Pais por acaso

13 Renesmee- Autocontrole


Observava Jacob atentamente enquanto ele procurava as palavras certas. Ele parecia mais vulnerável, diferente do homem seguro que eu conhecia. Havia um peso em seu olhar que me fez querer entender o que realmente se passava dentro dele.

— Eu e Leah estávamos tentando encontrar uma forma de contar ao Seth — começou, a voz baixa e quase hesitante, como se reviver aquelas memórias fosse doloroso. — Mas ele acabou ouvindo a conversa antes que pudéssemos falar com ele da maneira certa.

Balancei a cabeça, incentivando-o a continuar. Eu sabia que esse momento era difícil para ele, e talvez, de algum jeito, ele precisasse colocar isso para fora.

— Quando me casei com Leah, já sabia que Seth não era meu filho biológico. — Ele fez uma pausa, como se tentasse escolher cada palavra. — Mas... queria fazer dar certo. Achei que isso não importava. Decidi assumir o papel de pai, ser alguém para ele, porque era o que eu acreditava que devia fazer.

Senti uma pontada de compaixão por ele. Jacob realmente acreditava no que fazia, mas, às vezes, as circunstâncias testavam até mesmo o coração mais determinado.

Ele abaixou o olhar para as mãos, o rosto tenso.

— Só que… quando descobri que o pai dele era meu melhor amigo, alguém que eu considerava um irmão... — Ele suspirou, balançando a cabeça. — Não consegui lidar com isso. Era como se tudo o que eu tinha feito por Seth fosse uma mentira. E, no fim, me afastei. Meus sentimentos ficaram confusos, e... mesmo sabendo que ele era inocente, eu me distanciei.

Houve um silêncio entre nós. Sentia meu coração apertado, como se compartilhasse um pouco da dor dele. Nunca imaginei que o passado de Jacob guardasse tanta amargura e arrependimento. Inspirei profundamente antes de falar, querendo que ele soubesse que eu entendia.

— Você fez o que pôde, Jake — disse, tentando transmitir minha compreensão. — Nem sempre conseguimos acertar, principalmente quando o passado é tão complicado. Mas... você se importava. Isso, de alguma forma, ainda vale algo.

Ele me olhou com uma gratidão silenciosa, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios.

— Talvez você esteja certa. — Ele suspirou, parecendo aliviado por compartilhar tudo aquilo. — E quanto a você? Sei que presenciar tudo isso não foi fácil.

Dei de ombros, sorrindo.

— Já vi situações mais complicadas, Black. — Ri, tentando aliviar um pouco o peso do momento. — Sei que o Seth está sofrendo agora, mas ele vai precisar de tempo. E, se precisar de mim, estarei por perto.

O sorriso dele se alargou, e senti um calor no peito ao ver sua expressão mais leve.

— Obrigado, Nessie. Isso significa muito para mim.

Assenti, e por um instante ficamos em silêncio, apenas aproveitando a companhia um do outro. Havia algo reconfortante e genuíno entre nós, como se estivéssemos conectados de uma forma que não exigia palavras ou explicações.

Jacob e eu saímos da lanchonete e seguimos para nossas funções. A rotina hospitalar não esperava, e logo Jacob se despediu para atender aos pacientes. Alguns minutos depois, o vi conversando com os pais de Alex Turner, que se aproximaram dele com expressões de expectativa.

— Doutor Black, poderia nos atualizar sobre o estado do nosso filho? — perguntou a senhora Turner, lançando um olhar breve, mas carregado de desconfiança, na minha direção.

Jacob suspirou levemente antes de responder, mas manteve o tom profissional.

— A doutora Cullen já passou todas as informações necessárias sobre o quadro de Alex — ele respondeu, com firmeza, mas de maneira respeitosa.

A senhora Turner ajeitou a postura, parecendo descontente.

— Sim, mas… gostaríamos que o senhor mesmo nos atualizasse — insistiu, com uma leve aspereza na voz.

Jacob olhou para mim por um segundo, e um pequeno sorriso de apoio surgiu em seus lábios.

— A doutora Cullen é a médica responsável pelo seu filho — reforçou, com o tom gentil, mas seguro.

A senhora Turner abriu e fechou a boca, claramente surpresa e sem resposta. Parecia que, finalmente, aceitava a minha presença ali, mesmo que a contragosto.

— Claro… claro, entendemos — murmurou, visivelmente desconcertada e se retirou nos deixando sós.

Para quebrar o clima, Jacob virou-se para mim, com uma expressão de leve humor no olhar.

— A propósito, doutora Cullen, gostei do que vi na gaveta do criado mudo— disse ele, abaixando o tom de voz como se compartilhasse um segredo.

Demorei um segundo para entender, até me lembrar do que tinha dito na noite anterior. Sorri, sentindo as bochechas corarem um pouco.

— Ah, meu número escrito na sua cueca Box — perguntei, com uma risada baixa. — Achei que você precisava de um toque inusitado na sua gaveta.

Jacob riu, e nossos olhares se encontraram por um instante.

— De fato, inusitado. Mas gostei — ele respondeu.

Antes que pudesse responder, Elizabeth apareceu ao nosso lado, com o semblante sério e os olhos fixos em Jacob.

— Doutor Black, estão chamando o senhor para uma emergência — anunciou ela.

Jacob assentiu, com um breve aceno para mim.

— Até mais, doutora Cullen. Tenha um bom turno — despediu-se, antes de sair apressado, deixando-me a sós com minha tia.

Assim que ele se afastou, Elizabeth virou-se para mim, os olhos estreitados.

— Você sabe que está brincando com fogo, não sabe? — disparou, a voz baixa e acusadora.

Respirei fundo, tentando conter a irritação crescente.

— E eu sei que isso não é da sua conta, tia Elizabeth — respondi, mantendo a postura firme.

Ela franziu a testa, claramente surpresa com a minha resposta direta, mas antes que pudesse retrucar, virei-me e saí pelo corredor.

O restante do meu dia foi como qualquer outro, mas a conversa com Elizabeth ainda ecoava na minha mente. Mergulhei nas atividades do hospital, tentando manter o foco. Tinha alguns pacientes para acompanhar e organizar antes da reunião com Jacob e os residentes, mas estava preparada.

Quando a hora chegou, entrei na sala de reuniões, onde já estavam Mike, Jane e Jéssica. Olhei ao redor, e percebi que Seth não aparecera. Jacob chegou logo depois, trazendo consigo uma energia focada e segura que sempre fazia com que todos se alinhassem automaticamente.

Ele começou a reunião, como de costume.

— Vamos começar — disse ele, com um olhar breve a cada um de nós. — Como foi o dia? Alguém quer começar?

Jane, sempre proativa, foi a primeira a falar.

— Eu cuidei dos pacientes da ala norte e realizei três trocas de curativos. Além disso, acompanhei uma paciente que foi transferida para o centro cirúrgico. Sem maiores complicações.

Jacob assentiu, parecendo satisfeito.

— Bom trabalho, Jane. É importante que continuemos monitorando esses casos com atenção.

Em seguida, Mike tomou a palavra, com seu habitual entusiasmo.

— Eu fiz uma análise nos exames dos novos pacientes e encaminhei as informações para os prontuários. Também acompanhei o senhor Turner na UTI e conversei com a família, repassando a evolução dele.

Jacob olhou para mim e sorriu ligeiramente antes de responder.

— Ótimo, Mike. Temos que manter esse nível de detalhamento nos registros.

Jessica parecia um pouco nervosa, mas logo começou.

— Hoje acompanhei o pós-operatório da senhora Rivera e atualizei o quadro dela. Além disso, trabalhei no setor de emergências, já que estávamos com uma alta demanda.

— Excelente, Jessica. Emergências podem ser intensas, mas você lidou bem com o fluxo — Jacob comentou, mantendo o tom encorajador.

Percebi então que era minha vez e comecei a relatar meu dia, mantendo o tom profissional, apesar do leve nervosismo que a presença de Jacob me causava.

— Atendi o Alex Turner e acompanhei seu pós-operatório com a equipe. Conversei com os pais e atualizei todos os prontuários da ala. Também colaborei com a doutora Alice em uma cesariana, que correu bem.

Jacob assentiu, e seu olhar encontrou o meu por um instante mais longo do que o habitual.

— Muito bem, doutora Cullen — ele disse, com uma satisfação visível no tom de voz. — Vocês fizeram um bom trabalho hoje. Continuem com esse nível de atenção e dedicação.

Com a reunião encerrada, todos se levantaram para se despedir. Jane, Mike, e Jessica deram um aceno rápido e saíram, deixando Jacob e eu sozinhos.

Por um momento, reinou um silêncio tranquilo, mas logo me recompus e mantive o tom formal.

— Doutor Black, preciso revisar alguns detalhes sobre o caso do senhor Turner. Se puder me enviar as anotações de hoje...

Ele sorriu de leve, com um brilho quase imperceptível nos olhos.

— Claro, doutora Cullen. Enviarei para você antes do final do turno.

Apesar da seriedade de nossa conversa, senti algo a mais entre nós, uma conexão que ia além das formalidades do hospital. Mas, como sempre, nos mantivemos no limite entre o profissional e o pessoal.

— Obrigada. Boa noite, doutor Black.

— Boa noite, doutora Cullen.

Desviei o olhar, sentindo o coração um pouco acelerado, e deixei a sala. Havia algo de magnético em Jacob, algo que me fazia querer descobrir mais sobre ele, mas sabia que precisaria de paciência e autocontrole.