Pais por acaso
76 Jacob - Mas por ela, eu posso ser.
Fiquei sentado ao lado da cama, segurando a mão da Renesmee enquanto ela dormia. Seus traços estavam mais serenos agora, mas o aperto no meu peito ainda era real. O cansaço, a insegurança, o turbilhão emocional... tudo pesava sobre ela. E isso me esmagava por dentro.
Bella, sentada na poltrona ao lado, olhava a filha com o mesmo olhar que eu tinha quando olhava para Serena — cheio de amor e medo ao mesmo tempo.
— Ela está me preocupando, Jake — disse, baixinho, para não acordá-la. — Eu conheço minha filha. Nessie é forte, mas... tem alguma coisa que não está certa. Isso pode virar um quadro de depressão pós-parto se a gente não cuidar logo.
Assenti, respirando fundo. Já tinha pensado nisso, mas ouvir de Bella tornava tudo mais real, mais urgente.
— Eu vou cuidar disso. Vou cuidar dela, de tudo. Nessie não vai carregar nada sozinha, não enquanto eu puder estar por perto — prometi, sentindo o peso da responsabilidade crescer, mas também a certeza de que era meu dever. Meu amor.
Bella me encarou por um instante, os olhos marejados de uma ternura silenciosa.
— Você tá me surpreendendo, Jake... de verdade. Eu e o Edward sempre tivemos nossas dúvidas, sabe? Você nunca quis se prender, nunca quis um relacionamento sério... e agora olha pra você. Casado, pai, e completamente entregue.
Sorri de canto, um pouco envergonhado. Meus olhos voltaram pra Nessie dormindo, e meu coração se apertou mais um pouco — do jeito bom.
— Ela me mudou, Bella. Desde sempre. E eu a amo. De um jeito que nem sei explicar. Por ela, eu enfrento qualquer coisa. Qualquer coisa.
Bella se levantou, enxugando uma lágrima discreta, e veio até mim. Me abraçou apertado, com um carinho que só uma mãe de verdade sabe dar.
— Obrigada, Jacob. Por amar minha menina.
— Obrigado você... por confiar ela a mim.
Nos soltamos, e ela se despediu com um beijo na testa de Renesmee. Em silêncio, saiu do quarto.
Fiquei ali por alguns minutos até ouvir o chorinho agudo de Serena vindo do outro cômodo. Me levantei rápido, atravessando o corredor. Quando entrei no quarto, vi Joseph tentando embalar a irmãzinha nos braços, com os olhos meio sonolentos.
— Ei, campeão — sussurrei, me aproximando. — Deixa que agora é comigo. Vai descansar um pouco, você merece.
Joseph olhou pra mim e assentiu, aliviado.
— Ela tá com fome, eu acho... tentei cantar uma música, mas não sou muito bom nisso — disse, sorrindo de leve.
— Só o fato de você estar aqui tentando já é mais do que bom, filho. Eu tenho muito orgulho de você, sabia?
Ele sorriu, um pouco tímido, e antes de sair do quarto, olhou por cima do ombro.
— A Nessie vai ficar bem?
Assenti, puxando Serena para meus braços e a embalando com cuidado.
— Vai sim, filho. Ela só precisa de um tempo. E a gente vai estar aqui por ela.
Joseph se aproximou e me deu um beijo no rosto, o gesto simples e cheio de carinho. Retribuí com um beijo em seus cabelos bagunçados.
— Boa noite, campeão.
— Boa noite, pai.
Enquanto ele saía, olhei para Serena, que começava a se acalmar com meu colo e meu toque. Uma paz silenciosa me envolveu naquele momento. Era difícil, sim. Mas era também o melhor e mais verdadeiro momento da minha vida.
E eu não trocaria por nada.
Andava pelo quarto em passos lentos, Serena aninhada nos meus braços, o pequeno corpo ainda inquieto, mas começando a ceder ao balanço ritmado. A luz suave do abajur criava um ambiente calmo, e o silêncio era apenas quebrado pelos suspiros da respiração dela e o som dos meus pés no tapete macio.
— Vamos cuidar da mamãe, pequena... — sussurrei, afagando seus cabelos escuros. — Ela tá sensível hoje, tá? A gente vai fazer tudo dar certo.
Tentei cantarolar baixinho, desafinado como sempre, mas ela parecia gostar mesmo assim. Sua cabecinha relaxou em meu peito, e meus olhos se voltaram para a cama, onde Nessie ainda dormia, exausta. Meu coração se apertou.
O som suave de movimento me tirou dos pensamentos, e então a vi se remexer, abrindo os olhos devagar.
— Olha só quem acordou... — falei com um sorriso gentil. — A mamãe acordou, pequena. E sabe o que isso significa? Hora do bico.
Serena resmungou um pouco, como se soubesse exatamente do que se tratava.
Nessie levou um segundo para focar no ambiente e, com a voz fraca, perguntou:
— O que aconteceu?
Fui até ela, com calma, e entreguei Serena com cuidado. Ela a recebeu nos braços como se só naquele instante sua consciência voltasse por completo. Sentei-me ao lado, observando-a com atenção. Estava abatida, os olhos ainda úmidos, mas ela estava ali. Presente. E isso já era alguma coisa.
Toquei seu queixo com delicadeza, inclinando o rosto dela para que me encarasse.
— Nessie... olha pra mim. Você confia em mim?
Ela hesitou por um instante e depois murmurou:
— Pega meu celular... está na cômoda.
Me levantei e peguei o aparelho. Quando voltei, ela desbloqueou a tela com o polegar e me mostrou a imagem. Eu congelei.
Era uma foto minha com Olivia, tirada do lado de fora da lanchonete do hospital. O ângulo maldito fazia parecer mais do que era — eu a abraçando. Abaixo da imagem, uma frase: “Você ainda acredita em contos de fadas?”
Meu sangue ferveu.
— Isso é uma brincadeira de muito mau gosto — disse com a voz baixa e tensa. — Eu abracei a Olivia para me despedir, Renesmee. Ela recebeu uma proposta de trabalho dos sonhos... vai embora amanhã cedo. Só isso. Eu não... eu jamais faria algo para te machucar. Nunca.
Meus olhos procuraram os dela. Serena já estava mamando com calma no colo da mãe, alheia à tensão.
Fiquei ali, esperando que ela dissesse algo. Mas acima de tudo, esperando que ela acreditasse em mim. Porque minha verdade era simples: Renesmee era o amor da minha vida. E tudo o que eu fazia, era por ela.
Narração de Jacob:
Ela desviou os olhos por um instante e depois voltou a me encarar, os cílios ainda úmidos pelas lágrimas que haviam secado no rosto.
— Me desculpa… — ela sussurrou, a voz embargada. — Eu me senti tão insegura… tão frágil. Quando vi aquela imagem… eu… eu surtei.
Meu coração se despedaçou naquele momento. Ver Renesmee assim, vulnerável, destruída por uma mentira mal-intencionada, mexeu comigo de um jeito que nem consigo explicar. Mas eu precisava ser forte por ela. Por nós. Por Serena.
Me inclinei um pouco mais e toquei sua mão com cuidado, firmeza e ternura misturadas no gesto.
— Nessie… você é tudo pra mim. Mas se não confiar em mim… nós não vamos funcionar. E eu preciso que a gente funcione. Juntos. Por você, por mim, pela nossa filha.
Ela assentiu com os olhos marejados, sem conseguir responder.
Eu suspirei, sentindo a tensão pesar sobre os ombros. A beijei na testa com delicadeza, dei um último olhar em Serena, aninhada no colo da mãe, e me levantei.
Saí do quarto e caminhei até a cozinha. A cada passo, meu peito pesava mais. Eu estava tentando manter tudo nos trilhos, mas às vezes o mundo parecia puxar pro caos. Enchi um copo com água e bebi devagar, sentindo o líquido gelado escorrer pela garganta e tentando acalmar a tempestade que crescia dentro de mim.
Peguei o celular do bolso da calça e respirei fundo antes de discar o número. Quando a chamada foi atendida, a voz conhecida soou do outro lado da linha:
— Jacob? Aconteceu alguma coisa com Renesmee e a minha neta?
— Não Edward, Nessie e a bebê estão bem, eu preciso de um favor.
Ele ficou em silêncio por um segundo, atento ao meu tom.
— Claro pode falar.
— Eu preciso que você descubra se um número de telefone pertence a algum funcionário do hospital. Pode ser da área administrativa, enfermagem… qualquer coisa. É urgente.
— O que está acontecendo?
— Eu te explicou pessoalmente. Amanhã. Mas é sério, Edward. Pode ter alguém tentando machucar a Renesmee. E agora, mais do que nunca, eu preciso saber com quem estamos lidando.
O silêncio dele foi pesado por um segundo antes que ele respondesse, sério:
— Manda o número para mim. Vou começar a verificar agora.
— Obrigado… de verdade.
— Jacob…
— Hm?
— Cuida dela. Eu sei que você ama a minha filha. Mas ela é frágil agora. E você também não é de ferro.
— Eu sei… — murmurei. — Mas por ela, eu posso ser.
Desliguei. E então olhei em direção ao quarto. Algo dentro de mim dizia que aquela mensagem não tinha sido apenas uma maldade qualquer. Era um aviso. E eu precisava descobrir de quem. Antes que algo pior acontecesse.
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