Pais por acaso
84 Renesmee - Tempo
O shopping estava mais cheio do que o normal para uma tarde de quarta-feira. O som dos passos apressados, das conversas misturadas e do leve tilintar das colheres nos copos de milk-shake compunham o pano de fundo do nosso passeio. Paramos para fazer uma pausa na cafeteria do segundo andar, perto da janela envidraçada que deixava o sol entrar suave.
Serena estava no meu colo, de olhinhos atentos e bochechas redondas, enquanto Rachel e Rebecca disputavam a atenção da bebê.
— Ela está enorme! Parece que nasceu ontem — disse Rebecca, fazendo cócegas nos pezinhos dela.
— Está mesmo — completou Rachel, pegando o celular para tirar uma foto. — E esse olhar? É o olhar do pai, não tem nem discussão.
— Já a teimosia... — Bella disse com um sorriso, entregando um potinho de frutas amassadas — …claramente é da mãe.
Todas riram, inclusive eu.
— Jake tá cada vez mais atento — comentei, enquanto dava uma colherzinha de banana pra Serena. — Esses dias ele me perguntou se ela já conseguia perceber quem estava no ambiente só pela voz. Respondi que sim, e ele ficou meia hora fazendo testes.
— Aposto que ele tá surtando com qualquer espirro — Rebecca disse, cruzando os braços com ar divertido.
— E com os brinquedos espalhados. Ele tenta fingir que não se importa, mas quando pisa num cubo colorido... — Rachel riu alto.
Fingi indignação.
— Ele é ótimo! Está só um pouco... cauteloso demais.
Na mesma hora, meu celular vibrou com o nome dele na tela.
— Eita. Falando no rei do drama...
As três riram antes mesmo de eu atender.
— Oi, amor. Achei que você estava numa reunião importante.
— Estava — ele respondeu, com aquele tom calmo e familiar. — Mas só queria saber se vocês estão bem. Tá tudo certo aí?
Sorri, ajeitando Serena no colo.
— Está tudo ótimo. A gente veio comprar umas coisinhas pra casa e aproveitou pra tomar um café. A Serena tá fazendo sucesso com as tias.
— Aposto que sim — ele disse, e eu podia imaginá-lo sorrindo do outro lado. — E você? Tá se cuidando?
— Claro. Aliás, quem devia estar focado é você, Sr. Responsável.
— Eu sou focado. Só... preocupado. Senti falta de ouvir sua voz.
Meu coração deu uma leve tropeçada. Aquele homem ainda tinha o dom de me derreter com palavras simples.
— Nós estamos bem, prometo. Agora vai, volta pra sua reunião antes que percebam que o chefe fugiu pra checar a família.
— Tá certo... só queria dizer que amo vocês.
— A gente também te ama, Jake. Depois te mando foto da nossa princesinha aqui.
— Vou cobrar. Beijo, meu amor.
Desliguei com um sorriso no rosto. Quando olhei para as três mulheres à minha frente, estavam todas com aquele olhar bobo de quem ouviu tudo.
— Nós ouvimos — Bella disse.
— E aprovamos — completou Rachel.
— Renesmee, isso é amor de verdade — Rebecca falou, balançando a cabeça. — Ele tá completamente entregue.
—E eu também — murmurei, olhando pra Serena que agora brincava com um guardanapo como se fosse um tesouro.
E ali, entre risadas, colheres de banana e olhares cúmplices, eu só conseguia pensar em como Jacob merecia mais momentos assim — leves, felizes, despreocupados. O aniversário surpresa seria o início.
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Entrei em casa após um dia inteiro no hospital, eu já havia retornado à residência e o som familiar de tiros digitais e efeitos sonoros me fez sorrir. Joseph estava jogado no sofá, com o controle nas mãos, os olhos fixos na televisão onde algum jogo de corrida e destruição se desenrolava com gráficos realistas.
— Oi, campeão — disse, tirando os sapatos perto da porta.
— Oi, Nessie — respondeu sem tirar os olhos da tela. — O pai ligou. Disse que já tava a caminho... mas tava preocupado. Você não atendeu ele.
Franzi o cenho, tateando a bolsa até encontrar o celular. Estava completamente apagado.
— Sem bateria. Droga... — suspirei. — E eu que ainda reclamei dele me ligar tanto hoje.
Joseph soltou uma risadinha abafada, sem tirar os olhos do jogo.
— Bem a cara dele.
Ana apareceu na entrada da cozinha, enxugando as mãos no avental.
— Já deixei o jantar pronto, querida. Está só esperando você.
— Ana, você é um anjo. Obrigada. Tô exausta.
Nesse instante, Molly surgiu sorrindo com Serena no colo. A bebê a agarrava pelo pescoço como se fosse uma velha amiga que não via há dias.
— Olha quem tava com saudade da mamãe, hein? — Disse Molly, balançando Serena de leve.
— E eu dela — murmurei, me aproximando e dando um beijo na testa da minha filha e sentindo seu cheirinho, embora eu tivesse ligado 25 vezes durante o dia até descarregar o celular a saudade da minha bebê sempre era igual — Obrigada por ter ficado mais tempo, Molly. De verdade.
— Ah, por favor, Nessie — disse ela, apertando Serena com carinho. — Eu amo cuidar dessa pequena. Já faz parte de mim.
Toquei de leve no bracinho da babá em um gesto de gratidão.
— Fico mais tranquila sabendo que é você quem está aqui.
Dei mais um beijo em Serena e acariciei suas bochechas antes de me afastar. Eu precisava de um banho — de preferência demorado, quente e silencioso. Subi as escadas e fui direto pro quarto. Tirei a roupa devagar, sentindo o cansaço pesar nos ombros. Quando a água quente caiu sobre mim, fechei os olhos e respirei fundo. A tensão começou a se dissolver aos poucos, escorrendo com a água.
Perdi a noção do tempo ali, apenas sentindo o vapor preencher o box e o cheiro do sabonete envolver o ar. Foi então que senti um par de braços fortes me envolverem por trás. Meu corpo se recostou contra o dele num gesto automático, familiar e seguro.
— Acabei de chegar — murmurou Jacob, com aquele tom de voz baixo que me fazia derreter. — Mas antes de qualquer coisa, precisei usar o banheiro.
Virei de frente para ele, rindo baixinho ao encontrar aquele sorriso que sempre me desarmava. O vapor embaçava tudo ao redor, menos a forma como ele me olhava.
— Bem-vindo de volta — sussurrei, puxando-o levemente pela nuca.
Nossos lábios se encontraram em um beijo lento, quente como a água ao nosso redor — e, por um instante, tudo do lado de fora desapareceu. Só nós dois. Só aquele momento.
Jacob parou o beijo mordendo meu queixo e seus lábios deslizaram por meu pescoço, o arrepio em minha pele foi instantâneo — Ficar longe de você é um martírio bonequinha — Ele sussurrou.
— Eu estou aqui agora...murmurei.
Ele deu um sorriso sacana e me virou de costas, meu corpo se curvou e minhas mãos pousaram no boxe, as mãos de Jacob deslizaram por minhas costas e segundos depois afastei minhas pernas ao senti-lo me invadir — Empina pra mim meu amor — ele sussurrou mordendo o lóbulo da minha orelha, suspirei curvando minhas costas, senti as mãos dele em minha cintura enquanto ele se enterrava dentro de mim, entrando e saindo forte como se o mundo lá fora não existisse.
Depois do banho, vesti uma camisa larga de algodão e um short confortável. Jacob colocou uma camiseta preta e jeans escuros, o cabelo ainda úmido caindo levemente sobre a testa. Ele me olhou de lado com aquele sorriso preguiçoso, e eu entrelacei meus dedos nos dele.
— Vamos descer antes que o Joseph ache que a gente se esqueceu dele — murmurei.
— Ele ia bater na porta se passasse de dez minutos — Jake respondeu, rindo baixinho.
Descemos as escadas de mãos dadas, em silêncio, com aquele tipo de paz que só vinha depois de um momento íntimo e verdadeiro.
Molly apareceu no fim do corredor com sua bolsa no ombro e um sorriso gentil no rosto.
— A Serena apagou — avisou. — Dei uma última olhadinha e ela tá dormindo profundamente. Nem se mexeu.
— Obrigada, Molly. De verdade, depois vou matar a saudade da minha gordinha. Boa noite, e até amanhã.
— Boa noite pra vocês. — Ela olhou para Jake com um aceno. — Boa noite, chefe.
— Até amanhã, Molly. Dirija com cuidado — ele disse.
Ela saiu, e fomos direto para a sala de jantar, onde Joseph já estava servindo um copo de suco e enchendo o prato como se não tivesse comido o dia todo.
— Tava demorando, hein? Achei que tinha virado estatística do banheiro — ele brincou, apontando o garfo na nossa direção.
— Que língua afiada — falei, puxando uma cadeira ao lado dele. — Vai ver eu e seu pai estávamos só cochichando segredos...
— Ai, tá. Melhor parar por aí, Nessie — disse ele, tapando os ouvidos teatralmente.
Jacob riu e sentou do outro lado.
— E aí, campeão, como foi o dia?
Os olhos de Joseph brilharam imediatamente.
— Foi massa! Hoje saiu a lista do time de basquete da escola... e eu entrei! Consegui a vaga como armador reserva. Mas o técnico falou que, se eu continuar treinando do jeito que tô, tem chance de eu ser titular em pouco tempo.
Eu quase deixei o garfo cair.
— O quê?! Joseph! Isso é incrível!
— Parabéns, garoto! — Disse Jacob, batendo de leve na mesa. — Sabia que todo aquele tempo praticando depois da aula ia valer a pena.
Joseph sorriu largo, claramente orgulhoso.
— Valeu... eu nem acreditei quando vi meu nome lá. Tinha um monte de gente tentando.
— Você merece — falei, puxando a cadeira mais perto e bagunçando seu cabelo, mesmo ele tentando desviar. — E já tô vendo que vamos ter que comprar tênis novos logo, hein?
— E preparar a torcida — completou Jake, piscando para ele. — Porque a gente vai estar em todos os jogos.
Joseph tentou disfarçar, mas seus olhos brilhavam de felicidade. Ele fingiu mexer no prato, mas eu vi o sorriso de canto, aquele tipo que a gente tenta esconder quando não quer admitir que ficou emocionado.
Aquele jantar, apesar de simples, estava cheio do que mais importava: amor, cuidado e pequenas vitórias do dia a dia. E eu sentia no peito — mais do que nunca — que essa era a vida que eu tinha escolhido, e que faria de tudo para proteger.
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