Painting Flowers
6 Dia 3 - The Little Things
Arthur sempre havia amado Alfred. Desde o primeiro segundo e, ele esperava, até o último – que parecia nunca chegar. O amor não é um sentimento único, ele sempre muda, possui várias formas. Todos os sentimentos possuem, na verdade.
Bem no início, quando Alfred ainda era uma criança, Arthur o amava como um guardião. Um irmão mais velho, talvez. Cada segundo que passavam juntos parecia mais precioso que todo um século que passara sozinho. Durante e bastante tempo após a independência, o amor foi soterrado. Completamente esmagado, assim como o coração de Arthur. Era muita raiva, dor, ressentimento para ser suportado e superado. Nenhum tipo de carinho poderia crescer numa terra tão infértil.
Um pouco antes de 1900 começar, Arthur conseguiu esquecer a maior parte daquilo e até mesmo Alfred passou a ser mais amigável, do jeito dele. Com o passar do tempo, bastante tempo, começaram a se falar não só como América e Inglaterra, e então o britânico voltou a amá-lo como amigo. Foi divertido, desconcertantemente diferente da época colonial, mas bom de certa forma. Havia um número colossal de brigas, contudo eles conseguiam se virar assim.
E foi na Segunda Guerra Mundial que Arthur se perdeu. No meio daquele maldito caos, de alguma forma, só deus sabe como, ele havia se apaixonado pelo americano. Ele sabia que o calor desconfortável que o preenchia quando estavam no mesmo ambiente não era “amigável”, amigos não querem beijar os outros quando estão próximos demais ou sentem ciúmes em certas situações. E por sessenta anos, Arthur estava até orgulhoso de admitir, ele havia aprendido a esconder esse amor incômodo perfeitamente.
Ao seu ver, valia muito mais a pena amá-lo como amigo, e ser visivelmente amado de volta da mesma forma, do que perder Alfred mais uma vez. Inseguro? Talvez, um pouco, ele preferia o termo precavido.
Agora, não estava nem um pouco fácil disfarçar naquela semana. O americano parecia até dificultar propositalmente. Se, no mínimo, estivessem brigando como sempre, Arthur ficaria mais calmo. As brigas estúpidas sempre o ajudavam, o enfureciam tanto algumas vezes que ele conseguia ignorar qualquer sentimento que tivesse pelo outro, então sem elas sua situação se complicava.
Já passava do meio dia quando o inglês acordou, mesmo assim Alfred ainda parecia estar dormindo. A primeira coisa que ele notou foram as rosas. Elas tinham reaparecido na mesa, no mesmo jarro de água de antes, as pétalas escarlate começavam a se acinzentar nas pontas e enrugar, o caule parecia mais envergado.
Arthur se perguntou onde diabos Alfred as tinha posto no dia anterior ou se estivera distraído demais para percebê-las, mas era difícil, elas eram bem bonitas, chamativas, apesar de já estarem começando a murchar. Dessa vez, ele não sentiu nenhuma pontada de ciúmes, ele até riu sozinho ao notar que estava com certa pena delas. Tão lindas, logo morreriam. Queria que suas fadas estivessem ali, talvez se pedisse elas a manteriam vivas por mais algum tempo.
Distraidamente, ele caminhou pela sala passando os olhos por todos os móveis. Era desorganizado, e ele sentia que estava gostando do lugar mais do que deveria. Sem se perguntar em pedir antes ou parecer mal educado, ele foi na cozinha e fez uma torrada e uma xícara de chá, sabia que Alfred não iria se importar.
Com as mãos ocupadas com seu, bem, almoço, pelo visto, caminhou até a janela e começou a comer enquanto observava a vista. Uma ou duas pessoas passavam pela rua, um número não tão pequeno em comparação aos carros. Parecia ser um lugar bem pacífico parando pra pensar, ele havia imaginado um centro caótico. Antes que desse conta, não havia mais nenhuma torrada em suas mãos e sua xícara jazia vazia em seus dedos. Arthur levantou seus olhos para o céu, ainda estava nublado. Uma camada de nuvens cobria quase todo o céu, deixando um espaço para o sol brilhar triunfantemente. Um cenário não harmonioso que combinava perfeitamente.
Mesmo distraído, o inglês ouviu uma porta sendo aberta e os passos em direção a sala. Às suas costas Alfred disse:
– Bom dia. Acordou agora?
– Não, já tem um tempo. O que vamos fazer hoje?
Quando se virou, Arthur viu o americano andando em direção a cozinha, não estava de pijamas e o cabelo estava arrumado, pelo visto já tinha tomado banho.
– Comprar os enfeites antes que esgote tudo! — respondeu animado.
– Okay, vou... Me arrumar, então, enquanto você come.
Alfred exclamou alguma coisa em sua empolgação de sempre que Arthur não entendeu e preferiu ignorar. Deixou sua xícara na mesa e foi para o quarto.
O dia passou ridiculamente rápido, sem nenhuma surpresa em especial. Antes de irem às compras, o americano decidiu ir no local da festa, assim, disse ele, você pode me ajudar a escolher a decoração. Não conversaram muito na ida, porém o clima estava agradável, Arthur gostava daquele silêncio e Alfred também parecia gostar.
O local da festa, para o total prazer do inglês, era um armazém velho e grande, um tanto quanto afastado de áreas residenciais, o que significava barulho a vontade por quantas horas fossem possíveis sem interrupção.
– O dono aluga o espaço. — contava Alfred enquanto abria a porta para darem uma olhada no interior. Quase duzentas nações, caixas de som, mesas, um bar e enfeites cairiam ali como uma luva. — Mas geralmente só alugam pra festas e coisas do tipo, então tive que alugar... No inicio do ano eu acho, em junho o lugar já estaria ocupado pelos próximos sete meses então eu dei sorte!
Gostou?
– Incrível. — Arthur murmurou. Mesmo ele que fingia não ser um grande fã de festas de Halloween, teve que admitir que essa seria... Ele riu com a ideia. Até que horas será que as nações aguentariam? Três da manhã, no mínimo. — Vamos, temos muita coisa pra comprar.
Matthew e Francis chegariam na noite seguinte para ajudarem na arrumação, e na mesma noite, disse Alfred, uma equipe que ele havia contratado colocaria algumas mesas e sofás, a iluminação e tudo mais, e outra entregaria a bebida e a comida. O dever deles hoje era só comprar... O que mesmo assim poderia levar um pouco de tempo, e algumas viagens a mais.
Na primeira loja, não levaram muito. Duas sacolas cheias de enfeites bobos como fantasminhas e caveiras de papel para serem pendurados e amarrados. Andando, seguiram para a segunda loja. Mais duas sacolas entupidas de fitas roxas, laranjas e pretas e teias de aranha falsas. Pegaram um táxi e deixaram tudo no armazém.
Quando chegaram na terceira loja, já eram três da tarde. Ela foi a mais interessante e onde levaram mais tempo. Havia, para o encanto de Arthur, uma boneca de bruxa em tamanho real, que apesar de não ser a coisa mais bem feita do mundo, ficaria perfeita pendurada alta na parede no escuro. Ele até o momento não havia dado muitas opiniões sobre os enfeites, não queria se intrometer era a festa de Alfred, porém não devia ter disfarçado muito bem o quanto tinha gostado da boneca.
– Gostou dela? — perguntou o americano.
– Bem... Sim. É, um pouco. — Deu de ombros.
– Vamos levar então. — E aquela altura Alfred já devia estar bem acostumado com Arthur, pois ele o interrompeu antes mesmo que pudesse abrir a boca para reclamar algo típico como “Não precisa, ela nem é essas coisas. Não gaste seu dinheiro com isso!”. — Sério, ela é muito legal. Vai ficar ótima! Além de que, eu te chamei para me ajudar, não ficar quieto enquanto eu faço tudo, sabe. — Um de seus sorrisos cintilantes e pronto, o inglês não encontrou palavras para discutir.
Se Alfred dizia que estava tudo bem... Então Arthur concordaria que estava tudo bem.
Nos fundos da mesma loja, eles acharam um caldeirão de bruxa feito para colocar bebida.
– Cara, essa loja é perfeita. — o americano comentou.
Segurando uma bruxa de 160cm, um caldeirão de plástico e mais uma sacola cheia de enfeites, se espremeram no táxi, rindo, e foram para o armazém. Fizeram uma pequena pausa em que Alfred o convenceu a ir ao McDonalds, que mesmo sendo aos olhos de Arthur nojento e gorduroso demais, podia ser comestível. Conversando sobre o que botariam aonde e como a festa seria incrível, caminharam sem rumo segurando seus lanches embrulhados para a viagem quase intocados.
Ou só pareciam sem rumo. Para a surpresa do inglês, entre um prédio e outro, havia um parque. Não exatamente um parque, talvez uma praça estranha adequada a forma da cidade. Haviam dois portões sanfonados abertos que provavelmente eram fechados à noite, e além deles os quatro degraus eram as únicas coisas que separavam a rua da praça. Lá haviam mesas e bancos, além de algumas pessoas sentadas, em silêncio, e no fundo havia uma parede com uma cascata clara que contrastava com as pedras escuras. Se as ruas de Nova York eram puro barulho, aquele lugar estava envolto em uma bolha sem som ou perturbações.
Arthur não pensou duas vezes antes de subir os degraus, e Alfred o seguiu sem reclamar. Eles sentaram em uma das mesas e comeram, vez ou outra uma palavra sendo dita.
– Sinceramente, eu nunca me diverti tanto em três dias. Acho que essa está sendo uma das melhores semanas que eu já tive. — confessou o americano enquanto mordiscava as batatas fritas. Havia uma honestidade crua em sua voz, e mesmo não olhando diretamente para o inglês, era óbvio que não mentia. Era algo tão raro, chegando a ser especial. Arthur virou os olhos para o mesmo ponto que seu amigo, a cascata, e pensou se deveria ser sincero ou mudar de assunto.
E ele queria e estava prestes a voltar para a o tópico da festa, há séculos não tinha uma conversa tão aberta, sem mentiras, com ele, e não sabia se gostaria ou estava pronto. Todavia... Sua língua ignorou sua mente, e falou por si própria.
– Eu também.
A quarta loja foi a última. Panos para a cobrir as mesas e copos descartáveis, mais uma viagem até o armazém, e haviam terminado. Tinham passado um pouco de tempo demais na praça e nas lojas em geral, o relógio marcava cinco pras oito. Mas não importava, o dia tinha sido produtivo e rápido, e para o alívio de Arthur, sem surpresas.
Voltaram para casa, e passaram mais algumas horas assistindo programas qualquer de TV, quase em silêncio absoluto. O inglês sentia seu coração se aquecer com toda a paz.
Alfred murmurou um boa noite antes de bocejar, acariciar os cabelos loiros de Arthur, e ir pra cama.
Certo, talvez não fosse só a paz que aquecesse seu coração.
The little things you do to me are
Taking me over, I wanna show ya
Everything Inside of me
Like a nervous heart that is crazy beatin'
Notas finais
Enfim, eu agradeço imensamente pela paciência e por acompanharem :)
A música é The Little Things - Colbie Caillat
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