Paixão, dor e prazer

1 O futuro parecia tão brilhante


Notas iniciais
Início e fim de um amor tórrido implicando em alterações nos destinos dos envolvidos citados.

Como descobrimos se a pessoa que está ao nosso lado é a pessoa certa para nós, como podemos ter certeza de que aquilo é para sempre nos eternos próximos cinco segundos de prazer? Quando me deito e olho para trás, me recordo de tudo que passou. Quando me viro de costas, ao me ver no espelho, na minha lombar, três palavras e uma pequena cicatriz, pelo menos menor que aquela que escondo incessantemente, me trazem a mente tudo o que passei um dia... Passion, pain and pleasure.

Em uma de suas obras, cujo o nome não me vem a mente, Shakespeare retrata com exatidão todo um período de paixão, dor e prazer. Nos conhecemos, para ser bem fiel às memórias, na biblioteca da escola e nunca me passou pela cabeça que aquele trabalho de literatura absurdamente inútil se transformaria na definição da minha vida, digamos, amorosa. Eu dizia em voz alta a frase pois meu cérebro relutava veementemente em deixar aquilo entrar:

- “...esses prazeres violentos tem finais violentos...” — quanta porcaria eu pensava, e ele, indiferente a minha descontentação, ria-se dos meu devaneios e das minhas caretas até decidir falar comigo.

Chegou com um charme irresístivel, um olhar apaixonante, movimentos fluídos, fala desenrolada e intrigante e ao mesmo tempo me fez cair em um torpor alucinante me levando a lugares desconhecidos em meu corpo. Meu coração. Algo aparentemente somente vital, se tranformou em um indivíduo a mais em meu corpo. Nunca fiquei daquele jeito.

- Parabéns, resistiu mais que todos os outros. Alguns até jogaram o livro no chão, a bibliotecária que não ficou muito feliz.

- Ninguém está “muito feliz” com esse trabalho. Eu menos ainda, preciso disso para passar e ir embora desse inferno.

- Não blasfeme contra a escola, são os anos dourados da sua vida.

- Com certeza, tudo o que desejei ansiosamente durante os nove meses dentro da barriga da minha mãe. Super estimulante.

- Não faz assim. Shakespeare é bem prazeroso se você souber como ler.

- Me dê esse prazer então porque eu preciso.

Ele se sentou, pegou na minha mãe e colocou um bombom de liquor e me disse:

- Coloque na boca e deixe derreter antes de morder e beber o liquor.

Fiz o que ele disse e esperei.

- Pronto, agora vem comigo.

Ele fez um caminho, modéstia a parte, bem conhecido para mim. Me levou a sala da diretora. Pegou-me pelo braço com força, me sentou na frente dela e disse que havia me pegado bebendo com os meus amigos atrás da escola. Ela disse para soprar e assim, sentiu o cheiro do forte liquor. Suspensão. O que eu senti na hora? Um prazer inexplicavelmente delicioso por ter entendido algo estúpido de forma tão simples e maior ainda, um desejo irrefreável de estar junto daquele garoto tão... É melhor irmos para a parte interessante antes que eu estrague o final.

Eu era perigosa e ele previsivelmente misterioso. Um paradoxo perfeito. Nada além de algumas idas a biblioteca e bombons de liquor, vodka com e sem gelo, cigarros e outras coisas mais caracterizaram nosso início de relacionamento. Algo em mim me deixava cautelosa em relação a ele, talvez a velocidade com que meu coração batia quando o via. Numa certa festa, em um certo inferninho que conhecíamos bem, rolou nosso primeiro beijo depois de doses de vira-vira.

Meu corpo pegou fogo, meu coração parou de bater e respirar, para que? Era

uma sensação interminável. Um tesão incrível surgiu de um beijo simples.

De beijos a toques, de toques a apertões, de apertões a mordidas, de mordidas a… de verdade, me constrange falar disso a desconhecidos, mesmo que não veja seus rostos sedentos de uma descrição de relação ardente. Para entenderem a intensidade do nosso relacionamento tortuoso, uma semana depois larguei a escola, casa, amigos, família e fui morar com ele em uma casa grande, antiga e peculiarmente bela em seus quesitos pitorescos. Paisagem bucólica da varanda dos fundos e um ar respirável.

A relação gostosa, ardente e boa acabou quando duas semanas passaram.

Eu conheci o verdadeiro eu dele.

Seringas, aparatos próprios para usar heroína, cachimbos e tudo o mais. Ele era perturbado por fantasmas antigos e internos. Tinha medo de tudo quando estava comigo. Simplesmente baixava a guarda. Isso que me dá mais certeza agora de que tudo foi amor, não só uma paixão tórrida.

Nos amamos, brigamos, transamos, fizemos amor. Tivemos tudo que era direito, mas algo me incomodou. É engraçado.

Passando de canal eu vi o comercial de uma música, Hannah Montana (jerk!) e mais tarde comecei a cantarolar a música em voz alta: “He's got something special, he's got something special... he could be the one, he could be the one”, mal eu sabia porque cantarolava aquela música. Sai de casa e fui a um bar vestida classicamente: botas de couro, shorts e lábios vermelhos contrastando com meus olhos claros. Um amigo chegou e começou a conversar, no mesmo instante, ele também chegou. Foi horrível. Sangue em todo lugar. Ah, como ele era estúpido.

Dias se passaram e eu não consegui perdoá-lo por aquilo, principalmente depois de ver um telefone anotado em sua mão. Brigamos, nos batemos como sempre e eu fui embora para a casa de uma amiga, o que de fato era uma coisa nova.

Ele foi atrás de mim enquanto fazia compras em uma loja de conveniências do posto próximo a casa que estava hospedada. Roubou uma bebida que não vi o que era e saiu atrás de mim. Me convidou para bebermos e subimos até o telhado de um prédio abandonado. Nos beijamos e eu voltei pra ele.

Sexta feira, treze de outubro, confirmei a minha incerteza e o cantarolar da música fez sentido. Estava grávida aos dezenove anos. O pior, confiei no nosso amor e contei a ele. Menti para mim e confirmei o que neguei várias vezes, ele me acusou de traição e disse que não era o pai da criança. Meu mundo se desfez. Fiquei deprimida por semanas.

Ele percebeu o erro que havia cometido e me deu um ursinho de presente. Agradeci, mas brigamos de novo. Tentando melhorar a situação dei a ele uma cerveja e beijei o urso fazendo menção a boca dele e agradeci de novo. Ele me bateu e eu cai sentada no chão. Comecei a sangrar demais.

No que minha vida tinha se transformado.

Ao voltar do hospital decidi que não era mais aquilo que queria para mim e iria voltar para os meus pais, que ao contrário de mim, nunca tinham me abandonado. Dei a notícia para ele e uma sucessão muito rápida de cenas me volta a mente.

Sai da sala de estar em direção ao quarto, do quarto para o banheiro e ele veio atrás de mim. Senti um cheiro de queimado e fui ver o que estava acontecendo. Se não fosse do jeito dele, não seria de jeito algum.

Vejo tudo queimando, sinto o cheiro em meu cabelo e o calor na minha pele. Parece que tudo está acontecendo novamente. E aqui, acontece.

Meu romance veloz e precoce terminou como começou, quente, violento e com amor.

Me lembro do corpo dele me abraçando tentando me proteger das chamas.

Agora no reflexo da água desse lugar que estou vejo a tatuagem que fizemos

juntos, a minha pequena cicatriz herdada dessa vida ardente e uma cicatriz enorme em meu coração que levarei por todas as minhas vidas até reaver aquilo que perdi, antes vou ter que descobrir o que é. Acredito que seja ele, tenho que recuperá-lo das sombras que o aguardarão em todas as vidas, meu coração me guia a isso.

Por enquanto me ocupo de transmitir essa história por Catarina, uma simples civil passiva a manipulação de um espírito inquieto como o meu.

Notas finais
É pouco provável que tenha uma continuação, mas pouco não significa nenhum.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!