Pais por acaso
66 Jacob- Síndrome HELLP
O cheiro do hospital nunca me causou um desconforto, mas naquela noite... naquela maldita noite, ele me sufocava. O som do relógio na parede, os passos apressados dos enfermeiros e médicos, e o silêncio da sala de espera estavam me enlouquecendo. Eu andava de um lado para o outro, tentando manter a sanidade, enquanto Edward permanecia sentado, mãos unidas e olhar fixo no chão. Bella, ao lado dele, segurava as mãos de Joseph, que parecia mais pálido que nunca.
O garoto não dizia nada. Só encarava o chão. E, por mais que a raiva quisesse crescer em mim de novo, a preocupação com a Nessie era mais forte. Tão mais forte...
Alice entrou apressada, acompanhada por Rosalie e Esme.
— Jake — disse Alice, vindo em minha direção. — Eu vim assim que soube.
— Preciso que você entre — pedi, sem rodeios. — Vê se consegue alguma coisa, você é a médica dela. Qualquer coisa, Alice... eu tô ficando louco aqui.
Ela assentiu, tocando meu braço com ternura.
— Eu vou tentar. Mas você precisa se acalmar. Por ela... e pela bebê, ok?
Antes que ela pudesse se afastar, a porta do corredor cirúrgico se abriu com força. Me virei no mesmo instante, e meu corpo inteiro se enrijeceu.
Era Olivia.
Ela ainda usava o traje cirúrgico azul, os cabelos presos em um coque malfeito. O rosto cansado, mas ainda assim... determinada. Eu me levantei num pulo, quase tropeçando em mim mesmo.
— Olivia? — perguntei, a voz engasgada. — Me diz... por favor, me diz que ela está bem.
Ela respirou fundo, os olhos varrendo a sala até pousarem em mim.
— Fizemos uma cesariana de emergência — começou, e todos ficaram em silêncio absoluto. — A bebê nasceu bem, está na incubadora apenas por precaução. É uma menininha forte...
Um suspiro coletivo se espalhou. Bella fechou os olhos agradecendo em silêncio. Edward pousou a mão no ombro de Joseph.
Mas eu sabia. O tom da Olivia dizia que ainda não era o fim.
— E a Nessie? — Insisti, sentindo o medo reascender.
Olivia hesitou. Por um segundo, ela voltou a ser apenas a mulher que me conhecia melhor do que gostaria. E então, voltou a ser médica.
— A Renesmee desenvolveu Síndrome HELLP. É uma complicação grave da pré-eclâmpsia, comum em mulheres jovens. Os exames mostraram alterações hepáticas e destruição de plaquetas. Ela perdeu muito sangue, Jacob.
Senti como se o chão sob meus pés tivesse sumido. O ar sumiu dos meus pulmões.
— O quê...? — Minha voz saiu baixa, incrédula.
— Nós a levamos para a UTI. Ela está sedada e entubada por precaução. A situação é estável, mas ainda é delicada. Precisamos observar as próximas 48 horas com atenção.
— Eu... — tropecei para trás, Rosalie me segurou pelos ombros. — Eu posso vê-la?
— Assim que estabilizarmos completamente. Mas por agora, só posso pedir que confie em nós. Ela é forte, Jacob — Olivia disse, com um tom mais suave. — E ela quer voltar para você. Eu vi nos olhos dela, antes de apagarmos a luz da sala.
Olhei para Alice, que me encarava com os olhos marejados. Para Bella, que agora chorava baixinho. Para Edward, que mantinha o rosto firme, mas os punhos cerrados.
E olhei para Joseph.
Ele me olhava pela primeira vez em horas. E finalmente, eu vi ali... o arrependimento. O peso. A culpa.
— Você vai cuidar da sua irmã — falei com a voz trêmula. — Enquanto eu... luto pela vida da Nessie.
Eu me afastei devagar, indo até uma das poltronas da sala e me sentando. Meus olhos fixos na parede branca e fria.
Ela tinha que voltar pra mim. Ela tinha que sobreviver.
Por mim.
Por nossa filha.
Por tudo que a gente ainda tinha pra viver.
Ser diretor do hospital não servia de absolutamente nada quando a mulher da sua vida estava lutando entre a vida e a morte a poucos corredores de distância. Nenhuma insígnia no peito, nenhum crachá dourado, nenhuma autoridade sobre equipes cirúrgicas. Eu era só um homem desesperado, tentando não desabar diante da minha família.
A tensão pairava no ar, como uma tempestade prestes a desabar. Todos estavam quietos. Cada um imerso em seus próprios pensamentos... até que senti uma mão encostar no meu braço.
Era Joseph.
Aquele garoto de olhar firme, mas com o coração ainda frágil. Ele engoliu em seco antes de falar, e sua voz saiu embargada.
— Pai... — ele hesitou. — Me perdoa. Eu juro que eu nunca quis machucar a Nessie... nem a Serena. Eu só... só achei que dava tempo. Que ela ficaria bem sozinha por uns minutos.
Eu encarei meu filho. Meu primogênito. E, naquele momento, o vi com outros olhos. O vi como um menino tentando ser homem. Tentando acertar, mesmo quando erra feio.
Antes que eu pudesse dizer algo, meu olhar se desviou para a figura ao fundo do corredor.
Elizabeth.
Ela observava a cena com os braços cruzados e aquele mesmo semblante impenetrável de sempre. Mas havia algo mais ali... algo que me fez entender, de repente, tudo. A troca de olhares entre ela e Joseph foi rápida, mas clara.
Havia manipulação. Cálculo. E, talvez, uma verdade que Joseph ainda não ousava confessar.
— O que ela está fazendo aqui? — Bella se levantou num rompante, apontando diretamente para Elizabeth. — Isso aqui é um momento de família, ela não faz parte disso!
— Bella — Esme interveio com a voz doce e firme —, por favor... vamos tentar manter a calma. Não agora.
Elizabeth, com aquele sorriso frio no canto dos lábios, se virou para Joseph.
— Você não quer passar a noite no meu apartamento? Podemos conversar com mais calma... talvez comer alguma coisa...
Mas Joseph, já carregado de emoção e culpa, explodiu.
— Não! — Sua voz ecoou pelo corredor. — Eu vou ficar com o meu pai!
Elizabeth piscou lentamente, claramente contrariada com a recusa. E antes que mais palavras fossem ditas, ela simplesmente deu as costas e saiu em silêncio, com seus saltos ecoando nos azulejos brilhantes.
Joseph respirava com dificuldade, o rosto vermelho, os punhos fechados. Eu me abaixei e o puxei para um abraço apertado, sentindo seu corpo finalmente desmoronar nos meus braços.
— Você não tem culpa, filho — sussurrei contra seus cabelos. — Nada disso é culpa sua. Eu sei que você a ama... sei que nunca deixaria algo assim acontecer de propósito.
Ele apenas assentiu com a cabeça, encolhido no meu abraço como se fosse um bebê. Segurei-o por mais alguns segundos, antes de me afastar com cuidado.
— Vem. Vou te levar comigo por um instante — disse, guiando-o até minha sala. — Espera por mim ali, tá? Preciso... preciso ver a sua irmã.
Ele assentiu em silêncio e entrou na sala. Caminhei pelo corredor até o andar do berçário, com o coração acelerado. Quando cheguei, parei diante da vidraça.
E lá estava ela.
Minha filha.
Minha Serena.
Tão pequena... tão indefesa... e, ainda assim, tão perfeita.
Com os olhos marejados, encostei a testa no vidro, sussurrando:
— Sua mãe está lutando por você, pequena. E eu vou lutar por ela. Por nós três.
Me permiti sorrir, mesmo com a dor no peito. Porque naquele instante, naquele frágil instante... eu sabia que Serena era a esperança viva de que Nessie voltaria.
Ela tinha que voltar.
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