Pais por acaso
17 Jacob- Mágoas do passado
Acordei cedo, o olhar ainda meio embaçado, e a primeira coisa que vi foi a cueca box branca rabiscada com o número do celular dela na lateral. Sorri, lembrando do jeito único que Renesmee tinha para se expressar. Esse tipo de detalhe, por mais inusitado que fosse, trazia uma onda de nostalgia e carinho. Mas antes que eu pudesse me perder nessas lembranças, o toque do celular quebrou o silêncio do quarto.
Era Leah Clearwater.
Suspirei, sabendo que essa era uma conversa que eu vinha adiando por tempo demais. Ao atender, disse com voz firme:
— Te encontro no hospital.
Assim que encerrei a chamada, fui direto para o banho, deixando a água gelada tentar acalmar a inquietação que já começava a crescer no peito. Leah não teria vindo se não fosse algo realmente importante, e por mais que uma parte de mim quisesse evitar, outra sabia que era o momento certo.
Quando cheguei ao hospital, a vi esperando na recepção, o rosto dela transmitindo a mesma seriedade que eu sempre conheci. Sinalizei para que me seguisse, e caminhamos em silêncio até o elevador. A tensão era quase palpável, cada segundo se arrastando e aumentando o peso daquela conversa.
Assim que entramos na minha sala, fechei a porta atrás de nós e fui até a cadeira ao lado da mesa, indicando que Leah se sentasse.
Ela cruzou os braços, me observando com aquele olhar direto e intenso, e ficou claro que a conversa não seria fácil.
— Então... — comecei, limpando a garganta. — Imagino que não veio aqui para falar sobre amenidades.
Leah me lançou um olhar que misturava desapontamento e determinação.
— Acho que o passado faz parte do que me trouxe aqui, Jacob. A gente não pode continuar fingindo que ele não existe.
Assenti, sabendo que ela tinha razão.
— Sempre soube que, cedo ou tarde, a gente teria que encarar isso, Leah. Mesmo que eu tenha tentado evitar.
Ela se inclinou para frente, os olhos fixos nos meus.
— E por que você sempre evitou, Jacob? — A dor na voz dela era evidente. — Você some, ignora tudo, como se fosse fácil.
Eu passei a mão pelos cabelos, sentindo o peso de anos de decisões questionáveis.
— Porque era mais fácil assim, Leah. Mais fácil do que abrir antigas feridas. Achei que seguir em frente, sem mexer no que passou, seria o melhor.
Leah balançou a cabeça, incrédula.
— Jacob, isso não é só sobre o que passou entre nós. É sobre Seth também.
Ao ouvir o nome de Seth, meu peito se apertou. Sabia que, de certa forma, ele estava no centro das mágoas entre nós.
— Eu nunca culpei Seth. Ele é inocente nisso tudo. Mas... — hesitei, escolhendo as palavras com cuidado. — Lidar com o fato de que ele é... filho do meu melhor amigo, é algo que nunca soube como enfrentar.
Leah relaxou um pouco, a dor em seu rosto suavizando-se.
— Você acha que eu não carrego essa culpa também? Que eu não sinto o peso disso todos os dias? Mas, Jacob... — ela suspirou, a voz mais baixa. — Seth precisava de um pai.
Eu suspirei, sentindo o peso daquelas palavras.
— Leah, eu tentei. Mas você me traiu — disse, minha voz carregada de uma dor que eu pensava estar enterrada.
Ela abaixou a cabeça, a expressão carregada de arrependimento.
— Eu sei, Jacob. Errei, e não tem um dia que eu não me arrependa. Mas Seth... ele pagou por um erro que não foi dele. Ele te ama, Jacob. Só quer ter um pai... mesmo que você não seja o biológico.
Aquelas palavras me atingiram como um golpe. O rosto de Leah mostrava sinceridade e sofrimento, e percebi o quanto aquela culpa também pesava para ela.
Antes que eu pudesse responder, vi movimento no canto do meu olho. Quando me virei, Seth estava parado na porta, a expressão atônita, os olhos movendo-se entre nós dois.
— Seth... — minha voz saiu num sussurro, e Leah imediatamente se levantou, o rosto pálido de preocupação.
Ele deu um passo para dentro da sala, o rosto sem qualquer expressão, como se estivesse lutando para absorver o que acabara de ouvir.
— Então... — ele começou, os olhos frios e duros, fixos em mim — é por isso que você nunca me tratou como um filho. Porque... eu não sou seu filho.
— Seth, me escuta... — Leah começou, a voz vacilando.
Mas ele ergueu a mão, como se quisesse impedir qualquer palavra.
— Eu entendo, mãe. Faz todo o sentido agora. — Ele me olhou diretamente, a mágoa evidente. — É por isso que você nunca me amou, não é, Jacob?
Eu dei um passo na direção dele, querendo desesperadamente quebrar aquela barreira de mágoa e raiva.
— Seth, não é assim. Você sempre foi como... — tentei, mas ele me interrompeu.
— Como o quê? Um fardo? Um problema? — Sua voz ficou embargada, mas ele se manteve firme. — Sabe, doutor Black, eu sempre pensei que o problema fosse comigo. Que eu não era bom o suficiente. Mas agora, tudo faz sentido.
— Seth, isso não muda quem você é. Quem você sempre foi pra mim — tentei insistir, mas minha própria voz parecia fraca diante da dor dele.
Ele balançou a cabeça, os lábios trêmulos.
— Então... de agora em diante, vamos manter isso assim. Vou tratá-lo como doutor Black. Nada mais, nada menos.
Antes que Leah ou eu pudéssemos reagir, ele se virou e saiu apressado, sem olhar para trás. Leah cobriu a boca com a mão, os olhos marejados de desespero e culpa.
Fiquei parado, tentando processar o estrago que aquelas palavras causaram. Seth, o garoto que eu tinha tentado manter à distância por tanto tempo, agora havia me escapado de verdade.
Leah e eu saímos rapidamente, e logo nos dividimos para tentar encontrar Seth pelos corredores do hospital. Meu coração batia acelerado, e uma sensação de urgência tomava conta de mim. Não era apenas um erro que precisávamos consertar; era uma vida inteira de mal-entendidos e distância que talvez não conseguíssemos mais resgatar.
Quando encontrei uma das enfermeiras, perguntei:
— Você viu o doutor Clearwater?
Ela balançou a cabeça, indicando que não. Continuei pelo corredor até encontrar a doutora Stanley.
— Doutora Stanley, você viu Seth?
Ela pensou por um instante e depois assentiu.
— Acho que o vi indo para a lanchonete. Parecia um pouco... abalado.
Assenti, agradecendo rapidamente antes de me apressar até a lanchonete. Quando cheguei à porta, vi Seth sentado a uma mesa no canto, e, para minha surpresa, Renesmee estava ao lado dele. Ela parecia estar tentando consolá-lo, sua mão repousava de leve sobre o braço dele enquanto falava, a voz baixa e calma.
Observei por um instante, hesitando em me aproximar. A maneira como Renesmee o olhava, a gentileza em seu rosto, me fez perceber o quanto ela realmente se importava. Mas ao mesmo tempo, ver Seth ali, buscando conforto em outra pessoa, trouxe de volta aquela culpa incômoda.
Tomei fôlego e caminhei até eles. Ao me aproximar, ambos olharam para mim. Seth tentou esconder o olhar frustrado e cansado, enquanto Renesmee se endireitou, olhando-me com uma expressão de preocupação.
Ver Seth tão próximo de Renesmee, com ela ali ao seu lado, tentando consolá-lo, despertou um sentimento inesperado em mim. Um leve incômodo cresceu, embora eu soubesse que não deveria sentir ciúmes. Afinal, Renesmee estava apenas tentando ajudá-lo em um momento difícil, mas ainda assim, o modo como ele se apoiava nela parecia quase... íntimo.
Dei um passo à frente, buscando entender a situação, tentando manter a voz controlada.
— Está acontecendo alguma coisa aqui?
Renesmee ergueu os olhos para mim, surpresa, enquanto Seth fechava a expressão e me encarava com frieza, os braços cruzados, seu semblante endurecido.
— Nada está acontecendo, doutor Black — disse ele, com a voz tensa e cortante.
Senti meu peito apertar, mas mantive a calma, tentando passar para ele a preocupação genuína que sentia. Tudo o que eu queria era que ele entendesse que nada disso foi intencional.
— Seth, nós precisamos conversar. Isso tudo... não foi assim que eu queria que você descobrisse.
Ele deu uma risada amarga, o olhar ferido misturado com ressentimento.
— Ah, sério? Não foi? — Ele balançou a cabeça, dando um passo para trás, como se qualquer proximidade fosse intolerável. — Não faz diferença, doutor. A verdade é que você nunca foi meu pai. Isso só confirmou o que eu sempre senti.
A tensão entre nós era quase palpável, e eu vi Renesmee se mexer desconfortavelmente, tentando encontrar uma maneira de amenizar o peso da situação.
— Talvez eu devesse deixá-los a sós... — sugeriu ela, sua voz hesitante, visivelmente preocupada.
Seth balançou a cabeça rapidamente.
— Não, Nessie. Eu já vou embora. — E com um tom de amargura, virou-se, ignorando minha presença por completo.
Dei um passo em sua direção, sentindo que o perdia a cada segundo que passava.
— Seth, espere... não precisa sair assim. Vamos conversar — tentei, minha voz carregada com um misto de tristeza e urgência, mas ele simplesmente ignorou, continuando a caminhar até que a porta da lanchonete se abriu e Leah entrou, olhando para nós com uma expressão de preocupação evidente.
— Seth! — ela o chamou, mas ele nem sequer olhou para trás, saindo sem dar qualquer resposta. Leah, então, voltou o olhar para mim, com um semblante que misturava compreensão e uma leve reprovação.
— Vou atrás dele. Talvez seja melhor você dar um tempo, Jake. Ele precisa de espaço agora.
Assenti lentamente, a frustração e o cansaço pesando sobre mim. Leah saiu em passos rápidos, deixando apenas Renesmee e eu naquele silêncio constrangedor. Ela parecia desconfortável, e eu sabia que isso tudo a estava afetando também.
Olhei para ela, sentindo o peso da situação, cada emoção que eu segurava se refletindo em meus olhos. Eu não sabia o que dizer para consertar isso, para explicar, para tornar tudo menos doloroso.
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