Pais por acaso

65 Jacob - Desespero


O cheiro de café fresco e pão na chapa tomava conta da cozinha quando coloquei os copos de suco na mesa. Renesmee estava sentada, ainda de pijama, com o cabelo bagunçado e os olhos sonolentos, mas com aquele brilho maternal que surgia toda vez que ela olhava pra barriga. Mesmo cansada, ela sorria. Era o tipo de imagem que eu queria guardar pra sempre.

Joseph apareceu no corredor calçando os tênis, já de mochila nas costas. Nem mesmo olhou pra Nessie. Passou direto por ela, pegou uma maçã na fruteira e já ia saindo pela porta.

— Joseph — chamei, firme. — Você esqueceu alguma coisa?

Ele parou, respirou fundo, e se virou com cara de “fui pego”.

— Bom dia, Renesmee — disse num tom rápido e automático, sem nem olhar direito pra ela.

Nessie sorriu fraco, tentando disfarçar o desconforto.

Eu não engoli.

— Não é só por educação — Continuei, cruzando os braços. — É respeito. Principalmente com quem divide o teto com você e está esperando sua irmã.

Ele finalmente olhou pra ela.

— Desculpa, tá? É que... tô meio atrasado e tem um trabalho de ciências hoje. Tô nervoso. Não foi por mal — falou meio atropelado, tentando parecer convincente.

— Tudo bem, Joseph — Nessie respondeu gentilmente, mesmo que o sorriso dela não alcançasse os olhos.

Ele já ia sair de novo, mas segurei a mochila dele por uma das alças.

— Quando você voltar da escola, eu preciso que você fique em casa. A Nessie precisa de companhia, alguém que esteja por perto caso precise de algo. Você pode fazer isso?


Ele me olhou, e ali — só por um segundo — vi algo diferente no olhar dele.

Uma pontinha de cuidado sincero, apesar da confusão que ele carregava.

— Posso, sim. Eu fico com ela. Cuido dela e... da minha irmã também — respondeu num tom mais calmo.

Assenti e soltei a alça da mochila.

— É só isso que eu peço, filho.

Ele saiu apressado, mas dessa vez olhou para trás e acenou discretamente para Nessie antes de fechar a porta.

Eu me sentei de novo à mesa ao lado dela, observando seu rosto. Ela brincava com o guardanapo, mas não dizia nada.

— Você viu, né? — Ela perguntou depois de um tempo, num sussurro.

— Vi. E vou continuar vendo. Não vou deixar você lidar com isso sozinha — Disse, cobrindo a mão dela com a minha.

Ela sorriu de leve e pousou a outra mão na barriga.

— Vai dar tudo certo, né?

Beijei seus dedos com carinho.

— Vai sim, bonequinha. Porque você não está sozinha.


Cheguei ao hospital um pouco mais tarde do que de costume. A noite anterior tinha sido longa — Nessie acordou duas vezes com dores nas costas e eu fiquei ali, só observando, cuidando, tentando ser tudo o que ela precisa.

Ao entrar no corredor principal, vi uma figura familiar, encostada ao balcão da recepção. Cabelos castanhos longos, postura serena... por um instante, achei que estava sonhando.


— Bella? — perguntei, surpreso, me aproximando. — Quando vocês chegaram?

Ela se virou e sorriu, aquele sorriso suave que eu sempre associei a ela.

— Algumas horas atrás — respondeu. — Eu não ia perder o nascimento da minha neta, né? E o Edward precisava resolver umas pendências com o Carlisle.

— Claro... — sorri, me sentindo um pouco mais aliviado por tê-la ali. — A Nessie vai ficar muito feliz. Ela tem se sentido... sensível. Tá precisando de você.

O olhar de Bella ficou mais terno, quase materno.

— Eu vou vê-la assim que o Edward sair da reunião. Prometo que não vou demorar. Só espero que ela aguente a emoção — disse com uma piscadinha.

Antes que eu pudesse responder, ouvi o som de saltos ecoando no corredor. Virei o rosto e vi Olivia se aproximando com um brilho animado nos olhos. Quando notou Bella, abriu os braços.

— Bella Swan! Ou melhor, Cullen! — exclamou, e as duas se abraçaram calorosamente. — Que bom te ver!

— Olivia! — Bella sorriu, sinceramente feliz. — Como você está?

— Bem, na medida do possível! E sua filha ruivinha? Ainda espalhando charme por aí?

O sorriso de Bella se alargou, e ela lançou um olhar de orgulho na minha direção.

— Minha ruivinha virou uma mulher incrível. E adivinha? Eu vou ser vovó.

Os olhos de Olivia brilharam.

— Sério? Já? — Ela virou-se para mim, surpresa. — Sua filha já é casada?

Bella nem deu tempo de eu responder.

— É sim. Casada com o Jacob — disse com naturalidade, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Vi o sorriso de Olivia congelar antes de desaparecer devagar, como gelo derretendo sob o sol. Ela olhou para mim, claramente tentando processar a informação. Talvez até repensando toda a conversa da noite anterior.

— Uau... — murmurou. — Isso é... impressionante.

— Estamos muito felizes — Eu disse, sem hesitar, com firmeza. — A Nessie me faz um homem melhor todos os dias.

Bella pousou uma mão gentil no meu braço, como quem aprova cada palavra.

— Bom, vou apressar o Edward agora. Quero dar um beijo naquela minha filha antes que ela brigue comigo por ter demorado a retornar.

Ela se despediu com um beijo no meu rosto e um aceno para Olivia, seguindo com passos leves pelo corredor.

Fiquei ali, ao lado de Olivia, que agora evitava meu olhar.

— Parece que você esqueceu de mencionar esse detalhe ontem... — ela disse, num tom leve demais para disfarçar a mágoa.

— Eu falei que minha esposa me esperava — respondi. — Só não achei que precisava desenhar o resto.

Ela assentiu lentamente, tentando recompor a expressão.

— Claro. É... parabéns, Jacob.

— Obrigado

Me afastei, deixando para trás aquele silêncio incômodo que se formou entre nós, sem espaço para mal-entendidos ou intenções veladas.



O dia estava puxado, e eu mal tinha tido tempo de sentar. Entre pranchetas, avaliações e encaminhamentos, eu ainda tentava manter minha cabeça longe da preocupação constante que vinha crescendo dentro de mim. Nessie estava nos últimos dias da gestação, e qualquer dor, qualquer mensagem dela me deixava em alerta.

Estava acompanhando Olivia por um dos corredores da ala cirúrgica, revisando a escala de um novo procedimento. Por mais que fosse estranho reencontrá-la depois de tanto tempo, tudo estava sob controle. Profissional. Até demais.

— E então, Dr. Black — ela disse num tom provocativo, mas com um sorriso leve — vai revisar o turno da obstetrícia comigo ou vai deixar para a última hora?

— Vou agora. Só não quero que nada escape do planejamento. — Respondi, tentando manter o tom neutro.

Antes que Olivia dissesse mais alguma coisa, a voz inconfundível de Elizabeth ecoou atrás de nós:

— Desculpe interromper, mas eu preciso falar com você, Jacob. É sobre o Joseph.

Olhei para Olivia, que arqueou uma sobrancelha, claramente percebendo a tensão no ar.

— Tudo bem, eu deixo vocês a sós — disse ela, com um meio sorriso antes de se afastar.

Elizabeth cruzou os braços, o olhar afiado.

— Interessante reencontro... Vocês dois sempre tiveram muita química, não é?

Revirei os olhos, já impaciente.

— Vai direto ao ponto, Elizabeth. O que você quer falar sobre meu filho?

Ela franziu a testa.


— Nosso filho, Jacob. — Corrigiu em um tom irritante. — Só quero saber se você realmente autorizou ele a passar o final de semana comigo.

Assenti com um suspiro, sem paciência para joguinhos.

— Sim, autorizei. Joseph pediu, e achei justo.

Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, meu celular vibrou no bolso. O nome da Renesmee apareceu na tela e, sem hesitar, atendi.

— Nessie? — Falei, mas só ouvi a respiração dela.

— Ja... Jake... — a voz dela soou fraca, quase um sussurro.

E então... um baque. Um som seco, pesado. Como se algo — ou alguém — tivesse caído. O celular ficou mudo.

— Renesmee?! — Gritei, apertando o celular contra o ouvido. — Amor?! Fala comigo! Nessie?!

O desespero tomou conta. Meu coração disparou. Guardei o telefone com mãos trêmulas e já saía correndo pelo corredor, deixando Elizabeth para trás sem dizer uma palavra.

— NESSIE! — Gritei novamente, a garganta apertada. — RESPONDE, POR FAVOR!

Mas não houve resposta.

Só o silêncio.

E o medo que crescia em mim como uma tempestade prestes a explodir.

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Eu não lembro como saímos do hospital. Só lembro das minhas mãos tremendo no volante e da cidade passando borrada pelas janelas. A buzina de outros carros, os semáforos ignorados — tudo era ruído de fundo. Nada importava além da voz da Nessie, fraca... e o silêncio que veio depois.


— Ela vai ficar bem — Bella disse, tentando me tranquilizar do banco do carona. A voz dela estava firme, mas eu via no reflexo do vidro: o medo também a consumia.

— Eu liguei pro Joseph — falei, os olhos grudados na estrada. — Três vezes. Ele não atende.

— Talvez ele esteja com fone... ou... — ela tentou justificar, mas até ela sabia que não era desculpa.

Meus dedos apertaram o volante com mais força. Eu nunca desejei tanto poder voar.

Quando cheguei em frente ao prédio, parei o carro com um freio seco. Saí ainda com o motor ligado. Bella veio atrás de mim, e logo vi o carro de Edward encostar atrás do nosso. Ele saiu apressado, com o mesmo olhar preocupado que eu devia estar carregando.

— Onde ela está?! — Ele perguntou, e eu apenas apontei para a entrada do prédio.

Entramos correndo. O coração batendo mais rápido a cada passo.

Joseph estava ali, no hall, encostado na parede conversando com outro garoto. Rindo.

Rindo.

— Joseph! — Minha voz saiu mais alta do que queria. Ele se virou surpreso.

— Pai? O que foi?

— Onde está a Renesmee?! — Rosnei, andando em sua direção.

— No apartamento, ué. Eu... só desci pra respirar um pouco...

Meu sangue ferveu. Eu me aproximei num impulso.

— Você deixou sua madrasta, prestes a parir, sozinha no apartamento?!

— Eu pensei que... — ele tentou se justificar, mas a minha fúria era maior que qualquer desculpa.

— NÃO É HORA DE PENSAR! — Explodi. — VOCÊ PROMETEU!

Sem esperar por resposta, disparei escada acima. O elevador era lento demais. Cada andar parecia uma eternidade, meus pés mal tocavam os degraus.

Cheguei na porta e destranquei com mãos trêmulas. Empurrei com força.

— Nessie?! — gritei entrando. — Renesmee?!

O silêncio me deu um soco no estômago.

E então vi.

Ela estava caída na sala, ao lado do sofá, como se tivesse tentado alcançar o celular. O vestido estava molhado pela bolsa estourada, os cabelos colados à testa, o rosto pálido demais.

— NÃO! — gritei, correndo até ela. — Amor, fala comigo... Nessie!

Me ajoelhei ao lado dela, com as mãos suadas, sentindo meu mundo desmoronar.

— Bella! Edward! Ajudem! — Chamei em desespero. — Ela tá inconsciente!

Tudo ao redor desapareceu. Só havia eu, ela... e o medo de perder tudo.