Pais por acaso
74 Jacob - Paternidade
Ser pai... de novo — mas dessa vez desde o começo — é algo que me emociona de um jeito que eu não consigo explicar em palavras. Com o Seth e o Joseph, eu fui chegando no meio do caminho. Tentei fazer o melhor, tentei compensar o tempo perdido, mas sempre ficou aquela sensação de que eu não estive lá quando eles mais precisavam.
Com Serena é diferente.
Eu vi aquele rostinho pela primeira vez ainda coberto de lágrimas e vernix, senti o peso do mundo inteiro mudar de lugar dentro de mim quando ela chorou. E, desde então, eu prometi a mim mesmo que não perderia nenhum segundo. Nenhum.
Estar presente nesse comecinho da vida dela — nas mamadas, nas noites mal dormidas, nas trocas de fraldas, nos choros sem motivo aparente — tem sido cansativo. E ao mesmo tempo, o privilégio mais lindo que eu já vivi.
Renesmee... minha Nessie.
Ela tem sido tão forte. Mesmo com o corpo dolorido, a cabeça cheia e o coração em montanha-russa, ela cuida da nossa filha com uma delicadeza que me parte e costura por dentro ao mesmo tempo. O puerpério não é fácil. Não mesmo. E é por isso que eu me afastei da direção do hospital. Vou uma vez por semana, quando a Bella aparece para ajudar, e mesmo assim saio com o coração apertado. Sei que ela precisa de mim aqui. E eu preciso estar com ela.
Nessie está mais sensível. Mais carente. E eu entendo. Tento ser o chão dela, o abraço, o silêncio confortável. Às vezes ela chora sem motivo aparente. Às vezes me pergunta se ainda está bonita. Como se eu não a visse como a mulher mais linda do mundo, mesmo — ou talvez até mais — com as marcas que a maternidade deixou em seu corpo.
Ela acha que mudou. Eu vejo que sim — mas mudou pra melhor.
Mais mulher. Mais real. Mais minha.
Hoje, Bella apareceu para nos visitar. Serena estava mais calma, e aproveitei pra cuidar de mim também. Tomei um banho mais demorado, coisa rara nos últimos meses. Me livrei da barba, vesti uma camisa preta que ela adora em mim. Enquanto respondia algumas mensagens no celular, saí do quarto e vi as duas sentadas na varanda.
Minha mulher e minha filha. E agora... minha sogra também.
Sorri.
Me aproximei e passei o braço pela cintura da Nessie, a puxando pra perto e dando um beijo doce nela, no canto da boca.
— Preciso ir até o hospital, mas prometo que não demoro, — falei, olhando para Bella com aquele sorriso provocador — Volto antes da sogrinha ir embora.
Bella me deu um tapinha no braço.
— Jacob!
Nessie riu. E esse som... sempre foi o meu favorito.
— Já tenho a lista de compras da Serena. Você quer alguma coisa? — Perguntei.
Ela me olhou com aquele olhar de quem ainda duvida um pouco se merece cuidados. Mas respondeu com um sorrisinho tímido:
— Chocolate.
— Seu desejo é uma ordem, minha rainha.
Dei um beijo na testa dela, com toda a ternura que cabia em mim. Depois segui para a porta, já um pouco apressado. Antes de sair, olhei mais uma vez para trás.
Ali estavam meus amores. Me esperando. E nada — absolutamente nada — me faria querer estar em outro lugar.
Hoje... e em todos os dias.
Claro! Aqui está a continuação narrada por Jacob, misturando emoção, reflexões e um pouco de tensão no reencontro com Elizabeth:
O hospital estava mais silencioso do que o normal quando cheguei. Era começo de tarde, e a equipe já estava na correria habitual. Entrei pela entrada lateral, cumprimentando alguns rostos conhecidos pelo corredor, e segui direto para o setor administrativo.
Logo vi Seth.
Meu filho mais velho — e, com orgulho, meu colega de trabalho agora. As coisas entre nós haviam melhorado muito nos últimos meses. Houve um tempo em que mal conseguíamos conversar sem discutir. Mas o nascimento de Serena... e agora o pequeno Ephraim... nos aproximaram de um jeito que eu jamais esperava.
Ele tinha pedido transferência da residência para esse hospital. Disse que queria aprender comigo, e por mais que ele tenha dito em tom de brincadeira, sei que havia sinceridade nas entrelinhas. E aquilo... mexeu comigo.
Ver meu filho amadurecendo, formando família, tentando ser melhor. Me fez ver que, apesar de todos os tropeços, talvez eu não tenha errado tanto assim.
E é engraçado pensar que agora eu sou pai de uma bebê... e também estou prestes a ser avô. *Avô*. A palavra ainda soava surreal quando ecoava na minha cabeça.
Quase cinquenta anos nas costas.
Fios brancos começando a vencer a batalha contra o preto do meu cabelo. E mesmo assim... estou para me casar com uma mulher linda, com metade da minha idade. Era quase cômico se não fosse tão real. Mas, mesmo com tudo isso, havia um medo silencioso: o de não dar conta. De não estar à altura. De falhar de novo.
Mas eu tinha prometido a mim mesmo: com Serena e Renesmee, seria diferente.
Assinei alguns papéis na minha sala, dei instruções rápidas à secretária sobre a reorganização da ala pediátrica e, ao sair, o destino resolveu testar meu equilíbrio emocional.
Elizabeth.
A presença dela no corredor gelou minha espinha. Não pelo medo — mas pela exaustão. Só de olhar para ela, senti o peso de anos de mágoas.
— Jacob — ela disse, com aquela voz amarga que tentava disfarçar dor com veneno. — Você conseguiu... afastou o Josh de mim. Exatamente como planejou.
Eu respirei fundo, firme.
— Não fui eu quem afastou nosso filho, Elizabeth. Foram as suas atitudes. Sua instabilidade, sua obsessão contra Renesmee. O Josh viu isso. Ele só quis paz.
Ela estreitou os olhos.
— Paz? Ele agora te chama de pai e me ignora. Que irônico, não é? O homem que abandonou a mãe dele grávida virou o herói da história.
— Eu também errei. Mas eu me transformei. Você escolheu continuar se afundando. E agora joga a culpa em todo mundo, menos em si mesma.
Nesse momento, Olivia apareceu no corredor. E, como se o universo tivesse escrito a cena em um roteiro de tragédia grega, Elizabeth não perdeu a chance.
— Boa tarde, doutora Olivia — disse com um sorriso venenoso — Ainda dividindo os mesmos corredores do seu antigo amor?
E, como uma sombra, sumiu pelo corredor antes que qualquer resposta fosse dita.
Suspirei pesado. Olivia me olhou com empatia, aquela calma que ela sempre carregava nos olhos.
— Desculpa por isso — eu disse, cansado, me encostando na parede. — Ela me esgota, Liv. Eu tento... de verdade. Tento manter a paz, mas ela vive no passado, presa em culpas e ressentimentos. Não consegue soltar. Nem pelo próprio filho.
Olivia se aproximou devagar, tocando meu ombro com leveza.
— Você não pode controlar o que ela sente, Jacob. Mas pode continuar sendo o homem que é hoje. Um pai presente, um companheiro fiel... e, sim, um avô quase emocionado. — Ela sorriu, tentando aliviar o peso. — Você está fazendo certo agora. Isso é o que importa.
Assenti, olhando para frente, mas por dentro, ainda lutando contra aquela sombra que Elizabeth sempre deixava por onde passava. Uma sombra que eu me recusava a deixar cair sobre a minha família. Sobre a Renesmee. Sobre a Serena.
Ela podia tentar bagunçar tudo, mas não dessa vez.
Não mais.
Fale com o autor