Paixão Imprudente
2 Perdida
Notas iniciais
– E então como foi até agora?-pergunta Bernardo quando estamos no refeitório.
— Foi normal.-pensei em contar sobre o novo aluno arrogante e de um jeito pertubadoramente atraente que está sentando na minha frente,ou sobre como eu não prestei nenhuma atenção nas aulas até agora,pois ficava pensando em meus pais.Mas,o foi normal era mais prático.
— Não começa a se afastar de mim agora, logo no primeiro dia.
— Eu não estou fazendo isso.É que foi um tédio,você sabe como as pessoas daquela sala são chatas.-digo.
— Fiquei sabendo que tem um aluno novo,e que houve algum desentendimento entre vocês.
O encaro surpresa por saber que as fofocas foram espalhadas tão rápido,e que Bernardo tinha se interessado já que ele nunca faz questão de ficar por dentro do que dizem pela escola.
Os amigos dele estavam me encarando também,querendo saber o que tinha acontecido.Nunca eles tinham se interrompido em uma conversa e me dado tanta atenção.
— É verdade que tem aluno novo,mas não brigamos.Ele só quis sentar no lugar que eu estou e eu não permiti isso.
— Foi só isso mesmo?-Bernardo parecia preocupado,seja o que for que disseram a ele,parecia que era sério.
— Claro que foi.Não vai duvidar de mim não é?
— Acredito em você.-ele se tranquiliza e sorri.
— E lá está ele.-diz Victoria uma das amigas de Bernardo,ela olhava na direção que o aluno novo estava.
Ele estava indo para algum lugar longe dos outros alunos.
— Ele não me parece uma boa pessoa.-comenta Samuel.
— Parece até meio obscuro.-diz Sarah se estremecendo e se agarrando ao braço de Bernardo,como se estivesse com medo de algo.
Ele é apenas solitário-pensei ao observar que ele se isolada cada vez mais,indo para algum lugar que não tivesse tantos alunos.
— Ele é apenas arrogante.-digo,quando ele some indo para a parte de trás da escola.
— Eu fiquei sabendo que ele foi expulso da outra escola.-expõe Lucas.
— Eu não duvidaria disso.-fala Sara.
— É bom fircarmos de olho,para que ele não acabe nos metendo em encrencas.-Bernardo diz.
— Não fará isso,ele não nos conhece,e muito menos é nosso amigo.-finaliza Samuel.
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Bernardo novamente vai me deixar na porta da minha sala e depois vai para a sua.
— É engraçado a forma que as pessoas espalham as coisas por ai,nunca contam como realmente aconteceu.-diz o aluno novo,assim que passo por ele.Estava ciente das fofocas.
— Se acostume,costuma ser assim em cidades pequenas.-digo.
— Bem,é bom saber que não se importa.
— Fofocas não passam de fofocas quando são inventadas.
Ele para de me encarar e de falar comigo e senta em sua carteira,da forma mais confortável que ele acha que está.Inclino minha cabeça para frente,e tento ver o que ele está fazendo,ele estava apenas rabiscando no caderno desenhando alguma coisa.
E seus traços do desenho eram firmes,um esboço de uma moto logo tinha sido feito.Ele para abruptamente como se percebesse que estava sendo observado,olha para trás com o canto dos olhos enquanto eu disfarço e finjo estar concentrada no meu celular.
Percebo que ele deu um sorriso mínimo sem mostrar os dentes,e voltou a desenhar.
— Então seu namoradinho veio falar comigo...-seu tom de voz é tão baixo que quase não escuto.
— O quê?
— Aquele moreno que anda atrás de você como se fosse um cachorrinho,vi vocês no intervalo.
— Ele não é meu namorado,e muito menos um cachorrinho,Bernardo é meu amigo.E o que ele queria com você?
— Nada.Se apresentou,e falou alguma coisa sobre não ficar te incomodando.
— Hum.
— Não quero gente no meu pé,então trate de colocar seu cachorrinho em uma coleira.-seus olhos azuis escureceram.
E eu não consegui fazer nada além de encarar aquele par de olhos azuis.Os meus também são azuis,mas não se igualava com a beleza dos dele.Ele parecia incomodado comigo e depois se virou para frente,bem na hora que a professora de história entrou.
Na hora da saída,Bernardo me esperava na porta da minha sala.O aluno novo passou por ele,esbarrou de propósito no ombro do meu amigo,e continuou seu caminho sem olhar para trás.
Bernardo tinha ficado irritado,mas deixou isso para lá,e abriu um sorriso ao me ver,e eu não retribui.
— O que aconteceu?-ele me pergunta,enquanto me segue.
— Não quero falar disso aqui.
— E quer falar onde? Na sua casa? Quer que eu vá para a sua casa?-ele parecia preocupado.Então resolvi falar logo.
— Porque foi falar com o aluno novo sobre mim,praticamente o alertou para ficar longe de mim.Precisava disso tudo? Ele vai achar que eu pedi.Que por alguma razão,eu me senti intimidada por ele,sei lá,e não preciso que fique procurando confusão por besteira.
— Não teve nenhuma confusão.-ele faz eu parar de caminhar,pegando em meus ombros e me virando de frente para ele.-E porque se importa sobre o que ele vai achar? Ele pode pensar qualquer coisa,não estou nem ai.
— O problema é que você foi atrás dele,se eu já tinha dito que não teve nenhuma briga entre mim e ele, e você disse que acreditava em mim,porque foi até ele?
— Eu não disse nada demais,só dei boas vindas e disse que não procurasse encrenca por aqui incomodando os alunos,para que não fosse expulso de outra escola.
O analisei para ver se estava falando a verdade,e vi dentro de seus olhos que sim.Na verdade,eu nem sabia porque tinha ficado com raiva disso,e porque estava discutindo isso com Bernardo.Eu só não gostei de depois dele ter dito que acreditava em mim,ter ido atrás do aluno novo como se quisesse sondar e ver se estava tudo bem.
— Porque ficou irritada? E porque estamos discutindo por causa do aluno novo?
— Eu não sei,mais da próxima vez que tiver alguma fofoca,e eu dizer que está tudo bem,não fique son dando,só acredite em mim.
— Ok Sophia.Eu já entendi,chega disso,me desculpa.Continuamos bem?
— Somos amigos,sempre estaremos bem.-falo.E ele finalmente se tranquiliza entendendo que não é qualquer coisa que vai acabar com nossa amizade.
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Quando cheguei em casa,minha mãe tinha feito o almoço,e depois voltou para a cama,dizendo que estava com enxaqueca.Meu pai,eu não o vejo desde ontem.Era muito deprimente ficar almoçando ali sozinha.
Era folga da minha mãe,e era estranho ter ela em casa isolada em seu quarto.Ela deveria aproveitar a folga e não ficar o dia todo em seu quarto.Eu também não queria ficar o dia inteiro em casa,sem nada para fazer.
Ligo para meu pai,chamou e foi para a caixa postal.Liguei de novo,e dessa vez,quem atendeu foi uma mulher.Ela parecia bêbada,e não dava para distinguir nenhuma palavra,mas não foi preciso muito esforço para eu entender que meu pai estava com uma qualquer.
Ele sabia que minha mãe estava de folga,e hoje ele também estaria.É muito raro os dois ter folga no mesmo dia,e mesmo assim ao invés de aproveitar a folga dele com a gente,ele estava com uma mulherzinha qualquer.
Quando minhas lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto,meu pai começou a falar dando desculpas esfarrapadas.E eu não consegui mais suportar,desliguei e fiquei sem saber o que fazer.
Não sabia se contava a minha mãe,ou se ela já sabia e por isso brigaram ontem.Não sabia de mais nada,só o que vinha em minha cabeça,é que meu pai é um traidor.Ele não se importava com a família.
Eu não conseguia conter minhas lágrimas,e ouvi minha mãe caminhando pelo corredor.Ela tinha saído do quarto.E não podia me encontrar nesse estado,eu não saberia o que dizer, e não queria que eu fosse a pessoa a contar para ela.
Tentei controlar minhas lágrimas e segurar o choro.Deu tempo suficiente,para eu poder sair de casa sem que minha mãe visse a situação em que eu estava.
Sai andando sem destino pelas ruas,precisava espairecer.Precisava ficar mais calma,desde ontem,a minha tranquilidade tinha sido abalada.
Eu dei voltas e voltas passando por várias ruas.Até parar em uma esquina isolada,sem ter muitas construções por perto.O lugar não era muito movimentado e já estava ficando frio.
Só percebi que estava com frio,quando parei de andar e meu corpo tremia.Além disso,estava perdida.Pelo menos,as lágrimas tinham parado de descer pelo meu rosto,alguns fios dourados do meu cabelo loiro grudaram em minhas bochechas,devido às lágrimas que secaram.
— Precisa de ajuda?-escuto uma voz masculina e um barulho de motor atrás de mim.
De início,não olho com medo de ser algum abusadinho querendo tirar proveito.E penso em continuar andando,mas não sei para onde ir.Lembro que devo estar com a aparência terrível,então talvez não fosse me achar tão adorável.
Virei-me devagar,e me aliviei em ver que a voz masculina pertencia ao aluno novo.
— E ai precisa de ajuda ou não?-ele não esboçou nenhuma expressão ao me ver de vestido e blazer,tremendo de frio com o rosto avermelhado e levemente inchado.
— O que está fazendo aqui?
— Eu não sei,estava só andando por ai quando te vi.E já que não vai querer ajuda,até amanhã.-ele pôs a moto para funcionar.
— Espera,eu acho que estou perdida.Precisa me ajudar a voltar para casa,por favor.-Eu estava sentindo minha voz ficar embargada de novo,e as lágrimas querendo voltar.
— Sobe aqui,vem comigo.
Eu não queria subir naquela moto,eu não gostava de moto,me dava calafrios.Mas,era a melhor opção que eu tinha,e já tinha pedido ajuda mesmo.
— Estou sem capacete.
— Cidade pequena,mais liberdade.Além disso,me surpreendo por se perder na sua própria cidade.
— Não fico andando por ai a toa,e muito menos sozinha.-digo quando estou tentando subir na garupa da moto.
— Se apoia em meu ombro,e impulsiona com a sua perna,e daí vai conseguir subir.
Fiz o que ele falou,e consegui subir.Ele acelerou a moto,mas não saímos do lugar,e eu fechei meus olhos e o agarrei pela cintura.E lá vamos nós,ele ia devagar por ruas que eu ainda não conhecia.E ele não me deixou explicar onde eu morava,começei a me arrepender de ter confiado nele.
Até que depois de alguns minutos,ele para em frente a um estabelecimento onde tinha algumas motos estacionadas.Desço e espero que ele me explique o que estamos fazendo aqui.
Ele caminha em direção da porta e o sigo.
— O que viemos fazer aqui?-pergunto.
— Preciso comer,depois te deixo na sua casa.
Sigo ele.Estávamos em um bar que também parecia ser uma lanchonete,tinha mesa de bilhar,também tinha espaço para jogarem baralho e dominó.
A maioria das pessoas eram adultas e nós não passávamos de jovens,e todos eles tinha a aparência de que me dava medo,eram vagabundos,outros pareciam com gângster,é um ambiente totalmente desconhecido para mim.E eu não estava me sentindo a vontade,com os olhares deles em mim.
O aluno novo pega na minha mão,e eu foco em nós,não quero ficar encarando as pessoas.Ele me guia até uma mesa mais afastada e que não chamasse a atenção de ninguém.
Logo de imediato,a garçonete vem até nossa mesa e ele faz seu pedido,eu não sinto fome,e duvido que eu possa fazer algo descer pela minha garganta,pois ainda estava abalada.Mas,ele insiste e acabo pedindo um suco de laranja e um X-Burger.
Ele estava sendo legal,e o que eu gostava era que ele parecia não se importar com o estado precário que eu me encontrava,e dava para perceber que não me ajudava por sentir pena,simplesmente ajudava.
Eu estava ali sozinha,e ele me encontrou.Não se importou que eu estivesse desmoronando e perdida,e eu acho que gostei disso,me sinto grata.
— Obrigada.-agradeço.
Ele não me responde,apenas balança a cabeça.
— Quero ir ao banheiro.
— Basta seguir o corredor que está atrás de você.No fim dele,é o banheiro.-ele diz indiferente.
Não penso duas vezes e caminho o mais rápido que posso até o banheiro.Abro a porta, e me deparo com um cubículo de paredes mofadas,uma pia e um vaso sanitário.
Vou até a pia,abro a torneira e molho o meu rosto.Tinha um pequeno espelho grudado na parede,de frente para mim.E eu pude ver o quanto assustadora eu estava.Pálida,com os cílios dos olhos endurecidos por causa do rímel transparente que eu tinha usado,o rosto estava meio rosado,e os olhos estavam quase voltando ao normal.
Estava diferente,parecia que estava doente. Meu cabelo parecia um ninho de passarinho.O melhor jeito que consegui deixá-lo,foi preso em um coque.Respirei fundo,e voltei para a mesa.
Nossos pedidos não demoraram para vir,até lá o silêncio reinou entre nós.E depois de comermos,continuamos em silêncio.
— Podemos ir agora?-perguntei.Era estranho ficar aqui,e mais estranho ainda por estar com uma pessoa que eu nem ao menos sei o nome.
— Você é quem manda.-ele chamou a garçonete e pediu a conta,pagou tudo e veio até mim,sem falar nada pegou minha mão de novo e fomos para fora.Acho que as mãos dadas é para simbolizar que estávamos juntos,tipo como um casal,para que ninguém incomodasse.
Subi em sua moto e enlaçei sua cintura com minhas mãos,antes de sairmos expliquei para ele onde deveria me deixar.
— Espera,veste meu casaco.-ele pede me dando seu casaco.
Não nego,pois estava precisando. O calor de seu corpo não era o suficiente para me aquecer.Mesmo me sentindo culpada por deixá-lo só de camiseta preta.Pelo menos ele estava de calça,podia proteger suas pernas.
E eu me sentia um pouco melhor,não achei que ia conseguir comer,mas estava com fome.Não tinha percebido isso até ter começado a comer,e também não tinha percebido que já era três horas da tarde.Ainda estava na bad,mas me sentia mais fortalecida.
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