumental.


Enquanto seus olhos se fechavam e ele mergulhava no sono, a última imagem que veio à sua mente foi a espada do Arcanjo, brilhando como uma estrela no céu, guiando-o para o futuro incerto.