Paixão Sublime

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Boa leitura!

Explicações lá embaixo.

Atravessei às pressas a rua, eu queria chegar logo à lanchonete. Era domingo de manhã e chovia em Seattle, fazendo as pessoas apressarem o passo para conseguir uma boa mesa junto à janela do Caffe Ladro. Adentrei o local e mais uma vez ninguém pareceu perceber minha presença. Escolhi uma mesa de quatro lugares que dava de frente para a mesa dela. A mesa que por oito meses ela insistia em sentar toda manhã de domingo e esperar. Olhei de relance para o relógio, e aqueles cinco minutos pareceram ser os mais longos de toda a minha vida. Eu precisava sentir uma última vez o cheiro doce de seu perfume, Tess Miller era o meu combustível para enfrentar aquilo que eu estava vivendo. Naqueles meses eu pude conhecê-la melhor, ela não era aquele tipo de garota oito ou oitenta. E também não fazia o tipo amo ou odeio. Tess era indecisa, mas quando se decidia, ah, eu tinha até gosto de ver a expressão determinante em seu rosto. E se não fosse essa sua força de vontade de todo domingo aparecer naquele café para me encontrar, eu ja teria aceitado o meu destino e seguido em frente.

Mas não pude, Tess Miller prendeu-me em sua vida de uma maneira tão intensa que eu achei que não seria capaz algum dia me desvencilhar. E eu tão pouco queria. Sorri largamente quando o sino pendurado acima da porta anunciou sua chegada. Tess chacoalhou o belo guarda-chuva verde água, o que era até irônico pois o objeto era completamente ofuscado pelas redondas e reluzentes esmeraldas que habitavam seus olhos. A ruiva de ancas largas tirou as luvas das mãos e percorreu ansiosamente com o olhar o mesmo caminho que há longos 242 dias fazia. Ele ia das mesas perto dos banheiros para o balcão de atendimento, onde cumprimentava Rachel, a gerente do local, passando pelo restante das mesas, acenando com a cabeça para os outros atendentes, até chegar a mim. Infelizmente não posso dizer que seus olhos brilhavam de contentamento e seus lábios exibiram dentes alvos num sorriso ao me ver. Bem pelo contrário, seu rosto era tomado mais uma vez pelo olhar baixo e a boca em linha reta. Tess andou calmamente até a mesa à minha frente, sentando-se, enquanto esperava pacientemente o garçom trazer sua bebida e a torta de limão. Ela já era tão conhecida naquele lugar que sequer precisava fazer o pedido. A esquina da Caffe Ladro parecia se iluminar toda vez que ela estava lá. Ou eu simplesmente devia achar isso por estar completamente apaixonado por ela.

Quando Marck trouxe o mesmo de sempre, Tess levou o copo até os lábios rosados e trêmulos de frio, fazendo assim as lembranças de uma noite inesquecível novamente invadirem minha mente, massacrando mais ainda meu coração.

Carter apareceu à minha frente, interrompendo minha conversa com uma garota morena de sorriso malicioso. Na minha cabeça eu estava com a noite ganha, se não fosse o incoveniente do Carter querendo me mostrar algo que fariam meus olhos brilharem.

— Estou te falando cara, você vai se arrepiar — ele falou todo bobo, provavelmente o álcool já estava fazendo efeito no seu sangue.

— Estou tentando me enturmar, se você não percebeu. — falei desgostoso ao perceber a morena receber investidas de outro cara. — Mas o que é tão importante que eu preciso urgentemente ver?

— Tente não babar demais — ele abriu caminho no meio da multidão.

Estávamos na cozinha lotada de estudantes barulhentes e bêbados. No centro dela, em cima de uma bancada, havia incontáveis copos vermelhos, enquanto na ponta estava um cara forte sem camisa, provavelmente jogador de futebol americano. Na outra ponta, uma garota com os cabelos amarrados e blusa molhada virava o líquido incolor existente dentro de pequenos copos, em questão de segundos para dentro da boca. Não consegui contar quantos haviam sido desde que eu estava ali os observando, mas ao seu lado outro garoto com o olhar incrédulo cronometrava, e ao bater do último copo no mesa, levantou exaltadamente o braço dela. Pelo grito da multidão e os socos nervosos do seu adversário, a garota havia ganhado.

— O que é isso? — perguntei à Carter.

— É a Viradalcoólica. Normalmente acontece entre homens, mas essa garota apareceu e quis participar. — ele riu — Achei que iria desistir no quinto copo, mas ela está ganhando de Charlie, o campeão dos campeões. — olhei confuso e ele continuou. — São cinco copos cheios de vodka para serem entornados, um participante de cada vez. Quando o primeiro copo sai da mesa, é cronometradro o tempo que ele levou para beber todos os cinco. Aquele que fizer em menor tempo vence, e o adversário tem que tirar uma peça de roupa. Por isso, meu amigo, o alvoço todo.

Apenas após a explicação de Carter é que fui entender porque Charlie estava sem a camiseta e os tênis. Já sua adversária parecia ter vencido a maioria dos desafios, pois havia perdido apenas os sapatos e o casaco. Sorri, me divertindo com aquela cena, era até certo ponto engraçado ver uma mulher desafiar um homem. Outra rodada iniciou-se sob muitos berros e apostas. Mesmo a garota ganhando, as apostas iam a maioria para Charlie, pois achavam que ela iria vomitar, declarando vitória á ele. Olhei mais uma vez para ela, e vi em seu rosto uma determinação que eu nunca havia visto antes. Eles estavam errados, ela iria ganhar.

— Aposto 50 na ruiva — falei para o cara que arrecadava a grana.

— Você está maluco Aleks? — meu companheiro de festa me olhou assustado.

— Claro que não. Ela vai ganhar — sorri confiante.

A garota ruiva ostentava um sorriso tão presunçoso nos lábios que me atrevi a chegar mais perto para admirar aquele espetáculo. E na verdade eu não sabia dizer o que estava me chamando mais a atenção, se era seu atrevimento de competir algo considerado masculino e imaturo ou se como seu sutiã preto ficava à mostra através da camisa branca molhada. Charlie já havia terminado sua rodada e agora apoiava as duas mãos na bancada, apenas esperando. A garota atrevida ergueu vagarosamente o primeiro copo e entornou vagarosamente. Charlie enlouqueceu com sua provocação. Porém ao pegar o segundo copo, ela o virou em questão de segundos. Eufórico, não me contivo e soltei um urro em comemoração.

Não sei dizer se gritei alto demais, ou se todos estavam em silêncio na espectativa de mais uma vitória, mas ela me olhou. Me vi preso por duas esmeraldas reluzentes à luz da cozinha. Ela fitou-me e percebi que iria aprontar algo. Mal tive tempo de concluir minha linha de raciocínio e a maluca levou rapidamente as mãos à boca, fingindo despejar todo o líquido ingerido dentro de um lixo. Todos ali presentes estavam espantados, enquanto Charlie pulava e berrava de alegria.

Ela sussurrou algo para uma garota próxima a mim, e sumiu dentro do tumúlto de estudantes. Ficou martelando em minha cabeça a expressão de seu rosto, e aquilo me motivou a ir atrás dela e tirar satisfação.

Atravessei a casa à procura dos banheiros, e quando o achei fiquei esperando do lado de fora. Não me importava de ter perdido 50 dólares, eu só queria saber porque ela havia desistido. Alguns minutos depois a porta abriu-se e ela saiu vestindo uma regata preta, e os cabelos soltos cobrindo os ombros.

— Por que perdeu de propósito? — a incerteza estava me esmagando, e sequer me preocupei em me apresentar ou parecer amigável. Para minha sorte, ela estampou um meio sorriso nos lábios e cruzou os braços no peito.

— Como você sabe?--- indagou.

— Você não parecia alguém que estava disposta a perder.

— Perdi porque eu sei como eu fico depois de uma Viradalcoólica. E eu não queria perder a oportunidade.

— Que oportunidade?--- franzi o cenho, claramente confuso.

— De falar com você, enquanto ainda conseguia. — a mulher ruiva passou por mim, indo em direção à saída da casa. Senti meu sangue ferver e meu coração palpitar. Sem chances que ela daria uma bola dentro, e eu daria a bola fora de não segui-la. Quando cheguei ao jardim ela me encarou com um sorriso de orelha a orelha. — Falando nisso, eu sou Tess.

— Sou Aleks. — cumprimentei-a — Posso te pagar uma bebida?

— Acho que já bebi o suficiente por hoje — ela riu.

— É, e na verdade, apostei 50 dólares em você. Então, estou falido — dei de ombros.

— Desculpe fazê-lo perder, mas foi por uma boa.

— Acredito que sim — disse.

— Que tal um café? Acho que estou precisando de um — Tess bocejou, e espreguiçou-se erguendo um pouco a regata, me dando o vislumbre de seu abdômen liso. Suei frio.

— Eu não tenho carro — falei mostrando vergonhosamente a minha situação desafortunada.

— Mas eu tenho. — ela enganchou-se em um dos meus braços e nos direcionou até onde os carros estava estacionados. — Além do mais, estou te devendo 50 dólares, creio que um café caseiro e uma boa conversa possa quitar minha dívida — ela falou manhosa.

— Oferta tentadora. — falei abrindo a porta do motorista para ela, que logo me entregou a chave e deu a volta no carro sentando no lugar do passageiro. — Não vejo outra saída, vou ter que aceitar.

Acontece que, na verdade, eu cheguei ao ponto de perceber que não negaria qualquer pedido dela. Estava tão encantado por aquela garota audaciosa que sequer me preocupei em avisar alguém aonde estava indo. Saí de LA, Califórnia, para visitar meu amigo de infância Carter, que cursava administração na Universidade de Seattle. Era minha primeira vez na cidade mais populosa de Washington, e eu não conhecia absolutamente nada sobre ela. Uma pequena preocupação abateu-me, mas ao ver Tess ficar de pé no banco do seu Chevelle SS conversível, e erguer as mãos para o céu, eu sabia que não importava onde ela fosse me levar. Eu a seguiria.

— Você está bem? — gritei sentindo o vento bater forte em meu rosto.

— Impossível estar melhor — ela riu divertidamente e voltou a se sentar.

— Me diga como você pode estar tão bem após beber tanto?

— Eu menti. — Tess amarrou os cabelo num coque alto e fitou-me travessa. — Tinha água na minha garrafa de vodka. Ou você acha que eu me mantenho em Seattle como? Fazendo um porre atrás do outro?

— Nunca desconfiaram? — inquiri surpreso com sua ousadia.

— Quando uma mulher se oferece para jogar viradalcoólica, você acha que eles se importam de verificar a garrafa? Faço isso apenas pelo dinheiro fácil. Beber é uma coisa que não me agrada.

Chegamos ao seu prédio, e mais uma vez permiti espantar-me com aquela curiosa criatura à minha frente. Tess Miller certamente era uma espécia rara de mulher a ser estudada. Seu apartamento era uma tradução confusa de sua personalidade, com paredes pintadas por ela mesma, onde inúmeras frases espalhavam-se. Discos de vinil enfeitavam uma parede, enquanto outros LP’s aguardavam o momento certo para serem tocados ao lado do toca-disco. Tess tinha também uma enorme estante recheada de livros que cobria boa parte de uma parede, enquanto a outra parte estava branca. Aquela era a única parede de seu apartamento que não estava coberta de alguma maneira.

— Qual é a dessa parede? — perguntei curioso.

— Faz meses que estou esperando a inspiração aparecer. — ela sorriu docemente, me arrastando até a parede, colocando-me de costas para ela. Afastou-se um pouco e ficou a fitar-me com as duas mãos apoiadas acima da cabeça. — Mas eu sabia que um dia ela voltaria.

Naquele momento não me importei se seria rejeitado, eu apenas precisava provar de seus lábios. Fechei o espaço entre nós dois. Tess saltou e enlaçou as pernas em minha cintura, entregando-se completamente àquele momento.

— Garota, eu acho que você vai terque se casar comigo! — comentei eufórico. Agora era uma questão de honra tê-la para mim. Somente para mim. Sorri contra seus lábios, pois nunca imaginei que amor à primeira vista existisse de verdade. E eu estava começando a acreditar que sim.

— Oferta tentadora. — ela sorriu também, repetindo minhas palavras ditas momentos antes. — Não vejo outra saída, vou ter que aceitar.

Acordei com os raios de sol infiltrando-se pelas persianas, um peso sobre meu peito impediu-me de levantar. Aos poucos assimilei o lugar ao meu redor, e sorri ao ver Tess dormir serenamente sobre mim. Eu estava completamente extasiado por aquela garota, contudo ainda não podia dizer que a amava. Mas eu estava perto disso. Muito perto. Retirei calmamente seus braços de cima de mim, juntei minhas roupas e andei até a cozinha. Conhecê-la estava no topo da minha lista de momentos preferidos, e eu ia tornar aquele dia mais especial ainda. Deixei um bilhete em cima da mesa, dizendo onde eu estaria, caso ela acordasse e eu ainda não estivesse voltado.

A padaria Caffe Ladro não ficava muito longe do prédio de Tess, e eu havia decorado o caminho enquanto dirigíamos até seu apartamento. Fechei os olhos por um segundo, lembrando de como sua pele era branca, quase translúcida. Pude notar as veias roxas sobre os seios, e nem por isso ela deixou de ser perfeita para mim. Virei a esquina, tentando entender como alguém que eu havia conhecido em uma noite, conseguiu me prender no seu mundinho. Trocamos beijos e carícias, conversamos sobre sua vida. E esses pequenos gestos foram suficientes para me fazer querer estar presente nos seus dias.

Mas a morte tem uma maneira irônica de brincar com nossos destinos.

Tess enrolou uma mecha do cabelo ruivo nos dedos, ela observava a chuva escorrer pelo vidro da padaria. Estava pensativa novamente. Vê-la bufar daquela forma cansada de tanto esperar foi o estopim dentro de mim. Eu havia aprendido a amar aquela garota, mesmo passando apenas uma noite com ela. Ao longo dos meses, percebi que independente se nevasse, chovasse, ou fizesse sol, ela estaria sempre lá. Me esperando. Saber daquilo me cortava o coração, afinal eu estava impedindo-a de seguir em frente.

Olhei para seu rosto inocente, e ali, rindo sozinho, notei como havia sido enganado pelo destino. Uma dor atravessou meu peito e desejei ter ficado cinco minutos a mais na cama preso por suas pernas. Quem sabe eu não teria virado a esquina naquele momento, e o carro não teria me atingido. Quem sabe agora eu estaria à sua frente, em carne e osso, roçando meus dedos em sua pele macia. Por um segundo ansiei não tê-la conhecido, não tê-la beijado, e amado por uma noite. Mas ver Tess, com seu sorriso puro, atravessar todo dia a rua e sentar-se naquela mesa, com os olhos verdes cobertos de esperança, me fez repudiar tal pensamento. Eu estava morto, porém ela estava me mantendo vivo. Vivo num mundo que não me pertencia mais. E vê-la sofrer por não ter nenhuma notícia sobre meu paradeiro me deu a tão esperada força que eu precisava para aceitar meu fardo e ultrapassar a linha que separava nossos caminhos.

Levantei do meu lugar e novamente ninguém notou-me lá. Eles nunca notariam. Nem mesmo Tess. Aproximei-me de sua mesa, e sim, ainda era possível sentir seu aroma, beijei carinhosamente sua cabeça. Um beijo que ela nunca sentiria. Deixei o local e segui pela rua com os carros passando por mim. Estava na hora de libertar Tess. De me libertar. Iríamos nos encontrar novamente, e ela seria meu motivo para voltar. A morte poderia significar muitas coisas, mas ela não conseguiria apagar meu amor por Tess Miller.

Notas finais
Oiiie galera, essa foi minha primeira fic original. Postei ela aqui porque na verdade eu estava participando de um concurso que infelizmente eu não ganhei :/ Então achei que deveria compartilhar com vcs, minha one :)
Espero que gostem e que comentem :D
Beeijos beijos
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!