Pais por acaso

46 Renesmee- Conexão



O trânsito em Seattle estava mais caótico do que o normal, mas, para ser honesta, eu estava tão absorta em meus pensamentos que mal percebia o movimento ao meu redor. Estacionei em frente ao The Pink Door, um restaurante charmoso e acolhedor que Jacob adorava, e me forcei a respirar fundo antes de entrar.

Jacob já estava sentado em uma mesa próxima à janela, seu sorriso caloroso me recebendo assim que entrei. Ele se levantou e me deu um beijo suave na testa quando me aproximei.

– Você está bem? – perguntou, seus olhos percorrendo meu rosto com preocupação. – Você está pálida.

– Estou bem, Jake – garanti, sorrindo, embora o sorriso não tivesse a força que eu desejava. – Só tive uma manhã complicada.

– Complicada como? – ele insistiu, puxando a cadeira para que eu me sentasse.

– Nada que valha a pena contar – desconversei, pegando o cardápio para evitar mais perguntas. – Vamos pedir? Estou faminta.

Jacob arqueou uma sobrancelha, claramente não convencido, mas decidiu não insistir. Ele chamou o garçom, e fizemos nossos pedidos – ele escolheu sua tradicional lasanha à bolonhesa, e eu optei por uma salada caprese com frango grelhado.

O ambiente era aconchegante, as paredes de tijolos expostos e as luzes suaves criando uma atmosfera tranquila. Ainda assim, minha mente estava longe, presa à revelação que acabara de receber na casa dos Reed.

Jacob me observava atentamente.

– Você está muito calada hoje – comentou enquanto cortava sua lasanha. – Isso não é normal.

Olhei para ele, seus olhos cheios de preocupação e afeição. Por um instante, pensei em contar tudo, mas algo dentro de mim hesitou. Ao invés disso, segurei sua mão que estava sobre a mesa e respirei fundo antes de perguntar:

– O que você faria se descobrisse que tem um filho por aí que foi adotado?

Jacob franziu o cenho, surpreso pela pergunta, mas logo abriu um sorriso descontraído.

– Primeiro, isso jamais aconteceria – respondeu, rindo. – Você acha que alguma mulher me convenceria a dar meu filho para adoção? Nem pensar.

Ele balançou a cabeça, ainda sorrindo.

– Se eu tivesse um filho, eu saberia. Não existe a menor possibilidade de algo assim passar despercebido.

Jacob então inclinou a cabeça para o lado, curioso.

– Mas por que você perguntou isso?

Fiz um esforço para não demonstrar qualquer reação.

– Ah, só uma situação que ouvi no hospital... nada demais – menti, dando de ombros. – Fiquei pensando como isso seria.

Jacob assentiu, mas continuou me observando atentamente.

– Você está estranha hoje, Ness. Mas, se diz que está bem, vou acreditar.

Sorri, forçando uma leve risada, mas por dentro me sentia dividida. Uma parte de mim estava aliviada por ele não saber sobre Joseph como eu imaginei, mas outra parte sentia uma culpa crescente por estar escondendo algo tão importante.

O almoço continuou, mas minha mente estava a quilômetros de distância, tentando encontrar um caminho no meio da confusão que agora era minha vida.

Jacob estava recostado na cadeira, mastigando lentamente, quando ergueu o olhar para mim com um sorriso.

– Amanhã é o ultrassom – ele comentou, animado. – Mal posso esperar para ver nosso pequeno de novo. Vamos saber se é menino ou menina.

Assenti, tentando sorrir com a mesma empolgação, mas estava perdida nos meus próprios pensamentos. Minha resposta foi um murmúrio curto, e Jacob imediatamente percebeu minha falta de entusiasmo.

– Nessie, o que está acontecendo? – perguntou, seu tom mais sério agora.

Meu coração deu um salto, mas consegui manter a calma, disfarçando com um suspiro.

– Nada, Jake. Só estou me sentindo cansada... a gravidez tem me deixado exausta ultimamente.

Ele estreitou os olhos, claramente desconfiado, mas antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, ele pegou o celular da mesa e começou a discar um número.

– Jake, o que você está fazendo? – perguntei, alarmada.

– Ligando para minha secretária – respondeu, sem desviar os olhos da tela.

– Jake, não precisa...

Ele ignorou minha tentativa de impedi-lo e falou com sua secretária assim que ela atendeu:

– Karen, cancele meus compromissos de hoje à tarde. Não vou voltar para o hospital.

Fiquei boquiaberta, protestando imediatamente:

– Jacob, isso é um exagero! Eu estou bem, só um pouco cansada.

Ele balançou a cabeça e, antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, discou outro número.

– Carter, é o Jacob – disse ele, agora falando com o Dr. Carter. – Renesmee não está se sentindo bem e não vai voltar ao hospital hoje.

– Jacob! – exclamei, irritada. – Você não pode tomar decisões por mim assim!

Ele desligou o telefone e me olhou com um sorriso divertido, ignorando completamente minha irritação.

– Claro que posso. Sou seu marido, e meu trabalho é cuidar de você, especialmente agora.

– Isso não significa que você pode decidir por mim! – retruquei, cruzando os braços.

Ele inclinou-se na mesa, pegando minha mão com delicadeza.

– Isso significa que eu te amo e vou fazer o que for necessário para garantir que você e nosso bebê estejam bem.

Eu tentei manter a expressão séria, mas era impossível não amolecer com aquele tom carinhoso. Jacob se levantou, caminhou até meu lado da mesa e estendeu a mão para mim.

– Vamos, minha princesa. Hora de ir para casa. Você precisa descansar.

Suspirei, vencida, mas não consegui conter um pequeno sorriso quando ele me puxou pela mão e beijou minha testa com ternura.

– Você é impossível, sabia? – murmurei, rindo baixinho enquanto ele me guiava para fora do restaurante.

Ele apenas sorriu, e naquele momento, apesar de todo o turbilhão dentro de mim, senti que ao menos tinha alguém ao meu lado disposto a cuidar de mim de todas as maneiras possíveis.

...

O quarto estava em silêncio, exceto pelo som da respiração tranquila de Jacob. Eu estava deitada em seus braços, envolvida pelos lençóis macios. Seus dedos deslizavam pelo meu cabelo, num gesto calmante que sempre conseguia acalmar meus pensamentos, mesmo quando eles estavam um caos.

Não pude evitar. As palavras saíram antes que eu pudesse me conter.

– Jake... – comecei, hesitante. – Me fala sobre a Elizabeth.

O movimento dos seus dedos parou abruptamente, e senti seu corpo enrijecer por um instante. Ele se mexeu levemente, ajeitando-se na cama, antes de responder.

– Por que você está perguntando isso agora? – Ele me olhou de soslaio, com uma mistura de surpresa e desconforto.

– Não sei – murmurei, tentando parecer casual. – Acho que nunca falamos sobre isso, e eu... só queria saber.

Jacob soltou um suspiro baixo, claramente desconcertado.

– Foi uma noite – ele disse finalmente, com a voz baixa. – Nada mais que isso. Não teve significado, Nessie. Nunca teve.

Meus lábios tremularam em um pedido de desculpas.

– Desculpa por perguntar isso...

Ele se inclinou, me puxando para mais perto e segurando meu rosto com delicadeza. Seus olhos âmbar encontraram os meus, sérios, mas cheios de ternura.

– Você não precisa se desculpar – disse ele, acariciando meu rosto com o polegar. – Eu só acho que a gravidez está mexendo com você, te deixando sensível e talvez... um pouco insegura.

Tentei desviar o olhar, mas ele segurou meu rosto com firmeza, forçando-me a encará-lo.

– Não importa o que tenha acontecido antes – continuou ele, a intensidade em sua voz me aquecendo por dentro. – O que importa é que eu estou aqui, com você. Que eu te amo.

Um calor tomou conta do meu peito, e qualquer dúvida que eu pudesse ter se dissolveu naquele instante. Jacob se inclinou lentamente, seus lábios tocando os meus num beijo profundo e apaixonado.

Aquela conexão, aquele amor, era tudo que eu precisava. Por enquanto, as perguntas sobre Elizabeth e o que eu sabia sobre Joseph podiam esperar. Naquele momento, só existíamos nós dois.