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11 XI - Blood
Notas iniciais
Aquilo era loucura. Tortura. Burrice. Desespero. Incredulidade. Haviam muitas respostas que poderiam dar nome a atitude de Robin, mas a verdade era que ele já não se importava mais com os rótulos que poderia receber. Não se importava com mais nada.
Desde que deixara o quarto de Regina, há quase uma hora atrás, o chão parecia ter sumido de seus pés. Seus olhos ardiam, e por mais que ele tentasse limpa-las, as lágrimas continuavam ali, queimando como ácido. Sua mente girava e ele sentia que ia desabar a qualquer momento.
As palavras de Regina continuavam a ir e voltar em sua cabeça, mas ele não conseguia acreditar que realmente as tinha ouvido. Não queria acreditar que elas eram reais, mesmo que não houvessem provas em contrario.
As palavras da morena tinham sido claras. Ela não o amava. Ele não passara de uma diversão, um brinquedinho com quem ela se divertira enquanto aguardava a chegada do dia de seu casamento. Mas se era mesmo assim, porque ele não conseguia acreditar naquilo? Porque todas às vezes em que pensara no que acontecera, tudo que ele enxergava eram os olhos dela, repletos de dor, amor e culpa? Porque aqueles olhos castanhos que ele tanto amara eram tudo em que sua mente conseguia se concentrar, quando deveria estar furioso?
Sim. Ele sabia que deveria odiá-la. Sabia que ela o tinha ferido, que o tinha enganado...mas ainda assim, seu coração, esperançoso e crédulo, tentava arranjar uma outra explicação, uma outra justificativa para o que ela fizera. Tentava de todas as formas fazer com que de alguma forma ainda houvesse esperança para o amor deles, para que ainda houvesse uma chance.
— Pare de se iludir Robin. Ela não te ama. Ela te usou, te iludiu, e você caiu na conversa dela. Simples assim. – ele se viu repreendendo a si mesmo pela burrice em ter acreditado que ela realmente sentia algo por ele. Por ter acreditado que Regina largaria aquele casamento...que abandonaria tudo por ele.
Apesar da reprimenda, entretanto, ele não conseguia abandonar o lugar onde estava. Não conseguia se obrigar a se virar e ir embora, então simplesmente continuava onde estava, assistindo ao casamento da futura Rainha de detrás de uma pilastra.
O rei Leopoldo estava ali. Trajando vestes elegantes, porém com uma cara que seria mais apropriada para alguém que vai a um enterro e não ao casamento. Enquanto o observava, Robin não pode deixar de sentir uma ponta de inveja e ciúme. Aquele rei, com seus trajes suntuosos e sua coroa brilhante, iria se casar com a mulher que ele amava, enquanto ele próprio assistia, sem poder fazer nada para mudar o que acontecia.
As trombetas soaram, e a banda real começou a tocar a musica de entrada da noiva, a tradicional marcha nupcial. Todos se viraram para ela. Regina. Estava deslumbrante, absolutamente maravilhosa, e por um segundo fugaz, o loiro abriu um pequeno sorriso ao avista-la, seu coração acelerando de imediato.
Ele acompanhou os passos dela até o altar, desejando que fosse ele a recebe-la ali, e não o rei. Regina caminhou por entre os convidados enquanto os olhos de Robin continuavam fixos nela, mas seu sorriso não apareceu. Aquele sorriso que ele tanto amava, que parecia conter uma constelação inteira dentro dele de tanto que brilhava, não surgiu em nenhum momento. Ela conservou uma expressão seria e resoluta.
Quando a morena passou perto do pilar onde ele estava escondido, Robin sentiu um impulso maluco atravessa-lo. Teve vontade de agarra-la ali, no meio da igreja. Puxa-la para ele e leva-la embora. Dizer que a amava e que não iria desistir dela, mas não fez nada disso. Apenas continuou ali, vendo-a se afastar.
Não adiantava ter aquelas ideias mirabolantes. Ele a tinha perdido. Ela o mandara para fora de sua vida, e o melhor que ele poderia fazer era aceitar aquilo como um fato consumado.
A cerimonia decorreu como mandava o figurino. Palavras bonitas foram ditas pelo sacerdote que conduzia a cerimonia. Votos foram feitos. Alianças trocadas. Mas não houve beijo. Quando o rei se aproximara para beija-la, Regina abaixou a cabeça, e tudo que os lábios do monarca encontraram foi a testa dela.
Por um ou dois segundos, as esperanças ressurgiram na mente do loiro. O que aquela atitude significava? Porque Regina recusara o beijo de seu marido? Por um breve e feliz instante, Robin imaginou se aquela recusa teria algo haver com ele. Será que Regina o amava, e por isso recusava o carinho de outro homem?
Tão rápido quanto essas esperanças surgiram, elas foram esquecidas. Não, ele não tinha porque manter ilusões como aquela. Ela não o amava, nunca o amara para dizer a verdade, e fora extremamente clara quanto a isso. Ele só estava alimentando esperanças que em pouco tempo se traduziriam em mais sofrimento.
Os recém casados agora atravessavam o corredor em direção a porta de saída. Os braços dados, uma chuva de arroz caindo sobre suas cabeças. O loiro continuou a encara-los enquanto se afastavam. Quando já estavam quase na porta, Regina virou a cabeça para trás, como se procurando alguma coisa ou alguém, e seus olhos se encontraram.
Por uma fração de segundo, o azul e o castanho se perderam um no outro, como acontecia toda vez que se olhavam. Foi apenas por um momento, por uma fração de segundo, e então a morena virou pra frente e continuou seu caminho, como se nada acontecido.
Regina voltou a caminhar, mas Robin não conseguiu fazer o mesmo. Ele sentiu que as forças se esvaiam, e ele sentia como se um punhal tivesse atravessado seu coração. A dor era imensa, insuportável, sufocante, e no fim, acabou por derruba-lo ao chão.
Ele caiu, as costas encostadas na pilastra e a cabeça entre os joelhos. Seus olhos continuavam ardendo, vermelhos e irritados por conta do choro incessante. Então era isso. Sua história de amor com Regina tinha terminado pouco depois de ter começado, e não havia mais nada que ele pudesse fazer além de se contentar com as lembranças, com o vazio que a ausência dela causava.
Sim, ele deveria estar furioso. Devia sentir raiva. Mas simplesmente não conseguia. Tudo que ele sentia era tristeza e vazio. Era como se uma parte sua tivesse ido embora quando Regina saíra pela porta da igreja. Uma parte sua que ele receava que nunca mais poderia ter de volta.
Quanto temo ele ficou ali? Robin nunca soube precisar. Mesmo depois de muito tempo, aquele momento era algo que permanecia indistinto em sua mente. Poderiam ter se passado apenas poucos segundos, alguns minutos ou muitas horas. A verdade é que o tempo não importava mais. Nada importava na verdade. Tudo tinha mudado, e ele simplesmente não conseguia, não queria lidar com aquela mudança.
Dois meses depois....
A chuva caia forte lá fora. Raios e trovões cortavam o céu de forma impiedosa, como se estivessem com raiva de todos os seres humanos do mundo. E talvez realmente fosse esse o caso, afinal, ela estava com raiva, muita raiva.
Regina estava em seu quarto, deitada na cama e enfurecida por estar ali. As lágrimas rolavam por suas faces, de novo, e isso também a irritava. Ela não aguentava mais chorar. Não suportava mais sentir tanta dor. A tristeza e o vazio que se instalaram dentro dela aos poucos se transformavam em raiva.
Faziam dois meses. Dois meses que estava casada com aquele rei estupido. Dois meses que ela vivia uma vida vazia e cheia de luxo. A únicas coisas boas que aconteceram na sua vida durante aquele tempo foram as aulas de magia que estava tendo com Rumplestilskin e a descoberta de sua gravidez.
Sim, ela estava gravida, e tinha certeza que o bebê era de Robin. Era fruto de seu amor pelo ladrão, e era o único motivo pelo qual ela abria um de seus agora raros, sorrisos. Seu bebe era tudo que ela tinha agora, e era por ele que ela continuava de pé.
Apesar de ser motivo de alegria, aquela criança também trazia novas lágrimas para o rosto da mãe. Por mais que tivesse ficado feliz com aquela noticia, em saber que sua única noite com o homem que amava dera-lhe um filho, a morena também se ressentia.
Fazia dois meses que não via Robin. Nem mesmo sabia se ainda estava ali, ou se simplesmente tinha levantado acampamento e ido embora, acreditando que ela o havia usado, brincado com seus sentimentos. Ele não veria seu filho nascer. Nem mesmo saberia que era pai. Veria a criança como um herdeiro da Rainha que o enganara, e aquela constatação fazia com que Regina se sentisse ainda pior. Robin não teria chance de acompanhar o crescimento de seu filho, de ver seus primeiros passos, suas primeiras palavras...e isso a devastava, fazia com que ela sentisse ainda mais raiva.
Raiva de si mesma, por ter permitido que Robin fosse retirado de sua vida, por permitir que ele fosse embora, que se afastasse dela. Embora soubesse que havia tomado aquela atitude para salvar a vida do ladrão, ela não conseguia deixar de se ressentir. Tudo isso tinha acontecido porque ela desconfiara dele. Se tivesse simplesmente seguido o plano e ido encontra-lo na hora marcada, nada daquilo teria acontecido. Eles ainda estariam juntos, e seu filho teria a sorte de conhecer o pai. Mas não. Ela ficara cega pelo ciúme, e perdera um tempo precioso. O tempo que acabara por custar seu futuro ao lado do loiro.
Tudo que restava agora eram as lembranças. Lembranças dos momentos vividos, dos beijos trocados e das promessas que haviam sido feitas. A falta que sentia dele era extrema, quase física, e parecia só aumentar conforme o tempo passava. Com seus pensamentos nos oceanos azuis de Robin, Regina pousou uma das mãos em sua barriga e começou a falar, esperando que seu bebê pudesse ouvi-la.
— Eu sei que você ainda é muito pequenininho, mas quando você não estiver mais ai dentro, não poderei lhe contar essas coisas. Terei que fingir que seu pai é o rei, e eu sinto muito por isso. Então quero que você escute sobre seu pai verdadeiro. Quero que o conheça, embora muito provavelmente você não vá se lembrar de minhas palavras. Ele era uma pessoa incrível sabia? Conseguia ver o melhor nas pessoas...conseguiu ver o melhor em mim. Ele me reergueu quando eu estava no chão, me fez ver que eu ainda podia ser feliz. Você iria gostar de conhecê-lo, e tenho certeza que ele ficaria radiante em saber que você existe, mas infelizmente eu não posso contar. Eu...sinto muito a falta dele. – confidenciou, as palavras soando atropeladas por conta dos soluços que a acometiam.
Uma fumaça negra irrompeu pelo quarto, e Rumplestilskin apareceu diante da cama de Regina. O olhar do Senhor das Trevas se fixou nos olhos castanhos da morena, uma expressão que misturava preocupação e irritação brilhando em seus olhos.
— Por que ainda está ai, largada nessa cama? Você tem aula hoje mocinha, e se tem uma coisa que eu odeio é aluno displicente. Então trate de enxugar essas lágrimas e se levantar. Agora. – falou, esperando que suas palavras soassem suficientemente frias e distantes, mas que fossem suficientes para que Regina saísse daquela tristeza e apatia que a tomavam.
Há dois meses que o ritual era o mesmo. Quando ele chegava para apanha-la, ela não estava pronta como deveria. Estava lá, largada na cama e chorando de saudades do ladrão. Aquela atitude de alto piedade o irritava, não só porque detestava choros e lamentações, mas também por que sabia que parte daquilo era culpa sua. Ele contribuíra para torna-la infeliz, e por mais que tentasse fingir que não ligava, a verdade é que odiava vê-la daquele jeito.
Então ele continuava a insistir. Todas as manhãs fazia com que ela se levantasse e fosse aprender a controlar seus poderes. Ela estava aprendendo rápido, bem mais rápido do que ele imaginara. Bem mais rápido do que a outra aprendera. E isso era realmente surpreendente. Parecia que a raiva, a tristeza e a dor que ela sentia por tudo que acontecera se tornavam a força dela quando o assunto era aprimorar seus poderes e aprender a controla-los.
— Rumple eu não...- começou Regina, prestes a dizer que não estava se sentindo bem, que não queria praticar naquele dia. Mas não teve chance de completar a frase, sendo interrompida por seu mentor.
— Nada disso. Não aceito desculpas nem reclamações. Você quer ser a melhor não quer? Então tem que trabalhar pra isso. Agora deixa de moleza e levanta dai. – falou, agitando as mãos e fazendo com que as grossas cortinas do quarto se abrissem e as cobertas saíssem de cima da morena.
Vendo que nada do que ela dissesse iria fazer com que Rumple fosse embora, Regina se levantou da cama e começou a se preparar para o longo dia que tinha pela frente. Enquanto a morena se arrumava, seu professor esperava do lado de fora do quarto, à mente vagando sobre sua outra aprendiz, aquela que ele dispensara ainda naquela manhã.
Não fora uma conversa exatamente fácil, mas a verdade é que ele não se arrependia. Nem se importava realmente com o que aconteceria com Zelena. Regina era a melhor das duas, não havia dúvidas disso. E ele só queria treinar a melhor. O resto não interessava, não importava.
Flashback on
Rumplestilskin estava sentadona ponta da mesa que ficava em uma das muitas salas de sua casa, contando os minutos para que sua convidada chegasse. Queria ter aquela conversa de uma vez, e de preferencia sem muito drama. Ele simplesmente odiava drama. Não tinha paciência para ceninhas dramáticas, e tinha a impressão de que era exatamente isso que iria presenciar.
Um clarão verde irrompeu pela sala, e a figura de uma jovem alta e ruiva apareceu diante do Senhor das Trevas. A ruiva estava sorrido, parecia radiante por finalmente ter conseguido dominar o teletransporte, afinal ela passara quase um mês praticando.
— Finalmente consegui fazer isso direito! Desculpe pela demora Rumple, na primeira vez que tentei acabei parando do outro lado do reino. – falou Zelena, sem conseguir conter a empolgação de sua voz.
Ela estava tão animada com sua pequena conquista que demorou alguns segundos para perceber que havia algo de errado. Quando finalmente se deu conta disso, seu sorriso murchou, e ela voltou a falar, em um tom mais cauteloso desta vez. – O que foi? Porque está com essa cara de quem comeu maçã estragada?
— Você está dispensada de seu treinamento Zelena. Não é mais a minha aprendiz. – ele respondeu de supetão sem meias palavras, repentinamente interessado na reação que suas palavras causariam na ruiva. Como ele previra, ela não aceitou bem a noticia.
— O que?? Dispensada? Como assim? Você prometeu que me ensinaria tudo que sabe...o que aconteceu Rumplestilskin? Porque mudou de ideia assim, de repente? O que eu fiz de errado? – exclamou a ruiva, que enquanto falava se aproximou de onde o Senhor das Trevas estava, os olhos faiscando de raiva.
— Simples queridinha, você não é boa o bastante. Eu encontrei alguém melhor e não preciso mais de você. Agora suma daqui. Sua presença não é mais necessária. – foi a resposta dele, que parecia estar se divertindo em dar uma noticia como aquela a pobre criança.
— Encontrou alguém melhor? Impossível. Duvido que tenha encontrado alguém com um nível de magia igual ao meu. – explodiu Zelena, que não podia acreditar no que estava ouvindo. Ela não podia estar sendo abandonada pela segunda vez.
Primeiro fora sua mãe, que a deixara em um cesto na floresta quando ela ainda era um bebe, sem se importar com o que aconteceria com ela...e agora isso. Não. Ela não podia ser trocada de novo. Não ia permitir que Rumplestilskin a enxotasse daquela forma, ao menos não sem lutar. Ela iria mostrar pra ele que era a melhor, não importava o preço que tivesse que pagar para que isso acontecesse.
— Além de lenta no aprendizado você também é prepotente Zelena? É claro que eu poderia encontrar alguém melhor e mais poderoso que você, e foi justamente o que aconteceu. – Rumple destilou seu veneno, a risada histérica acompanhando cada uma de suas palavras.
Zelena não pensou direito no que estava fazendo. Apenas reagiu as palavras que ouvia. Queria apagar aquele sorrisinho prepotente da cara de Rumplestilskin. Queria mostrar para ele que era uma aluna melhor, que ele iria cometer um erro se a trocasse por qualquer outra pessoa. Lágrimas encheram seus olhos, mas ela lutou para que elas não rolassem. Chamas verdes incandescentes surgiram em ambas as suas mãos, mas ela não sentiu nada além de energia e poder fluindo por suas mãos. Uma lágrima solitária rolou por sua bochecha, e ela lançou as chamas na direção de seu mestre, com toda a força e fúria que conseguiu reunir.
Diferente do que ela esperava, no entanto, aquela explosão de poder, as maiores chamas que ela tinha conseguido produzir desde que começara a treinar, não provocaram nenhuma reação do Senhor das Trevas, que apenas riu da reação que suas palavras haviam causado, apagando as chamas da ruiva com apenas um estalar de dedos.
— Vai ter que fazer bem melhor que isso se quiser me enfrentar Zelena. Não chegou nem perto do que eu esperava de você. Só provou que fiz a escolha certa. Regina é muito mais forte que você. Ou não, talvez vocês tenham a mesma quantidade de poder, a questão é que o poder parece fluir melhor com ela. Talvez porque ela se concentre mais do que você quando está praticando. – o tom de Rumple era frio e desdenhoso. Ele estava se divertindo em provocar Zelena, mas aquela conversa já estava começando a cansa-lo. Além do mais, ele ainda tinha muito o que fazer além de ficar escutando as lamurias da filha mais velha de Cora.
— Regina? Então esse é o nome da vagabunda que você quer colocar no meu lugar? – Zelena não conteve suas palavras. Seu tom de voz aumentando a cada palavra que ela dizia, até que no final da frase ela já estava gritando.
O modo como a jovem ruiva falara com ele, e as palavras que ela usara, acabaram por findar a paciência de Rumple. Ele havia se divertido em jogar na cara de Zelena que ela não servia mais para ser sua aprendiz, mas estava na hora de acabar com aquele escândalo patético.
Sem levantar da cadeira na qual estava sentado, ele ergueu a mão direita na direção da ruiva, levantando-a do chão e exercendo uma forte pressão em sua garganta. – Se eu fosse você, tomava cuidado com o que diz queridinha. As palavras pode acabar sendo a sua ruina sabia? – falou calmamente, enquanto observava Zelena se contorcer, tentado inutilmente se livrar de seu aperto.
Passaram-se um ou dois segundos, que para a ruiva pareceram uma dolorosa eternidade, e enfim Rumplestilskin abaixou a mão, soltando a garganta de sua antiga aprendiz e largando-a no chão, arfando enquanto tentava desesperadamente puxar o ar para os seus pulmões.
— Agora, queridinha, faça um favor a nós dois e suma daqui. – continuou o Senhor das Trevas, que sem esperar uma resposta, girou a mão e fez com que a ruiva desaparecesse dali, mandando-a de volta para o buraco que era Oz, de onde ela nunca deveria ter saído.
Flashback off
Os devaneios do Senhor das Trevas foram interrompidos por uma voz muito conhecida que o chamava, uma voz que, pelo tom que estava usando, não estava nem um pouco feliz em vê-lo novamente.
— O que está fazendo aqui Rumplestilskin? – perguntou Cora, sem conseguir esconder o desagrado que sentia em ver aquele homem ali, parado em frente a porta do quarto de sua filha.
— Bom dia pra você também, Cora querida. E respondendo a sua pergunta, estou esperando minha aluna terminar de se arrumar. Ela está um pouco atrasada hoje. – respondeu o outro, virando-se para encarar a mulher ruiva que caminhava a passo largos até onde ele estava.
— Você ainda continua com essa ideia estupida de ensinar Regina a controlar os poderes dela? – questionou Cora, deixando claro o quanto desaprovava o fato de sua filha estar tendo aulas com ele.
— E quem disse que é uma ideia estúpida? Fique sabendo que ela está se saindo muito bem. E muito em breve, estará melhor que você. – foi à resposta de Rumple, que assim como Cora, não poupou o rancor e o desprezo em suas palavras.
— Você não vai dar mais aula nenhuma para a minha filha, Rumplestilskin! – gritou a ruiva, enfurecida com as provocações que estava sendo obrigada a aguentar. Quem aquele ser monstruoso pensava que era? Ele achava mesmo que ela iria permitir que ele continuasse a influenciar Regina e ficar de boca calada?
— Você deveria tomar mais cuidado com o que diz sabia? Nós dois sabemos que ela não é apenas sua filha, como grita aos quatro ventos. Qualquer dia desses a noticia sobre a paternidade dela pode acabar se espalhando sabia? – sibilou o homem, em um tom de voz baixo e perigoso, que deixava de lado a atmosfera de risada e brincadeira de suas falas anteriores.
— Rumple, eu já estou....- Regina parou a frase no meio, os olhos fixos na figura de sua mãe. Elas não se falavam desde o dia em que Cora ameaçara a vida de Robin, e se dependesse de Regina, iriam continuar assim. – Vamos embora. – falou a morena por fim, ignorando a presença da mãe.
— Regina, por favor, filha, você não sabe o buraco em que está se metendo andando com um tipo como esse dai. – exclamou a mais velha, claramente rescentida pelo tratamento que recebera.
— Eu não posso ser pior para ela do que você foi, Cora querida. Não se iluda. – foi o Senhor das Trevas quem respondeu, logo em seguida seguindo a morena que já começara a se afastar.
Enquanto mestre e aprendiz se afastavam, Cora continuou exatamente onde estava, perdida em seus pensamentos. Ela não estava gostando nada de ver a aproximação de seu antigo amor com sua filha, e prometeu a si mesma que daria um jeito de acabar com aquilo, não importava o preço que tivesse que pagar.
Os devaneios da ruiva foram interrompidos apenas alguns segundos depois, com a voz de Henry chegando os seus ouvidos e fazendo com que ela se sobressaltasse. – Isso é verdade? – perguntou simplesmente, sem alterar o tom de voz.
Ele havia escutado toda a conversa de Cora com Rumplestilskin, incluindo a parte na qual o assunto fora a paternidade de Regina. Claro que ele não tivera a intenção, estava apenas passando pelo local e acabara entreouvindo as palavras que eram ditas no corredor. Diante do que escutara, no entanto, ele tinha que saber a verdade.
Regina era tudo que lhe restava na vida. Sua princesinha, seu tesouro mais precioso, e ouvir que ela poderia não ser sua filha biológica o fez sentir uma dor profunda e esmagadora. É claro que ele sabia que Cora nunca chegara a ama-lo, que seu casamento se baseara única e exclusivamente no interesse, mas ele sempre acreditara que algo bom havia frutificado disso. Sempre acreditara que seu casamento servira ao menos para que sua amada filha existisse. Mas agora, ao ouvir aquela afirmação do Senhor das Trevas, até mesmo sua maior certeza estava se desmanchando em um punhado de areia.
— O que é que é verdade Henry? – Cora devolveu a pergunta em um tom cortante e um tanto grosseiro, que escondia o nervosismo que se abatera sobre ela ao constatar que seu marido ouvira a discussão com Rumplestilskin.
— Regina. Ela não é minha filha, é? Você me enganou todos esses anos não foi? Me fez acreditar que ela fosse minha filha, quando na verdade é fruto de seu amor proibido com aquele ser asqueroso do Senhor das Trevas. – o príncipe cuspiu as palavras, sentindo a dor em seu peito aumentar a cada instante. Ele não deixaria de amar Regina por ela não ser sua filha biológica, pelo contrario. Sempre iria ama-la e protege-la. Mas tinha que saber a verdade. Mais do que em si mesmo, ele pensava em sua pobre menina. Ela merecia saber a verdade, conhecer suas origens, mesmo que elas fossem tão podres quanto à foças da cidade.
— Você quer mesmo saber? – explodiu a ruiva, descontando no marido bonzinho e sem ambições toda a raiva e as frustrações que vinham se acumulando nela nos últimos tempos. – Não, ela não é sua filha. Nem um filho você foi capaz de ter por si mesmo, e acabou criando a filha de outro. Está feliz agora? Em perceber que foi feito de trouxa todos estes anos?
— Estou. E sabe por quê? Porque tive a chance de criar uma menina maravilhosa. De dar a Regina o amor que ela não teria se tivesse estado apenas com você ou seu...amante. E também porque minha filha irá saber de toda a verdade. Não deixarei que você continue a engana-la Cora. Por mais que ela não seja do meu sangue, continua sendo minha filha, e vou fazer de tudo para protegê-la do monstro que é a sua própria mãe. – respondeu Henry, finalmente liberando as lágrimas que insistiam em turvar sua visão.
Com aquelas palavras, ele se virou na direção contraria a que sua esposa se encontrava, desejando afastar-se dela o mais rápido que pudesse. Simplesmente não aguentava mais olhar aqueles olhos frios ou lidar com a personalidade desumana de Cora. Precisava se afastar dela, e de toda a sujeira e a lama que ela trazia por onde quer que passasse.
Os segundos se passaram e Cora continuou ali, pregada no chão, as palavras de Henry ecoando em sua mente. “Minha filha irá saber de toda a verdade. Não deixarei que você continue a engana-la”. Ele iria contar tudo. Iria estragar tudo. Faria com que Regina a odiasse ainda mais. Henry iria estragar todos os seus planos. E tudo isso para proteger a amada filhinha.
Cora não pensou no que estava fazendo. Ou talvez tenha pensado, e não se importou com as possíveis consequências do que estava prestes a fazer. Simplesmente agiu, movida pelo desejo de fazer com que Henry não falasse nada, não desse nem mais um passo.
Em um segundo sua mão se ergueu e os pés de Henry saíram do chão. Ele tentou lutar. Se contorceu e se debateu, as mãos na garganta, tentando de todas as formas retirar a pressão que sofria, tentando desesperadamente voltar a respirar. Foram necessários poucos segundos. Apenas alguns movimentos de ponteiro do relógio, e o movimento cessou tão rápido quanto havia iniciado.
Cora o largou no chão, seu corpo produzindo um baque surdo e opaco quando bateu de encontro ao piso de mármore. O sangue vermelho manchou a alvura do chão, espalhando-se rapidamente ao redor do corpo inerte de um príncipe, que tinha em seu coração mais majestade do que qualquer titulo poderia dar a alguém.
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