Notas iniciais
Oiieeee Sumi por conta das festas de natal, mas estou de volta. Espero que gostem.

Pov – Danny

Deixa-la é tão estranho. Eu quero ficar. Parece que estar perto dela me faz bem de um jeito diferente. Só que chega um momento que ela começa a olhar para o mar e sinto que tem medo do pai nos ver juntos.

Só que os olhos são tão ávidos por tudo que não consigo deixa-la sem relutar.

―Melhor eu ir. – Aviso guardando o celular. Alina balança a cabeça concordando. Está sentada ao meu lado, mais perto que ontem, menos preocupada com a aproximação também.

―Eu sei.

―Se quiser podemos ir tomar um sorvete. De lancha é rápido.

―Eu quero, mas não posso. Obrigada por me convidar, Danny. – Ela coloca uma mexa do cabelo atrás da orelha incomodada com o vento. – Tem muitos amigos?

―Primos contam?

―Acho que sim.

―Então sim. – Fico de pé. – Espero que goste do livro. – Ela me imita se levantando. Olha mais uma vez em direção ao mar e depois seus olhos me encaram tensos.

―Um dia vai voltar aqui?

―Amanhã é um dia. – Toco seu ombro, sinto sua leve tensão. – Amigos se tocam. Não vou machucar você. – Olho para o braço de Alina. É só um olhar instintivo como prova que não vou machuca-la, mas então vejo uma mancha roxa. Como uma mão apertando. – Nem preciso, alguém já fez isso.

Ela olha para o braço, cobre o roxo com a mão, fica levemente pálida e muito constrangida. Engole em seco.

―Ele não queria fazer isso, eu fico roxa com facilidade, meu pai tem que me educar e os pais... – Ela se cala, sinto tanta raiva dele. Do que faz com ela. Confuso e preocupado e sem saber onde é meu limite.

―Quantos anos tem?

―Vinte certinho. – Consigo sorrir, ela só falta mostrar os dedos ao dizer a idade, como se fosse um dos gêmeos. – Eu sei, deve estar pensando que com vinte anos eu já devia ter aprendido tudo e não precisava mais que meu pai ficasse brigando comigo, mas eu as vezes não sei me controlar e pergunto coisas que não devia e ele fica bravo.

Quero começar tudo de novo, sentar e mostrar o mundo a ela de um modo que explique como vivemos no século vinte um. Me sinto numa viagem no tempo. Voltando a um passado que devia estar enterrado.

Nem posso pensar o que alguém como minha mãe diria de algo assim. Não conheço mulher mais dona de si do que ela. Enfrentou a vida sozinha desde menina. Jamais aceitaria algo assim tão opressivo.

―Alina, ele não pode desrespeitar você. Não pode apertar seu braço, não pode gritar e nem mesmo decidir sobre sua vida sozinho como se você fosse parte da mobília.

―Seu pai nunca fez isso?

―Não, nem permitiria que alguém fizesse. – Ela me olha interessada.

―Quando eu achava que ia me casar e ter filhos, eu pensava que seria assim. Nunca brigaria e nunca ficaria mandando neles pensando que tudo tem que ser do meu jeito.

―Decidiu não se casar mais? – Sorrio com seu possível desejo de independência.

―Era só sonho, e agora... – Ela torce a saia nos dedos. – Tenho que ser uma missionária.

―Uma missionária? O que faz uma pessoa assim?

―Também não sei Danny, são os planos do meu pai e do Salvador, o nome dele é Alastor, meu pai acredita muito nele, na nova igreja que ele vai construir.

―E você? No que acredita? Precisa pensar nisso.

―Quantos anos tem? – Ela me pergunta.

―Vinte e três. Certinho. – Não resisto a brincar com ela que sorri.

―Já sabe tudo que acredita? Não fica com dúvida em nada? Nenhuma das coisas?

―O tempo todo, mas... é diferente.

―Não entendo. – Nem eu, as vezes ela me confunde. Só o que sei nesse momento, só o que sinto é raiva por alguém aprisionar um pássaro e mais ainda, pelo pássaro achar que merece ser aprisionado.

―Seja como for ele não pode machucar você.

―Você tem que ir. Eu vou ler o livro, se voltar amanhã... posso perguntar sobre outras coisas e pode falar sobre isso, sobre o que pensei.

―Eu vou voltar. – Me curvo e sem pensar muito beijo seu rosto de leve. Alina fica assustada, vejo em seus olhos o que isso provoca nela e penso que queria mais que tocar seu rosto, queria beija-la, envolver essa garota linda nos braços, passear com ela pela ilha. Contar sobre o mundo, mais do que isso. Queria mostrar o mundo a ela. – Até amanhã.

Num esforço eu caminho para a lancha. Devia partir amanhã. Era para ser uma despedida definitiva, mas é só um até logo, por que vou voltar, não sei como vou fazer isso, quando vou comprar uma briga com a minha família, com a família dela, mas vai acontecer em algum momento.

Devia ao menos saber se ela quer isso, se está pronta, mas o que ela sabe? Nada, é feita de doçura e inocência e não sabe decidir ainda. Talvez um dia, talvez quando o mundo não for uma novidade.

Quando chego a mansão meus tios estão os quatro a beira da piscina. Assistindo Bárbara e os gêmeos na água.

―Danny! ― Tio Nick me chama. É agora que tenho que comunicar que não vou mais voltar com ele e sou um mentiroso muito frágil, fico pensando no que dizer e não encontro nada até estar diante dos dois casais. – O Luka disse que convenceu você a ficar para o ano novo, então eu resolvi ficar também. Tyler está vindo com a July e a Aurora e troquei de filho com seu pai. Ele fica com o meu Josh e fico com você na noite de ano novo.

―Que bom tio. – Fico tão feliz que me sento ao lado deles e bebo um gole do suco gelado de tia Lissa. A ideia é ruim, parece um copo de açúcar gelado, faço careta. Eles riem e tio Leon me oferece o dele que aceito agradecido.

―Sou saudável com todo o resto. – Tia Lissa se defende.

―Meu pai não ficou chateado? – Pergunto a meu tio Nick.

―Na lógica do seu pai é uma troca injusta, de algum modo ele acha que tem mais direito de passar as festas com Josh do que eu com você, então ele quer o Josh lá e você também, e a Bárbara e o Théo e o Eros e a Aurora. Você sabe. Tudo dele.

―Por que ele é bom com bebês. – Tia Annie diz ajeitando meus cabelos. – Troquei o Josh por você, tem que me deixar ajeitar seus cabelos como faço com os dele. Ainda dei o Ryan de brinde. Com dois bebês. Ele está no paraíso dos bebês.

―Nesse caso nem vai sentir minha falta tia. Por que não ficaram todos?

―Alec queria passar com a mãe dele, pelo menos uma das festas, então eles foram e então o Ulisses foi também. – Tio Nick explica.

―Não pode ficar sem seu príncipe ervilha. – Tio Leon continua. – Josh tem que trabalhar. Alguém nessa família precisa e Lizzie também. A Dulce não podia deixar a mãe e a clínica. Ainda mais nessa época do ano quando muitos animais sofrem com o inverno e as festas de fim de ano. Então acabou indo todo mundo.

―Ryan e Aysha tem que trabalhar também.

―Estranho é vocês dois estarem aqui. – Digo a tio Nick já que boa parte dos seus voltou para casa.

―Ei. A Bárbara quer ficar um pouco com o vovô aqui. – Tio Leon ri acenando para a garotinha que se debate na piscina correndo dos primos que a perseguem fingindo ser tubarões. Um deles com um tipo de barbatana presa as costas e só de olhar já sei que é coisa de Luka.

―E não podemos deixar nosso bebê ainda. – Tia Annie sorri. – Ela queria ficar um pouco mais. Só temos ela de criança. Já estou com saudade de ter uma criança. – Ela se encosta em tio Nick. – O que acha príncipe?

―Que em algum momento um outro bebê aparece precisando de nós.

―Está aí algo que não duvido. – Tio Leon comenta. – Vocês dois vão ter sempre uma criança para amar e educar. Não consigo vê-los sem filhos pequenos.

―Nunca aconteceu. Sempre somos nós dois e crianças.

―E tem o Tyler que não acho que vá crescer nunca. Ele é o mais dependente de vocês dois. – Tia Lissa ri. – Aposto que voltar foi ideia dele.

―Também aposto. – Minha tia Annie faz careta. – Pela July ela passava muito bem perto do Tio Ulisses.

―O mais bonito e charmoso do mundo todo. – Eu imito July e eles riem.

―O paspalho fez lavagem cerebral na minha princesinha.

Eles riem, fico pensando em como é difícil magoar essa gente. Ir contra eles vai me machucar. Eles pedem sempre tão pouco em troca de toda atenção e amor que oferecem. Nos dão tanto em liberdade e oportunidades, nunca exigem nada em troca e quando me dizer uma única vez fique longe eu faço o oposto.

―Achei você. – Luka surge descabelado, de óculos, descalço e amarrotado. – Estava esmagando minha avô. Vamos? Já fez meus desenhos?

―Que desenhos? – Pergunto sem entender.

―Os desenhos que vai fazer para aquele projeto da empresa. Se lembra que foi por isso que ficou? Para me ajudar? – Ele diz num sorriso amarelo, me puxa pela camiseta. – Danny, Danny, tão distraído. Vem primo.

Luka sai me arrastando para longe dos Stefanos. Eu o sigo sem saber de nada.

―Me pediu desenhos?

―Não. Você não é nada esperto. Ainda bem que tem a mim. Eu sou tipo seu primo Josh. Não sou?

―Como assim?

―O primo Josh, o cara mais velho que te ajuda quando se mete em encrenca e dá bons conselhos. Sou seu Josh. Não sou?

―Não. Acho que o Josh é meu primo Josh.

―Isso é alta traição sabia? Não vejo o Josh te ajudando com a garota das cavernas.

―Luka não chama ela assim.

―Danny eu sou casado com uma dinossaura, você ainda está a milhões de anos de evolução. Ela já deve ter descoberto o fogo, logo vem as rodas e um novo mundo vai se abrir.

―Eu nunca sei direito que caminhos a sua mente segue para chegar nesses momentos de completa alucinação.

―Super dotado, não espero que me compreendam. Já me acostumei com a mente limitada dos que me cercam. – Chegamos a sala. Olho para o sofá e ele nega. – Paredes tem ouvidos. – Vamos para a biblioteca. Me sento e ele faz o mesmo.

―Estamos aqui num tipo de reunião? Não quer mesmo desenhos?

―Já falei sobre ser o primo esquisito? – Balanço a cabeça concordando. – Ótimo, assim me poupa o trabalho de repetir. Você tem um problema.

―Tenho? O que? O que está tentando dizer.

―Andei por aí. Fiz as perguntas certas, para as pessoas certas. Fiquei preocupado com a sua garota das... Alina, então já inventei uma desculpa para não ir embora hoje. É bem fácil convencer o tio Nick a ficar perto do meu pai.

―Luka. Pode dizer o que descobriu? Eu estou preocupado. – Será que ela corre perigo? O que posso fazer para ajuda-la? Tudo tão estranhamente embolado em minha mente.

―Bom. Precisa saber que pode ter um exagero ou outro nos relatos das pessoas, todo mundo sempre acaba imprimindo a expressão da sua verdade em cada história que conta, mas de modo geral acho que chegamos perto da verdade.

―Tão filosófico. – Ele faz careta. – Entendi. O que sabe?

― O pai dela segue um maluco. Um religioso fanático, mas na verdade o que eu consegui apurar e imprimindo aqui um pouco da minha opinião pessoal ele não é nem isso, é um charlatão, um safado usando inocentes.

―Isso eu percebi antes de qualquer coisa.

―Ele inventou essa seita. Disse que teve um sonho e no sonho recebeu uma missão. Um papo estranho, claro que alguns caíram, mas dizem que nada tão profundo como o pai dela.

―Por que está preocupado com ela?

―Parece que ele queria casar com ela. – Aquilo é mesmo preocupante, Alina não saberia dizer não ao pai. Odeio a ideia, me faz revirar o estômago. – Só que ela era novinha e chorou muito, o irmão também fez umas ameaças, ele voltou atrás, quer que a garota vá viver com ele como religiosa. – Missionária em penso, ela disse mesmo não sabendo o que significa. – Danny, está na cara que a intensão dele é outra.

Encaro o chão. Eu não sei o que fazer. Como impedir uma garota que tem idade de fazer escolhas a não fazer algo. Nem somos próximos o bastante para isso. Não temos nenhuma relação além do meu sentimento por ela e eu nem sei que sentimento é esse.

―Acha isso?

―Todo mundo acha. Um outro casal deixou a igreja dele, se podemos chamar assim, tem pouco tempo, ele jogou a mesma conversa na filha mais velha deles e depois na mais nova também. Com esse casal outros se afastaram. Acho que o homem não está indo bem em esconder sua insanidade.

―Mas o pai dela não. Ele ainda parece ser cego.

―Deixou a mãe dela morrer, nem mesmo pensou em procurar ajuda. Ninguém nem sabe o que ela teve.

―Ela faz muito jejum, o pai a obriga, ela não sabe mais no que acreditar, está perdida, ele deve ser um homem bruto, acho que machuca ela. – Fico em silencio sem saber o que pensar. – Quer ser meu primo Josh? – Luka ri.

―Agora quer meus conselhos? – Afirmo. – Rouba ela para você. Dane-se o mundo e o que vão dizer, só rouba ela para você e cuida dela.

―Nesse caso ela tinha que querer ser roubada e eu iria contra os Stefanos isso parece complicado e depois eu nem sei o que poderia oferecer a ela.

―Faz ela querer ser roubada, os Stefanos são uns dramáticos e nunca, jamais, iriam contra um sentimento puro, não consigo imaginar tio Heitor furioso por que encontrou alguém para ser feliz com você.

―Acha?

―Acho. Só que a parte ruim é que o irmão deixou a ilha de tanto que foi perseguido pelo pai. Aos gritos pela ilha, onde quer que ele estivesse, eu nunca vi, mas contaram que era assustador. Ela ao lado do pai feito um carneirinho.

―Imagina o homem gritando aqui na porta?

―O meu avô da jeito nisso.

― O cara que foi o primeiro a dizer fique longe?

―Ele disse para te proteger Danny, mas se precisar dele ele te ajuda.

―Luka eu não sei direito o que eu quero. É só que gosto de ficar perto dela e de ver ela sorrindo, gosto do jeito delicado que ela tem, inocente como uma garotinha.

―Estou aqui. Posso mentir por você quando precisar. Fiz isso pela Alana.

―Nunca por você.

―Não penso muito, não guardo nada. Se eu sinto eu sinto e pronto, já mostro logo, mas você nem sabe o que sente e se ela é assim inocente precisa cuidar para não machuca-la. Minha dinossaura é um pouco assim. Não tanto. Ela bem que já tinha dado umas voltinhas por aí quando me conheceu. Ai meu peito. – Ele coloca a mão no coração. – Acordei o monstro. – Luka se levanta caminhando para a porta.

―Onde vai Luka?

―Fazer o monstro dormir. Vou beijar ela para esquecer que ela já beijou outro. Ai doeu. Para de me fazer falar essas coisas. – Ele deixa a sala.

―Eu? O que foi que eu fiz?

―Dinossaura o monstro acordou! – Escuto ele gritar pela sala e me recosto no sofá pensativo. O que eu faço? O que eu quero fazer?

Ganhei uns dias a mais, mesmo assim não é o tempo todo, tenho que voltar para casa, para a universidade, tenho que ter uma vida. Passar meus dias em função das poucas horas que passo com ela pela manhã não é propriamente existir.

Alina e o tal maluco não saem da minha mente até a manhã seguinte quando pego a lancha e sigo para encontra-la. Vamos ver se forço um pouco e escuto o que ela acha de tudo isso, se ela me conta mais e eu a fao despertar.

Penso no braço com aquela mancha roxa que ela acredita merecer, meu coração se aperta. E se eu falasse com o homem? Pode ser que ele me permita vê-la, que saiba que ela não está mais tão sozinha. Esse irmão também é bem relapso, se ele é tão esperto, se não caiu nas armadilhas da fé do pai, por que deixa a irmã assim?

Não poderia me imaginar dando as costas as minhas irmãs em um momento como esse. Emma e Lizzie nunca ficariam sozinhas em algo assim. Estaria com elas o tempo todo. Só iria onde elas pudessem ir ou não iria para não deixa-las, foi isso que aprendi com meus pais.

Ela está escavando a areia com uma pazinha quando chego, fico olhando enquanto caminho ela retirar uma caixa enterrada e afastar a terra.

―Bom dia pirata. – Alina quase desmaia de susto, cai sentada na areia com a caixa na mão.

―Não sou pirata, não roubei isso, é sério. São... são as coisas que me deu, quer ver? – Ela abre a caixa nervosa. – O livro e os desenhos, só isso.

―Eu entendi capitão gancho.

―Quem é esse? – Ela pergunta quando me sento a seu lado. Sorrio para seu pequeno tesouro.

―Um pirata malvado, com uma perna de pau e um gancho no lugar da mão. Mais terrível que Jack Sparrow

―Não sei quem são. – Ela fecha a caixa. – Escondi como tesouros eu sei, mas são meus e não queria perde-los. – Seus olhos entristecem.

―Eu sei, entendi, não tem problema. Foi uma brincadeira Alina. Apenas isso. Até gosto de piratas. Seria uma pirata linda. – Ela fica vermelha. – Vai ser. – Digo pegando meu bloco e abrindo depois de pegar o lápis preto.

―Vai me desenhar?

―Vou. – Ela sorri. Os olhos brilhantes. O rosto corado em uma mistura de vergonha e ansiedade. – Por que precisa enterrar? – Pergunto começando meu desenho. Se ela soubesse como conheço seus traços.

―Fico pensando se meu pai descobre. Ele pensa que devemos voltar a viver como antes, como muito antes, ele acharia errado e depois ainda iria querer saber como consegui isso.

―Nunca vai contar que somos amigos? – Ela me olha um momento, tanta tristeza.

―Eu não vou viver aqui mais muito tempo Danny, quando eu for embora para ser uma missionária não vamos mais ser amigos.

―Quer isso? Quer abandonar a ilha e ir morar em Atenas com um homem que não conhece e que não sabe nem mesmo se vai respeitar você? Não tem medo do que ele tem em mente? De ficar sozinha com um maluco? – Passo um pouco dos limites, noto isso conforme seus olhos vão se enchendo de lágrimas e o rosto vai ficando pálido. – Desculpe.

―Eu tenho medo, eu não quero deixar a ilha, não assim, mas eu não tenho escolhas, meu pai quer assim e ele conhece o salvador.

―Não chama ele assim. Ele não vai salvar nada, nem ninguém.

―Alastor. – Ela fica calada um momento. – Meu pai quer o meu bem, eu acho que ele quer o melhor para mim, do jeito dele, meu pai acha que isso é o certo, ele não faz por que me odeia, faz por que me ama.

―O modo como ele te ama é que está errado. – Ela afirma concordando, ao menos tem consciência disso. Volto meus olhos para o desenho, Alina se aproxima mesmo sem um convite e tem seu perfume suave e os cabelos espalhados que roçam minha pele e me arrepia.

―Me fez de calça. – Ela sorri. – Sabia que nunca usei calça? Gosto do chapéu de pirata. – Olho para ela. Linda e encantada com o desenho.

Entrego a folha a ela que fica um longo momento admirando. Nem imagina quantas vezes não desenhei cada pequeno traço do rosto bonito e delicado.

―Posso ficar com ele? – Afirmo. – Obrigada. Vou guardar com meu tesouro.

―Vai enterrar seu tesouro pirata?

―Vou.

―O que faz quando está no avião?

―Desenho, durmo, leio, demora um pouco.

―Quando vai embora?

―Não sei. Talvez demore. Penso em ficar aqui um tempo.

―Isso é bom. Pode vir de novo aqui. – Afirmo, abro a mochila.

―Trouxe para você. São frutas frescas. – Ela aceita, pega uma maçã e morde no mesmo instante. – Jejum? – Alina afirma. – Por que?

―Meu pai... ele acha que preciso purificar meu coração. Já comeu chocolate?

―Chocolate? – Como pode haver tanta doçura em uma garota?

―É doce e derrete fácil, uma delicia, as vezes meu irmão trazia, são ótimos, um dia experimenta, vai gostar muito.

―Já comi chocolate, só não sabia que gostava tanto.

―Gosto de frutas também, mas chocolate é a coisa mais gostosa que existe no mundo.

―Amanhã eu trago alguns.

―Vou voltar aqui a noite. Já veio aqui a noite? As estrelas brilham muito o céu fica bonito e fica bem fresco.

―Está me convidando?

―Acha errado?

―Não. Eu venho. Podemos ir a algum lugar de lancha. O que acha?

―Não quero. – Ela está perto de mim, os olhos fixos, bonita, tentando lutar contra todas as coisas que a apavoram, dando um passo em minha direção me convidando para voltar a vê-la, mas não pode ir além. – Queria guardar você na minha caixinha junto com os meus tesouros.

Não tenho a menor ideia se ela sabe o que está dizendo. Se imagina o quanto isso remexe minha vida e me deixa tonto e meio apaixonado. Toco seu rosto, ela não se afasta, mas não se move. Só fica me olhando.

―Já beijou alguém? – Alina nega, os olhos se abrem um pouco mais de susto.

―Nunca, nem sei como é isso.

―É como chocolate.

―Todos os beijos parecem chocolate?

―Não, só os seus. – Ela fica surpresa.

―Como sabe? Nunca me beijou.

―Mas vou. Quando deixar. – Ela não responde, não se move, só fica me olhando entre surpresa, ansiosa e com medo. Desvio meus olhos e desfaço a conexão, tudo tem seu tempo e quero voltar. – Agora tenho que ir. Venho a noite. – Junto minhas coisas e me ponho de pé. Ela faz o mesmo me olhando o tempo todo. – Trago chocolate.

―Chocolate ou beijo? – Ela pergunta numa pequena confusão e me faz rir enquanto arrumo a mochila nas costas.

―Talvez os dois, mas isso vai depender de você. Se quiser o beijo vai estar aqui, se não quiser não vai estar e então eu vou embora. – Alina não se move do lugar, não responde, apenas mantem seus olhos em mim. Aceno, não toco nela, apenas aceno antes de caminhar para a lancha.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Vou deixar aqui a pagina no facebook https://www.facebook.com/groups/autoramonicacristina/ e o link do canal do YouTube onde estão os Bool Trailers. Sim somos chics agora. https://www.youtube.com/channel/UC9Yz803AyZZB-B8maYIgh1w